Notas iniciais
eita eita

A nova rotina não estava exatamente diferente da anterior. Ele levantava todos os dias, passava a manhã treinando com sor Rolly, fazia suas refeições na companhia de lordes e cavaleiros próximos, e a tarde estudando ou rondando a sala do Pequeno Conselho da rainha. Já não era mais seu, e embora ainda achasse aquilo completamente injusto, não estava em posição de questionar. Disputar o trono com outros Targaryens não estava nos seus planos. Embora lhe incomodasse não estar diretamente envolvido naquilo que fora preparado a vida toda para fazer, reinar, Aegon acabou descobrindo outro lado da realeza, muito mais prazeroso e fácil. Pouco mais de um mês depois de sua chegada, Daenerys reconheceu ele e Lya, lhes concedendo o título de príncipe e princesa. Enquanto a rainha se ocupava governando e pouco a pouco estabelecendo seu domínio por todo o continente, Aegon atendia a convites de pequenos lordes e grandes comerciantes de Porto Real em seu nome. As pessoas pareciam ainda mais solícitas com ele agora, talvez porque achasse que ele era a escolha óbvia para herdeiro. Àquela altura todos sabiam que a rainha não podia ter filhos.

Lya, porém, parecia se afastar cada vez mais dele, desde que a tia chegou em Porto Real. Aquilo deixou o jovem Targaryen deveras desapontado, já que estivera esperando o contrário desde que Arianne foi embora. Sor Rolly às vezes o provocava, e logo em seguida lhe lembrava que o povo comum não via com bons olhos os casamentos incestuosos que os Targaryen praticavam. Aegon não dava mérito para aqueles comentários, é claro. Seu interesse por Lya era inocente, ele tinha certeza. Só desejava ficar perto dela, observá-la, protegê-la, e colocar alguns sorrisos naquela face quase sempre séria ou triste.

Em certa manhã, por total acaso, ele levantou insone ainda mais cedo do que costumava. Caminhando entre os corredores de Maegor, pode ver a silhueta familiar projetada por sombras, se esgueirando para fora do castelo. Não pensou duas vezes em segui-la, curioso com as roupas que ela usava e para onde estaria indo naquela hora. Precisou apertar o passo para conseguir acompanhar a meia irmã, e quando enfim pararam de andar, Aegon percebeu que ela não estava sozinha. De uma distância segura, e ainda oculto pelas sombras parciais, ele observou enquanto ela conversava com uma convidada recém chegada na corte, antes de começarem a lutar. Os movimentos eram tão rápidos e precisos, que elas pareciam ter ensaiado.

Estava hipnotizado assistindo o desempenho de Lya, e até um pouco surpreso, já que achava que arco e flecha eram toda a extensão de seus “talentos marciais”. Depois de desviar de uma investida da Stark com uma pirueta para trás, Lya arremessou uma lâmina rápida e precisa nas sombras onde ele estava escondido, rasgando o gibão que usava na altura do ombro.

—Sete infernos! — Ele exclamou ao perceber que escapou por um triz de morrer com uma adaga no peito.

—O que está fazendo aqui?!

As duas tinham parado de lutar, e Lyanna tinha avançado até onde ele estava, enquanto Arya se mantinha alguns passos atrás, sem sair da base defensiva ou baixar a espada. Aegon sentiu o rosto esquentar um pouco, sem jeito por ter sido pego daquela maneira.

—Me desculpe, eu a vi saindo do castelo, fiquei curioso. — Respondeu dando de ombros, e então apanhando a adaga que ela tinha arremessado em sua direção. — Você luta muito bem. Deviam aceitar mulheres na Guarda Real. — Comentou estendendo a lâmina para ela.

—O que o faz pensar que ela iria querer servir em vez de liderar? — Arya perguntou atrás de Lyanna. — Desculpe, eu não tenho um bom histórico com príncipes. — Completou depois de Lyanna olhar pra ela por cima do ombro.

—Obrigada, meu querido irmão. Gostaria de se juntar a nós? — O tom dela era tão polido e diplomático que não parecia muito natural.

—Na verdade, eu estava esperando poder ter um momento a sós com você, minha querida irmã.— Respondeu ignorando a pergunta e as desculpas de Arya.

—É claro. Por que não pede aos servos para montarem um esplêndido desjejum para nós, nos jardins? — Sugeriu com naturalidade, enquanto Aegon franzia um pouco o cenho. — Eu irei encontrá-lo assim que Arya e eu terminarmos.

Lyanna lhe deu as costas, não esperando uma resposta, e voltando para aquela dança com Arya ao som de lâminas se chocando. Aegon sentiu um ímpeto de pará-las, e exigir atenção imediata, mas não o fez. Talvez a brisa que entrou pelo rasgão feito por ela em seu gibão o tenha impedido.

A princesa demorou mais uma ou duas horas, antes de finalmente chegar nos jardins, onde Aegon já não havia deixado quase nada para que ela quebrasse o jejum. Lyanna não disse nada, apenas se sentou, pegando um pedaço do que restara do pão e levando aos lábios, enquanto deixava seus sabres apoiados na cadeira em que estava sentada.

—Poderia me trazer uma caneca de cerveja preta, por favor. — Pediu a um dos servos que estava parado por ali. Foram longos minutos de silêncio após a saída do servo, até que Lyanna enrugou a testa com um ar confuso. — Pediu para ficar a sós comigo apenas para apreciar minha aparência? Se não tem nada a dizer, querido irmão, eu tenho alguns assuntos…

—Quais assuntos? — Aegon finalmente falou, usando um tom claramente impaciente.

—Assuntos que com certeza não lhe interessam. — Lya respondeu sem desviar os olhos dele.

—Prefiro eu mesmo ser juiz do que me interessa. — Aegon devolveu começando a ficar um pouco irritado.

—E eu prefiro eu mesma cuidar do que faço ou deixo de fazer.

O servo retornou, e Lyanna pegou a caneca tomando um gole grande do conteúdo, sem se abalar com o temperamento do meio irmão que parecia começar a mudar.

—Por que está tão arisca comigo? — Aegon perguntou enrugando a testa.

—Eu não estou. O trato como qualquer outro. — Ela respondeu pegando mais um pedaço de pão.

—Exatamente. — Ele disse como se de alguma forma aquilo fizesse sentido.

—Exatamente… É isso o que incomoda? Que eu o trate como qualquer outro? — Por um lapso de segundo, Aegon pode jurar que viu um brilho de divertimento no olhar dela.

—Sim… Quer dizer… Não… — Ele parou um momento, como se de repente precisasse organizar as ideias, e se lembrar do que o estava incomodando. — Depois do que aconteceu com Arianne, achei que tinhamos ficado mais próximos, mais íntimos. Agora parece que você está me evitando, que não confia em mim.

—Eu não confio em você. — Ela disse com todas as letras. — “Depois do que aconteceu com Arianne”, você diz quando todos achavam que você era rei, apesar de eu ter conquistado a cidade?

—Bem…

—Quando você colheu os frutos do meu esforço e depois me colocou na posição de princesa indefesa aguardando um bom casamento? Eu montei mais da metade do seu Pequeno Conselho, e você fez incontáveis reuniões estratégicas sem se dar ao trabalho de me avisar. — Sem alterar seu tom, Lyanna bebericou sua cerveja, e então colocou a caneca já pela metade sobre a mesa. — Você pode ter mais sangue dornês do que eu, mas está longe de saber como tratar uma mulher criada em Dorne… Ou em qualquer outro lugar, pra falar a verdade.

—Por que não me disse que queria estar no Pequeno Conselho? Como eu poderia…

—...saber? — Ela o interrompeu antes que ele pudesse concluir, deixando-o mais irritado, e aquilo parecia divertido. — Quantos de seus cavaleiros ou membros do conselho pediram para fazer parte dele? Por que eu não podia apenas ser recompensada pelo meu bom trabalho?

Aegon permaneceu em silêncio, a cabeça baixando aos poucos. De tudo que podia esperar para uma conversa com ela, aquela definitivamente era surpreendente. Não tinha, de fato, parado para pensar muito sobre a meia irmã, a não ser para perceber que queria passar mais tempo com ela. Suas preferências, sua história, suas habilidade, e até suas conquistas que, de certa forma, ultrapassaram as dele, foram ignoradas.

—Me desculpe. Eu não percebi que a tinha subestimado. — Disse por fim voltando a encará-la. — Eu só esperava que pudéssemos ser mais próximos. Todas as vezes em que ficamos a sós, eu achei que…

—Eu sei. — Lyanna pegou a caneca e terminou de beber todo o conteúdo. — Você não sabe o que realmente quer. Você me olhava desse jeito quando Arianna ainda estava aqui, como outros homens antes de saberem quem eu sou. Você ainda olha para mim assim. Mas você precisa olhar pra mim de outro jeito, querido irmão. Nós estamos navegando por tempos perigosos. Acredite em mim, você acha que está impressionado e atraído, mas está vendo apenas o que quer. — Lya se colocou de pé, guardando seus sabres na bainha presa em suas costas. — Minhas opiniões iriam desagradá-lo, meus costumes vão irritá-lo, minhas palavras quase sempre vão contrariá-lo, e com o tempo você vai perceber que não se sente atraído por eu ser uma mulher forte, e sim porque sua vaidade quer me domar. — Ela hesitou por um momento, mas por fim estendeu uma das mãos e fez um carinho suave no rosto dele. — Me aceite e me respeite como sua irmã e aliada para trabalhar em prol da casa Targaryen. Mas pare de procurar por mim e ache outra mulher a quem dedicar esses olhares de filhote de dragão, porque eu jamais vou pertencer a homem algum.

Notas finais
e ai?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.