A volta dos dragões
17 Princesa Targaryen
Notas iniciais
Parte da Companhia Dourada estava partindo naquele dia para auxiliar a corte de Daenerys nas Cidades Livres. Os comandantes queriam pilhagem dos mestres da Baía dos Escravos, e Aegon queria os dragões. A notícia de que Daenerys poderia estar morta estremeceu um pouco uma parcela de Westeros, e trouxe um certo alívio para outros. Depois de receber a notícia, Aegon pediu para ficar a sós com ela, dispensando os demais sob a desculpa de uma família que precisava de privacidade e consolo. Ficar a sós com ele a deixava um pouco nervosa e ansiosa ao mesmo tempo, e depois daquela conversa, receosa também.
Aegon lhe pareceu vagar entre o preocupado e o aliviado depois do desaparecimento da tia. Era previsível, talvez, afinal não teria com quem disputar o Trono de Ferro. Mas praticamente todas as negociações para dar fim à guerra haviam sido feitas em cima do peso do exército e dos dragões Targaryen. E agora o rei parecia acreditar que se conseguisse trazer a corte de Daenerys para Westeros, conseguiria controlar seus homens… Lyanna começou a achá-lo tolo. Ele tinha o apoio e o amor das pessoas comuns, mas os lordes foram apaziguados pela promessa velada de não serem queimados, e trazer dragões sem a única pessoa que tinha alguma noção de como lidar com eles parecia tão desastroso quanto tentar manter os Sete Reinos sem os dragões. Os homens de Dorne não seriam o bastante, e eles só seriam cedidos graças a aliança fechada com o casamento de Aegon e Arianne. Um casamento que o rei estava planejando impedir.
—Ele não quer casar com ela…
—Isso é óbvio, meu amor. — Nym estava deitada em sua cama com a cabeça pendendo para fora, observando de cabeça para baixo a princesa andar de um lado para o outro.
—Você não entende, Nym? Ele vai quebrar o acordo. Tudo está muito instável, essa guerra pode recomeçar… Por um capricho? — Lyanna estava verdadeiramente preocupada.
—Ele disse por que? — Percebendo a inquietação de Lyanna, Nymeria se endireitou sentada, prestando mais atenção nas palavras dela, pronta para tentar acalmá-la.
—Não. — Ela mentiu, sem parar de um lado para o outro. — Está confiante de que terá os homens de Daenerys ou os dragões, ou ambos. E quer “explorar opções” para suas alianças, agora que terá poder para proteger o reino.
Lyanna caminhou até a porta que dava para a varanda, observando a noite em silêncio por algum tempo. Ela usava um vestido dornês, de tecidos leves e coloridos, repleto de amarras que escondiam suas lâminas, assim como o de Nymeria. Não sabia porque tinha mentido para ela… Talvez porque não quisesse mentir sobre outra coisa… Sobre o que Aegon provocava nela. Aquilo era estranho, tão estranho. Mesmo sendo uma Targaryen, talvez pelos anos ouvindo sobre Jaime e Cersei, talvez pelo fim drástico que cada membro de sua família teve por se render a desejos. Nym era seguro, Nym era um desejo inofensivo e ao seu alcance. Não precisava de mais um para atrapalhar seu pragmatismo.
—Ele tem a força… Deixe-o tentar. Você estará segura, mesmo se ele resolver enfrentar Dorne. Doran não deixaria que nada lhe acontecesse. — Nym falou com tranquilidade, sua voz tão próxima que fez Lyanna se arrepiar um pouco.
—Você não entende, não é mesmo? — Lyanna olhou para a bastarda dornesa e suspirou com uma certa impaciência. Claro que não entendia, ela não tinha o conflito dentro de si. — De que lado eu ficarei se Doran decidir entrar em guerra contra Aegon?
—Doran não entraria em guerra contra o próprio sobrinho. — Nym argumentou se aproximando de Lyanna.
—Talvez você tenha razão… Mas e quanto a Arianne?
—Isso depende de você…
A voz surgiu do nada, fazendo Lyanna virar-se bruscamente e Nymeria se levantar da cama em um pulo, uma das mãos indo diretamente a um dos nós de seu vestido, onde sem dúvida estava uma de suas lâminas. Arianne Martell estava encostada na parede próxima a lareira, os olhos castanhos miravam as duas com uma superioridade tão natural da postura da princesa que talvez ela nem percebesse o que fazia.
—O que diabos está fazendo aqui, Arianne? — Lyanna assumiu uma postura um pouco defensiva, mas mantendo as mãos unidas nas costas e uma expressão fria.
—Eu precisava falar com você, “princesa”. — O tom era de deboche, como costumava ser quando queria provocar Lyanna fosse qual fosse o motivo. — Acharam que eram as únicas que conheciam as passagens desse lugar? Pff… — A dornesa riu e desencostou da parede, caminhando calmamente até uma das poltronas na varanda do quarto, passando reto por Lyanna como se ela nem estivesse ali. — Sente-se… Pelo que pude ouvir eu cheguei na hora certa. Temos negociações a fazer.
—Resolveu que quer brincar de política de novo? — Nymeria se colocou ao lado de Lyanna quase protetora.
—Fique fora disso, Nym. — Lyanna falou baixinho, mantendo os olhos de dragão em Arianne por alguns segundos, até que Nym obedecesse seu comando, indo então sentar-se na poltrona ao lado da princesa de Dorne. — O que você quer negociar?
—Seu trono… — O franzir da sobrancelha de Lyanna ao ouvir aquilo, fez nascer um sorriso convencido no rosto da Martell. — Agora que Daenerys parece estar fora da jogada, você parece um “cavalo” mais confiável em se apostar.
—Você sempre sabe como usar as palavras… E eu suponho que Doran saiba disso. — O tom de Lyanna era indiferente, os olhos se mantendo firmes nos de Arianne. — Então o melhor “cavalo” para Dorne é uma rainha bastarda?
—Mas você não é bastarda, Lya… Nós temos documentos, a assinatura, o selo real Targaryen. A única coisa que Aegon tem é a aparência de um Targaryen, e isso não é muito incomum em Essos… Por Nymeria, ele poderia ser um bastardo de Derivamarca. Um Velaryon. Você pode provar quem é, princesa Lyanna… Ou devia dizer, princesa Visenya? — A Targaryen não soube identificar se o que havia no olhar de Arianne era fúria ou desprezo, talvez um pouco dos dois.
Até Oberyn, de longe o dornês a mais se amargurar após a morte de Elia, foi capaz de não direcionar sua aversão a ela, que era apenas mais um resultado das péssimas escolhas de Rhaegar, as mesmas que levaram a primeira esposa a morte. Arianne, por outro lado, embora na maior parte do tempo lhe tratasse até com certa consideração, sempre parecia ter flashs de desgosto. As vezes Lyanna tinha certeza de que a dornesa estava olhando para ela, mas pensando em Lyanna Stark.
—As pessoas não sabem disso. Os lordes, os plebeus, todos estão encantados com Aegon. Ele é o herdeiro legítimo, por que me iriam me apoiar e não a ele? — Perguntou finalmente, ignorando a “pergunta” e desviando o olhar para Nym por alguns segundos. — Ele trouxe a paz para os Sete Reinos, apaziguou as casas… Trouxe justiça aos traidores…
—Não, você fez isso. — Dessa vez foi Nym quem falou. — Aegon só chegou montado em um cavalo desfilando pela cidade e não na calada da noite. As pessoas estavam celebrando a volta dele porque você pintou a cidade com os standarts Targaryen enquanto distribuía comida e criava quarentenas pros doentes.
A postura indiferente de Lyanna foi desmanchando, e a testa se enrugou levemente enquanto ouvia a amante falar. As mãos pálidas e delicadas pousaram suavemente sobre os braços da poltrona, e os olhos baixaram para a mesa por alguns segundos. Como tantas outras vezes em sua vida, ela se via em uma conversa como aquela. Era como estar com Oberyn e Doran em Sunspear novamente. Primeiro Doran lhe dizia o que queria que ela fizesse, e depois Oberyn lhe mostrava as “armas” que ela tinha e a convencia a fazer.
—E eu fiz tudo isso em nome dele, como Doran me pediu que fizesse. Está me dizendo que ele mudou de planos? — Ela não olhava para nenhuma das duas dornesas.
—Você planejou tudo isso com Tyrion Lannister, o senhor de Casterly Rock. Ele sabe que não foi Aegon… Ele é casado com a única legítima herdeira do Norte, sobrinha do novo Lorde do Tridente. A única casa que lhe falta “amarrar” são os Tyrell, princesa. — Arianne lhe respondeu prontamente. Lyanna pode ouvir o tom de vitória que ela tinha.
—E eu suponho que eu os amarraria casando com Wyllas Tyrell. Então Westeros teria uma rainha desconhecida e um rei aleijado. — Ela voltou a erguer a cabeça, o olhar indo direto para Nymeria. — Você ainda não me respondeu, Arianne. Isso esta vindo de Doran ou de você? — Os olhos violeta continuavam a encarar a bastarda sem piscar, quase como se falasse com ela e não com a princesa de Dorne.
—Vem de mim… Mas eu sei que você quer isso. Que não gostou nada quando Doran decidiu apoiar Aegon, mesmo sem que ele provasse quem era. E eu quero governar Dorne, não passar minha vida cuidando de jantares e parindo herdeiros para outras casas. E quanto a você? Quer governar ou ser uma dona de casa? A última princesa de Dorne que se casou com um Targaryen não teve um final muito feliz, então eu sei o que eu quero…
Mas Lyanna parou de ouvir pouco depois dela dizer que preferia ficar em Dorne. Ela teve a sensação de que suas entranhas estavam queimando. O peito apertou de uma maneira dolorosa, e o rosto ficou levemente vermelho. Nunca tinha sentindo raiva naquelas proporções, talvez porque não fosse raiva. Era decepção, a decepção de perceber a mais profunda quebra de confiança. As manipulações, agora armadas com suas vulnerabilidades para movê-la como uma peça em um tabuleiro.
—Deixe-nos a sós. — Os olhos de dragão estavam em Arianne, mas as palavras eram para Nymeria.
—... Lya…
—Agora. — A voz não se alterou, mas até a destemida princesa de Dorne sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem com o tom de Lyanna.
Nymeria não ousou tentar falar novamente. Seus movimentos foram hesitantes, mas rápidos. Talvez a bastarda não soubesse, mas Lyanna pretendia que aquela fosse a última vez que ela entrava naqueles aposentos. Uma vez deixadas sozinhas, as duas se olharam por alguns poucos segundos, antes que Arianne se levantasse e fosse até o alambrado da varanda. Do meio do decote ela tirou um canudo de madeira atrelado a um recipiente de metal quase do tamanho de um dedal. A dornesa usou um dos incensos para pegar a chama da vela mais próxima, pondo uma das extremidades na boca enquanto acendia o cachimbo com uma elegância incomparável.
—Eu fico com Westeros, você fica com Dorne. É isso? — Lyanna encarava a cadeira vazia em que Arianne estivera sentada.
—Tão esperta. É por isso que eu nunca gostei de você. — A voz de Arianne ia ficando mais e mais irritante à medida que ela falava.
Lyanna se colocou de pé, caminhando de volta para o quarto, e sem dizer nada começando a desatar os nós do próprio vestido. Nem ela mesma sabia o que queria, como Arianne e Nym podiam achar que sabiam? A Targaryen olhou de lado para a dornesa, um desprezo tão palpável quanto o deboche no rosto de Arianne.
—Eu não terei mais essas conversas sobre traição com você… — Lyanna deixou o vestido cair, entrando debaixo das cobertas logo em seguida. — Por favor, saia do meu quarto. E reze para os Sete para que eles a perdoem por estar tramando contra o seu legítimo suserano.
Arianne acompanhou ela com o olhar, para então revirar os olhos e rir com a “resposta” da princesa. Quando foi deixada sozinha, Lyanna retirou um cachimbo escondido entre seu colchão e a cama, e acendeu o conteúdo bastante aromático com ajuda de uma vela. Inalou a fumaça por um longo tempo, pensando e refletindo… Já muito passava da hora do lobo quando enfim foi dormir.
A demora na chegada do sono em nada afetou a disposição de Lyanna no dia seguinte. Ela quebrou o desjejum com o rei, caminhou um pouco pelos jardins com Lady Sansa, e se dedicou a leitura pesada e cansativa das histórias dos reinados antes dos Targaryens. Sua mente, depois do que parecia uma eternidade, estava novamente em ordem. Agora que conseguia ver tudo com a mais absoluta compreensão, precisava começar a desestabilizar os outros jogadores.
Tinha convidado Lady Sansa para almoçar com ela. Em uma corte repleta de bajuladores, e famílias ambiciosas, ansiosos para aproveitar a ascensão de um novo rei, era bom ter a companhia de pessoas que julgava ainda inocentes demais para política. E como não podia confiar em Arianne, e talvez nem em Aegon, era hora de se fortalecer e conhecer melhor o território com a “outra” família. Parecia uma matemática simples que outros já tinham feito antes dela, o Norte precisa de um Stark… E logo ela teria três.
—EU OS QUERO FORA DAQUI!! AGORA!!! DEVIA CORTAR A CABEÇA DELES POR ESSE INSULTO!!
Os gritos chegaram aos ouvidos de Lyanna enquanto passava perto da Arcada das Donzelas, a caminho dos jardins. No canto do olho pode perceber a aproximação de Lady Sansa, e ao virar o rosto para ela percebeu que a ruiva parecia tão confusa com os gritos quanto os servos apertavam o passo em volta delas, carregando malas e bagagens.
—Vossa graça, talvez seja melhor pensar um pouco melhor sobre…
De longe, as duas mulheres conseguiram ver o rei passando em passos firmes e sonoros, gritando e esbravejando, enquanto Varys e outros conselheiros o seguiam com expressões nervosas e ansiosas. Lyanna evitou um sorriso de nascer no canto dos lábios, e virou-se para Sansa com uma expressão da mais legítima preocupação.
—Me desculpa, milady. Poderia me esperar nos jardins? A encontrarei para o nosso almoço em alguns minutos.
A ruivinha apenas assentiu com a cabeça, e Lyanna a acompanhou com os olhos até que ela sumisse de vista. Seus passos eram calmos graças a um esforço inimaginável, enquanto seguia exatamente para a direção oposta a do rei. Subiu as escadas até a Arcada das Donzelas, virou dois corredores, até chegar a uma porta dupla escancarada, onde servos entravam e saíam apressados. Lyanna entrou no aposento correndo os olhos por cada detalhe, dos enfeites sendo recolhidos até uma Arianne que parecia terminar de se vestir.
—Eu espero que o rei não tenha mandado prender Daemon. — Disse em um tom com uma quantidade dosada de satisfação. — É uma grande ofensa, mas como vocês só eram noivos, acho que ele pode ser convencido a ser benevolente.
—Sua bastardinha! Foi você!
Arianne avançou na direção de Lyanna tão logo a viu, mas antes que pudesse alcançá-la, os servos que ainda se empacotavam as coisas dela largaram o que estavam fazendo para segurá-la, enquanto outros sacavam adagas de suas mangas ameaçando a dornesa com as lâminas. Lyanna nem mesmo piscou, seus passos foram lentos e precisos, se aproximando depois da Martell já ter sido contida.
—Você estava certa, sabia? Você e Nym acertaram em cheio… Eu amarrei Westeros de novo. Eu trouxe paz… E eu contratei e escolhi pessoalmente sua comitiva, e cada servo desse castelo. Ellaria sempre foi muito enfática sobre a confiança naqueles que têm acesso aos nossos momentos mais íntimos… — Lyanna fez um gesto com uma das mãos, e os servos a soltaram e voltaram a trabalhar. — Se eu quisesse ser rainha de Westeros, eu não precisaria de você para isso… Nem de Doran ou Nym. — Lyanna retirou uma carta de uma das mangas de seu vestido, um brasão peculiar selando a carta em cera negra. — Isso é para Doran. Você e Nym vão voltar hoje para Dorne, e avisá-lo que não é preciso representantes de Dorne no pequeno conselho do rei, sendo ele mesmo meio dornês. E você vai evitar estar na presença de dragões de novo. — Lyanna colocou a carta em cima de uma penteadeira que já havia sido esvaziada, desviando os olhos de uma Arianne que ainda parecia um pouco chocada demais para reagir. — Na próxima esconda melhor seus amantes, querida. Especialmente do seu noivo.
Lyanna não se demorou mais nenhum segundo ali, saindo em passos quase ansiosos para o seu almoço com Lady Sansa. Talvez aquela pudesse ser uma ótima de maneira de quebrar o gelo, a princesa de Dorne dividindo a cama com um bastardo seria a fofoca da corte em pouco tempo mesmo.
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