— Você se chama Daniel por causa de Daniel na cova dos leões.

Era uma senhora de papo no pescoço e embora a pele negra ainda não possuir um envelhecimento significativo, seus cabelos crespos começavam a grisalhar. Ela fumava na cadeira em frente a porta quando disse isso para o seu filho Daniel, arrumado para ir à escola.

— Vá e não mate aula. Você precisa de um futuro.

Seus olhos negros eram sábios e era certo obedecê-la, mas Daniel agia de forma contrária, ele acreditava que não era um homem de fé. Não, como o Daniel da Bíblia, que sobreviveu por causa de uma. Para ele, as coisas não faziam sentindo às vezes.

Ele puxou a porta para fechá-la, mas sua mãe o chamou antes para lhe dar um beijo.

— Você tem ficado muito mal educado, tratando assim sua mãe...

Ela pegou o seu rosto e o beijou, Daniel sentiu o cheiro de cigarro misturado com um cheiro de café e um de desodorante, enquanto a abraçava. Quando esteve livre de seus braços gordos, partiu pra escola até desviar do caminho em certo ponto. Ele havia combinado com Tadeu e Dudu de se encontrarem na casa abandonada para matarem aula juntos, enquanto fumassem.

Daniel entrou na casa, desviando de tijolos e vigas de madeiras, depois arremessou uma caixa de cigarros — que roubara de sua mãe — para Tadeu. O rapaz pegou em cheio e Dudu se aproximou dele com o fim de pegar um dos cigarros também.

Enquanto acendiam os cigarros e depois tragar, Daniel observava seus dois únicos amigos que ele não sabia se podia chamá-los de "amigos". Estavam unidos simplesmente por terem sido rejeitados por todos e resolveram se unir. Mas até que funcionava a relação que tinham, pois Daniel acreditava que quanto mais idiota fossem aqueles ao seu redor, melhor seria para passar por tudo no mundo.

Dudu era inseguro, usava óculos e era gordinho. Era um aluno muito burro e sofria bullying constantemente de Tadeu, esse por sua vez era magro e dava a impressão de ter uma personalidade maligna, mas no final não passava de um idiota que gostava de roubar revistas pornográficas de vez em quando.

— Tenho uma surpresa pra vocês! — Comunicou Tadeu, enquanto assoprava a fumaça do cigarro.

Dudu levantou as sobrancelhas, enquanto Daniel continuava a curtir seu cigarro como se não tivesse o ouvido, e não ouvira mesmo. Tadeu costumava abrir a boca só para falar merda.

— É uma revista pornográfica?! — Dudu parecia contente aos olhos de Tadeu, que pensava que aquele gordinho era um punheteiro de uma figa. Ele deu um peteleco no nariz coxinha de Dudu, que reclamou de dor, e foi até a mochila.

— Isso mesmo!! — Tadeu aproximou-se com a revista em mãos e Dudu deu um salto para puxar a revista dele, mas ele levantou o braço a tempo. — 10 pratas.

— O quê?!

— Qual é... o preço original é o dobro disso, seu gordo desgraçado!

Dudu lamuriou, detestava ser chamado de gordo, mas foi atrás do dinheiro na sua mochila, que estava um pouco distante deles. Portanto, Daniel e Tadeu ficaram a sós por um tempo.

— Como tá a coroa? — Perguntou Tadeu.

— Bem. — Respondeu Daniel sem fitá-lo.

Tadeu pensava que Daniel era muito estiloso às vezes, muito por conta do seu jeito quieto. Não entendia por que fazia parte daquele grupo e não no dos “civilizados”.

— Ela sabe que tá matando aula?

Daniel revirou os olhos com a pergunta de Tadeu, ultimamente o amigo cuzão estava agindo como sua mãe e não sabia o motivo.

— Claro que não! Senão não estaria aqui!

Tadeu tragou forte o cigarro e assoprou para cima. — Você é inteligente.

— Onde?! Já viu minhas notas?!

— E daí... escola quer dizer nada, Daniel... — Pisou no cigarro e entregou a revista para Dudu, que estava perto com o dinheiro. — Aproveite bem, seu punheteiro!

Daniel observava Tadeu esfregando a cabeça de Dudu, ele era o único que tratava Dudu como uma pessoa qualquer. Por algum motivo, Dudu não raciocinava direito e muita gente ria ou sentia pena.

— Galera, eu trouxe um lanche, vocês estão a fim de comer? — Perguntou Dudu, assim que escapou dos braços de Tadeu.

— Por que gordo só fala de comida?

Dudu fechou a cara para Tadeu, mas foi buscar a comida mesmo assim. Daniel era o único que continuava a fumar e observava em volta.

— Dudu é um asno.

— Não fale assim dele, cara...

— Assim como eu. — Tadeu tinha as mãos na cintura. — Mas, você é diferente...

— De novo esse papo?

Tadeu se aproximou de Daniel e tomou seu cigarro para depois pisar em cima.

— Mas que porra é essa?

— Daniel, homem de pouca fé não tem colhões e nem meu respeito.

“Fé?”

Achou estranho Tadeu dizer algo que refletira naquele dia. — Tadeu... eu também acho que você não está no lugar certo... por que insiste de me tirar daqui e não você?

— Porque eu gostaria que um amigo fizesse isso pra mim.

Tadeu deu um sorriso leve para Daniel, que ficou um pouco confuso por nunca ouvir a voz dele tão tenra, quando xingava pra caralho.

— Você tem potencial e obedeça a sua velha.

Daniel se lembrou de que a mãe de Tadeu morrera nos últimos anos e que a relação dele com o pai não era das melhores. Talvez por isso se comportava tão mal ou com tanta compaixão, quando pedia para que os deixasse.

— Galera, aqui o salgadinho. — Dudu voltou a eles com um saquinho de salgadinhos em mãos.

— Essa porra já está comida pela metade. — Tadeu observou, fazendo Daniel rir alto com o comentário.

— Sim... mas muito obrigado, Dudu.

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