A violinista
1 Caso 1
Linhas da vida.
Podem ser finas, podem ser longas. podem ser emboladas, frágeis, claras.
Elas demarcam sua caminhada por esta terra. Se desgastam a medida que desvia do curso que deveria seguir. Apodrecem.
E o meu trabalho é poda-las.
Eu as observo a medida que me aproximo de meu alvo. Sua linha da vida tão obscura quanto breu.
O som do violino aumenta quando entro no cômodo abafado, não devia ser capaz de sentir mudança climática, talvez seja uma lembrança de uma vida passada? Uma leve sensação.
Continuo tocar minha melodia agradável ao entrar no bar, as pessoas movem os pescoços, procurando a origem do som. Não acham.
Não estou em lugar algum que possam me ver, suas linhas obsoletas os impedem de ver qualquer coisa além de seus profundos desejos carnais, completamente desviados de seus caminhos naturais.
Estavam desperdiçando seus dias em bebidas douradas, dinheiro sujo e jogos de azar.
Se pudesse vomitar teria feito naquele momento.
O homem se move pelo bar rápido. nem mesmo nota o som do violino que o segue. Enquanto caminha vejo mais uma vez sua linha da vida.
Revela uma vida de dificuldades aprofundada pelos vícios em jogos, bebidas, ganhar e perder dinheiro facilmente.
Vi também sua singela casa numa das regiões mais pobres desta cidade, com as paredes de madeira que não impediam o frio de entrar e as telhas velhas que se balançam ao menor dos vento.
Vi a menina escondida num dos quartos sem porta. Não tinha mais que 5 anos. Estava enfiada em cobertores puídos, abraçava os cabelos louros embaraçados e sujos. Seu estômago ronca.
Ele sabia que ela ficava lá. Sabia que ela tremia ao ouvi-lo entrar em casa, ao ouvi-lo tomar mais uma de suas garrafas de vidro com líquidos estranhos.
Ela se encolhia, cantava músicas alegres pra se distrai, o mais baixo que podia para que ele não a encontrasse depois que... depois que...
O homem entra pela porta dos fundo. Há uma mesa com outros 3 homens com linhas da vida detestavelmente opacas.
Senti mais náuseas, mas continuei a tocar. O arco desliza pelas cordas anunciando o tempo que lhes restava.
Senta-se com eles. Um sorriso desagradável nos lábios engordurados. Ele ergue papéis acima da cabeça, sente-se triunfante em anunciar que apostara seu ultimo item de valor.
Há uma foto da menina no documento. Ela sorria. Era apenas uma criança, um bebê. A espera do mundo e esperada por ele.
Um dos homens não esconde sua repulsa ao notar que acabara de entrar numa aposta com uma vida em jogo.
Eles jogam suas cartas. Erro algumas notas, mas não me importo, acabará em breve.
Um dos homens sorri e coloca suas fichas no meio da mesa. Eram muitas, meu alvo sorri também, passando a língua pelos dentes saboreando como só aquela quantia seria o suficiente parar sanar suas dívidas.
Ou criar mais.
Estava valendo a pena, ganharia mais do que sonhou e perderia apenas algo que já lhe era um fardo.
Que o irritava desde que soube de sua existência.
Eles mostram as cartas, mas já é tarde, minha música chegou ao fim.
Me movo em torno da mesa enquanto seus movimentos se tornam lentos. Cada carta virada, cada expressão seja de horror, de vitória. Posso ver tudo, lentamente se formando enquanto faço uma volta completa.
Não deixo que as cartas de meu alvo sejam totalmente viradas. Não o merece. Não terá o gostinho de vencer ou perder.
Meu empregador me permite pelo menos isso. Tudo está em meu controle.
Você é o meu alvo e eu decido sua forma de partir.
Vejo mais uma vez a menina, seus olhos são de um tom impar de roxo profundo. Vejo suas marcas nas pernas, roxas, amarelas, da última vez que meu alvo se aproximou dela.
Sua última vez.
Passo o arco pela linha escura e puída, e ela se rompe. Minha última nota.
As labaredas sobem do corpo do homem na ponta da mesa, ainda em câmera lenta, ilumina todo o pequeno e úmido cômodo dos fundos. As garrafas na mesa explodem jorrando labaredas nos outros presentes.
Agora, em tempo real, eles se agitam, batendo nas chamas para se salvar. As paredes já crepitam acesas, em brasa.
A mesa de jogo está em ruínas, as cartas enroladas e cinzentas pelo chão e a foto da menina derretida num canto. Alguém deve estar gritando, mas não me importo.
Eu espero, enquanto queima, enquanto se desfaz em uma fumaça de cheiro terrível, tóxica.
O lugar se desfaz, brilhando na noite. Dou uma última olhada na linha da vida em pedaços que se esvai, pensa primeiro em seu ultimo caso de amor. Uma moça bonita com riso fácil, que partiu por não suportar viver com alguém como ele.
Ainda sentia saudades anos depois.
Pensa, também, no dinheiro perdido. "Cheguei tão perto..."
Seus pensamentos então se perdem junto as cinzas de seus ossos. Não há arrependimentos quanto a criança esquecida no quarto, de grandes olhos assustados. Seu estômago ronca mais uma vez.
Geralmente não sou sentimental ao ponto de pensar em alguém, apenas sigo as ordens de meu empregador. Assim que deve ser. Em raros casos, uma alma ou outra acabava escapando.
Se tivesse emoções, talvez chorasse em simpatia.
Dou as costas ao cenário de destruição que fora o antigo bar. Só então noto a comoção em salvar o estabelecimento, engolido pelo fogo súbito.
Haviam outros corpos jogados ali enquanto caminhava para fora do que seria o quarto dos fundos. Pertenciam aos que, muito bêbados, não conseguiram escapar. Não que me importe, não haviam linhas da vida a se salvar num lugar como aquele.
Agacho-me entre os escombros para guardar o violino com cuidado. Limpo as cinzas que caem em meu vestido preto longo, havia pontas queimadas aqui e ali. Suspiro. Precisarei de um novo.
Caminho para fora do local. Sirenes ecoam, mas já sei que não há o que se fazer. Continuo em direção contrária à multidão curiosa que se forma.
"Ah, que tragédia!" gritam.
A verdadeira tragédia humana está bem na sua frente, ao olhar no espelho. Seres agraciados com o poder da escolha e mesmo assim permanecem em erro. Justificam-se. Enchem-se motivações e fins "nobres". Não há mais morais e princípios que os impeça de agir como verdadeiros monstros no lugar de seres humanos.
A natureza humana que era naturalmente trágica. Fadada ao fracasso de evoluir. Se perdiam com facilidade.
Algo precisava ser feito, e estou apenas cumprindo meu papel.
Dou as costas de vez a luz que transforma noite em dia neste pequena cidade. A medida que me afasto da destruição, os sons se acalmam, o vento fica frio novamente. É apenas outra noite.
Chego a igrejinha no centro, é linda vista de fora, brilha como uma joia. Abro suas enormes e barulhentos portais, caminho pelo salão cheio de longos bancos de madeira e estátuas frias de santos que me encaram.
Já as conheço de cor, então, continuo até os fundos onde adentro a portinhola azul para o pequeno quarto que habito. Deixo o estojo do instrumento com todo cuidado em seu canto específico perto da janela com vitrais.
Pra que vitrais num quartinho tão pequeno? Vai saber.
Olho mais uma vez o vestido chamuscado. Tão bonito, mas deverá ser descartado. Precisarei de roupas novas, uma pena, já que gosto de estar vestida de acordo ao realizar meus trabalhos, para o caso de alguém me ver em serviço.
Mesmo que isso jamais tenha ocorrido.
Sou mais como uma entidade, um vulto... Faço o trabalho designado por meu empregador, sem questionar.
E assim, quem sabe, poderei existir novamente.
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