A volta dos mortos
1 Capítulo 1 - Amalia
Notas iniciais
Amalia caminhava pelo corredor do colégio quando Madison a convidou para o clube noturno.
Observando cada estudante que amontoava o corredor da área do Ensino Médio, Amalia pensou em uma boa desculpa para dar à Madison. Aula de Francês, aula de piano, saída com a família... Qualquer coisa serviria para negar o convite. Na última vez em que saíra para um clube com Madison e as amigas, Amalia tivera que chamar um táxi e cuidar de três garotas com ressaca no dia seguinte. Não queria que aquilo se repetisse, ou pior. Odiava o cheiro das bebidas e o local lotado. E os clubes noturnos frequentados por Madison sempre tinham drogas.
A loira pulou na frente de Amalia, fazendo a amiga parar bruscamente.
Com uma careta, a menina ajeitou a alça da mochila.
— O que foi, Maddy?
— Você não me respondeu! Vai aceitar o pedido de Andrew, não? Ele gosta de você e é um gato!
— Eu não gosto dele, é o suficiente. Não acha? Agora, por favor, vamos para a próxima aula. Eu aceito ir ao clube se parar de me empurrar para esses homens.
Madison pressionou os olhos, pensando na proposta da amiga. Por fim, deu de ombros e concordou, deixando a menina aliviada.
Voltando a ficar ao lado de Amalia, Madison entrelaçou seu braço ao da morena.
A sala de aula era a segunda à esquerda, para a aula de História. Madison foi a primeira a entrar. Amalia ainda precisava guardar a bolsa e pegar seus materiais. Uma leve dor de cabeça atingiu a menina.
Estalando a língua, ela fechou o armário e caminhou para a sala do segundo ano.
Seu olhar foi diretamente sobre o professor Parker, que a encarava como se Amalia tivesse feito algo terrível, embora chegar à sala poucos segundos atrasada não fosse um crime na escola. A menina sorriu, ignorando a vontade que ele tinha de acabar com ela, se um professor era capaz disso.
Amalia organizou sua mesa e sentou-se, prendendo os longos cabelos em um rabo-de-cavalo e não desviando o olhar de Parker. Não era de o seu feitio perturbar alguém, ou mesmo isso, mas ela se divertia ao ver o professor irritado ou decepcionado por Amalia nunca causar problemas para ele. Somente desviou o olhar ao ver o professor encarar um dos garotos e pigarrear.
A aula demorou a passar. Mesmo que fosse sobre civilizações interessantes à menina, ela sabia de tudo o que ele estava falando e não aguentava encarar o quadro e ouvir as baboseiras que o professor ensinava. Preferiu pegar o lápis e desenhar no caderno enquanto a aula passava. Com cautela, para Parker não avistar e querer levá-la para a diretora, claro.
Assim que o sinal soou, mostrando que era o fim da aula de História, Amalia foi a primeira a pegar os materiais e partir para o corredor.
— Você fugiu da aula — disse Asha, a bela amiga africana que havia se mudado para Manhattan naquele ano. O sotaque dela deixava Amalia admirada. — Eu vi como o professor te olhou. Tem certeza que nunca fez nada para ele?
Madison se aproximou, colocando um braço ao redor do pescoço de Asha.
— Amalia não mata nem uma mosca, quanto mais perturbar aquele professor. Mas bem que poderia fazer isso. Você é inteligente, pode pensar em algo.
— Ele saberia logo quem teria feito uma pegadinha. E pretendo ir até o fim do colégio sem manchas no meu boletim.
Asha sorriu.
— Como é que uma certinha como você foi parar no grupo da Mad?
— Ela não é tão certinha — Madison disse, encarando Amalia.
— Não é? — Asha franziu o cenho. — Ela só tira notas boas e nunca sai da linha. Nem nos clubes ela bebe.
Amalia mordeu o lábio, pegando o material da próxima aula e fechando o armário. Respirou fundo.
— Não quero falar sobre isso. Tyler vai estar no clube também?
Madison assentiu, piscando para outro aluno que passava pelo corredor.
— Quando disse que meu ex-namorado vai estar lá, logo tratou de dizer que iria conosco.
Amalia abriu a boca para comentar, mas sentiu o celular vibrar de dentro do armário. Abrindo rapidamente, leu o nome de sua mãe na tela.
Sem hesitar, atendeu.
— Sim, mãe?
— Eu não vou poder sair do trabalho agora e seu pai não me atende. Preciso que vá até a escola de Marcel para buscá-lo. A professora disse que ele vomitou e está muito mal.
A menina encarou Asha e Madison. Respondeu que iria embora cedo e esperou a mãe desligar.
Enquanto pegava sua mochila e enfiava alguns materiais dentro, explicou o motivo da saída de emergência dela.
Marcel era o irmão mais novo, de sete anos. Ele não andava bem de saúde nas últimas semanas, mas apesar da ida aos hospitais, parecia que ainda estava muito mal. Era provável que ficasse internado.
— Vai ficar tudo bem com ele — disse Asha.
— Se Marcel for tão duro na queda como a irmã, tenho certeza que sim. Mas não falte ao clube hoje à noite. Ou eu... Ou você verá comigo, Amy.
A adolescente sorriu, agradecida e caminhou até a coordenação. Precisaria explicar o motivo da saída e pegar o primeiro ônibus que desse para a escola do menino. Então, se não houvesse algum problema com ele, começaria a se preparar para o clube perto do apartamento de Asha.
No hospital, enquanto esperava o médico voltar com os resultados de exame de Marcel, Amalia tentou ligar para os pais, mas nenhum dava sinal de vida. Eles não poderiam fazer isso, não é? Afinal, duas crianças menores de idade estavam em um hospital acompanhadas de uma professora responsável. E o mais novo estava muito mal.
A professora de Marcel trouxe Amalia para longe de Marcel, com receio de que o garoto ouvisse a conversa.
— Onde a senhora Berger está? E o seu pai?
— Desculpe-me, senhora Smith. Eu não consigo falar com eles. Pode ser o sinal, eu preciso ir lá fora para ligar.
A mulher hesitou, mas balançou a cabeça.
— Vá lá então. Precisamos de um responsável aqui. Você ainda tem dezessete anos. O que eles pensaram em deixar você vir aqui sozinha?
Amalia preferiu o silêncio. Prendeu a respiração enquanto caminhava até a saída, tentando ligar para a mãe e encontrar um sinal. Nenhuma resposta por longos minutos.
Ela ergueu o celular.
— Droga de operadora. Como assim não consegue um sinalzinho?
A vontade que Amalia tinha era de jogar o aparelho no lixo, quebrá-lo em pedacinhos e ir até o trabalho da mãe pessoalmente. Não estava irritada por eles não responderem, sabendo que o problema era o sinal.
Guardou o celular no bolso, cobrindo o rosto e tentando se acalmar. Era péssimo que Marcel estivesse doente, pior ainda da forma que estava. E agora, estava sozinha com ele e precisava de um guardião. Em algumas horas, ela precisaria se encontrar com a amiga.
Ela ergueu o rosto, encarando o céu cinzento. Seria bom se chovesse. O frio seria ótimo naquela época do ano. Ficar perto da lareira, ler algum livro bom e tomar chocolate quente. Que perfeição de combinação.
Vendo um vulto correr do outro lado da pista, Amalia tentou seguir a pessoa com o olhar. Era um homem e parecia muito assustado. Entretanto... Segurava um item dourado em mãos e sempre olhava para trás. Esbarrando nas pessoas, era possível ouvir reclamações dos pedestres.
Amalia não deveria segui-lo, mas acabou se pegando atravessando a rua. Ela tinha que ficar com Marcel e procurar os pais, mas aquele jovem com a espada em mãos era interessante o bastante para que a menina não pensasse em mais nada.
Desviou dos pedestres, pegando uma das esquinas como o garoto fizera.
Ela parou por um momento, olhando para trás, tentando ver do que ele estava fugindo.
Virando para entrar naquela rua, um cão negro apareceu. Nenhuma pessoa parecia estar incomodada ou surpresa pelo tamanho do cachorro — maior que um carro, de olhos avermelhados e de garras extremamente afiadas.
Nos primeiros segundos, ela só conseguiu falar:
— Uau!
O sensor de perigo soou, mas o desejo era de ver o que aquele cão poderia fazer. No entanto, com a atenção do animal sobre si, ela se lembrou do homem e da espada. Forçou-se a correr na direção dele, querendo perguntar o que ele era e como ninguém parecia notar aquilo.
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