A torre da Mão tinha virado um tipo de “front” temporário na Fortaleza Vermelha. Enquanto sua comitiva se instalava, e o exército de Imaculados ia tomando conta da cidade, Daenerys não confiava em ninguém que já estivesse em Porto Real antes de sua chegada. Sua desconfiança quase abalou sua relação com conselheiros muito próximos. Mas no fim, a rainha precisava se lembrar que precisava até dos homens em quem menos confiava.

—Não faça isso, não me olhe como se eu tivesse cometido alta traição. Eu fiz o que me pediu para fazer. — Tyrion Lannister estava sentado à direita de Daenerys, no lugar que o pai ocupou um dia, ao lado do pai da rainha.

—Fez tudo que pedi, em nome de Aegon VI? Você melhor que qualquer um deveria saber minha posição nisso tudo. — A rainha disse em um tom um pouco impaciente.

—As coisas ficaram confusas… — Varys começou a falar. — Não sabíamos onde você estava, vossa graça. Cersei precisava ser parada, e eu falhei em prever os planos do príncipe Doran. No fim parecia que todos fizeram um acordo silencioso para promover a casa Targaryen. Mas nunca houve dúvida para nós sobre quem se sentaria no trono.

—Isso não parece ter ficado muito claro para todo resto… — A rainha se colocou de pé, a fúria ainda proeminente em seu tom.

—O que deveriamos ter feito? — Tyrion também se colocou de pé, agora com um tom menos paciente do que o anterior. — Deveriamos ter confrontado o garoto com o exército de mercenários e a garota com a guarda dornesa? Nossa missão era encontrar aliados para a casa Targaryen, e acabar com essa guerra com o mínimo de derramamento de sangue. Vossa graça, acho que há coisas mais importantes a fazer do que discutir o que já não pode ser mudado. — Tyrion respirou fundo. — Você é a rainha. A presença deles não a enfraquece, pelo contrário. Dá ao povo a segurança de uma continuidade. Herdeiros.

—Eles não são meus herdeiros! — Daenerys falou com firmeza. — Eu não sei quem são.

—Eu não sei sobre as aventuras de Lorde Jon Connington nas Cidades Livres, mas sobre a garota, na minha opinião, não há qualquer sombra de dúvida. — O anão caminhou até uma mesa e serviu-se de uma taça de vinho. — Se os Martell fossem produzir uma falsa herdeira seria Rhaenys, não uma filha perdida da mulher por quem seu irmão trocou a princesa Elia. A ideia de que uma filha de Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark exista e esteja viva até hoje, crescido longe das vistas de todos, é tão absurda que ninguém jamais tentaria inventar… Então eu só posso imaginar que é verdade.

—Eu posso atestar a identidade de ambos, vossa graça. Eu mesmo me encarreguei do acobertamento sobre os seus sobrinhos, para proteger a descendência da casa Targaryen. — Varys se adiantou, agora com um tom mais alto na voz.

—”A descendência da casa Targaryen”? Diga-me, Varys… Quem mandou veneno para matar a mim e meu filho nas Cidades Livres? — Daenerys virou-se para o eunuco com seus olhos violeta em chamas. — Quem informou a Robert Baratheon que eu estava esperando um filho de Drogo? — A rainha deu a volta na mesa em passos lentos, até não existir mais moveis entre ela e a Aranha. — Tudo que você fez até agora foi para assegurar sua própria posição… Serviu meu pai, depois Robert, e agora? Aparentemente temos três dragões que poderiam reclamar o trono… A qual deles você é leal? Ou sua lealdade é apenas para com você mesmo?!

Varys parecia tranquilo. Sua expressão serena e pouco confiável não mudou em nada com as acusações e a postura ameaçadora de Daenerys. O eunuco se colocou de pé, sem desviar os olhos da rainha. Talvez ele estivesse pensando em uma resposta inteligente, talvez estivesse ponderando como não provocar ainda mais a mulher.

—Robert foi uma inquestionável melhora ao reino do seu pai. Ele não era um rei ruim, ele simplesmente não se interessava em ser rei. Por muito tempo ele deixou os assuntos do reino para homens mais capazes. Jon Arryn, Eddard Stark… Bons homens. Mas eu sabia da paz delicada na qual nos encontrávamos, como eu sabia no dia que coloquei aqueles bebês em segurança, com pessoas que eu sabia que os manteriam longe das garras de Robert. — O olhar do eunuco não vacilou por nenhum momento dos violeta da rainha dragão. — Eu já tinha ouvido falar de Viserys, mas eu não sabia nada sobre você até seu casamento com Khal Drogo. Como poderia? Eu tinha certeza de que Jon Connington voltaria quando Aegon tivesse idade, e quando ele chegasse haveria uma princesa criada em Dorne para fortalecer a reivindicação dele. Aegon e Lyanna não são dois oportunistas ou usurpadores da sua coroa… São dois jovens capazes, que como você não tiveram uma vida fácil. Sentiram frio, medo, incerteza. Príncipes legítimos crescendo como bastardos, vendo e vivendo entre o povo comum, e que como eles não desejam nada além de paz. — Varys ousou, e deu um passo na direção de Daenerys. — Você perguntou onde está minha lealdade. Minha lealdade está com o povo, vossa graça. Os pobres coitados que vão morrer de frio e fome no inverno que se aproxima. As pessoas que sofrem em governos corruptos e prosperam em governos justos. Eu não sou um fanático, não recompensarei incompetência com lealdade cega. Se é isso que espera de mim, então é melhor me dar de comida para os seus filhos…

—Eu não acho que isso seja necessário. Vossa graça, Lorde Varys tem provado sua lealdade inúmeras vezes. Eu não teria chegado aos seus serviços se não fosse por ele. — Tyrion se adiantou tentando intervir antes que aquilo fosse longe demais.

—...Mas se me der uma chance, vossa graça verá o quanto eu irei trabalhar para que o seu reinado seja a melhor Era deste continente. — Varys continuou, o olhar ainda firme e a expressão serena sem titubear em nenhuma palavra.

Daenerys parecia pensativa. Os olhos de dragão ainda semicerrados, olhavam para o eunuco como se tentasse avaliar a veracidade de suas palavras. Era muita coisa para digerir. No fundo, Daenerys sabia que eles estavam dizendo a verdade, mas a ideia de alguém com uma reivindicação mais forte que a sua era desestabilizadora, mais ainda quando haviam dois deles… “Três cabeças de dragão”... A loira deu as costas para os dois e voltou a sentar-se em seu cadeirão. Ela não virou rainha apenas por uma reivindicação. Tinha conquistado cidades no Leste, tinha libertado milhares de pessoas escravizadas. Se um dos dois tentasse se opor a ele, descobriria rapidamente que não eram adversários a altura.

—Quando achar que eu estou sendo incompetente, Varys, me avise antes de me substituir. — Os olhos dela encontraram os dele novamente, o fogo ainda estava lá. — Se você me trair, eu não vou cortar sua cabeça, vou queimá-lo vivo. — O tom sussurrante e firme de Daenerys arrancou um arrepio de Tyrion. — Agora… Me falem mais sobre meus… Sobrinhos… Posso confiar neles?

—Eles precisam de papéis. — Varys voltou a se sentar no mesmo lugar que ocupava antes. — Precisam saber qual o lugar deles na corte, e como podem contribuir. Sua chegada foi muito chocante, e o jovem Aegon parece orgulhoso. Acredito que você precisa ganhar a lealdade deles, vossa graça, para que ninguém tente colocá-los contra você.

—E eu deveria ficar agradecida pelo serviço que prestou mantendo-os escondidos… — Daenerys suspirou com um certo cansaço. — O que vocês sugerem?

—Você pode começar conversando com eles. Tentar conhecê-los mais intimamente, talvez. — Tyrion sugeriu enquanto terminava sua taça de vinho. — Minha esposa ficou muito próxima da princesa, talvez eu pudesse conversar com ela e descobrir alguma coisa em comum para… Quebrar o gelo.

—Não. — Daenerys foi firme. — Eu pedi que ficasse em Porto Real em segredo para lhe enviar em outra missão, Lorde Tyrion. — A rainha estendeu uma das mãos para Missandei, que se postava fiel e silenciosamente em um dos cantos da sala. A jovem de Naath se adiantou e entregou um pedaço de pergaminho para ela. — Os homens que você enviou para buscar seu cunhado voltaram com essa mensagem… Aparentemente a guerra ainda não acabou. O Norte se declarou independente, aliados com o Vale. E eu temo que o Tridente venha a mudar de lado logo em seguida. — Daenerys passou o pergaminho para Tyrion. — Você é casado com uma Stark, eu confio que sua relação com os nortenhos seja melhor do que a dos seus irmãos. Então eu vou mandá-lo Norte, para negociar termos de rendição, e da volta de metade do meu reino para a paz com a coroa.

—Não sei se posso apelar para o meu casamento como ajuda nesse caso. Sansa e eu fomos forçados a casar, sem a permissão dos Starks. — Tyrion explicou enquanto os olhos corriam pelo pergaminho, tentando entender melhor a situação.

—Lhes ofereça a anulação do casamento, então. O perdão da rainha, e a promessa de julgamento justo a todos os crimes de guerra… Ou Fogo e Sangue. — Tyrion ergueu os olhos com uma expressão contrariada, a boca torta se abrindo para protestar, antes de ser parado por um gesto da rainha. — Meu pai e meu irmão foram vencido pela revolta dessas três grandes casas, e eu não pretendo que aconteça o mesmo comigo. Eles podem viver em paz comigo, ou podem morrer como traidores. Eu vou evitar ao máximo mais derramamento de sangue, mas se precisar recorrer a isso, eu não vou hesitar. Deixe isso claro para esse… Esse… — Daenerys pegou o pergaminho das mãos de Tyrion novamente. -...Jon Snow que se diz rei do Norte.