A Última Carta - A Seleção
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Permaneça acordado
Maxon e eu estamos sentados em um dos bancos que ficam no jardim, de frente para as flores que Carter acabara de tratar. Ele segura uma paleta de cores nas mãos e olha para ela como se fosse algo de outro mundo, volta e meia seu rosto inclina-se para o lado e uma de suas sobrancelhas se erguia. Mordo o lábio inferior enquanto o observo discretamente com o canto do olho.
Algum tempo depois ouço seu suspiro frustrado e me viro para ele.
—Já escolheu as suas cores prediletas para o casamento? — Pergunto com um sorrisinho zombeteiro nos lábios. Maxon escora as costas no encosto do banco e fecha os olhos por alguns segundos.
—Na verdade, nem sabia que existiam tantas cores assim. — Confessa de um jeito que achei engraçado. Seus olhos me encaram de repente, brilhando de expectativa. -E por aí? Já sabe quais as flores que vai querer?
—Estava esperando você escolher as cores da decoração e depois iria decidir sobre as flores. — Respondo enquanto viro uma página da revista de paisagismo que segurava. Maxon escorregou mais para o meu lado e espichou o olho para papel.
—Essa flor aí é bem bonitinha. — Diz ele ao apontar para uma flor roxa. Faço uma careta antes de fitá-lo com incredulidade.
—Você não quer ter roxo no casamento, por favor, Maxon.
Ele dá risada.
—E por que não?
—Não gosto de roxo, e não combina com casamento. Vamos ser discretos. — Murmuro em um tom que sugeria que eu sabia do que estava falando, o que, de fato, não é exatamente verdade.
—Tudo bem. — Responde com uma expressão divertida.
Nós observamos por mais algum tempinho as opções que estão ali.
—Gostou de alguma coisa dessa página? — Pergunto pra ele.
—Não, vamos pra próxima. — Murmura, e passo para a outra página. Antes mesmo que eu pudesse me concentrar e analisar se alguma ficaria bem para o casamento, Maxon soou animado em meus ouvidos.
—Essa aí, America. Ficará perfeita!
Arqueio as sobrancelhas.
—Qual? — Questiono curiosa, meus olhos correndo para todas as fotos dali.
—Aquela que parece com você. — Diz com doçura, mas também com um certo ar provocativo.
Bufo.
—Agora sim quero saber de qual você está falando! — Afirmo, voltando meu corpo inteiro pro dele, sentindo o seu cheiro de colônia amadeirada e fresco.
Maxon pega a revista de minha mão e finge observar a foto com mais afinco. Cruzo os braços e espero ele terminar com a palhaçada, enquanto que um sorriso brotava sem conssentimento no meu rosto.
—Esta, a rosinha. — Diz, olhando para o meu rosto. Inclino minha cabeça para a frente.
—É bonita e delicada, mas tem espinhos. — Digo.
—Por isso mesmo, acho que você é assim também.
Fico em silêncio por alguns segundos.
—Você acha que tenho espinhos?
—Se você fosse uma flor de verdade, provavelmente teria. — Responde enquanto seu olhar vagava para o meu rosto e eu sinto um aperto no estomago.
—O que quer dizer com isso? — Pergunto realmente intrigada.
—America, você é a garota mais dificil que eu já conheci, isso que já tive contato com várias mulheres na minha vida. Tanto no profissional, quanto no pessoal.
Penso sobre suas palavras e deixo uma mecha de cabelo atrás da orelha. Meu rosto está baixo, e finjo examinar outras possibilidades.
—Bom, acho que pode ser essa que você escolheu, mas temos que fazer algo a respeito dos espinhos. — Falo, tentando mudar de assunto e fitando-o de soslaio.
Maxon está com ar de riso.
—Não tem problema, se for necessário eu mesmo arranco os espinhos. Um por um.
No horário da tarde, insisti que Maxon fosse comigo para a loja que Amberly me recomendara. Eu precisava de um amigo para me ajudar a escolher o vestido de noiva. A vendedora foi muito simpática, me trouxe diversas possibilidades de vestidos e então rumei para o provador enquanto Maxon sentou-se em dos sofás e esperava que eu me vestisse e mostrasse para ele como ficou.
Saio do provador com um vestido branco-bege, com muito tule e de mangas compridas e uma gola. Era bonito, mas não tinha certeza se eu realmente o queria.
Ele estava com um jornal na mão quando entrei e assim que notou minha presença o largou em cima de uma mesa. Seus olhos foram de baixo para cima e então abriu um sorriso entediado.
—Bonito. — Murmura.
Reviro os olhos.
—Você falou isso de todos os outros que mostrei!
Maxon ergue os ombros e crava um dos cotovelo no braço do sofá.
—Te falei que eu não era uma boa ideia pra essa coisa de escolher vestido. — Se defende ele.
—Tá. — Falo em tom levemente mal humorado.
—Ok, America. Esse vestido é bonito, mas não combina com você. — Um suspiro e um sorriso de lado. — Satisfeita?
Abro um sorriso largo e jogo meus cabelos para trás.
—Agora sim você está pegando o jeito da coisa. — E pisco, recebendo um balançar de cabeça e uma risada como resposta.
Acho que no total vesti uns...sei lá, 30 vestidos. Em um dos momentos em que fora ver Maxon, acabei vendo-o bocejar. Mesmo assim, estava dizendo com sinceridade o que achava e eu me senti grata por isso. Coloquei um vestido que se assemelhava muito com um de princesa. A saia é cheia e ia até o chão, com renda que o envolvia completamente, a barra da saia era bordada com pequenas bolinhas que pareciam pérolas...talvez até fossem pérolas de verdade, mas eu não tinha certeza. É tomara que caia e completamente colado ao corpo da saia para cima, acho que se eu o escolhesse nem precisaria pedir para a costureira ajustar.
Ajeito os cabelos em um coque frouxo e saio mais uma vez do provador, me deparando com um Maxon que me analisava de tal forma que me deixou constrangida.
—Encantadora, você será a noiva mais linda de todo o mundo. — Murmura sério, olhando para o meu rosto.
Dou uma risada nervosa.
—Você é exagerado, mas...confesso que também gostei desse. — Falo eu enquanto deslizava as mãos pelo o vestido com um sorriso estampado no meu rosto. Até os preparativos do casamento começarem para valer, não havia me dado conta de que no fundo, eu sempre sonhei com esse momento. Flores, vestidos, alianças.
—Charlotte? — Chamou Maxon, sorrindo também agora. Uma moça miúda, a mesma que teve paciência para trazer tantos vestidos para mim, sorriu e acenou com a cabeça. — Reserve essa, America ficou perfeita com ele.
Alguns minutos mais tarde, estávamos sentados um ao lado do outro no banco dianteiro de seu carro. Pouco a pouco eu começava a me animar com a ideia, e Maxon deixava tudo mais interessante, ele seria o par ideial de qualquer mulher.
—America, vou te fazer um convite e você está proibida de recusar.
Viro meu rosto para o dele, mas seus olhos estão fixos na estrada diante de nós.
—Já que não tenho escolha. — Murmuro com um sorrisinho nos lábios.
Maxon ri um pouco.
—Jantar comigo hoje. Na mansão mesmo. Às 21:00.
—Estarei pronta.
—E eu também. — Responde ao desviar os olhos por um breve momento para mim.
Pouco antes das nove horas, me dirigi até a sala de jantar. Lucy apareceu com um sorriso radiante no rosto e falou:
—O senhor Maxon está a aguardando. — Murmura de um jeito cúmplice.
—Ah, sim...obrigada.
Lentamente e com a sensação de que borboletas habitavam dentro de mim, entrei em seu campo de visão. Maxon está tão bonito, com aquela camisa branca e uma calça jeans skinny. Amava quando o via de calça jeans.
—Você está um gato. Miau. — Murmuro assim que ficamos próximos um do outro. Maxon solta uma gargalhada.
—Miau? — Repete com as sobrancelhas erguidas.
—Às vezes faço uso de trocadilhos. — Brinco ao mostrar a língua.
—Entendo. — Responde com um sorriso brincalhão.
Como quando estávamos no restaurante em Miami, Maxon puxou a cadeira para que eu me sentasse e ficamos um de frente para o outro.
—Mary Louise me contou que caprichou no jantar hoje. — Diz ele ao estender o guardanapo em seu colo.
—Não me faça criar expectativas, hein.
1 ou 2 minutos depois Mariana, séria como da última vez que a vira, entrou na sala de mansinho e depositou na mesa alguns pratos e uma garrafa de vinho caríssima. Maxon agradece e ela abre um sorriso pequeno.
—Gosta de vinho? — Indaga ele enquanto levantavam-se um pouco da cadeira e pega minha taça sem antes esperar respostas.
—Bastante.
—Imaginei.
—Aé? E por quê?
Ele acaba de se servir e senta-se novamente, esfregando uma mão na outra de forma breve.
—Apenas imaginei, às vezes a gente chuta e acerta, não é mesmo?
Dou de ombros.
—É, talvez. Mas me diga uma coisa, sobre o assunto de eu ser dificil e tal...me explique isso por gentileza. — Peço, evitando olhar em seus olhos propositalmente.
—Nada demais, é como se você tivesse dois lados...fazendo uso da analogia da flor, um com pétalas delicadas e frágeis e outro que machuca caso queiram te ver bem de perto, ou que evita mostrar o que realmente sente.
—Está dizendo que eu estou sempre na defensiva? — Retruco ao cruzar os braços e semicerrar os olhos.
Maxon acha graça da minha reação e em seguida me dou conta de que...é verdade. Rapidamente solto os braços e tento relaxar o meu corpo.
—Ok, ok, acho que você tem um pouquinho de razão. — Admito.
—Um pouquinho? — Provoca com um sorriso lindo no rosto.
—Não força, Maxon. — Falo com uma risada e ele me acompanha. -Sabe, tenho uma duvida.
Sua postura ficou cautelosa de repente.
—Diga.
—Tipo, ter uma mulher virgem para se casar é fetiche ou o quê? — Pergunto curiosa de verdade. Maxon dá uma de suas risadas engraçadas e eu acabei abrindo um sorriso mesmo a pergunta tendo sido séria.
Antes de me responder, ele toma um gole de seu vinho e solta um suspiro não identificável.
—Não, não. Seu pai quis te proteger de todas as formas possíveis, e essa foi a forma que ele encontrou de garantir que você não saísse lesada desse acordo.
Por um instante senti pena do meu pai. Algum tempo atrás, quando ele disse que eu estava fazendo tempestade em copo d'água, era verdade. Acho que eu perdi quase 6 anos de convivência pacífica com meu ele, mas também não posso negar que fiquei magoada por ter tomado essa escolha sem me perguntar primeiro. Mas, no fim das contas, ele fez e faz de tudo para o bem de May e o meu também.
—Ah, agora começa a fazer sentido.
—Sério America, você deveria ter lido o contrato. — Diz em tom reprovativo, mas logo sua expressão se suavizou.
—E você? — Limpo a garaganta. — Sabe, você também precisa?
Ele pensa um pouco antes de me responder.
—Na verdade, seria inútil. É quase impossível saber se um homem é virgem ou não. — Diz ele, sem em nenhum momento tirar os olhos dos meus.
Franzo as sobrancelhas. Poxa, que injusto.
Os pratos já vieram servidos, então comememos em silêncio agradável e comodo por alguns minutos. Caso quisessemos mais uma servida ou sobremesa, elas estavam dispostas em cima da mesa.
—Maxon? — Chamo ele de repente. Eu queria continuar escutando a sua voz. Assim não ficaria pensando nos problemas emocionais em que estava passando nesses últimos dias.
—America. — E sorri.
Mordo o lábio inferior e Maxon se inclina sobre a mesa, ficando mais perto de mim.
—Você é meu amigo e eu queria saber de uma coisa. — Começo, ele me olha atento. — Qual o seu maior sonho? — Invento na hora, sentindo minhas bochechas levemente coradas. Nossa, que pergunta idiota!
Porém, Maxon não pareceu achar achar a pergunta tão rídicula assim. Ele pondera e então sorri.
—Um amor que me consoma por inteiro.
Não consido evitar que minha expressão ficasse surpresa.
—Sério?
—Sim.
Sinto um arrepio varrer minha espinha.
—Você já se apaixonou...assim? Você já teve alguma vez um amor que te consumisse? — Meus olhos estavam baixos e por algum motivo temi a resposta que ele daria.
—Em um momento da minha vida pensei que sim. Mas agora percebo que estava errado. — Responde antes de dar mais uma colherada em sua comida. Permaneço em silêncio por um breve instante, então ele me pergunta. — E você?
Engulo em seco.
—E-eu...eu não sei. — Falo com a voz baixa e doeu um pouco saber que minhas palavras eram verdadeiras.
—Quer falar sobre isso? — Pergunta, parecendo meio afetado.
—Na verdade, não. — Respondi com um suspiro.
—Tudo bem, confio em você.
—Não confie. — Solto de supetão e me arrependo de imediato, finalmente encaro seus olhos e suas feições ficam chocadas, mas logo depois ficam sérias e graves.
—Eu confio.
—Por quê? — Indago soando um pouco exaltada.
Maxon dá de ombros e seu olhar torna-se vago.
—Não sei dizer.
Não tocamos mais em assuntos delicados durante o restante do jantar, apenas saboreamos a deliciosa comida da cozinheira e fizemos comentários insignificantes. Quando já estávamos satisfeitos, ele me propos uma volta pelo o jardim e eu aceitei, mesmo estando sentindo meus músculos rijos e, surpreendentemente, cansados.
À noite aquele lugar fica incrível, as luzes do pátio iluminavam as plantas e flores dando um ar quase mágico.
—Você quer dar uma volta? Lá fora? — Questiona ele assim que chegamos no mesmo ponto em que "fugimos" da outra vez. Não resisto a abro um sorriso desafiador.
—O quê? Você me propondo sairmos escondidos? — Finjo uma cara chocada e ele quase ri.
—Sou um bad boy agora. — Diz me lançando uma piscadela.
Inclino a cabeça para o lado e reviro os olhos.
—Menos, Maxon. — Retruco ao pousar uma mão em seu braço.
Ele arqueia uma de suas sobrancelhas.
—Vamos? Ou está com medo de ser pega?
Bufo alto.
—Sou considerada a Senhora Encrenca na minha família, acho que posso lidar com isso novamente.
Quando estávamos já no outro lado do muro agradeci mentalmente por ter escolhido um macacão jeans para jantar. Maxon, mais uma vez, não teve dificuldade alguma em fazer esforço físico.
Enquanto nossos sapatos faziam um "chack chack" alto por conta das folhas secas espalhadas pelo o chão, eu mantinha um sorriso muito idiota no rosto e não conseguia fazer ele desaparecer.
—America, você gosta realmente de mim como disse aquela vez? — Pergunta de repente e eu paraliso. Meu rosto torna-se tão vermelho quanto os meus cabelos.
—Que vez? — Indago, mesmo sabendo a resposta.
—No hotel, em Miami.
Evito olhar para o seu rosto.
—Pensei que estivesse dormindo. — Pigarreio, minha voz soou baixa demais, quase um sussurro.
—Eu estava em um meio termo, não sabia se havia sonhado ou se você realmente tinha dito aquilo. Agora já sei a resposta.
—Ah. — Foi o que respondi, minha cabeça está baixa. Sério, tenho que parar de responder "ah" quando não tenho nada de útil para dizer.
Maxon ergue o meu rosto e me puxa pela a cintura, seu olhos estão brilhando de emoção e não demorou muito para que ele colasse nossos corpos e sua respiração quente soprasse em meu pescoço quando ele inclinou-se para baixo.
—Também gosto de você. — Sussurrou em meu ouvido, fazendo com que minhas pernas ficassem bambas. Abro levemente os lábios, eu queria que ele me beijasse. Queria mesmo. Talvez eu estivesse desejando aquilo há um tempão. Talvez me arrependesse depois, mas eu queria ele.
Nossos lábios tocam um no outro, em um beijo com tanto sentimento que cheguei a me surpreender. Apertei Maxon contra mim, mas, sem mais e nem menos, ele parou. Seu corpo ficou parado e de repente ele lança o seu corpo para cima do meu. Num primeiro momento fico assutada e confusa, mas então abro os olhos e vejo seu rosto tão pálido quanto gelo. No segundo seguinte, ele cai aos meus pés.
Fico paralisada, meu peito subia e descia tão rápido! Começo a gritar, gritar muito alto pedindo socorro. Alguém havia baleado Maxon, a camisa manchada de vermelho confirmava isso. Seus olhos se fecharam e sua respiração está irregular. Durante muito, muito tempo mesmo eu evitei chorar, era uma promessa.
Mas agora, com ele caído no chão diante de mim, não fui capaz de conter as lágrimas que desciam pelo o meu rosto como uma cachoeira, desesperadas.
—Alguém nos ajude! — Grito o mais alto que meus pulmões permitem, sabia que logo um dos guardas chegaria, nós não estavámos muito longe da mansão. Me jogo no chão de joelhos, inclinando o meu corpo sobre o de Maxon, molhando seu rosto com as minhas lágrimas. — Por favor, Max. Fique aqui, fique acordado.
Olho de relance para a frente, afim de ver se alguém já havia se aproximado. Mas a única coisa que vi foi um carro de luxo e escuro saindo a toda velocidade.
—Vou ajudar você. — Digo com convicção apesar das lágrimas e saio correndo desesperada até o guardas, que já estavam se encaminhando até onde Maxon estava. Quando me viram, eles apertaram o passo. — Maxon! Ajudem ele, por favor! — Grito, enquanto as lágrimas turvam a minha visão e eu começo a sentir meu corpo fraco.
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