A Única Cor
5 Ato 1 - O Caminho da Cor 2
A pequena estrada de terra monocromática que corta a grande campina de Vila Cinza não estava nos seus melhores dias, parte disso devido às numerosas chuvas de estação que precedem à época de colheitas, devido aos plantios da região, a pobre estrada acaba sendo muito castigada pelos cavalos e as carroças que trazem carroças cheias de sacos pesados, os buracos formados tornam-se então perigosas armadilhas para as montarias dos viajantes e as lamas, traiçoeiras inimigas, a única forma de passar sem correr riscos é de maneira lenta e suave e dessa forma eles cavalgam, seguem seu destino por aquele caminho que parece não ter fim.
—Dona... Onde estamos agora? Está chovendo muito, não podemos parar?
Ela olhou para ele sem expressar-se muito, apenas uma levantada de sobrancelha, um sutil movimento com o pescoço para ajeitar os seus cabelos na lateral do ombro, posteriormente olhou para ambos os lados tanto a direta como a esquerda, murmurou algo que o garoto não pode ouvir e então perguntou a ele.
—Vê algum lugar onde possamos parar agora?
Confuso e envergonhado Allie procurou ao redor e viu apenas as folhas restantes da colheita, grama e algumas arvores retorcidas e feias, chegou a conclusão que realmente não havia nada, sequer um lugar para abrigar-se da chuva, dando por vencido abaixou sua cabeça e segurou com mais força nas rédeas do ponei, sentiu os seus dedos cansados deslizarem pela superfície áspera da corda gerando leves vermelhôes em sua pele tão sensível quanto o cinza esbranquiçado que cobre o seu corpo todo. Curiosamente, talvez seja sorte ou a misericórdia de um deus, a chuva parou de cair sobre sua cabeça, pensou então, "como isso é possível?" Olhou para cima e vislumbrou um belo céu vermelho, nunca havia o visto antes, a sua boca se abriu e ele contemplou um emaranhado de fios rubros, entrelaçados e tecidos magicamente pelos dedos dos deuses, todos saindo de um único lugar, ligados a circunferência no centro. O ápice daquele tornado colorido.
—Melhor assim pequeno?
Johanna abaixou seu rosto, ela esboça aquele delicado sorriso avermelhado e com o seu braço estendido segura o guarda chuva sobre a cabeça dos dois, ela cavalga lado a lado com ele, cuidando e protegendo o garoto.
—Sim!— Allie sorri como um jovem deve sorrir, não há malícia, muito menos o interesse dos adultos nele ainda e isso a deixou contente, muito contente. Talvez tenha sido a escolha certa traze-lo consigo, aquilo mudaria muita coisa... Salvou a sua vida e aquela é a sua última esperança.
—Hanna, quer dizer, Dona...
—Pode me chamar assim!—Falou de imediato.—Na verdade eu preciso confessar-lhe algo, é estranho ser chamada de Dona toda hora. Eu nem me casei ainda.
—Então... Hanna, tem algumas pessoas lá na frente, parecem estar em uma cabana.
Isso com certeza é a última coisa que imaginaria Allie falando, seus olhos se prenderam no horizonte, ficaram aguçados como aos de uma água caçando uma presa na estrada. — Eu Não estou vendo nada Allie, tem certeza que há algo lá na frente?
—Sim.— Ele tornou a repetir e agora com mais convicção que antes —Agora posso ver melhor, dois homens e uma mulher, um deles já de idade e estão próximos de um fogo.
—Mas o que...— Johanna estava prestes a falar um palavrão quando se lembrou estar na companhia do menino.
Do que ele está falando? Não consigo ver ninguém a frente, será que o garoto ficou louco com tanta água nos lombos? Durante os próximos três minutos ela ficou em silencio profundo, aguçou mais sua visão e agora a sua audição, tudo à sua frente com exceção da estrada ficou desfocado e quando ficou concentrada em enxergar apenas o que poderia haver lá no horizonte, se é que havia algo, eis que surgiu algo na beira da estrada. Uma pequena e abandonada casa de madeira com telhado de barro, embora imperceptível, uma pequena fumaça sobe do telhado e se dispersa na chuva, "instalaram-se ali apenas há algumas horas", pensou, "se o que Allie disse for verdade, não passava de uma família se abrigando da chuva."
—Hanna, eu disse que havia gente.
—Você disse... Impressionante, muito impressionante...
Apesar do grande feito do pequeno preferiu ficar quieta, qualquer coisa que falasse ele não entenderia mesmo, talvez se o levasse até aquela pessoa... Ele é meio rude e seus princípios não são dos melhores, mas sabia que antes de ir à capital deveria procurar essaa pessoa em especial e apresenta-lo ao garoto, porém por hora, preferiu parar e dividir aquela casa com aquelas pessoas ainda estranhas. Aproximou sua égua de uma cobertura caindo aos pedaços, um lugar onde outro cavalo estava amarrado bebendo um pouco de em um velho balde de madeira que a chuva encheu.
—Pobrezinho, está com frio?
Pegou de sua bolsa uma de suas balas e estendeu a mão na frente dos olhos do animal, o cavalo feliz e sem se importar lambeu toda a mão dela pegando o doce junto.
—Gracinha. – Ela riu e fez o mesmo com sua égua e o pônei do menino.
—Allie, atrás de mim certo?
Achegou-se até a porta e bateu.
Toc – Toc – Toc
Silêncio se estendeu.
—Quem é?— Escutou voz grossa de um homem velho, reconheceu pelo tom de sua voz.
—Uma viajante e seu filho, quero apenas esperar passar a chuva e seguir o meu caminho.
Os dois olhos irritadiços do homem apareceram em uma fresta na porta, fresta esta que parece ter sido feita por um machado de nativos, tribos que foram expulsas de sua terra com o advento da modernização das lavouras, e as invasões cada vez mais frequentes das criaturas escuras, ao ver a moça o velho quase tombou para trás, do lado de fora Johanna e Allie conseguiam escutar toda a conversa deles, embora resumisse-se apenas em ser uma nobre e seu filho...
Blá. Blá. Blá.
Ele abriu a porta com dificuldade, raspando-a no chão de madeira úmida, enrugada de tanto absorver a água das chuvas.
—Obrigada por nos acolher.
Ela entrou na casa seguida do menino. Johanna observou eles sem deixar ser notada, olhares sutis, sorrisos falsos, tudo para que pudesse parecer normal, por fim chegou a conclusão que eram todos pessoas simples.
—Meu nome é Margareth e esse é o meu filho Liz.
O senhor que logo se mostrou ser o patriarca deles tomou iniciativa e foi a frente da mulher.
—Eu sou Obrehaim e esses são meus dois filhos, Adam e Vina, estávamos indo até a próxima vila para comprar coisas para a nossa casa, mas a chuva começou a aumentar muito rápido, logo ficamos atolados e sem ter para onde ir, não conseguimos mais andar e foi sorte encontrar essa cabana.
O senhor fala a verdade, os pés de ambos estavam sujos de lama, cabelos semi-secos, fogo raso na lareira e sinais de estresse físico no corpo. Estariam seguros com eles por enquanto.
—Eu e meu filho voltamos de um velório de alguém muito querido.
—Meus pesares dona... Fiquem a vontade.
Johanna virou para o “filho” e acariciou os seus cabelos molhados.—Vá sentar perto do fogo, estamos bem.
O fogo parecia ser a única coisa bela e viva naquele ambiente, mesmo sendo tão pequeno, as suas línguas vermelhas e alaranjadas sobem e descem, dançam lentamente, apenas esperando uma chance para poder se espalhar e tomar conta de toda aquela casa, nunca brinque com fogo, era o que o seu pai sempre lhe dizia, e desde pequena ela aprendeu a nunca acreditar nas aparências das coisas, por isso agora, mesmo sentada e relaxada, não sai de perto de seu guarda-chuvas. Todos se mantinham em silencio lá dentro, o filho do homem, que é o mais novo dos irmãos trouxe uma madeira, um pedaço de uma mesa velha que agora é usado como lenha para aumentar o fogo.
—Posso?— Ela o interrompeu antes de colocar ao monte de cinzas.
—Claro...
Johanna pegou a lenha em suas mãos e a levantou, seus olhos piscaram e por um segundo ficaram vermelhos, a ponta da tábua se incendiou de maneira que suas chamas possuem o dobro de tamanho daquela simples fogueirinha, ela então jogou a tábua ao monte, labaredas ergueram-se por meio metro de altura e aqueceram ainda mais a casa.
Não é de se espantar que os outros na casa ficaram surpresos e boquiabertos, nem tanto o pequeno Allie que já havia visto aquela cena antes, talvez não da mesma maneira que eles, com certeza a imagem da sua tia e de todo aquele sangue sendo espalhado ficarão em sua mente por muito tempo.
—Dona, a senhora é uma nobre né?— Perguntou a filha.
—Uma nobre?— Ela riu.—O que a faz pensar isso?
—Você é linda de doer os olhos, também entrou com as roupas secas e consegue manipular as chamas vermelhas.
—Você é muito perspicaz garota, talvez eu seja, mas agora sou como vocês, uma abrigada aqui, apenas esperando a chuva passar.
—Incrível... Uma vez eu vi um homem vermelho, mas ele não era assim... Parecia assustador como...
—Um sugador de sangue? — Falou o irmão em tom brincalhão.
—Os sugadores de sangue embora todos acreditem ser apenas uma lenda, foram reais. Tudo começou com o desejo imbecil de um humano em querer obter e canalizar toda a cor vermelha.
—Então você conhece a história?— O senhor perguntou. —Minha esposa sumiu uma noite, muito tempo atrás, eu sempre soube que eles eram reais.
—Não posso dizer se foi isso, existem muitos perigos nas florestas, eu estou apenas relatando que...
—Conta para a gente?— Perguntou a garota.
—Conta!— Insistiu Allie olhando para ela...
—Ahh... Tudo bem. Acho que eu posso contar uma história para vocês até a chuva passar.
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