A vida de um otaku de antes da era da Internet
1 Cavaleiros do Zodíaco - parte 1
Notas iniciais
Ano de 1994, mês… sei lá, isso não importa. Em uma típica casa do subúrbio morava um garoto de onze anos chamado… ah… vamos chamá-lo de Melquezideque, mais conhecido como Melc.
Melc e seu pai tinham um ritual diário: depois que acabava a novela das seis, eles trocavam de canal na sua mais ou menos moderna TV de Philco-Hitashi de dezessete polegadas e colocavam na TV Manchete, onde naquele horário estava passando o programa infantil “Clube da Criança”. Já era quase o final do programa, mas ainda era possível ver alguns episódios de “Bacamarte e Chumbinho”, “Coelho Ricochete” e outros desenhos que já eram velhos naquela época, mas, ainda assim, bastante divertidos.
Certa noite, após o fim da novela, Melc levantou do sofá e trocou para a rede Manchete, porém pai e filho logo perceberam algo diferente. Ao invés dos personagens antropozo… bichos que agem como gente, cores desbotadas e piadinhas da década de setenta, tinha um garoto de olhos enormes conversando com uma mulher de máscara e cheia de curvas.
Desenhos japoneses não eram totalmente desconhecidos naquela época, na década de oitenta chegaram a ser exibidos “Candy Candy”, “Piratas do Espaço” e alguns outros, porém nenhum deles chegou a virar febre como “He-Man”, “Thundercats”, “Caverna do Dragão” e outros desenhos americanos. Mas o que importa agora é que logo Melc percebeu que se tratava de um desenho japonês, e começou a assistir, curioso.
Após dez minutos de desenho (e uns trinta de comerciais), o desenho acabou.
— Sacanegem, parou de passar Bacamarte e Chumbinho! Desenho de luta é chato, ainda mais esses de continuação – disse o pai do Melc, que se levantou e saiu da sala.
Já o garoto estava em choque, sem saber como expressar o que sentia. Óh Zeus do céu, um cara que puxa uma cordinha de uma mochila, é atropelado por um pégaso e uma armadura se monta nele sozinha! A luta com uma guerreira mascarada de cabelos verdes que rasgou o moleque com unhas quase fetichistas, gritos inflamados de “Meteoro de Pégaso” e “Venha Cobra”, muito brilho, sangue jorrando na tela… Ah, e a cereja do bolo foi o protagonista, após vencer a luta e quebrar a máscara da vilã, dizendo “Com a máscara pensei que você seria o próprio demônio, mas agora vejo que nem tanto”. Ou algo parecido.
Preciso dizer que esse desenho era Cavaleiros do Zodíaco?
Melc não viu os cavaleiros nos dias que se seguiram, tirando uma cena quando estava na casa de uma amiga da sua mãe. Mesmo querendo muito, disputar a televisão era difícil naquela época, obviamente não havia ponto adicional de TV por assinatura, muito menos ver na internet, na verdade, até mesmo dois televisores em uma mesma casa era um luxo para poucos. Mas como nosso pobre garoto se tornou um fã daqueles que até tem as falas dos episódios decoradas?
Felizmente, Melc tinha primos. E mais felizmente ainda, ele saía mais cedo da escola toda quarta feira. E abençoadamente, a Rede Manchete passava Cavaleiros do Zodíaco duas vezes por dia, além daquele horário de seis e vinte da noite, também passava dez e meia da manhã.
Era uma daquelas quartas-feiras nas quais ele saía mais cedo da escola e no caminho de casa, resolveu parar na casa do seu primo Edil-Son, afinal, eles eram muito amigos. Ao entrar, encontrou Edil-Son e seu outro primo Daminhão na sala vendo… isso mesmo, Cavaleiros do Zodíaco! Louvados sejam os deuses do olimpo e a falecida Rede Manchete, que Zeus a tenha!
O episódio havia acabado de começar e Melc pôde conhecer mais sobre a série. Já estava no arco do Ikki e já havia outros personagens na trama além do Seiya, na verdade, aquele episódio foi mais centrado no Shyriu. Mas de toda a forma, a emoção de ver a luta com seus primos, poder comentar, torcer juntos e ainda aprender alguns truques para conseguir ver o desenho apesar dele passar no horário da escola e depois no horário da novela, isso sim não tem preço.
E morte a Tropicaliente, essa novela demoníaca que fazia as mães não deixarem os filhos verem cavaleiros do Zodíaco! Não a vejam se ela passar no Viva, boicotem os atores que trabalharam nela. Se possível, não vejam a rede Globo.
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