A Órfã Doce 2.0
7 O ataque
Notas iniciais
Na escola, durante o almoço, Elizabeth narrava o recém lançado trailer do filme da Fuinha Atômica com muita euforia. Em circunstâncias normais eu estaria tão entusiasmada quanto ela, e foi por isso que a ruiva começou a desconfiar.
— Eu estou te descrevendo o trailer do primeiro filme da Fuinha Atômica. Você não está se descabelando. Por que não está se descabelando?
— É que eu duvido muito que esse filme seja tão bom quanto a série.
Ao ouvir isso o queixo de Elizabeth caiu.
— Tem alguma coisa muito errada aqui.
— Não, na verdade não tem...
Elizabeth estreitou os olhos e fez beicinho. Essa sua expressão de aborrecimento me deixou um tanto quanto acuada. Parecia que eu era o peixinho no aquário e ela o gato travesso que me atacaria com a pata.
— Você não vai me contar?
Massageei as têmporas, minha cabeça latejante poderia explodir a qualquer momento. Então resolvi confessar de uma vez, afinal Elizabeth não desistiria de me encher o saco até obter uma confissão.
— Tá, tem alguma coisa me incomodando. Mas eu não quero falar sobre isso.
— Tsc! Por que não deixa de charminho e conta logo o que está acontecendo?
Arqueei minhas sobrancelhas. Ela não poderia estar falando sério.
— Você ouviu quando eu disse que não quero falar sobre isso?
— Sim. Mas eu acho que o seu melhor amigo Nathan não precisa ouvir "eu não quero falar sobre isso".
Boquiaberta e indignada fiquei em silêncio sem saber o que dizer. Apesar disso, senti a raiva borbulhar dentro de mim como molho quente numa panela que só tendia a ferver ainda mais.
Passei a noite em claro, assisti meu remédio para ansiedade não fazer efeito. As bolsas escuras abaixo de meus olhos eram tão visíveis que só um cego não as veria. E agora, depois de toda a preocupação, culpa e estresse sofridos, ela me vinha com essa?
— Você quer mesmo saber o que está acontecendo?!
Possivelmente minha voz saiu em um tom mais alto do que o pretendido. Algumas pessoas do refeitório viraram suas cabeças em direção a nossa mesa para entender o que estava acontecendo. Permaneci alguns segundos quieta até todos voltarem a cuidar de seus respectivos assuntos. Talvez tenha sido benéfico, inclusive arrisco dizer que foram esses segundos que separaram o pescoço de Elizabeth das minhas mãos.
Respirei fundo e comecei:
— A Mila vai passar muito tempo fora porque assinou um contrato. E como a lei diz que tenho que preciso ter um responsável na cidade, ela me deixará com a mãe dela e uma pessoa que sequer conheço. Eu não sei se isso dará certo, tampouco se nos daremos bem. Mas esses detalhes não são nada comparado a ontem quando descobri que ela só assinou o contrato porque está falindo.
Minhas mãos mantinham uma distância fixa uma da outra e se moviam simultaneamente. Com ambas rígidas sobre a mesa, fui batendo na superfície para cada fato narrado. A situação já havia sido explicava, mas senti algumas coisas pulando como loucas para saírem do meu coração.
— Acredito que a culpa seja minha. Não só isso como também acho que uma hora ela se cansará de mim e me devolverá ao orfanato, onde nem com a maior sorte do mundo conseguirei outra família.
Dizer aquilo em voz alta era como ter dado uma sentença. Naquele momento, para mim, parecia bem mais plausível que Mila fizesse meus medos virarem realidade. Com todos esses pensamentos na cabeça ficou difícil segurar as lágrimas. Apoiei os cotovelos na mesa e puxei meus próprios cabelo. Eu odiava Elizabeth por me deixar fazer aquilo comigo mesma.
— E tem aquele restaurante maluco que não para de mandar mensagens estranhas pelos biscoitos da sorte.
Então, parei, levei as duas mãos com força à mesa fazendo nossos pratos pularem. As lágrimas correram, o molho saltava para fora da panela.
— Agora me dá uma solução, já que está tão interessada com o que acontece na minha vida.
Talvez eu tenha exagerado. Acumulado muitas coisas por muito tempo e expulsado tudo de uma só vez na forma de raios de ódio mortais. Elizabeth tinha dado azar de ter me aborrecido num dia ruim. Mas o que eu podia fazer? Ela ficou paradona no meio do tempo e acabou sendo vítima da minha tempestade mortal.
Elizabeth Faber e eu não éramos amigas de longa data. Nem eu a conhecia bem, nem ela me conhecia bem, admito. Todavia posso perceber diferenças entre nós. Elizabeth é mais centrada, não deixa as emoções tomarem conta dela. Eu sou o oposto disso, qualquer coisa me abala e não sei fingir que está tudo bem quando não está. Contudo, infelizmente, Elizabeth tem dificuldade de entender que a fragilidade, em certos aspectos, faz parte de mim. Perceber que algo me incomoda não a dá o direito de me provocar para saber do que se trata.
— Ah, ta. — a ruiva falou.
"Mas veja só! Essa nojenta nem quer ajudar, só está se intrometendo na sua vida. Xinga ela!"
"Não faça isso. Quer mais problemas?!"
"Xinga ela logo!"
— Mas a Mila te contou que está falindo ou você brilhantemente deduziu?
Estreitei os olhos, fuzilando-a.
— Eu deduzi. Mas e daí?
"Ela está sorrindo?! Que ousadia!"
"O que Mila falaria se eu matasse minha melhor amiga com a mesa da cantina?"
— Sabe qual é o problema de vocês duas?
Apoiei o queixo na palma da mão. Meus dentes rangiam de raiva e impaciência.
— Não. Diga-me!
— Você e Mila tentam agradar uma a outra omitindo fatos, mas fazer isso não ajuda nenhuma das duas. Estou errada?
Eu queria dizer que sim. Mas não podia fazer isso sem faltar com a verdade. Fechei a cara e voltei o olhar para a comida, dando uma garfada tão forte que poderia quebrar o prato, a mesa e abrir um buraco semelhante ao que minha vizinha caiu no final de semana.
— Eu não quero falar sobre isso.
❅❅
Dei um jeito de convencer Elizabeth a não me acompanhar até o armário. Precisava respirar, pois me sentia sufocada perto da ruiva. Na verdade me senti assim desde o dia em que a informei sobre sábado, quando Nathan disse que me considerava uma amiga.
Não podia negar que ainda me sentia um molho fervente na panela. Além de zangada, fiquei decepcionada com a Faber. Em dias ruins você espera que um amigo te ajude, não é mesmo? Ela fez exatamente o oposto.
"E se eu estiver sendo dramática?"
Mordi o lábio ao ver que não conseguia me esquivar desse pensamento. Refleti bem. Elizabeth recebia olhares tortos por onde passava, uns e outros não se incomodam em rebaixá-la mesmo quando estávamos juntas. Recordei-me das diversas cenas em que indagavam se eu não tinha outra companhia melhor do que a Faber. Fora o dia em que Amelie nos jogou na fonte da escola.
Em que ponto quero chegar? Elizabeth Faber, assim como eu, conhece a solidão e a teme; nada fora do normal. Apesar da raiva, tentei me colocar em seus sapatos e acabei percebendo que talvez eu não agisse diferente se minha única amiga estivesse buscando um substituto para mim.
Claro que Nathan não era um substituto para Elizabeth, mas certamente ela via as coisas desse ângulo já que demonstrou um visível ciúme do garoto.
"Ah, mas você ficou tão irritada pra voltar atrás dez minutos depois?"
"E o que vai fazer? Declarar a quarta guerra mundial?"
Respirei fundo. Enquanto caminhava pelo corredor, comecei a pensar em que providência tomar. Pedir desculpas seria um exagero, já que, convenhamos, ela foi invasiva e não respeitou meu espaço. E se eu apenas mostrasse que não estava mais brava? Quem sabe ela não se sentiria melhor se tivéssemos uma conversa a respeito de Nathan e como ele não tomaria seu lugar.
Decidida, ergui a cabeça e notei que estava quase na escadaria. Nathan, em frente a fonte do colégio, começou a gesticular como um louco. Ele apontava para mim, para si mesmo, sacudia os braços e apontava lá para fora, fazendo sinal de depois. Assenti com a cabeça e ele subiu a escadaria rapidamente.
Foi quando notei Elizabeth no primeiro degrau da escada de dentes cerrados. A garota esperou que eu notasse seu olhar sobre mim para seguir seu rumo à sala. Senti meus planos serem feitos em pedacinhos.
Pelo resto das aulas a garota sequer me olhou. Foi como se o meu assento nunca tivesse sido ocupado de fato. E se alguma vez eu tive dúvidas sobre os ciúmes de Elizabeth, agora eu tinha certeza. A sensação de culpa me incomodou, meu único consolo era que cedo ou tarde ela voltaria ao normal. Afinal, eu era sua única amiga.
O sinal bateu para indicar o fim das aulas, fui ao armário e não vi a ruiva depois que saí do corredor. Concluí que a mesma deveria ter ido embora, por isso fui até a saída da escola e fiquei esperando Nathan no portão.
Esperei um minuto, dois, cinco. A sola do sapato batia impacientemente contra o chão. Cruzei os braços e fiquei encarando os lados, porém algo inesperado aconteceu. Não era Nathan que havia chegado e sim três desconhecidos que puseram suas mãos em mim. Fui arrastada e silenciada até o corredor de árvores, que era o lugar mais deserto naquele horário.
Jogaram-me no chão como um saco de batatas, logo em seguida fui cercada pelos três presentes que evitariam uma fuga caso eu tentasse. Levei certo tempo para compreender o que estava acontecendo; a ficha só caiu quando o garoto que estava na minha frente disse:
— A gente veio trazer um recado de alguém conhecido seu.
Arregalei os olhos, engoli a saliva e senti o nó formado em minha garganta.
— Charlie Peters. — sussurrei.
Como me permiti esquecer que estava na mira do CLEAS?!
— Ei, como pôde ser tão burra? — comentou o da esquerda.
— Tá achando que porque é novata ninguém vai dar importância às idiotices que você diz?- berrou o da direita.
— Pensei que no reformatório eles dessem um jeito na língua de gentinha como você. — debochou o terceiro à minha frente.
— Eu não fui para um reformatório. — rosnei. — Era uma escola militar. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra, idiota mal-informado.
Não é preciso dizer que minha reação causou surpresa nos garotos. Até por que quem era petulante quando estava prestes a tomar uma surra? O empurrão bruto atingiu meu ombro, fazendo meu corpo recuar um passo.
— O que você disse?! Por que não repete pra eu ouvir?
Suavemente o vento soprou, carregando consigo as dezenas de folhas adormecidas no chão. Respirei fundo enquanto ouvia seus berros. Silenciei. Apertei os dedos enquanto lamentava, de olhos cerrados, o momento em que deixei as coisas seguirem aquele curso. O dia em que esbarrei em Charlie Peters na escadaria, o minuto em que vi o CLEAS passar pelo refeitório e o segundo em que abri minha boca enorme para Amanda Byron.
Mas naquele lugar, naquela hora, do que adiantava lamentar? Três caras estavam prestes a me bater até cansarem a mando de Charlie Peters. Não havia como pedir desculpas ou como fugir dali. A possibilidade de voltar no tempo e fazer tudo diferente era inválida. Só havia uma solução.
— Está fingindo que não me ouve. — ele concluiu, impaciente. Mas logo deu de ombros, suavizando a carranca. — Bom, eu quebrarei a sua cara de qualquer forma. Não vamos fazer cerimônia, né?
Defender-me!
Antes de receber mais um golpe no ombro, recuei. Senti a energia ao redor mudar no momento em que segurei o pulso daquele garoto. O ar inflou meus pulmões e notei a expressão do que estava a minha frente mudar. Toda a marra do rapaz havia se esvaído, apenas restou o temor. Erguendo o queixo, soltei o verbo:
— Parece que só sabe falar.
Avancei com os dedos em seus olhos, seguido de um golpe no nariz com o peito da palma da mão. De pulso torcido, o vi cambalear para trás tapando o rosto.
Foi questão de segundos para que um soco me atingisse o maxilar. Zonza pela pancada, fui erguida pelos cabelos. Um dos agressores me imobilizou numa espécie de abraço, o que me impossibilitava de usar as mãos para me defender do outro. Dois, quatro, seis, nem lembro quantas vezes fui esmurrada. As lágrimas escorriam aos montes , o sangue também. Mas o que não me sai da memória foi como, milagrosamente, resisti.
Um urro indignado ecoou pela minha garganta, como o grito de guerra de uma tropa prestes a fazer o contra-ataque. Empurrei com os dois pés o capanga que me socava, fazendo o que me segurava perder o equilíbrio. Desferi uma cabeçada e mordi seu antebraço com toda a força que tinha, semelhante a um animal raivoso. Sangue escorria pelo meu queixo; não sabia se era meu, dele ou uma mistura dos dois.
Vendo-me liberta, chutei o garoto no meio das pernas e lhe dei joelhadas na barriga desesperadamente. Via-se a minha pressa, o meu pânico, a necessidade de acabar com tudo e fugir dali. Porém a raiva que eu tinha de Charlie, daqueles três e da minha própria burrice acabou me dominando. Eu não conseguia controlar, não conseguia parar de bater no garoto.
— Largue ele, sua maluca!
Dois dos três estavam no chão quase inconsistentes. Mas restava um, aquele que me jogara no solo cheio de folhas e pétalas, e me apertava o pescoço enquanto disparava xingamentos.
— Sua pirada psicopata. Não toque nos meus amigos de novo, está me ouvindo?
Apesar de segurar essas mãos para tentar me salvar, não o olhei nos olhos. Por algum motivo era mais interessante mirar na copa das árvores acima de seu ombro. O rosa e branco caíam com o farfalhado que derrubou uma pétala de rosa cheirosa em minha testa.
Longínqua era a voz que chegava aos meus ouvidos, e não pertencia ao agressor já que chamava meu nome. As pálpebras recusavam a se abrirem, por isso não consegui ver o que aconteceu. Porém, de uma hora para a outra tudo acabou. Pude respirar e já não sentia as mãos que apertavam meu pescoço. Tossi algumas vezes, sendo acolhida por um par de mãos gelada. O dono da voz longínqua, Nathan, não parava de me chamar pelo nome. Leves tapinhas ele dava em meu rosto a fim de me manter consciente.
Quando consegui abrir os olhos e focar em seu rosto, tentei me sentar por conta própria e falhei miseravelmente, mais uma vez apoiando-me sobre o loiro.
Entretanto, este relato estará incompleto se pararmos por aqui. Uma figura relevante, mais a frente, ao lado do garoto que me enforcou. Uma pequena menina de uniforme encaixava o sapato no pé.
— Por que jogou o sapato nele? — Nathan quis saber.
— Sei lá, entrei em pânico. — respondeu. Embora que "pânico" não fosse uma palavra que a descrevesse no momento. — Mas admita, foi bem eficaz.
Os sapatos da menina eram os da nova coleção "Fuinha Atômica, como a fuinha ficou atômica". A propaganda dizia que o modelo garota atômica estelar, cujo calçava os pés dela, contava com fibra de titânio na sola. Notei que os publicitários falavam sério assim que reparei no corte horroroso acima da sobrancelha do garoto recém-mirado.
— Você lembra de mim? — ela indagou, mexendo os fios soltos de seu cabelo preso em rabo de cavalo.
Não respondi. Busquei em minha memória, mas nada veio além da sensação angustiante de achá-la familiar e não conseguir lembrar de onde a conhecia. A garota nanica revirou os olhos, apesar de parecer perdoar meu esquecimento visto a situação em que me encontrava.
— Fui eu quem te ajudei a encontrar uma camiseta da Fuinha Atômica no shopping.
Assenti com a cabeça de leve. Todos os meus músculos doíam; até minhas dores sentiam dor. A garota pôs as mãos na cintura, fez uma cara charmosa e apresentou-se com uma voz meiga.
— Meu nome é Leila Medlyn. É um prazer.
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