Notas iniciais
Oi? Tem alguem ai?

Ia fazer pouco mais de um mês que tinha voltado à capital, e sua ida para o Oeste já tinha sido adiada duas vezes. A primeira por causa de assuntos de Estado nos quais seu marido era necessário. E a segunda por um pedido pessoal feito pela irmã do rei, por razões que Sansa ainda não entendia, e que levaram Tyrion a ter de ir sozinho para uma curta estadia para apaziguar seus novos vassalos, antes de voltar para buscá-la. Não estava exatamente desapontada com aquilo. Sansa tinha mudado drasticamente de postura sobre Porto Real naquelas poucas semanas. O medo e aversão que sentia do lugar estavam diminuindo gradativamente, e em seu lugar nascia uma ansiedade que ela ainda não sabia explicar bem.

A primeira vez que chegou à capital, tinha uma mistura de excitação e raiva — graças ao incidente no caminho de Winterfell, e a perda de sua loba -, saiu de lá como um animal ferido, e voltou se sentindo totalmente vulnerável e indefesa. Agora o lugar lhe lembrava uma mistura dos espetáculos que poucas vezes pode apreciar no Norte, e dos jogos de dedução que meistre Ludwin costumava fazer com Robb e Bran. Ela ainda tentava não presumir nada, nem tirar conclusões precipitadas sobre as pessoas na corte. Mas tinha a engraçada sensação de que conseguia entender o “roteiro” de alguns dos “personagens” daquele espetáculo chamado “Corte”.

Em alguns momentos conseguia fingir que a Fortaleza Vermelha era outro lugar, totalmente diferente do cenário que testemunhou o surgimento das feridas que nunca cicatrizaram nela. O rei Aegon fez questão de mudar cada detalhe, levando o lugar de volta à decoração de seus primeiros donos. Os esqueletos dos dragões foram postos novamente em exposição pela sala do trono e os corredores da fortaleza de Maegor, e novas tapeçarias mostrando o passado glorioso dos Targaryen substituíram as bandeiras Lannister e Baratheon. Só o Trono de Ferro continuava no mesmo lugar. Os cortesões também tinham mudado. Depois que a maioria dos dorneses foi embora, o castelo permanecia apenas com homens das Cidades Livres, alguns do Oeste, antigos lealistas Targaryens perdoados por Robert Baratheon, e uma grande comitiva do Tridente, incluindo seu tio avô, sor Brynden “Peixe-Negro” Tully. Santa tinha achado curioso que os Tully, não os Tyrell, estivessem ali, mas por alguma razão não achou por bem questionar sor Brynden sobre aquilo nos momentos que passaram juntos.

Com todas as mudanças, e a promessa de que veria o irmão novamente, Sansa começava a achar a vida suportável novamente. Estranhamente, a sua recém descoberta prima estava tendo um grande papel na sua própria mudança. Sansa se tornou sua companhia mais constante, a princípio para refeições e passeios, mas depois para atividades que teve certeza de que Arya estaria muitíssimo interessada. Elas passaram horas na biblioteca procurando todos os registros que podiam encontrar sobre o príncipe Rhaegar e sua tia Lyanna, e qualquer aproximação entre os dragões e o Norte; foram caçar acompanhadas de Peixe-Negro e alguns homens que pareciam estar sob as ordens diretas da princesa, mas que a ruivinha não soube reconhecer a qual região pertenciam. A princesa lhe falou sobre Dorne, e contou as mais suculentas fofocas sobre as casas nobres dornesas, tentou lhe ensinar a usar arco e flecha, mas Sansa ainda tinha uma péssima mira. Era seguro dizer que a irmã do rei, mais do que deixá-la a vontade, estava tentando ganhar sua amizade.

A ruivinha tinha percebido que Lyanna era a pessoa mais poderosa daquele castelo, mesmo que a maioria não pudesse ver. Individualmente, a princesa tinha a gratidão de muitos pequenos lordes e cavaleiros, perdoados antes de Aegon chegar a Porto Real, e outros aliviados por enfim terem se livrado de Cersei. Os servos pareciam lhe dedicar uma deferência diferente da que ofereciam ao rei, e aos nobres que frequentavam a corte, e mais de uma vez a Targaryen chegou a um dos almoços combinados na companhia de Lorde Varys, que certamente não estava conversando com ela sobre banquetes e costuras.

—O vinho não está a seu gosto, milady?

Estavam na sala do conjunto de aposentos da princesa. Ultimamente estava sendo uma dama de companhia não oficial, o que não era nada mal. Apesar de muitas vezes fazerem coisas que Sansa nunca gostou muito, ou não estava acostumada, sua prima sempre deixava os momentos interessantes de alguma maneira.

—Sim, minha princesa. Está delicioso. Só não estou tão acostumada a beber vinho, ainda mais um tão forte como o dornês. — A ruivinha explicou com um sorriso agradável.

—Oh, entendo… Bom, não se sinta obrigada a me acompanhar. — Lyanna respondeu dando um gole generoso em sua própria taça.

—Não se preocupe, eu estou tentando treinar para beber com meu marido quando ele voltar. — A ruivinha devolveu com um gracejo, arrancando um raro e rápido riso da princesa.

—Está pronta para assumir seu castelo? — O olhar violeta parecia ter uma intensidade que fazia Sansa sentir muito antes de ver que Lyanna a olhava.

—Agora que Cersei está morta, acho que estou até um pouco ansiosa. — Confessou. — E completamente apavorada com a ideia. Não sei se algum dia eu vou me sentir à vontade em Casterly Rock.

—Algum dia, quando…

O que Lyanna lhe diria, Sansa nunca ia saber. Pela grande janela que dava para uma sacada, uma sombra gigantesca cobriu a luz natural do dia por alguns segundos, seguida pelo som de um guinchar assustador. Sansa sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha, e pelos olhos arregalados da princesa, podia perceber que ela também tomou um susto. Antes que Sansa pudesse pensar ou fazer alguma coisa, Lyanna já tinha sacado uma adaga, sabe-se la de onde, e corrido até a varanda. A princesa ficou menos de cinco segundos do lado de fora, antes de correr para dentro, pegando Sansa pela mão e começando a quase correr para fora dos aposentos.

—O que está acontecendo minha senhora? — Sansa perguntou já um pouco ofegante.

—Ainda não sei… Fique perto. — Lyanna mandou com uma voz alarmada que fez a ruivinha se alarmar mais ainda.

Os corredores haviam sido esvaziados, e só depois de se esgueirarem por Maegor e chegarem à sala do trono, as duas mulheres entenderam porquê. Lyanna ainda segurava firme a mão de Sansa quando ambas pousaram os olhos na mulher mais bonita que já tinham visto. Seus cabelos eram de um loiro prateado que quase cintilava com os raios de sol que entravam pelas vidraças, a pele tinha um tom rosado de alguém muito pálido exposto muito tempo ao sol. Sansa acabou se aproximando mais do que esperava, seguindo os passos de Lyanna, que encarava a mulher com uma expressão quase hipnotizada.

Daenerys Targaryen usava um longo vestido preto, com uma capa vermelha presa por um broche em forma de dragão. Os cabelos platinados estavam presos em várias tranças que se encontravam atrás de sua cabeça e descendo como cascata pelas suas costas. Sua expressão estava completamente vazia, mas os olhos tinham um fogo agressivo que naquele momento estava direcionado ao rei… Ele ainda era tecnicamente o rei se ela estava viva? Sansa sabia que ele era o legítimo herdeiro, como filho mais velho de Rhaegar, mas de que aquilo importava em Westeros? Ela tinha dragões.

—Achamos que estava morta… — Aegon tinha uma postura defensiva que ficou clara na voz.

Pareciam ter chegado no meio de uma discussão, assim como todos os outros cortesãos e servos do castelo. Era verdade, então, aquela coisa que as assustou era um dragão, agora todos corriam para ver sua “mãe”.

—Acredito que sor Barristan mandou dizer que eu havia sumido, não morrido… Mas tentarei acreditar em suas boas intenções. Agradeço por ter se preocupado com meus filhos tão rapidamente. — O sarcasmo e as acusações na voz de Daenerys eram palpáveis.

Estavam perto o bastante para que Sansa conseguisse observar cada detalhe nos traços daquela mulher, mas a Targaryen pareceu não vê-las a princípio. Em passos firmes e terrivelmente lentos, Daenerys atravessou o salão do trono, e foi só nesse momento que Sansa percebeu os “guardas” que a acompanhavam. Três homens quase tão altos quanto Sandor Clegane, usando roupas que a fizeram lembrar das histórias sobre os selvagens para além da muralha, todos com cabelos enormes presos em tranças únicas, carregando lâminas nos formatos mais estranhos que ela já vira. Os três homens se espalharam, formando uma “parede” entre ela e os demais quando os passos a levaram até o Trono de Ferro. Daenerys encarou a cadeira por alguns segundos antes de se sentar.

—Alguns marinheiros, lordes e cavaleiros estavam chamando-o de “Aegon VI”, sobrinho. Eu suponho que foi apenas uma infeliz consequência da “confusão” sobre minha saúde. — Daenerys ofereceu um sorriso curto e claramente forçado.

—Espere um pouco… Eu tomei Porto Real! Eu sou o herdeiro legítimo, você não pode chegar aqui dando ordens assim!

Aegon tinha claramente sido pego de surpresa por tudo aquilo. A comitiva dos dragões devia chegar das cidades livres em algumas luas, dada a dificuldade de transportar dragões. Sansa achava que ainda estavam pensando como fariam aquilo, mas ao que parecia Daenerys apareceu antes que Aegon pudesse por as mãos nos dragões. O rei (ou seria “ex rei”?) usava calções, botas e uma camisa de linho, estava suado e com os cabelos desgrenhados, claramente treinava com seus cavaleiros quando foi surpreendido pela chegada da tia. Sansa teve a impressão de que era exatamente como Daenerys queria, pegá-lo desprevenido.

—Você não fez nada disso… Ela fez.

Então ela as tinha visto no fim das contas. Mais do que isso, parecia, Daenerys sabia mais sobre a corte do que pensavam. Seu olhar pousou sobre Lyanna ao falar, e Sansa sentiu a princesa apertar um pouco mais sua mão. As duas mulheres se encararam pelo que pareceu uma eternidade, até que Sansa viu Varys subir os degraus até o trono com um pouco de pressa, e cochichar alguma coisa no ouvido de Daenerys… Varys, é claro. A aranha tem oito patas, para poder oferecer seus serviços a todos.

—Eu não tenho nenhuma prova de que você ou sua “irmã” são de fato quem dizem ser, a não ser a palavras de homens que traíram ou abandonaram minha casa no passado. Todos esses anos em que estive no exílio, em que meu irmão procurou por apoio para retomar nossa herança, e agora dois desconhecidos que podem ter saído de qualquer lugar nas Cidades Livres alegam ser meus sobrinhos? Eu vou precisar de mais provas... E mesmo se for verdade, eu não acredito que nenhum de vocês vai querer lutar comigo pelo trono. O tempo da velha política conservadora acabou... — O tom de Daenerys era diferente do que Lyanna ou mesmo Aegon usavam. Cada palavra que saía da boca dela o fazia sem qualquer emoção, mas parecia inspirar obediência e medo. — Quando eu estiver convencida de que são quem dizem ser, teremos todo o tempo do mundo para falar sobre seus deveres com a nossa casa, mas primeiro... Vocês terão de se submeter à minha autoridade como sua legítima rainha, é claro.

Notas finais
What?!!