Acordei ao lado de meu namorado após uma noite bastante... Intensa, eu diria. Tivemos um jantar bastante romântico e eu não resisti à tentação de ir para a cama com ele, mesmo com tão pouco tempo de relacionamento. Eu sei, um mês é realmente um espaço muito pequeno de tempo entre o primeiro encontro e a primeira transa de um casal. Mas vamos combinar que ter um namorado como o Mauro faz a gente ter certos desejos que são difíceis de controlar.

Deitado na cama e ainda dormindo como um bebê, Mauro Schneider parece um deus grego de um metro e oitenta de altura, nos quais cada músculo se ajustava perfeitamente. Acordado, mostraria seus olhos azuis e um sorriso fácil em seu rosto bronzeado, emoldurado por curtos cachos negros. Obviamente, usava esse corpo em seu trabalho como modelo.

Nós nos conhecemos em um coquetel do lançamento da revista de moda “Ousada”, na editora para a qual trabalho como fotógrafa há cerca de dois anos. Na ocasião, ele seria a capa da edição de lançamento e eu faria o ensaio fotográfico do modelo mais badalado do momento. Durante esse período do ensaio, fomos nos conhecendo melhor e, quando ele me disse estar na pista, investi.

Eu não seria besta de perder a chance de ter um deus grego para mim, convenhamos.

Tudo aconteceu rapidamente, e cá estamos. Tivemos uma noite tórrida e bem divertida. Romântica? Não muito. Acabou que a tentação carnal falou mais alto e me entreguei mais cedo do que eu realmente queria.

Seria eu meio tarada? Talvez. Mas isso não importa no momento, certo?

Ouvi o toque de um telefone acusando uma chamada. Alcancei-o na mesinha de cabeceira, para ver quem estava me ligando. Quem me ligaria tão cedo, e no sábado? Li o nome na tela de chamada e estava escrito “Mozão”.

Peraí... “Mozão”?

No meu telefone não tem nenhum “Mozão”.

Lembrei que Mauro e eu temos telefones idênticos, mesmo modelo, mesma cor e capas parecidas. A diferença era o fato de o meu ter a película de vidro trincada das várias quedas que o aparelho sofria. Ou seja, o telefone na minha mão era o dele.

Se eu não era o “Mozão”, quem era?

Tentei desencanar, porque talvez fosse alguma ex dele querendo encher a paciência, mas algo na minha cabeça dizia que não dava pra desencanar. Enquanto ele continuava ferrado no sono, fiz algo que eu jamais pensei que faria: vasculhar o telefone alheio. Como o telefone só desbloqueava por impressão digital, simplesmente encostei de forma bem sutil o aparelho para ler a digital de seu polegar, o que me permitiu acesso livre.

O Sherlock Holmes que residia em mim não permitia que eu me desse por satisfeita. Era como se algo em minha mente me alertasse que eu não seria a única em quem Mauro dava uns pegas. Foi quando acessei a galeria de fotos e vi fotos dele com uma loira... E em algumas fotos com essa loira, percebi que ele estava com uma aliança.

Espera... Eu era a amante dele, ajudando a colocar chifres na pobre mulher?

Tudo bem, eu sou namoradeira, mas eu tenho um código próprio de ética e nele pus que jamais me submeteria a ser amante de ninguém. Ser cúmplice de chifre não dá. Minha mãe tomou chifre do meu pai com a então melhor amiga dela e, desde que eu soube a respeito, pensei que não deveria ser como aquela mulher com quem meu pai está hoje.

Mauro não vai ficar impune e eu vou dar a ele o que merece... Ou não me chamo Irene Motta!

*

Combinei de encontrar o Mauro no restaurante na noite seguinte e me produzi toda. Coloquei um tubinho vermelho de alcinhas, sapatos de salto agulha pretos e decidi usar meus cabelos crespos soltos e volumosos. E, claro, caprichei na maquiagem para valorizar o tom negro da minha pele para finalizar a produção matadora.

Prometi que lhe faria uma surpresinha no jantar e ele demonstrou interesse após relutar. Tudo conforme o planejado. Faltava apenas o toque final para o meu plano dar certinho.

Na mesa que nos fora reservada estava a “surpresinha”: uma loira chamada Lúcia Souza Schneider estava sentada em uma das cadeiras e exibia um sorriso que eu descreveria como assustador. Sabe aquele sorriso de quem havia pego alguém no pulo e estava doida para dar uma surra no dito-cujo? Exatamente aquele tipo de sorriso bem perigoso que ela usava para recepcionar Mauro, que percebi que estava meio sem reação.

― Boa noite, Mauro! – Lúcia o saudou. – Você e sua amiga têm muito bom gosto, não é? Não conhecia esse seu lado.

― Lúcia? O que faz aqui?

― A Irene foi muito gentil e me convidou. Disse que valeria a pena vir aqui. Ela é uma ótima amiga, não acha?

Ele me encarou.

― Desde quando vocês se conhecem?

― Desde ontem. Por que não me contou que era casado?

Como esperado, ele não respondeu de imediato.

― Pois é, “amor” – Lúcia disse “amor” com um acento bastante irônico e eu tentava me segurar para não rir do homem. – Por que não contou a ela que estávamos casados há DOIS ANOS?

Resolvi intervir e quebrar o gelo:

― Pessoal, vamos aliviar a tensão e fazer um pedido. Acredito que o Mauro não terá problema em ser gentil e fazer o pedido dos pratos que escolhermos. Com fome a gente realmente fica com um humor terrível!

Ele era do tipo de pessoa que tentava fugir de qualquer briga, então não pensou duas vezes em pedir para mim e para Lúcia os pratos que queríamos provar daquele jantar nada romântico. Obviamente comíamos sob uma boa dose de tensão, mas não houve qualquer problema no período. E pedimos os pratos mais saborosos disponíveis.

O garçom chegou para deixar a conta e, antes que Mauro pegasse o cartão de crédito para fazer o pagamento, Lúcia se pronunciou enquanto tirava a aliança de seu dedo:

― Gostei muito do jantar, muito obrigada! Mas hoje é o nosso último como casal. Pedi ao meu irmão para buscar as minhas coisas amanhã cedo no seu apê, vou continuar na casa dos meus pais, de onde eu nem deveria ter saído.

― Como assim? – Mauro arregalou seus olhos em surpresa, sob os olhares meu e do garçom, que parecia estar se divertindo com aquela cena. – Por que tá agindo assim, amor?

― A Irene me contou tudo, porque descobrimos que temos em comum o fato de não gostar de dividir o mesmo homem com ninguém.

― Irene...?! – ele me encarou chocado.

Peguei minha bolsa e me levantei da mesa quando Lúcia fazia o mesmo.

― Quem muito quer, Maurinho querido, nada tem.

Nós duas seguimos até a porta do restaurante, deixando um Mauro totalmente sem reação e que encarava a aliança deixada sobre a mesa. Tudo isso, sob o olhar do garçom que segurava o riso como naquele meme do Eduardo Sterblitch.

― Obrigada pelo jantar de hoje. – agradeci. – Estava delicioso! Tchau, tchau!

E assim, Lúcia e eu saímos plenas com o resultado de nossa vingancinha. Parecíamos amigas de longa data, chamando um Uber para ir curtir uma balada e curtir a nossa solteirice, soltinhas na pista.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Obrigada a quem leu e até a próxima! ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!