A volta dos dragões
10 Sansa
Notas iniciais
A carne havia sido embebida em vinho antes de assar, carne de cervo selvagem, macia e bastante saborosa. Lembrava um pouco a comida de Gage, mas o antigo cozinheiro chefe de Winterfell não costumava colocar pimenta na comida, por ordem de Lady Stark. Pensar em Winterfell e na mãe fez Sansa sentir o aperto da saudade mais uma vez, como sempre acontecia quando qualquer coisa se relacionava, mesmo que um pouco, a tudo que havia perdido.
–O assado não esta bom, milady? — A voz do marido chegou aos seus ouvidos, interrompendo a viagem que ela fazia pelas lembranças felizes no Norte.
–Está sim, meu senhor. Devo ter comido muito guizado, me sinto um pouco cheia. — Respondeu simplesmente, ameaçando um sorriso ao ver a preocupação transparecer nos olhos tortos de Tyrion.
Estavam sentados no estrado principal, no banquete de boas vindas ao rei Aegon. Tyrion estava a esquerda do rei, e Sansa ao seu lado, enquanto a princesa Lyanna se sentara do outro lado do rei. Os murmúrios e o som de várias vozes conversando e rindo se espalhavam pelo grande salão, enquanto cortesões, lordes e cavaleiros se banqueteavam ao som de um grupo de músicos que tocava divinamente.
–Tem alguma música preferida, Lady Sansa?
A ruiva tinha se distraído novamente, bebericando um pouco do vinho que lhe fora servido. Quando seus olhos claros se ergueram para a voz que a chamava, deu de cara com os olhos de dragão do rei, e um sorriso tão gentil que faria a antiga Sansa derreter, mas que da nova só conseguia um sorriso educado como resposta.
–Não consigo pensar em nenhuma agora, vossa graça. Mas ficaria satisfeita em ouvir as que forem de vossa preferência. — Ela respondeu com polidez, como havia sido ensinada. Ser agradável, ser gentil, sorrir, cumprir com seu dever. Mas ela não cumprira com seu dever. Confiara nas pessoas erradas, em Petyr e Cersei, até em Joffrey em um primeiro momento. O fantasma daquela estupidez a seguiria pelo resto da vida, assim como a lembrança do pai perdendo a cabeça.
–Devo admitir que não conheço muitas canções de Westeros. — O rei falou, voltando então sua atenção para Tyrion. -Me disseram que seu sobrinho já foi enviado para Casterly Rock, Lorde Tyrion. Espero que não tenha sido por minha causa… Não me colocaria contra uma criança só porque o fizeram colocar minha coroa.
–Não, vossa graça, em absoluto… Tommen foi para Lannisporto com a esposa, devem ir para a Fortaleza de Águas por mar, logo depois. — Tyrion respondeu com uma expressão agradável. -Ele será protegido de Lorde Garlan Tyrell, até estar em idade para assumir Castamere. Achei por bem mandá-lo antes que se iniciem os julgamentos dos traidores, ele é um bom garoto, não gostaria que fosse exposto a comentários venenosos. — Completou, falando a ultima parte um pouco mais baixo.
–Importa-se que escolha a próxima música, querido irmão? — A voz da princesa Lyanna se fez presente, e Sansa virou o rosto instintivamente na direção dela.
Os olhos de Sansa se cruzaram com os de Lyanna, e a ruiva, como tantas outras vezes desde que chegara a Porto Real, se sentiu um tanto quanto constrangida, por ser pega encarando. Se Arya fosse mais velha e tivesse olhos púrpuras, a Stark certamente a confundiria com aquela mulher, a semelhança a assustou na primeira vez que a viu, e mesmo depois de Tyrion explicar a razão para a princesa possuir mais traços de sua família do que a própria Sansa, a ruiva ainda achava perturbador ver alguém tão parecido com sua irmã, seu pai, seus tios, alguém que ela nunca conhecera.
–Claro. — O rei pareceu animado em ter a atenção da princesa, que antes estivera conversando com a princesa Arianne, sentada a sua direita.
–Gostaria de ouvir “A mulher do dornês”, por favor. — A princesa falou e o rei fez um sinal a um dos servos para informar aos cantores.
–Poderia tirá-la para dançar, senhora? — Sansa pode ouvir o rei se dirigir à princesa Lyanna, pouco depois de os músicos começarem a tocar, e virou o rosto sutilmente na direção de ambos, a tempo de ver Lyanna aceitar a mão que lhe foi estendida, e em seguida sair com Aegon para começarem a dançar.
A ruiva demorou o olhar sobre os dois Targaryen por um momento, enquanto alguns lordes e ladies se uniam a eles na dança, mas logo voltou a se concentrar em sua taça de vinho, e ao fechar os dedos delicados em volta da mesma, Tyrion já havia pego uma jarra e a servia com bebida novamente. Não conseguiu evitar sorrir, especialmente quando ele também encheu a própria taça, batendo levemente na sua em um brinde silencioso ao tédio que ambos estavam sentindo naquele banquete, diante de tantas coisas mais urgentes em seus pensamentos. Chegou a demorar o olhar sobre o marido, se surpreendendo quando percebeu que tomara metade da bebida sem nem mesmo fazer careta, assim como ele. Já há alguns dias, ainda que houvesse grande tensão entre eles, ela podia perceber um certo entendimento naquele casamento. Não era o que ela sonhava quando pensava em se casar, mas aos poucos pareciam fazer aquilo dar certo, da maneira deles.
–Daria-me a honra de acompanhá-la nesta dança, Lady Sansa?
A ruiva teve um pequeno susto, que não deixou transparecer, quando viu sor Tybolt Crakehall se aproximar dela de repente. O herdeiro de Crakehall olhava para Sansa com uma expressão incomum, que deixou a ruiva desconfortável e um tanto quanto incomodada. Ele era um belo homem, e usava um gibão de fino corte, com detalhes em couro e fios de ouro, cheirava a óleo de banho e os cabelos estavam cuidadosamente penteados. A ruiva não pode deixar de notar que ele nem mesmo dirigia o olhar a Tyrion, que estava bem ao seu lado.
–Perdão, sor, não posso aceitar, a não ser que o senhor meu marido permita. — Ela respondeu com a voz tranquila e a expressão que exalava a dignidade de uma verdadeira Lady.
–Lamento, sor Tybolt, eu sou um marido muito ciumento, lhe diria não mesmo que tivesse tido a cortesia de me perguntar. — Tyrion falou antes que o cavaleiro tivesse a chance de se virar para ele.
Sor Tybolt olhou para o seu suserano com uma expressão que misturava indignação e surpresa, e em seguida deu mais uma olhada em Sansa, agora com um ar de superioridade, ficando ligeiramente vermelho por ter de se afastar da mesa principal sozinho, mesmo depois de ter convidado a mulher na frente de todos. Sansa pode vê-lo voltar para a mesa onde se encontrava o senhor seu pai, Lorde Roland, e ambos assumirem uma expressão um pouco inquieta e mal humorada.
–Não precisa da minha permissão para dançar, senhora. Pode se divertir. — Tyrion falou ao seu lado, tomando um pouco mais de vinho.
–Não desejo dançar, meu senhor. — Sansa respondeu, tomando uma golada de seu vinho também e respirando fundo. -Ele desejava ofendê-lo, passando por cima de sua autoridade com sua esposa, na frente de todos. — Ela comentou, os olhos ainda em sor Tybolt e uma expressão vazia de emoções. Pode sentir o olhar do marido um pouco mais intenso em sua direção.
–Como sabe disso? — A testa do anão estava enrugada quando Sansa voltou a olhar para ele.
–Disse-me uma vez que Lorde Roland era muito fiel ao senhor seu pai. Ele certamente não está satisfeito por ser seu vassalo, agora. Qualquer homem bem nascido sabe que deve pedir permissão ao marido, quando se quer chamar sua esposa para dançar, como sor Garlan fez, gentilmente, em nosso casamento, e ele não era vosso vassalo. — Ela explicou, e então tomou mais um gole de vinho. -Meu senhor estava ao meu lado o tempo todo, ele o ignorou deliberadamente para desafiá-lo, desrespeitando sua autoridade com sua própria esposa.
–Eu entendo o que ele fez. — Tyrion falou com a ameaça de um sorriso. -Mas como você compreendeu isso?
–Só porque sou uma mulher, não quer dizer que seja burra. — Falou um pouco mais arisca do que pretendia. -Digo… Eu observo. Sor Tybolt nunca demonstrou nenhum interesse quando eu estava na corte, antes. Ninguém aqui faz nada sem um propósito. — Corrigiu-se, e então baixou a cabeça com um suspiro sem muito ânimo.
É, ninguém fazia nada sem um propósito. Não podia confiar em ninguém. Como Petyr dissera, todos ali eram mentirosos, e mentirosos bem melhores que ela. Mas ele também era mentiroso, será que havia mentido sobre aquilo também? Ela não sabia, e também não se importava, decidira que era mais fácil não confiar em ninguém, assim estaria sempre precavida. Sansa voltara a observar o rei e a princesa dançando, quando sentiu a mão áspera do marido segurar delicadamente a dela, que estava pousada no próprio colo.
–Nunca achei que fosse burra. — Ouviu-o dizer, e ao virar o rosto para encará-lo, ele sorria, um sorriso que ela devolveu, ainda que há tempos não tivesse vontade nenhuma de sorrir. -Obrigado por não ajudá-lo a me ofender. — Acrescentou, e levou a mão dela até os próprios lábios, beijando as costas de seus dedos.
–Não foi nada. — Ela disse simplesmente, e sentiu o rosto um pouco quente. Por sorte, a música chegou ao fim, e como o resto do salão, Sansa voltou-se para os que dançavam, batendo palmas.
O banquete se estendeu noite adentro. O rei acabou dançando mais duas vezes com a irmã, e uma com a noiva. Sansa permaneceu sentada ao lado de Tyrion, deixando o resto dos pratos que lhe eram servidos de lado, e bebendo com o marido, que se surpreendeu por sua resistência à bebida ter aumentado tanto. Até conseguiu rir, quando Tyrion a chamou um pouco mais para perto, revelando alguns fatos divertidos sobre um ou outro odioso lorde das terras do Oeste.
–Importa-se se eu demorar um pouco mais a me recolher? Ainda não tenho sono, gostaria de dar uma volta. — Ela pediu quando já estava chegando com Tyrion aos aposentos de ambos.
–Tudo bem. Mas não demore muito, amanhã temos que começar a pensar nos preparativos para viajar. — O anão falou, soltando a mão dela e lhe fazendo uma reverência antes de entrar no quarto.
Quando estava na Fortaleza Vermelha, antes de ir para o Vale, Sansa era seguida por guardas Lannister por onde quer que fosse. Ainda estava se acostumando a essa nova liberdade, e de fato, não a aproveitara em nada. Um pensamento lhe ocorrera depois da chegada do rei, e reinara em sua cabeça durante quase todo o banquete. Recebera uma promessa real de que os culpados pelos crimes cometidos contra sua casa iriam pagar, e aquilo lhe fez lembrar da rainha… Ou melhor, de Lady Cersei. Sansa não ouvira falar nela desde que voltara, e na verdade, nem se lembrara de perguntar nada a respeito. Tanta coisa havia mudado, e embora aquilo estivesse óbvio, a ruiva ainda tinha aquela estranha sensação de receio, a mesma sensação que a acompanhava quando Cersei controlava cada passo que ela dava, e Joffrey a torturava sempre que podia. A leoa podia ter perdido as garras, mas Sansa ainda tinha a sensação de medo que a mulher marcara tão ferozmente nela.
Enquanto caminhava pelos corredores da Fortaleza Vermelha, a maioria ainda com algumas pessoas que ficaram um pouco mais no banquete, ou guardas fazendo rondas, Sansa tentou lembrar qual fora a ultima vez em que pudera caminhar aleatoriamente em algum lugar, sem ter de se preocupar com quem iria encontrar. A ultima lembrança que lhe veio à cabeça foi em Winterfell, pouco antes da chegada dos Baratheon. Durante a estadia deles no Norte, ela sempre cuidara para estar o mais apresentável possível, caso topasse com o príncipe. Como costumava ser tola!
–O que está fazendo aqui?
A voz a tirou abruptamente de seus pensamentos, e os passos, despretensiosos e aleatórios pela fortaleza, pararam tão repentinamente que ela quase se desequilibrou. Sansa havia chegado em um corredor que daria para mais um conjunto de quartos, aparentemente desocupados, uma vez que cruzara com poucos guardas e a medida que caminhava, parecia ficar mais e mais vazio. Mas quando ela se virou a procura da voz que lhe interrompera, encontrou a princesa Lyanna, ainda usando as roupas do banquete, e com uma expressão que misturava a surpresa e a impaciência.
–Eu… Eu só estava… — Ela começou a tentar se explicar, engolindo o seco diante do olhar intimidador da Targaryen. -Eu estou sem sono, estava apenas… Explorando. — Explicou, embora a resposta parecesse um pouco tola. A ruiva percebeu que a princesa parecia estar prestes a entrar em um dos quartos
–Explorando? — Lyanna repetiu enrugando a testa, enquanto se aproximava alguns passos dela. -Pelo que sei, já morou aqui antes, deve conhecer este castelo muito bem.
–Não, vossa graça. — Sansa falou, abaixando a cabeça em sinal de submissão. -A ra… Lady Cersei me deixava sempre sob vigília, eu não saía muito dos meus aposentos. — Explicou com a voz dois tons mais baixos que o normal.
–Olhe para mim. — Lyanna mandou, aproximando-se um passo dela, e Sansa prontamente obedeceu. A princesa segurou o queixo de Sansa, prendendo aqueles olhos de dragão nos dela. -Por que esta com medo? — A Targaryen perguntou enrugando a testa, não necessariamente em sinal de dúvida.
Sansa engoliu o seco. Nunca estivera a sós com aquela mulher, não a conhecia, não fazia a menor ideia de como agir perto dela. À primeira vista, a semelhança dela com Arya, Jon, até seu pai, Lorde Eddard, e até a compreensão de tamanha semelhança, a deixaram mais a vontade, mas sempre que estava na presença dela, a princesa lhe lançava olhares intimidadores, duros, como se estivesse sendo constantemente avaliada por ela.
–Não estou com medo. — Ela falou, tentando se manter tranquila, fingindo novamente.
–Agora está mentindo. — Lyanna falou quase que imediatamente, soltando a ruiva, mas não desviando o olhar dela.
–Eu… Eu não sei. — Ela deu a única resposta que lhe pareceu absolutamente verdade.
–Não sabe? — Ela repetiu com um pouco de escárnio. -Como pode não saber por que está com medo?
–Eu não sei. — Falou depois de alguns segundos, começando a baixar a cabeça por instinto, mas logo voltando a olhar para a princesa. -O jeito que você me olha, é intimidador. Não sei por quê. — Lyanna pareceu se surpreender, não com a resposta em si, mas por Sansa tê-la verbalizado. A ruiva não acreditou que teria coragem para dizer aquilo, não fosse todo o vinho que tomou.
–Desculpe. — Lyanna disse, o olhar se amaciando um pouco, e foi a vez de Sansa se surpreender. -Não precisa ter medo de mim. Não tenho razão para lhe fazer mal, e nem meios para isso, caso quisesse.
A ruiva enrugou a testa, ainda encarando a princesa. Como não tinha meios?
–Você é a irmã do rei. — A ruiva falou, em um tom que deixava claro que deveria haver algum tipo de poder nas mãos dela graças àquilo.
Então, a princesa fez algo inusitado, ao menos para Sansa. Ela riu. Não foi um riso debochado, na verdade, havia um pouco de lamento na maneira como ela desenhara o sorriso no rosto, o que deixou a ruiva mais curiosa.
–Eu sou uma mulher, assim como você. Estou a mercê das vontades de um homem, não importa quem ele seja. — Ela explicou, agora com uma expressão menos intimidadora do que qualquer outra das vezes de que Sansa se lembrava.
–Lorde Tyrion disse que você conquistou Porto Real, lidou os homens…
–Soldados dorneses, que agora obedecem às ordens de Aegon e Arianne. — Lyanna a interrompeu, e Sansa não ousou falar mais nada. -”Lorde Tyrion”? Você é esposa dele, não serva. Acho que pode chamá-lo pelo nome… Ou tem medo dele também? — Havia escarnio na pergunta.
–Eu… Não, eu não tenho medo dele. — Ela falou, se esforçando para a voz sair mais firme.
–Por que não? — Lyanna a olhava com uma expressão desafiadora. -Ele tem dinheiro, poder, homens… Ele é um Lannister, os Lannister quase acabaram com a sua família...
–Ele não! — Foi a vez de Sansa interromper, mas logo em seguida ela se arrependeu do que fizera, lembrando-se de com quem estava falando. -Desculpe, vossa graça. Eu… Lorde… Tyrion é um bom homem. Ele cuidava de mim quando… Bom, quando Cersei e Joffrey me mantiveram aqui. Era o único a ser bondoso comigo.
–Eu sei. — Lyanna abriu um sorriso enigmático para ela. -E o que você fez para agradecer?
–Eu… O que quer dizer? — Sansa estava confusa, as sobrancelhas vermelhas se aproximando enquanto a testa se enrugava em legítima confusão.
–Ele foi tão bom com você… Poderia lhe dar um herdeiro. — Lyanna cruzou os braços, caminhando em passos desesperadoramente lentos, em volta de Sansa. Os olhos claros da Stark seguiram Lyanna, bastante concentrados. Lyanna podia parecer com uma loba, de longe, mas assim como seus olhos, uma vez que se observava de perto, o sangue Targaryen podia ficar muito claro. -Lorde Tywin era muito respeitado no Oeste, e vão haver muitos Lordes pensando em tramar contra o senhor seu marido. Acho que podem até tentar usar Tommen, seu querido sobrinho, para usurpar seu direito. Com um herdeiro, porém, sua posição ficará mais segura, afinal, se algo acontecer a ele, terá deixado um legítimo Lorde para Casterly Rock. — Sansa podia ouvir o tom despretensioso dela, mas seus instintos gritavam as intenções ocultas.
–Desculpe, vossa graça, acho que não me sinto a vontade em discutir este tipo de coisa… Aqui. — O olhar da ruiva era firme, e surpreendeu-se por nem mesmo enrubecer.
–Você quer dizer, comigo… — A princesa parou de caminhar na frente de Sansa. -Tudo bem, já disse que não precisa ter medo de mim. — Lyanna soltou um suspiro, com uma expressão que Sansa só pode compreender como conformidade. -Temos o mesmo sangue, afinal de contas. — E soltou um riso não muito animado. -Mesmo que isso as vezes possa significar tão pouco…
–Achei que não gostava de mim. — Sansa interrompeu a mulher novamente, baixando os olhos por um momento, e encontrando o olhar confuso de Lyanna quando voltou a encará-la. -Quando voltei a Porto Real… Vossa graça olhou para mim como se não gostasse de mim. Eu… — A ruiva respirou fundo. -Eu lembrei de Arya, minha irmã, e o jeito que ela me olhava quando estava brava comigo. E do meu pai, e Robb… — A sensação de choro a tomou, mas ela não derramou nenhuma lágrima. Aprendera a contê-las muito bem. -Eu não… Eu não os vejo desde… Já estava esquecendo como eles eram…
A compreensão estava lhe chegando naquele momento. Desde a morte do pai que ela não via “as cores Stark”. Não podia nem mesmo recorrer ao espelho. Seu incômodo com Lyanna, não fora apenas o espanto quando a viu pela primeira vez, mas a lembrança da família que tivera e perdeu, tão bem pintada nos traços da princesa.
–Desculpe. — A voz de Lyanna quebrou o silêncio, mas Sansa não ergueu os olhos para ela. -Lamento ter passado essa impressão. Eu sei que não posso imaginar o que você sentiu, mas também senti pelo que aconteceu com eles. Lorde Stark, acima de todos. Ele era o mais honrado dos homens, não merecia uma morte de traidor. — E num gesto que fez Sansa se encolher um pouco, e até respirar mais fundo pela surpresa, Lyanna ergueu uma das mãos e segurou a dela.
–Foi minha culpa. — A ruiva suspirou, apertando a mão da princesa sem perceber. -Eu o traí, se eu não tivesse…
–Cersei acharia outra maneira de declará-lo traidor, e Joffrey teria cortado a cabeça dele da mesma forma. — Lyanna a interrompeu, um olhar solidário para a prima. -Se lhe serve de algum consolo, a morte daquele bastardo foi tão sofrida quanto ele merecia, e Cersei em breve não estará neste mundo.
–Obrigada, mas não consola. — Ela falou com sinceridade, parecendo um pouco menos intimidada pela Targaryen. -Ela me torturou… Me fez trair meu pai com a promessa de poupá-lo… Perder a cabeça é uma morte muito rápida, ela deveria sofrer! — E como um sinal de uma ferida que, aparentava, mas não havia se fechado, uma lágrima escorreu pelo rosto pálido de Sansa Stark.
Transcorreram alguns minutos de silêncio, em que Sansa sentiu a lágrima morrer em seu queixo, e logo levou uma das mãos ao rosto para limpá-lo. Lyanna continuou a segurar sua mão, chegando a se aproximar mais um passo, e pousar a outra mão sobre o ombro da ruiva. Quando a princesa a soltou sem aviso, Sansa sentiu-se um pouco atordoada, erguendo os olhos para a mulher enquanto respirava fundo e começava a se recompor.
–Venha comigo. — Lyanna chamou, dando dois passos e fazendo sinal para Sansa acompanhá-la.
–Para onde? — A ruiva perguntou ainda não totalmente composta.
–Venha, tem algo que quero lhe mostrar...
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