Algumas gotas de álcool caiam de cima da mesa de madeira. Uma única poça, pequenininha, era o que sobrara da garrafa toda. O quarto deveria ser branco, mas estava todo rabiscado nas paredes com frases e desenhos em preto e vermelho. Claus estava sentado na cama, uma lâmina próxima ao pulso e uma lágrima próxima da queda. Quase não se ouvia ruídos, como se o quarto fosse afastado de todo o resto do mundo. Claus só tinha em sua cabeça algumas frases picadas da música que estava ouvindo e os maiores dizeres da parede do seu quarto.

“Há muito tempo tenho estado só

Há muito tempo tenho estado na cama

Sem ninguém a quem pegar no joelho, homem

Ou mulher, tanto faz.”

A música e os dizeres de Ginsberg eram os mesmos. Claus musicara seus versos preferidos, como se sentisse que essa era a única coisa que não poderia deixar pendente antes de se matar. Apertou um pouco mais a lâmina antes de respirar fundo pela última vez, para puxar o resto de coragem.

- Ficou muito bom. – E ao ouvir isso com os olhos fechados, Claus sentiu uma paz que nunca havia sentido antes. Tentou abrir os olhos para ver o sangue escorrendo, mas não conseguiu. –Sabe... Eu acho muito difícil musicar Ginsberg sem perder a qualidade! Ainda mais em português! Mas você fez um ótimo trabalho.

Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, Claus olhou para a direção que aquela voz áspera vinha. No canto do seu quarto, de olhos fechados, Claus viu um garoto mais ou menos de sua idade com a cabeça recostada na parede, como os apreciadores de boa música fazem quando estão bêbados em um bar, deixando as notas entrarem e se misturarem junto ao álcool. Tinha um rosto grave, marcante e lindamente triste. E um reconhecimento cruzou na cabeça de Claus por um breve instante, como quando vemos, de longe, aquela pessoa que esbarramos há anos atrás numa rodoviária e pensávamos que nunca mais veríamos novamente. Claus tentou perguntar quem era ele e o que ele estava fazendo e como ele estava no seu quarto, mas não conseguiu falar.

O garoto se levantou lentamente. Claus viu aquele sobretudo preto, um tanto desleixado de tanto uso, o rosto mortalmente branco do rapaz e o leve lápis de olho preto que usava e teve a certeza de já ter visto aquele garoto outras vezes.

- Não fique alarmado, Claus. – Claus, que já começava a ficar com medo, tremeu ao ouvir seu nome na boca de um desconhecido. – Eu não vou fazer nada contra você. – Disse o garoto se aproximando e tocando em seu ombro.

- Quem é você? – Claus finalmente conseguiu falar.

- Elogio sua música e você me faz uma pergunta de forma agressiva? – O garoto sorriu.

- Desculpe... Mas você entra no meu quarto e...

- É que não importa muito quem eu sou, Claus. O que importa agora é o que você está tentando fazer.

Claus olhou para os pulsos, como se antes tivesse esquecido da leve dor que por ali havia passado, e viu a cama encharcada de um vermelho vivo, como nunca vira antes.

- Você é...

- Não, não sou deus. E infelizmente não posso te dizer se ele existe ou não. Nem mesmo eu sei. Mas se existe, abandonou tudo o que criou. Meu nome é Morte, Claus...

- Então... Eu consegui?

- Conseguiu que eu viesse falar com você. Ainda não é sua hora Claus. Você ainda tem muito tempo de vida.

- Sempre esperei a morte de touca e foice.

- Deixei em casa.

Claus tentou esboçar um sorriso.

- Não posso deixar que você morra agora, Claus.

- Mas...

- Se você não aguenta a vida, Claus, não queira descobrir o que é a morte!

Claus fechou os olhos e ficou pensando naquilo. Quando abriu os olhos novamente, encontrou-se sozinho. Olhou em volta, confuso. Não podia ter sido um sonho? Ou podia? Sentia-se como se tivesse dormido por dois dias seguintes. Olhou para os punhos. Um pequeno corte já cicatrizado estava ali. Na cama, apenas uma gota de sangue.