A vida de outro ângulo
1 Observação
Notas iniciais
Vendo todo mundo assim, desse jeito... Faz-me lembrar de como eu adorava o vento frio que congelava — ou parecia congelar — a alma. Agora eu sei que não era a "alma". Também gostava de bebidas que me esquentavam o corpo, de dormir enquanto a brisa sorrateira batia na janela me fazendo estremecer, de como me contavam histórias de terror e eu nunca acreditava em nenhuma delas (as da internet me pareciam mais reais). Músicas de outras línguas me atraíam – francês, alemão – e principalmente as instrumentais — famosas OSTs ou qualquer outra que me chamasse a atenção. Eu? O único instrumento que eu consegui tocar toda a minha vida fora minha velha guitarra e o coração das pessoas. Não esperava ter nenhum sucesso com o pequeno talento, já que minha banda da garagem também não procurava conseguir tours pelo mundo. Éramos adolescentes, mas cada um tinha seu sonho e ser mundialmente conhecido não fazia parte deles.
Por exemplo...
Chad — o baterista. Era o mais velho da turma. Tinha 20 anos, fazia aniversário em fevereiro e cursava faculdade de direito. Compulsivo. Tinha TOC e era o mais animado de todo mundo ali. Seus solos eram inexplicáveis. Eu tinha uma pontinha de inveja de como ele tocava tão bem (e não queria conseguir uma carreira com isso).
Alek era o outro guitarrista comigo. Não chegava a ser tão animado, mas não desperdiçava uma brecha para zoar ou contar uma piadinha. Tinha 18 anos, fazia aniversário em abril e cursava medicina, apesar de não ser muito bom. Ele parecia um pouco comigo nesse aspecto.
Nishi, baixo. Descendente de japonês por parte de mãe. Inacreditável como conseguia fazer o ritmo e segurar duas guitarras ao mesmo tempo. Nishimura tinha bipolaridade; caso errasse mais de três vezes, jogava seu instrumento no chão e ia respirar o ar puro do jardim de casa. Seus surtos nos custaram bastante durante um bom tempo. Ele tinha 19 anos, fazia aniversário em maio e cursava design de jogos digitais. Nada menos esperado vindo de olhos puxados (cá entre nós, tínhamos esperança de que ele fizesse, num futuro não tão longe, os próximos Final Fantasy).
Matt era o nosso vocal. Ele tinha 19 anos, fazia aniversário em agosto e cursava análise de sistema/tecnologia da informação. Não vou esconder que eu tinha uma quedinha por ele e que estávamos estabelecendo uma relação meio que... fixa. Ele era bonito, sabia lidar com todo o pessoal da banda e tinha uma calma inexplicável com todo mundo. Sabia bem controlar seus sentimentos, emoções, e com isso, sabia fazer com que os outros membros também soubessem. Sua presença era mais que essencial.
E tinha eu! Affy, a mais nova do grupo (como se já não bastasse ser a única garota)... 18, fazia aniversário em setembro e cursava algo que no futuro me faria ser uma detetive.
Todos eles estão aqui. Segurando guarda-chuva, vestido preto, alguns querendo chorar e outros querendo esconder essa vontade para poder chorar em casa (eu sei como é).
Se você perceber bem, há uma mulher igual a todos os outros, tirando pelo fato de que ela está usando óculos escuros e pelo cabelo castanho-mel. Essa é a minha mãe, Keefe Campbel. A garota do lado dela (e aparentemente tranquila), de pele bem branca e o cabelo escuro é minha irmã, Lillian. Elas têm respectivamente 38 e 16 anos. Eu não conheço meu pai, portanto, ele não está aqui e nem vai se importar caso saiba da notícia; pra compensar, meu padrasto está (o pai de Lillian). Eric. Esse pessoal em volta deles são alguns parentes meus e conhecidos dos meus "pais". Dizem que eles têm de ficar calados enquanto o padre fala — por isso só se abraçam e dão as mãos. Se eu estivesse ali, já teria falado mais que o padre.
Agora, o último ponto antes de eu começar com toda a história. Junte tudo isso. Meus melhores amigos, minha mãe, minha irmã, meu padrasto, alguns parentes, conhecidos, preto e chuva. Ótimo cenário. Você já sabe o que é, não? Um grande cenário para um enterro. E é isso mesmo. Dentro daquele caixão decorado em branco, tem um corpo de uma pessoa bastante conhecida por todas essas pessoas em volta.
Realmente. Conhecida, querida, e um pouco chata.
Heh... O meu.
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