A volta dos dragões
15 Tyrion
Notas iniciais
Tyrion caminhou tão rápido quanto suas pernas tortas lhe permitiam, se sentindo um pouco constrangido ao perceber o rei diminuir o passo para não deixá-lo para trás. Quando chegaram a sala do trono, Varys os aguardava junto a um grupo com cerca de dez homens, cujas vestimentas denunciavam pertencer às Cidades Livres.
–Vossa graça… — O eunuco se curvou, assim como os demais, enquanto o rei passava por todos eles e se acomodava sentado ao trono. -Estes são “Herói”, segundo no comando dos Imaculados de sua tia, Daenerys, sor Tumco Lho, da Ilha do Basilísco, e alguns agentes enviados por sor Barristan Selmy, a Mão da rainha.
Varys apresentou a todos, exceto Illyrio Mopatis, que saía discretamente do grupo de visitantes, e se colocava ao lado do Mestre dos Sussurros, prestando uma segunda reverência ao rei, que a respondeu com um gesto simples da mão. O anão pode observar a figura solene que Aegon desempenhava sentado no trono, sua expressão se mantinha séria, e a testa ligeiramente enrugada. Diante do rei, a guarda real formava um escudo humano de proteção… Um escudo duvidoso, que contava apenas com sor Rolly, sor Loras e sor Balon… O rei não parecia apressado para preencher os outros espaços abertos na guarda real.
–Qualquer homem que tenha jurado lealdade a casa Targaryen, é bem vindo. — O rei falou logo depois de ser apresentado, fazendo um leve sinal para Tyrion se aproximar. -Que mensagem trazem da minha tia? Ela já esta a caminho, suponho...
Tyrion caminhou sem pressa até o trono, diminuindo o passo enquanto cruzava com Illyrio e Varys, trocando olhares com os dois, antes de se voltar para o rei. Pode perceber, ao se aproximar de Aegon, que havia um misto de preocupação e frustração em seus olhos valírianos. O rei não olhou para o Lannister diretamente, apenas indicou com um aceno da cabeça para que permanecesse ao seu lado, e manteve a atenção hora em Varys, hora nos visitantes.
–Infelizmente não, vossa graça. — Foi Illyrio quem respondeu dessa vez, seu roupão vermelho com detalhes dourados, duelava com o roxo de Varys, pelo título de roupa mais chamativa. -Sua tia Daenerys esta desaparecida.
Aegon se colocou de pé poucos segundos depois, os olhos de dragão miravam os presentes com uma expressão que Tyrion não pode identificar, mas que se misturava com a surpresa em sua face jovem. O anão apertou a vista por um momento, os olhos tortos encarando o eunuco e o magistrado por algum tempo, tentando descobrir qualquer conspiração que os dois pudessem estar fazendo, e que envolvesse o desaparecimento de Daenerys, mas a expressão de preocupação e alarde no rosto meio avermelhado de Illyrion Mopatis, o fez acreditar, mesmo que um pouco, que aquilo não era obra deles. A atenção do rei abandonou o grupo por alguns segundos, pousando na figura da princesa Lyanna, que entrava na sala do trono sozinho, mas com uma pressa que ela própria parecia não estar muito empenhada em conter. Tyrion e Aegon a tinham deixado junto com Sansa e Arianne, quando o rei foi chamado na sala do trono. No momento em que deixaram as mulheres no jardim, o anão se lembrava de ter perguntado em silêncio se a princesa os seguiria, já que ela sempre parecia estar envolvida e a par de quase tudo, mesmo depois da chegada do irmão. Agora, enquanto a princesa ia se aproximando, Tyrion se arrependia de não ter pedido a esposa para esperá-lo nos aposentos, e assim livrá-la de ter de fazer companhia a Arianne Martell. A princesa se aproximou do trono com menos pressa do que chegara até a sala, oferecendo uma reverência educada aos presentes, ela passou os membros da guarda real e se colocou a esquerda do irmão, após uma reverência mais submissa apenas para Aegon. Seu olhar era tão solene quanto o do rei, e sua figura elegante e bela, atraiu as atenções e silenciou o salão por alguns poucos instantes.
–Como assim desaparecida? Minha tia deveria estar em Meereen, se preparando para vir para Westeros com sua corte. — O jovem rei levou alguns segundos antes de voltar sua atenção para o grupo a sua frente, mais especificamente para Illyrio e Varys.
–A rainha deixou seus planos de voltar a Westeros bem claros… Sor Barristan deve saber onde ela esta! — Tyrion interferiu logo depois do rei. Mesmo que tivesse a simpatia do rei, sua posição fora ganha através de negociações com Daenerys, ele era um “emissário” dela. Precisava de todos os seus amigos na corte, ainda mais quando uma Martell se tornasse rainha.
–Foi sor Barristan quem enviou estes homens, milorde. — Varys interveio, se aproximando dos degraus e estendendo um pergaminho enrolado, que Tyrion se adiantou em pegar. -O bom Lorde Comandante foi nomeado mão da rainha… Depois que sua tia desapareceu, vossa graça, ele descobriu uma conspiração, e mandou prender vários traidores… Hizdahr zo Loraq, entre eles. Sor Barristan acredita que eles pretendiam se apossar dos dragões…
Tyrion entregou o pergaminho para Aegon, mas o rei não o pegou, maneando a cabeça e então voltando a sentar no trono. O jovem rei tinha uma expressão sábia, mas os olhos impacientes e ansiosos da juventude. O Lannister conseguia ver o quanto a notícia havia deixado o rei inquieto, mais ainda quando falaram sobre os dragões. Como Tyrion, Aegon sabia do valor que eles tinham, e que muitos dos seus aliados acreditavam que os Targaryen podiam voltar a montar dragões. Tyrion viu Lyanna se aproximar pelo canto dos olhos tortos. A princesa pousou uma das mãos sobre o braço do rei, apertando carinhosamente, enquanto a outra se estendia na direção de Tyrion, que prontamente lhe entregou o pergaminho. Ela era a única pessoa naquele salão, exceto Varys e Illyrio, que Tyrion não conseguia ler, sendo assim, não soube identificar a reação da princesa, enquanto esta corria os olhos pelas linhas da mensagem, e depois ao analisar o selo.
–Sor Barristan esta pedindo ajuda para a corte de Daenerys… — Lyanna começou a dizer, sem tirar os olhos do pergaminho. -Ela sumiu voando em um dos dragões há semanas, sor Barristan mandou vários homens procurá-la, mas nenhum voltou. — Completou, logo enrolando o pergaminho novamente. -Ele prendeu os traidores, mas há revoltosos em Meereen, mais ainda em Yunkai e Astapor. Os inimigos da nossa tia estão oferecendo o dobro do que foi prometido aos Filhos das Hárpias e aos Corvos Tormentosos, e os generais ameaçaram aceitar a proposta, caso não lhes fosse garantido pagamento. — Lyanna conversava com o rei como se não houvesse mais ninguém presente, e ninguém ali parecia ter coragem para interrompê-los. -Dois dos dragões estão presos, mas a corte esta cercada, seria impossível transportá-los, e se forem soltos, nada garante que conseguiremos pegá-los novamente. — A princesa completou, devolvendo o pergaminho para Tyrion, que se apressou em desenrolar para ler ele mesmo.
Os olhos tortos de Tyrion correram pelas linhas meio garranchudas do pergaminho, e também analisaram o selo, antes de voltar a olhar para a princesa e o rei. Aegon parecia pensativo, novas rugas de preocupação surgindo em sua testa. Diante deles, os enviados de sor Barristan encaravam o rei com ansiedade, as vezes passando os olhos pela princesa, e até sobre Tyrion, provavelmente curiosos por ele estar ali. Não deviam haver muitos anões que não fossem artistas e bobos da corte, nas Cidades Livres. Não sabia bem o que sor Barristan esperava que eles fizessem… Com a ameaça dos nascidos de ferro, o inverno chegando, e um ou outro lorde rebelde que ainda havia no reino, eles não tinham condições de mandar homens para conter os ânimos nas Cidades Livres. A coroa tinha muitas dívidas a pagar, não podiam assumir aquela responsabilidade com os mercenários. O anão tinha chegado a tomar folego para se pronunciar, mas o rei interrompeu seu raciocínio se colocando de pé de repente, e descendo dois ou três degraus, mas se mantendo atrás da guarda real, as mãos unidas nas costas.
–Lorde Varys… Mande uma mensagem para sor Barristan e para os mercenários que estavam a serviço da minha tia. — O rei começou a falar, trocando olhares com a princesa Lyanna, mas logo voltando a olhar para o Mestre dos Sussurros. -Diga a sor Barristan para preparar a viagem e trazer com ele todos que desejarem vir para Westeros… Desde que estejam dispostos a viver sob as nossas leis. Aos mercenários, eu abro mão de qualquer tesouro que minha tia possa ter deixado para além do mar estreito, eles podem dividir entre si depois de garantirem o embarque seguro dos meus novos súditos e dos dragões.
–E quanto a rainha Daenerys, vossa graça? — A pergunta de Illyrio era a mesma que estava dançando na cabeça de Tyrion, ainda que já soubesse a resposta para ela.
–Sor Barristan não teria escrito pedindo ajuda, se achasse que ela ainda esta viva. — O rei respondeu com um tom claro de decepção na voz. Lyanna também pareceu perceber o desanimo de Aegon, pois logo se adiantou, permanecendo parcialmente escondida atrás do rei, mas segurando sua mão e apertando, discretamente. -Vocês… — Aegon se virou para o grupo enviado por sor Barristan. -Uma senhoria para quem achar minha tia… Se houver alguma chance dela ainda estar viva, quero que seja trazida em segurança, se não, quero o corpo pra lhe dar um funeral apropriado. — Completou, usando uma expressão mais solene e o olhar firme para falar com os homens.
Os visitantes fizeram uma reverência respeitosa, e depois de algumas palavras de Illyrio, em uma língua que Tyrion não soube reconhecer, eles começaram a se retirar, junto com o magistrado e o Mestre dos Sussurros. O anão manteve os olhos nos homens enquanto estes se afastavam, mas logo se voltou novamente para o rei, um misto de receio, ansiedade e hesitação.
–Vossa graça, ofereço minhas condolências… Existe algo que eu possa fazer para ajudar? — Perguntou também prestando uma reverência.
–Não, Lorde Tyrion. Em breve o senhor estará voltando para Casterly Rock, já deve estar por demais atarefado. — Aegon respondeu. Agora, a sala do trono bem mais vazia, o rei ofereceu o braço para a irmã, que prontamente o aceitou, o envolvendo com suas mãos delicadas. -Eu mesmo vou cuidar das boas vindas do Lorde Comandante da Guarda Real. — Completou, agora com a ameaça de um sorriso nos lábios, embora as rugas de preocupação não saíssem de sua testa.
Tyrion assentiu com a cabeça, e voltou os olhos para Lyanna, que continuava a manter a expressão absolutamente ilegível, e a língua bem menos afiada desde que o rei havia chegado. O anão sentia uma grande simpatia, e também gratidão por ela, por mais que fosse Aegon e Daenerys os responsáveis pela mudança na sua sorte, mas ainda não fazia ideia do que se passava pela cabeça da princesa, e aquilo o deixava nervoso as vezes.
–Como queira, vossa graça. Vou procurar minha gentil senhora, e ver como estão os preparativos. — Se apressou em dizer, fazendo mais uma reverência para Aegon, que o dispensou com um maneou da cabeça.
Tyrion foi se afastando do trono e se encaminhando para a saída lateral do salão, enquanto o rei e a princesa faziam o mesmo, mas pela saída principal, acompanhados pelos três mantos brancos, que se mantinham a poucos passos de distância dos dois. O anão não ouviu o início da conversa dos dois Targaryen, mas pelo peso que pode observar nos dois pares de olhos de dragão, sabia que não ia mesmo querer saber. Já tinha seus próprios problemas…
–Lorde Tyrion… — E por falar em problemas… O anão levou um susto, quando a voz o alcançou segundos após ter deixado a sala do trono. Varys o esperava do lado de fora, discreto, e com uma expressão menos tranquila do que de costume.
–Lorde Varys… Achei que já estaria encaminhando a resposta do rei para sor Barristan. — Tyrion manteve os olhos atentos em Varys. Ele saberia mais do que aparentava sobre o desaparecimento de Daenerys?
–Illyrio já esta cuidando disso. Achei por bem esperá-lo… Meus passarinhos não sabem nada sobre Daenerys Targaryen, mas há outras informações que talvez possam interessá-lo. — O eunuco soltou aquelas palavras com uma satisfação que fez Tyrion desconfiar, e em seguida exibiu dois pedaços pequenos de pergaminho, um em cada mão, provavelmente enviados por corvos.
–O que é? — Tyrion perguntou com a expressão bastante séria, um pouco hesitante em receber, o que quer que fosse, aquilo.
–Seu cunhado… O jovem Lorde Stark. — Varys respondeu. -Só posso imaginar a felicidade de Lady Sansa, quando souber que o senhor o encontrou...
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