A zona da escuridão:

A rua do Alvaraz

Já era tarde da noite, quando Amanda voltara para sua casa após dar uma olhada nos gatos da senhora Santos. Ela tinha pedido para que sua vizinha cuidasse de seus filhotes no longo prazo em que estivesse viajando. Amanda, como uma amante de gatos topou rapidamente.

Fazia um frio imenso naquela rua vazia e silenciosa. As luzes, nada reconfortantes, eram as únicas coisas que impediam os poucos moradores da rua do Alvaraz de não surtarem.

Amanda foi a longos passos em direção a sua casa. Limpou os pelos brancos de suas roupas antes de entrar, depois se confortou com o som alto de suas músicas favoritas. Dentro de sua casa, no seu aconchego, a garota se servia uma taça de vinho enquanto admirava as estrelas. Foram longos minutos reflexivos olhando para o céu estrelado. Pouco-a-pouco a noite foi passando. As horas voaram. Quando se deu por conta, Amanda tomou um susto percebendo já ser tão tarde. Talvez fosse culpa das garrafas de vinho.

Depois de jogar fora todas aquelas garrafas vazias no lixo na frente de sua casa, Amanda notou lá no final escuro de sua rua que algo se mexia. Poderia ser facilmente alguém bastante perdido. Seja lá quem fosse, por mais que andasse devagar, deu um certo medo em Amanda. A garota entrou disfarçadamente em sua casa, antes que a figura a notasse. Poderia ser uma paranoia boba dela, mas seus medos eram maiores.

Quando a jovem subiu as escadas em direção a sua cama, tomou um susto. O alto som do latido de seu cachorro quase lhe fez cair da escada. Era como se seu cachorro estivesse do lado dela, mas não estava. O cachorro de Amanda sempre ficara ao lado de fora de sua casa, devido a um ocorrido no passado. A vizinha, senhora Santos, já havia reclamado dos latidos que o cachorro sempre fazia quando ficava dentro de casa. Foi por este motivo que Amanda decidiu manter o cão atrás de sua casa.

A garota desceu as escadas, incomodada e curiosa com os altos latidos do cachorro. Abriu a porta e deu de cara com aquele homem misterioso. Era um homem alto, usava roupas sujas e rasgadas. Ele estava com uma de suas mãos cobrindo parte de sua barriga. O homem mal conseguia falar. Era a tal figura da qual Amanda sentiu medo minutos atrás. Olhando mais de perto, ela notou o sangue que a mão do homem tentava esconder. Ele estava muito machucado e precisava de auxílio médico rápido.

— Pode me ajudar, por favor?

— O que aconteceu?

O homem demorou a responder. Amanda não sabia se era por conta da dor, mas desconfiava de que talvez ele estivesse mentindo.

— Eu fui atropelado, o desgraçado não parou para me socorrer.

Parada ali, naquela noite, sozinha com um estranho, Amanda se viu numa situação tão tensa quanto difícil. Não era tão simples assim aceitar um estranho em sua casa, mas era mais difícil ainda deixar alguém, naquela situação, sozinho. Ela respirou fundo, tentando não pensar nas coisas ruins que lhe poderiam acontecer. Por morar sozinha, seu medo era muito maior, mesmo assim, seu bom coração só lhe deu uma opção.

— Entre, eu vou chamar uma ambulância.

O homem entrou mancando na casa de Amanda. Algumas gotas de sangue mancharam o piso branco daquela longa casa. Assim que ele entrou, Amanda quase se arrependeu. Foi como se a ficha tivesse caído para ela. Ela pensou seriamente se ligaria para a ambulância ou para a polícia.

— Não há a necessidade de ter medo, estou machucado, apenas isso.

— Me desculpe, mas eu não te conheço.

— Eu entendo. — Falou com dor.

— Vou chamar a ambulância.

— Não! — Gritou com esforços.

Amanda ficou em silêncio após ouvir aquele grito, tão assustada que seus olhos se esbugalharam. Em sua cabeça ela calculava quanto tempo levaria para chegar na cozinha e pegar algo para se defender.

— Você está sangrando! — Gaguejou tentando não demonstrar medo. — Eu preciso chamar a polícia!

— Foi um corte leve. Eu só preciso de alguns panos para cobrir o machucado e uma cama para descansar. — Indagou.

A garota desconsiderou o aproveito do homem, o medo já tinha lhe tomado. Naquela altura, ela só pensava em fazer o que ele pedia, tudo para que nada de errado lhe ocorresse. Mesmo assim, não tinha como não questionar.

— Tem certeza?

— Eu sou um andarilho, acha que alguém me daria auxílio?

Ao ouvir aquela frase, Amanda se sentiu levemente mais confortável. Concordou com o homem e foi até o banheiro pegar alguns papeis para cobrir a ferida. O andarilho cobriu tudo e depois foi auxiliado até o quarto de Amanda, com uma certa dificuldade para subir as escadas. Ele se deitou na cama e em poucos minutos dormiu.

Se sentindo mais confortável com aquele estranho homem dormindo, Amanda foi até a sala e ligou para a polícia. Se sentiu uma covarde por isso, mas seu medo era muito maior. Toda aquela situação era estranha demais para se ignorar. Quando ela ouviu a voz no outro lado da linha, falou:

— Apareceu um homem estranho, com alguns machucados na barriga. Eu estou achando tudo muito bizarro.

— Está ligando para quem?! — Era o andarilho que desceu as escadas sem fazer barulho algum.

Amanda desligou o telefone imediatamente. Seus olhos novamente ficaram esbugalhados. Sua respiração ficou mais grave, mesmo assim, ela tentou manter sua postura.

— Ninguém... — Mentiu.

— Podemos conversar em algum outro lugar? — Disse num tom estranho e suspeito.

— Como assim? — Questionou disfarçando seu medo.

O homem se aproximou. A cada passo o medo aumentava.

— Pode me mostrar onde fica a cozinha?

As paranoias aumentaram. Amanda imaginou como o homem pegaria uma de suas facas e a esfaquearia ali mesmo. Para ela aquilo já era uma teoria confirmada. Ela não queria ir lá, mas também não queria dizer ao homem que estava com medo. Por isso decidiu leva-lo até lá.

Chegando naquele ambiente, Amanda ficou mais próxima da gaveta de facas. Ela estava pronta para fazer algo, que em situações normais, não faria.

— Preciso que seja completamente honesta comigo. — Alertou o homem num tom sério.

Naquele instante, a jovem amedrontada já estava abrindo a gaveta. Seu coração palpitava bastante. Ela mesma não sabia se conseguiria pegar a faca a ponto dele alcança-la.

— Sim.

— Estamos sozinhos?

Aquela pergunta foi o gatilho que fez Amanda segurar firmemente a faca em sua mão, mesmo que ainda estivesse escondida na gaveta.

— Sim. — Respondeu com o maior medo de sua vida.

— Então quem são os homens que eu vi escondidos na cortina do seu quarto?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.