Eu sabia que alguns milhares de livros eram lidos todos os dias por pessoas que gostavam de ver o tempo passar sem que percebessem. Sabia que alguns milhares de escritores gastavam toda sua criatividade escrevendo seus (futuros) marcantes livros, e sabia que milhares de pessoas nasciam e morriam todos os dias, afinal, era um ato espontâneo (ou não) e não necessitava de consentimento, em 99% dos casos. Havia muita coisa que eu sabia, mas ainda mais coisas que eu não fazia ideia que aconteciam enquanto eu dormia, comia, ria, chorava. Existe um lado escuro das pessoas no qual você nunca vai conhecer, e, acreditem, todos têm um. Eu tinha, você tem, seu melhor amigo tem, seu melhor inimigo tem, seus pais têm. É uma característica infeliz, porém humana. É um de nossos deveres manter esse lado guardado enquanto o tempo passa e mais perto vamos ficando de... Simplesmente perecer debaixo da terra. Falando dessa maneira meio rude, até parece um pesadelo. Eu não posso dizer o número exato de pessoas que encontraram seu caminho no mesmo instante que o meu, mas, estimulando que em 2 minutos, ocorrem, mais ou menos, 227, mortes pelo mundo... Foi gente pra caramba. E como é que as famílias dessas pessoas estão se sentindo agora? — Isso é, caso sua família ligue pra isso, ou esteja perto o suficiente para presenciar uma cena (agora eu sei, modéstia parte,) arrasadora.

Há toda uma regra para as almas depois que você morre. Acredite, quando eu era uma pessoa, tinha todas as dúvidas que qualquer ser humano teria sobre a vida, a morte, e a vida após a morte. Existia? Se sim, como era? Se não, como era também? Será que, se existia, eram todas iguais? Ou, se não existia, o que acontecia, afinal de contas? Dói? Arde? Machuca? É pacífico? Tem uma luz no fim do túnel só para quem vai para o céu? E, se existe resposta para isso tudo, quem foi que as criou? ...Muita coisa.

Costumava passar na TV que “não eram as respostas que moviam o mundo, e sim as perguntas”, e eu costumava a pensar que, no caso, então, eu era um gênio mundial. Nunca conheci alguém que tivesse mais perguntas do que eu. Ah, e antes que me questionem sobre minha crença: eu não era de nenhuma igreja, não costumava a seguir nenhum ritual espirituoso o suficiente para que eu pudesse provar isso para pessoas alheias. Para mim, apenas crer já estava de bom tamanho, desde que Ele pudesse comprovar por Si próprio; como qualquer humano pequei, como (qualquer) humano já fiz coisas boas. E como um pequeno gênio (ou blasfemadora), tinha lá minhas questões sobre meu próprio Deus e Seus feitos.

Pesquisadores descobriram que existe toda uma sequência de morte quando chega a hora de um determinado indivíduo. Primeiro, ele perde a audição. Segundo, a visão (nesse ponto, imagine o quão duro está tanto para ele quanto para quem está o acompanhando tentar entender o que diabos está acontecendo ali, se é que terão tempo para isso); em terceiro, o olfato; em quarto, o tato; por fim, o paladar (ele ainda vai ter tempo de comer um docinho, será? Adoçar a morte não é proibido. Hahaha! Hah! ...Ha.). Vendo de um ângulo diferente (saindo dessa fixação de morte, sofrimento, sangue, blá blá blá), é bem interessante pensar num modo artístico para a morte. Seguimos regras a vida toda, fazemos regras a vida toda, seguimos um padrão sem perceber e até no fim, esse padrão está lá. A sequência de acontecimentos está lá. Se fôssemos parar para estudar todos esses padrões (na vida, na morte) dos dois jeitos (científico e espiritual), gastaríamos a vida toda para chegarmos num padrão: a ciência explica de um jeito, e é daquele jeito que ela funciona; ou Deus fez daquele jeito porque quis. Simplesmente não existe a falta de um padrão no mundo (seja ele no nosso ou em qualquer outro), porque padrões, analisado de um lado bom, faz com que tudo se encaixe, quando executado de uma maneira sábia. Caso contrário, é apenas um ícone a se impor diante a sociedade de manejá-los de uma forma que desejar. Isso existe. Até para –agora– almas como eu.

É engraçado observar que, sem querer – querendo – fomos desviando o assunto para outros que, por uma ponta ali ou aqui, coincidem. Tudo está conectado, infelizmente. Mas felizmente, vamos deixar isso de lado antes que nós percamos nosso caminho de novo.

Tenho certeza de seu pensamento agora. “Você morreu, tem a chance de nos contar sobre como são as coisas, então... por que não faz isso logo?”, não é? Haha, perdão por isso. Vamos ao que nos interessa.

Do começo, então.

O que já sabem? Affy, 18 anos. Morava com a minha mãe, minha irmã, meu padrasto (que aparecia lá só no final de semana), minha gata e minha velha alma em uma cidade qualquer dos EUA. Não éramos pobres, mas também não podres de riquezas (nada de tomar banho em notas de cem, ir para baladas com altas celebridades ou beber vinho em cada refeição ao invés do meu prazeroso suco de maracujá!) aleatórias. Nossa casa tinha dois andares, uma garagem com um carro e duas bicicletas. Uma piscina que dava para o gasto de vez em quando no calor e 40 cm de jardim que minha mãe prezava como se fosse seu pedestal. Ao todo, tínhamos nosso próprio lugar, nossas próprias coisas – era bom de viver com pessoas que você gostava. No meu ver, era bacana morar apenas com mulheres. Nosso relacionamento familiar era ótimo, já que considerávamos normal falar de garotos, sexo, gostos, roupas (por mais que, por esse último, eu não me considerasse muito ligada). Você conhece o tipo de garota que é de bem com tudo, mas nunca a imaginou fazendo compras com outras pessoas? Essa sou eu. E acredite, essa garota fica mais indecisa quando vê duas peças de roupa do que aquela patricinha com uma bolsa da Chanel.

Sabendo disso, já podemos ter uma noção básica das loucuras que aconteciam em casa juntando as três loucas e assuntos femininos.

Minha mãe é do tipo que adora cozinhar – ou seja, Lilian e eu virávamos sua cobaia quando ela terminava de examinar uma nova receita e resolvia fazer (o que durava umas duas semanas, já que, graças a Deus, ela prezava pelo nosso bem-estar e de nossos queridos estômagos). Além de cozinhar, quando o papo era ser liberal conosco, já sabia como agir. Se você fosse uma amiga muito chegada minha, da minha irmã ou dela mesma, e lhe perguntasse “Você gosta de ficar com diarreia?”, ela lhe responderia “Sim, emagrece.” Isso porque ao contrário de pessoas formais, minha mãe odiava todos aqueles rodeios femininos de “Ai, que assunto indelicado” perto de pessoas que ela sabia não ter necessidade disso. OBVIAMENTE, ELA NÃO SAÍA (e espero que não saia agora) POR AÍ GRITANDO “AMO TER DIARREIA!”, porém, deixava a chatice de lado na maioria das vezes para ser alguém melhor – no nosso ponto de vista, alguém com uma mente mais aberta, com mais vontade de viver, com um bom humor mais apurado. Keefe Campbell.

Minha irmã, Lilian, era uma graça, apesar de mais nova. Conseguia ser mais estilosa, mais faladeira, mais tudo, menos encrenqueira. Tinha um gosto bem apurado para comida, para roupas, e para tirar sarro da minha cara (mesmo que fosse de um modo saudável, um modo nosso). Quando juntava para falar de coisas com Keefe, não existia pessoa viva ou alma ambulante que calasse a boca daquelas duas. Elas conversavam MUITO, DO TIPO MUITO MESMO, fazendo parecer uma coisa eterna. Para falar a verdade, eu tinha medo quando aquelas duas começavam... Mas ao mesmo tempo gostava do sentimento de estarmos juntas (mesmo que eu não tivesse metida no assunto); dava a impressão de que estariam sempre por perto.

Isso tudo no decorrer da semana. Ao oposto do que fazem as pessoas normais (que usam a semana para focarem nos trabalhos e os fins para saírem), nós estudávamos e saíamos para festinhas no meio da semana mesmo, sempre que tinha – e sempre que eu estava disposta a acompanhar Lilian (eu tinha os ensaios da banda, claro). Quando chegava sábado e domingo, esperávamos Erick chegar do trabalho e passávamos o tempo com ele, até que segunda-feira chegasse de novo, e de manhã, nos aproximássemos mais uma vez para dar-lhe outro “adeus” temporário.

Foi numa dessas segundas, dia 19 de setembro de 2016, a primeira vez que eu o vi sair do trabalho e vir para casa por terceiros motivos. Era uma tarde, meu terceiro – e último! – dia em observação num hospital um tanto longe de casa. Naquele mesmo dia eu seria “solta”. Logo o momento em que eu supostamente deveria estar de bem com a vida, mas, pelo jeito, não estava.