A Árvore da Montanha

3 Capítulo 3 - Convite


Notas iniciais
As palavras pro terceiro capítulo foram: lôbrego e irrefutável. Boa leitura!

Alyshie sentia-se invencível. Tinha machucados, queimaduras de gelo, inúmeros hematomas e escoriações, mas acabara de descer, viva, o Gyachung Kang, a maior montanha abaixo de 8000 metros e a 15ª maior do mundo, de onde somente dois outros times voltaram vivos. Dera três entrevistas desde que colocara os pés em solo nivelado, e Todd acabara de expulsar os outros jornalistas, ainda lá fora discutindo com alguns, podia ouvir sua voz.

Alyshie fora com outras duas pessoas, mas somente ela atingiu o pico, num feito que ainda assustava muitos especialistas da área, que a consideravam, com seu porte diminuto e reles quinze anos, completamente incapaz do que acabara de realizar.

A primeira coisa que fez ao ver-se sozinha no quarto de hotel chinês foi tomar um longo banho quente. Ficou na água até que pudesse ver seus dedos feridos enrugando, sem conseguir parar de sorrir ao lembrar cada etapa da perigosa jornada. De fato, quase morrera inúmeras vezes, e vira o líder da pequena expedição morrer a menos de cem metros de onde estava, mas aquela sensação... Aquela coisa que sentia ao contemplar o mundo inteiro de um pico duma montanha, ou do topo de um prédio, ou de qualquer lugar onde todos parecessem formigas a seus pés...

Fechou os olhos para recordar a primeira vez que sentira aquilo. Era uma criança conformada e obediente desde quando podia se lembrar, e seus irmãos a ensinaram tudo o que podiam (ou assim acreditava) para que pudesse ser uma boa pessoa. Foi por isso que, quando Tsutao sugeriu a Daiichi que a deixassem com fome, ela não o culpou. Quando Daiichi colocou toda a comida nos armários altos da casa, onde ela não era capaz de alcançar, pequena mesmo pra uma criança de dez anos, ela não se zangou. Quando Baki avisou-lhe sobre o inferno lôbrego e desolado que aguardava os que morriam de fome, ela agradeceu o aviso. Quando Hyuuga lhe garantiu que protagonistas superavam qualquer adversidade, concordou com ele. Quando Ingram explicou que poderia lhe dar comida se ela se comportasse, ela dispensou, preocupada que se zangassem com ele por estragar a lição.

Os irmãos só queriam que ela fosse uma boa pessoa. Eles a amavam, e ela os amava. Então, quando a fome tornou-se forte demais, sem querer incomodar ninguém, ela se virou para, sozinha, escalar todos aqueles armários e alcançar um pacote de biscoitos. Daiichi a encontrou primeiro, saciando sua fome sentada em cima do armário, e quando ela o viu... Daiichi parecia tão pequeno. Era um gigante de mais de dois metros, mas dali, ela era maior do que o irmão. Ele poderia ser uma formiga dali.

Foi o primeiro momento de toda a sua vida em que Alyshie sentiu, apesar de não saber o nome disso, confiança. Confiança em si mesma. Dali, os irmãos não precisavam mais lhe ensinar, ou cuidar para que ela, pequena e fraca, não fizesse besteira. Porque dali, ela era a maior. Ela quem cuidaria deles.

Dali pra frente tornou-se comum achá-la no topo de árvores, pedreiras, logo em telhados, postes. A cada lugar que subia, cada centímetro mais alto que se tornava capaz de alcançar, aquela pequena faísca que descobrira sobre o armário ganhava força dentro de si. Quando escalou um prédio pela primeira vez e a polícia a levou, Daiichi batera nela. Quando escalou o prédio mais alto do Japão, aos treze, Daiichi estava ao seu lado durante a entrevista, a apoiando.

Tinha nascido para aquilo. Deixara até seu irmão mais velho feliz! Logo ela, tão inútil, sempre dando trabalho. Ingram fora o único a desgostar da ideia, mas contra Daiichi, tinha pouca voz, e não teve como argumentar depois que o mais velho passou a apoiar as escaladas.

Batidas soaram na porta, interrompendo suas lembranças, e a pequena alpinista saltou rapidamente da banheira, colocando um roupão para atender. Deveria ser Todd de volta. O irmão mais novo tornara-se algo como seu protetor pessoal, impedindo que a incomodassem demais ou lhe pressionassem. O agente, claro, era Tsutao. Sempre fora o melhor com palavras entre os sete. Mas era Todd quem garantia seu bem-estar, e Alyshie era realmente grata, já que não tinha a capacidade de ‘magoar alguém’ por estar incomodada.

Não era Todd, e Alyshie recuou ao ver o homem de uniforme à sua porta. Estava em chão firme, onde era uns 30cm menor do que o rapaz, e encolhia o corpo intimidada. Queria dizer pra ele ir embora, mas não foi capaz. Quando ele enfiou de qualquer jeito uma carta em suas mãos molhadas, ela nada falou. Ele disse para que ela ‘desse uma resposta o mais rápido possível’, e ela concordou sem entender nada. O rapaz, considerando ter cumprido seu papel, foi embora.

Alyshie demorou a se refazer do susto e por fim ler o que tinha naquela carta. Era um convite. Um que ela não esperava de forma alguma, mas que era a prova irrefutável de que seu talento fora reconhecido por mais do que seus irmãos. A melhor escola do mundo, Hope’s Peak, estava formalmente lhe convidando, com base em sua recente conquista ali na China, a estudar com eles no ano seguinte, assumindo o título de Alpinista de Nível Super Colegial.

Naquela mesma tarde, a muitos quilômetros dali numa oficina simples de uma cidadezinha do Japão, o pai de Muramasa recebia uma visita parecida. Sem consultar o filho, a quem mandara ir entregar uma encomenda pessoalmente a um ‘cliente’ – com quem já negociara o preço da visita pessoal, também sem avisá-lo – respondeu ao mensageiro que ele iria, sim. Okazaki já tinha noção, há algum tempo, que o filho jamais negava coisa alguma. Coisa alguma mesmo. Se o mandasse a um cliente mal-intencionado, ele nem mesmo precisava de uma ordem para obedecer ao que o cliente pedisse. O faria sem sequer saber que o pai lucrava com isso. Mandá-lo a uma escola de renome não era grande coisa comparado a isso.

Muramasa iria, independente de sua vontade, assim como quase todas as outras coisas de sua vida.

Notas finais
Como estou tentando focar pouco em BG, algumas coisas podem ter ficado meio sub-entendidas. Alyshie não faz ideia de que sofre abuso, acha que o que fazem com ela é amor, que estão cuidando dela. E Muramasa era vendido sexualmente pelo pai a alguns clientes pra renda extra, mas ele não fazia ideia que o pai lucrava com isso e achava que ele nem sabia das coisas que fazia. Achava que as pessoas dando em cima dele e pedindo coisas era por interesse nele, e não era capaz de dizer não. Mas Okazaki não o dava pra mulher nenhuma por causa do rancor com a mãe dele, então ele só conheceu relações homossexuais. Não vou focar muito nessas coisas nessa história, então ficam como notas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.