A víbora

4 Capítulo 04


Chorei tanto, que dormi na banheira mesmo. Acordei horas depois, com os dedos enrugados e quase submersa na junção de água e sangue. Sim,sangue. Comecei a tremer imediatamente, tentei levantar, mas estava fraca e o chão estava escorregadio. Cai de joelhos, e ainda caída, puxei uma toalha e me enrolei nela.

De vagar, fui me erguendo, me apoiando em outros lugares. Minha visão estava turva e minhas pernas moles, por ter dormido na água. Cai sentada algumas vezes ao tentar descer as escadas em pé, mas finalmente cheguei no final dela, e peguei o telefone. E é só isso que me lembro.

Acordei no hospital, com o som dos Bipis dos aparelhos ligados a mim. Havia uma enfermeira
quando abri os olhos, ela era linda. Negra, olhos escuros, cabelos rebeldes e cacheados. Ela tocou a minha mão, decorada com fios que levavam remédios até minha corrente sanguínea e disse:

– Não há jeito delicado de lhe contar.

Antes dela terminar a frase, senti meu corpo gelar imediatamente. Pensei logo na doença, eles haviam descoberto, que eu fui infectada.

– Seu bebê não resistiu as suas quedas.
Meu coração então parou, e senti um imenso arrepio tocar minha espinha. Meu olhos se fixaram no dela, arregalados, e encheram de lágrimas.

– Não... Por favor ...

– Sinto muito meu bem — Disse ela, acariciando minhas mãos em piedade.

Meu mundo caiu. Estava sem marido,sem meu filho,e doente.

– Há quanto tempo estou aqui ?

– Um dia, quarenta minutos e dezesseis segundos.

Suspirei profundamente. Fechei os olhos, e pelo meu filho, não derramei mais nenhuma lágrima. Decidi que eu iria me vingar de alguma maneira, dessa maldita doença, e por fim de Jason.

– Gostaria de avisar algum familiar, da sua saída ?

Meu plano maquiavélico de vingança, foi interrompida pelo lindo negro anjo ao meu lado.

– Não ... Não tenho família.

Então assinei um termo me responsabilizando pela minha própria saúde no trajeto do hospital até a minha casa. Eu sai andando mesmo, queria ter tempo para pensar no que fazer na vida dali para frente. Nunca me senti tão bem, o ódio é mais atraente que qualquer outro sentimento.

Ao chegar em casa, tirei a roupa descartável, que todo paciente ganha ao se internar, fechei a porta com duas voltas, e subi até o nosso quarto, digo, meu quarto. Abri o guarda roupa, peguei uma mala velha e empoeirada,e então a enchi com as roupas de Jason, roupas e tudo que me lembrava ele.

Queimei os lençóis da cama e as fronhas. Abri a janela e deixei aquele vento pré tempestade entrar. Chamei um táxi, e fui até a casa onde ele estava com a loira, e joguei no jardim mesmo a mala com as coisas dele. E joguei em cima das flores. Era injusto só eu sair no prejuízo.

Com o mesmo táxi voltei para casa. Abri todas as janelas, mas fechei todos as portas com duas voltas.Liguei o meu rádio, abri a bandeja de CD e coloquei Boom, da banda P.O.D, para tocar. Nenhuma música era mais estimulante para mim.
Liguei meu notebook, e liguei meu telefone, abaixei a música e esperei que alguém do meu serviço atendesse.

–Alô? Gostaria de falar com Roger Silverthoth

– Quem deseja ?

– Kiara Beackerman.

A recepcionista não reconheceu minha voz, eu ainda estava furiosa com o rumo que a minha vida tomou.

– Alô. — Disse Roger, dono da editora.

– Oi Roger, é a Kiara.

– Kiara? Como você está, estava quase mandando uma busca para sua casa, não veio ontem,nem hoje, está fazendo falta aqui. Helena é uma boa aprendiz,mas não se compara com a sua experiencia...

Roger fala muito, fala demais, e não tenho tempo para ouvi-lo. Não tenho tempo para ouvir ninguém.

– Roger, eu me demito. Eu perdi meu marido, que me traiu com uma loira lindíssima, fiquei tão furiosa que perdi meu bebe,enquanto dormia submersa no sangue dele dentro da minha banheira. Eu me demito.

Essas informações eram desnecessária, mas durante toda minha vida, fui comedida e diplomática, e até agora só me arrependi. E com todos esses dados, ele não teria argumento, para me obrigar a ficar. O telefone ficou mudo por alguns minutos.

– Passo em três dias para pegar minha rescisão.

– Sim... Claro. Kiara?

– Sim,Roger. Manda ver.

Roger antes de ser o editor chefe do jornal, era o meu amigo de faculdade. Dormíamos no mesmo quarto, e gostávamos dos mesmo garotos. Sim Roger é gay. Ele sabia pela minha voz, quando algo estava indo bem, e quando não. Liguei a música novamente, e cantei junto.

Fiquei tão perdida em pensamentos, que não reparei que o CD havia acabado e que eu estava em silêncio. Levantei-me do sofá, e busquei o papel com dados aleatórios sobre o hospital. Já era noite, mas mesmo assim peguei a minha bolsa, usei a roupa mais provocativa que eu tinha e fui apé até o hospital.