A vida e a morte em dois minutos.
1 Único.
Notas iniciais
Faz tempo que estou sentada aqui. Não sei quanto tempo exatamente, mas sei que minhas pernas já estão totalmente dormentes e geladas. Provavelmente vou pegar um resfriado, mas não me importo; já estou doente mesmo.
Um dia, um homem me falou que, para não me resfriar, eu deveria me agasalhar, vestir meias e uma calça bem grossa. Logo depois me deu um beijo na testa, me cobriu com o cobertor, apagou as luzes e saiu do quarto. Eu não percebia a seriedade de um resfriado até o dia em que esse mesmo homem, meu pai, morreu quando adquiriu uma gripe muito forte que o deixou gelado e sem respirar. Na época, pensei que o cobertor o tivesse sufocado (mesmo sem entender o porquê de sua pele estar gelada, já que os cobertores deveriam aquecer seu corpo). Até chegar o triste dia em que minha inocência foi tirada de mim e descobri que a morte é algo inevitável e cotidiano e que, ainda por cima, acontece com todo mundo. Agora imagine uma criança pequena e indefesa deixar-se abalar pelos sonhos que, incontestavelmente, nunca se realizariam. Essa criança tão pequena, frágil e inocente, que acreditava em fadas madrinhas e príncipes encantados, era eu.
Ah, eu era feliz e não sabia! Como pude, um dia, torcer para que o tempo passasse logo para me ver cheia de responsabilidades? Acontece que eu pensava, todos os dias, em envelhecer para descobrir como seria essa tal morte. A verdade era que eu desejava meu pai de novo. Aquela espécie louca e super protetora que chamamos de pai me deixou em meu aniversário de sete anos. Não importa, na verdade. Meu pai dizia que a morte era só mais uma noite bem dormida, mas ainda não descobri a verdade. Ele me dizia para seguir meus sonhos e que, depois de realizar todos, eu poderia partir dessa para uma “aventura” melhor. Nunca entendi essa frase, mas o fato é que ele nunca mentiu para mim, a não ser essa única vez.
Não consegui cumprir todos os meus sonhos em tão pouco tempo. Também não morei em um castelo com um príncipe encantado. Nunca recebi uma visita da fada madrinha. Nunca me apresentei para um público grande em uma companhia de dança famosa. Nunca publiquei um livro. E, acima de tudo, nunca reencontrei meu pai. Apesar de eu estar certa de que, em alguns momentos, verei-o novamente.
Faz tempo que estou sentada aqui, mas já não sinto minhas pernas ou meu coração pulsante.
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