Notas iniciais
O tema da sétima rodada foi o seguinte vídeo: https://m.youtube.com/watch?feature=share&v=KvfvyuKlEhA (meudeus, essa aqui foi só pra constar, tá fora do horário e nem sei se tem o número de palavras necessário, mas é isto).

Ela e Mirela costumavam ter um cachorrinho quando pequenas. Frequentemente Lindinha, como a chamavam, as acordava pulando na cama e lambendo seus rostos até que levantassem, rabugentas. Quando Tamires nasceu, Lindinha já tinha uns 6 anos e não a acompanhou por muito tempo em sua infância, porém foi uma presença constante na de Mila, que vivia falando a respeito.

Doía lembrar disso, doía mais ainda se ver em uma situação dessas, só que em maior escala. Perder um cachorro pode doer pra caramba, mas é como perder uma avó idosa: você sabia que em algum momento iria acontecer. Perder uma irmã na flor da idade não.

Não deveria ter acontecido e não teria se quem as matou não estivesse lá. Muitas coisas poderiam ter evitado a tragédia, porém era claro para a garota que não era culpa sua nem de ninguém além daquele homem. Às vezes pensava em como seria bom matá-lo, não bastava que estivesse preso, não mesmo. No entanto, acabava por lembrar do jeito doce e calmo de ver a vida que sua irmã mais velha tinha e tentava afastar esses pensamentos. Não seria correto buscar vingança, ainda que justiça de fato não existisse.

Mas, voltando para a infância a qual a memória de Lindinha remetia, Tamires a utilizava como uma tortura para si mesma, revivendo mil vezes cada detalhe e cada memória. Esperava-se que Mila, 5 anos mais velha, não acabasse tão próxima da irmãzinha, porém elas eram inseparáveis. Brincavam sempre juntas, inventando um mundo particular repleto de amor, carinho e piadas internas. Mesmo quando ela já era adolescente e Tamires continuava uma criança, tinha sempre um pequeno espaço de tempo, paciência e amor reservados para a menina. Ela nunca a deixou sozinha.

E assim continuou até seus 24 anos. Afinal, como poderia continuar depois? Morreu, assim como Aninha, como sua antiga cadela ou Virgínia. Em algum momento os seres morrem, então depois o vazio que fica é alimentado com memórias, fotos de criança e objetos estúpidos com algum valor emocional. É alimentado com lápides e cartas escritas nos antigos cadernos da escola. Com a vida que insiste e continuar mesmo depois de perder uma parte sua.