A Última Aurora
3 Toques Que Ficam
As ruínas erguiam-se diante deles como uma ferida que o mundo nunca conseguira fechar. As torres partidas inclinavam-se umas sobre as outras, sustentadas apenas pela teimosia da pedra e pela presença constante da Noite. O caminho estreitava-se à medida que avançavam, obrigando-os a caminhar demasiado próximos para ser apenas prudência.
A Recluse seguia o Guardian a poucos passos, os dedos a tocarem-lhe ocasionalmente no braço, na cintura, na omoplata. Gestos breves, quase involuntários, mas repetidos vezes suficientes para deixarem de ser acaso. O Guardian não se afastava. Pelo contrário, ajustava o passo ao dela, como se aquele contacto silencioso fosse agora parte do equilíbrio entre ambos.
— As ruínas não gostam de intrusos — murmurou ela, com o olhar atento às sombras.
— Nem eu — respondeu ele, com um meio-sorriso cansado.
A emboscada surgiu sem aviso. As paredes pareceram ganhar vida, sombras destacando-se da pedra em formas distorcidas. O Guardian ergueu o escudo a tempo de travar o primeiro impacto, mas um golpe lateral apanhou-o desprevenido, projectando-o contra uma parede partida. O impacto arrancou-lhe o ar dos pulmões.
— Guardian! — chamou a Recluse, com a voz rasgada pelo medo.
Ela correu para ele assim que as criaturas recuaram, ajoelhando-se à sua frente. Agarrou-o com força, os braços à volta do pescoço, como se temesse que ele se desfizesse ali mesmo.
— Não me faças isto — sussurrou, com a testa colada à dele. — Não agora.
Ele pousou uma mão firme nas costas dela, sentindo o tremor que tentava esconder.
— Ainda estou aqui.
Durante um momento que pareceu demasiado íntimo para o mundo à volta, ficaram assim, respirando juntos, a Noite suspensa à sua volta. Quando os olhos se encontraram, não houve necessidade de palavras. Beijaram-se. Foi um beijo breve, quase roubado, mas carregado de tudo o que não diziam: medo, alívio, desejo contido. Não houve urgência nem pressa, apenas reconhecimento.
Separaram-se devagar, como se o mundo pudesse partir-se se se afastassem demasiado depressa.
— Temos de continuar — disse o Guardian, embora a mão ainda permanecesse na dela.
— Eu sei — respondeu ela, sem a largar imediatamente.
Mais tarde, já fora das ruínas, acenderam uma fogueira fraca entre pedras partidas. O cansaço caiu sobre eles como um manto pesado. A Recluse sentou-se ao lado do Guardian e, sem pedir permissão, encostou-se a ele. Ele envolveu-a com o manto, puxando-a para mais perto.
— Posso ficar assim, mais algum tempo? — murmurou ela.
— Sim pode. — respondeu ele.
Ela adormeceu pouco depois, a cabeça apoiada no ombro dele, a mão fechada na sua túnica como se temesse acordar sozinha. O Guardian permaneceu imóvel durante horas, sentindo o peso quente e o real do corpo dela, escutando a respiração tranquila que lhe aquietava o peito.
Pela primeira vez desde a maldição, ele sentiu paz. E a Noite… observou em silêncio.
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