(...)

—Hã, bem... as almas não são banhadas no Lete quando decidem reencarnar? Como Melina pode lembrar que era, hum, é ,Bianca?

—Eu...não me lembro, Percy. Quer dizer, não posso dizer que são memórias. É... como uma sensação, uma coisa dentro de mim. A única coisa que há de diferente comigo é que às vezes, tenho vislumbres de cenas estranhas, que não fazem sentido algum...eu tive a sensação que conhecia você.

Annabeth mudou o peso de um pé para outro.

—Hum...mas que tipo de coisas, Melina?

—Havia entulho. E havia pessoas. Semideuses, e um sátiro. Agora eu vejo melhor! Você estava lá. -Ela apontou para Percy. — E havia uma coisa enorme, um gigante, acho, e depois disso; eu não sei como explicar. Uma sensação estranha, uma corrente, calafrios...

—Como um choque? -Nico perguntou, triste.

Melina assentiu.

—Sim, como um choque.

Nico escondia o rosto entre as mãos.

—E foi assim que você morreu, Bianca. Não estava preparada para lutar, mas, mesmo assim, se sacrificou pelos amigos. Pereceu por causa de um brinquedo. E foi minha culpa...se ela não tivesse pego aquela estatueta amaldiçoada, estaria aqui, conosco!

Ainda era possível ver a mágoa nos seus olhos, e em cada palavra amargurada que saia de sua boca. Percy começou a se perguntar se Nico realmente havia lhe perdoado pelo que acontecera. Se ele realmente tinha acreditado em suas palavras.

Melina abraçou o irmão e enxugou-lhe as lágrimas que desciam pelo seu rosto pálido.

—Mas eu estou aqui. Eu sou Bianca. Bem...posso não ser exatamente a Bianca di Angelo, porque meu corpo agora é este; e não me recordo de nossas memórias, mas posso ser a mesma irmã que te protege, a mesma irmã que te ama...como Hazel é, como Dânae foi, como Ela foi...

A luz bruxuleante das tochas no túnel se projetava formando sombras no rosto de Filho de Hades. Todos se mantinham em silêncio agora, as palavras de Melina pairavam no ar, como se o mundo se resumisse apenas em Nico e ela. O rosto de Nico agora abandonara a expressão de rancor.

—M-me desculpe... eu não posso forçá-la a ser outra pessoa. Você é fantástica, porque é Bianca. Mas, sobretudo, é mais importante do que isso, também é a Melina, a minha irmã querida. Eu tenho vergonha de estar chorando agora, quando eu poderia estar agradecendo. Agradecendo por você existir. Agradecendo pelos deuses terem enviado você a mim. Justo você, que é a fusão das duas pessoas que eu mais amo no mundo. Eu não vou perder você outra vez.

(…)

O túnel escuro e com aspecto velho parecia não acabar. As tochas de fogo grego tornavam o lugar com aspecto semelhante a uma masmorra daqueles castelos medievais. Annabeth começara a falar sobre como o ângulo e o espaçamento das estruturas as sustentavam poderiam favorecer uma iluminação melhor, como uma arquiteta. Em certo ponto do caminho, Percy tropeçou em uma ossada, decididamente não humana.

—Ok, alguém sabe o que é essa coisa aqui?

Annabeth se ajoelhou para observar os ossos.

—Não faço a mínima ideia...mas olha o tamanho das presas desse bicho!

—Daria um bom abridor de latas.-Percy riu nervoso.

Após alguns metros o túnel se bifurcava, indicando três caminhos idênticos. Nico olhou para Annabeth e para Percy, intrigado.

—E agora?

Percy lembrou de uma situação parecida, quando Annabeth quase teve de escolher um dos caminhos, sob a pressão daquele deus bipolar, Jano. Ele dissera que um levava à continuidade da missão. Outro, a morte certa.

—O da esquerda.-Melina soou confiante. Estivera tão calada durante o percurso, que ouvir sua voz espantou os meninos.

O grupo a fitou.

—O da esquerda parece ter coisas boas. O resto tem cheiro de morte. Confiem em mim.

Ninguém discutiu. Confiar num palpite de uma menina de sete anos? Bem, por que não? Cheiro de morte também parecia ruim. E seguiram pelo túnel da esquerda.

O túnel se abria em um imenso salão. Havia colunas gregas, vinhas e flores enfeitando o ambiente. Uma música soava ao fundo. Uma grandiosa mesa de mármore e toalhas de seda ocupava o centro. Morangos, queijos, muffins, pães e geléias estavam dispostos nela. Os meninos arregalaram os olhos.

Vozes soaram do outro lado do salão.

—Eu não aguento mais! Esse lugar é terrível, e está fazendo mal a nós. Eu falei: não caia na conversa dela, quando tem vantagens demais, desconfie...mas mesmo assim você acreditou!

—Quantas vezes tenho que dizer que não foi culpa minha, Wendy! Não sabia que ela estava blefando!

A que se chamava Wendy continuou a tagarelar até finalmente perceber a presença das visitas. Ela se dirigiu até a entrada.

—Ora, temos visitas! Podem sair de trás dessa rocha. Nós somos legais. Juro!

Os semideuses entraram no salão.

—Trixie, Dayla, olhem o que nós temos aqui. Semideuses! Visitas!

As garotas apareceram ao lado de Wendy numa nuvem de poeira. Eram incrivelmente lindas: cabelos cacheados e castanhos emolduravam suas faces e desciam até a barra de seus vestidos cor de caramelo, do mesmo tom da pele. Os olhos mudavam de cor: ouro, marrom e mel. Eram muito parecidas, embora cada uma carregasse uma tiara floral de cores diferentes nos cabelos.

Dayla soltou um gritinho empolgado.

—Há quanto tempo! Que maravilha! Prazer! Sou Dayla! -Dayla apertou a mão de cada um deles e piscou para Percy, deixando Annabeth desconcertada. Quando viu Melina, apertou as bochechas da garota.

—Ela é uma gracinha! Queria ter uma irmãzinha que nem você!

—Hum...quem são vocês? -Melina perguntou massageando a bochecha dolorida.

—Criaturas infelizes e encarceradas, meu amorzinho!

—Wendy!!! -As garotas a rempreenderam.

Dayla e Trixie convidaram os convidaram a sentar e comer, enquanto Wendy falava.

—Nós somos epigéias, querida.

—Hã, desculpe... o que são epigéias? -Percy perguntou enquanto pegava um muffim azul.

Annabeth chutou a perna dele por baixo da mesa.

Trixie fez um beicinho ofendido.

—Sempre é assim. Todo mundo conhece as dríades, as nereidas, as náiades, mas nunca sequer ouviram falar de nós!

Dayla parou os olhos cor de mel em Percy, sorriu e piscou de novo.

Annabeth começou a falar afobadamente, fitando Dayla:

—Desculpe, Trixie. É que o meu namorado, Percy, não sabia. O meu namorado não sabe de várias coisas. Geralmente sou eu quem ensino a maior parte da mitologia para o meu namorado. Já mencionei que ele é meu namorado?

Nico e Melina lutavam para não rir da cena. Estavam tão exaustos que tudo parecia ser dez vezes mais engraçado.

Até mesmo Percy parecia ter dificuldade para se conter. Amava Annabeth com todas as suas forças.

Wendy surgiu perto de Annabeth e sussurrou no ouvido dela:

—Não ligue para Dayla. Ela está meio carente, sabe? Mas você fez a coisa certa. Bem feito!

A menina enrusbeceu.

Quando Nico viu que Melina estava para explodir na gargalhada, pigarreou.

—Bem, o que Annabeth quis dizer é que Percy não queria ofender ninguém. Nós sabemos quem vocês são, Trixie. São as ninfas da terra.

Trixie suspirou tristemente.

—Muito bem, Filho das Sombras. Somos ninfas da Terra encarceradas nesse labirinto. Eu diria que somos uma das poucas coisas boas que tem aqui. Ouçam: esse lugar é maligno, capaz de mudar a essência das criaturas. Não é um lugar para semideuses de bem como vocês. Aconselho a saírem daqui. Sei que já aconteceram coisas ruins. Sinto cheiro de sangue e monstros em cada um. Se querem viver, tratem de procurar uma saída, o quanto antes melhor.