A vida de Leslie Burke
5 O Beijo 2
No dia seguinte (sábado) me encontro com Soluço no salão principal, bem na hora do café da manhã. Nós pegamos torradas e suco de abóbora e vamos para o jardim. É uma manhã fria, então Henry tira sua capa e me cobre com ela (fico, assim, com duas capas sob o meu uniforme). Nós dois ficamos andando sem rumo, Soluço mancando por ter uma prótese de metal no lugar de sua perna esquerda, e conversando sobre diversos assuntos; dávamos umas beliscadas nas torradas ás vezes.
–- Meus treinos de Quadribol estão ficando mais intensos! Não vejo a hora que comecem os jogos! – exclamo ansiosa.
–- Eu também! Vamos derrotar a Sonserina!
Quando havíamos terminado nosso café e já estávamos sem assunto, resolvemos dar umas risadas. Eu ficava transformando meu rosto em outros rostos de animais, como porcos e patos (isso é outra coisa que metamorfogos podem fazer), rimos sem parar, ele da minha cara e eu de sua risada.
Quando já era umas 9:30 nós fomos visitar Hagrid, que, além de guarda-caça e professor é nosso amigo. Ficamos cantando músicas meio sem sentido e tomando chá, um tanto ruim, mas não queríamos deixar Hagrid triste. Estou completamente entretida com o fogo da lareira e as cantigas, quando o mesmo passarinho azulado aparece no parapeito da janela, fico aflita, pois sinto que ele estava a minha espera e eu não estava cumprindo com a minha palavra, paro de olhá-lo rapidamente e continuo a cantar como se nada houvesse acontecido. Volto minha cabeça para a janela, mas o passarinho não está mais lá.
Dez e meia: nós saímos da cabana e estávamos voltando para o salão principal quando Soluço me surpreendeu com um presente:
–- Para você, Lisle! – ele tira uma caixinha de dentro das vestes e me entrega – Vamos, abra!
Eu abro a caixinha e me deparo com uma linda tiara feita de flores enfeitiçadas para não secar.
–- Oh, Henry! Não precisava – coloco a tiara em minha cabeça e meu cabelo muda para um vermelho de vergonha, como se eu corasse pelos cabelos – É linda, obrigada!
–- De nada, pela nossa amizade.
–- Pela nossa amizade! – repito com um sorriso no rosto.
Prosseguimos o caminho, mas Soluço me puxa pelo braço ao encontro de seu corpo. Minhas mãos param em seu peito e não tenho nem tempo de senti-lo, ele me envolve com seus lábios e me dá um beijo. O beijo é gostoso, mas, ao mesmo tempo, ruim, não que ele não beije bem, mas a sensação de estar beijando seu amigo quase irmão é muito estranha para mim. Finalmente nossos corpos são afastados, então eu faço uma coisa muito estranha: corro para longe dele.
*** De noite
–- E o beijo foi bom? – pergunta Greta com muita curiosidade.
–- Ah foi, ele beija muito bem – digo com um suspiro.
–- Então por que você está tão triste? Como você é boba Leslie!
–- Greta, você não está entendendo! Ele é meu amigo desde que eu me conheço por gente! E se o suposto namoro não desse certo? Como ia ficar nossa amizade? Não posso perdê-lo!
–- Bem, eu não pensei nisso... Eu escolheria o Will!
–- Hmmm... Eu nem conheço o garoto...
–- Mas ele é um gato! – diz Greta com uma risada.
–- Greta!! – exclamo jogando um travesseiro nela, o que a faz rir mais ainda – Vou dormir!
Puxo meu cobertor e relaxo na cama quentinha, quase nem percebo quando Sarah (uma colega de quarto) entra e joga alguns livros no chão ao lado de sua cama. Durmo em um instante.
***
A manhã de domingo é tediosa. Vou procurar o passarinho na orla da floresta, mas não o acho, então volto para dentro da escola de cabeça baixa.
Estou vagando pelos corredores quando Lúcia me para e me entrega um bilhete. “Tem sorte” é o que ela diz. A princípio, não entendo muito bem, mas, quando abro o pedaço de pergaminho, fica tudo claro. “Desculpe pelo beijo, você não deve ter gostado.”, é isso que está escrito. A única coisa que consigo fazer é sorrir, só o Soluço mesmo para mandar um bilhete desses. Não faço nada além de guardá-lo em minhas vestes, prefiro encarar tudo isso pessoalmente.
Vou para a biblioteca à procura de informações sobre Testrálios. Criaturas fascinantes, imagino. Fico a tarde inteira lá, me contentando com os livros. Descubro muitas coisas interessantes, não só sobre Testrálios, mas também sobre Elfos, Unicórnios e D ementadores.
Quando saio da biblioteca tenho que encarar um bando de sonserinos, entre eles Floy. Tento passar despercebida, mas minha tiara de flores (dada por Soluço) me denuncia:
–- Olha só! Primeiro as luvas, agora essa tiara horrível em cima da cabeça! Isso é uma escola querida – debocha Floy.
–- Deixe ela em paz Floy – fala Will que só apareceu agora.
–- Ah, a menina precisa de alguém para defendê-la! O que foi Leslie? Não tem coragem de me enfrentar sozinha?
Eu permaneço quieta, tentando sair dali, mas o grupo de pessoas não me deixa fazer isso.
–- Já te avisei para deixá-la em paz Floy! – fala Will em tom ameaçador.
–- Ok, ok – ela começa a sussurrar – mas ele não vai estar sempre aqui, mestiça!
Willian me conduz para fora do grupo e, quando estamos bem afastados, torna a falar comigo:
–- Está tudo bem?
–- Sim, está – falo calma.
–- Hey, quer passear comigo na excursão para Hogsmead?
–- Depende... Para onde iríamos? – abro um sorriso no rosto.
–- Que tal para a Casa dos Gritos?
Surpreendo-me com o convite.
–- Ok, eu adoraria!
Me afasto dele e fico me perguntando como é que ele sabia que eu gostava tanto de ir para a Casa dos Gritos.
Para não deixar Henry sem resposta alguma e curioso, escrevo um bilhete: “vamos conversar pessoalmente, é só me procurar”. Subo rapidamente até o corujal, entrego o pedacinho de pergaminho a coruja mais próxima e rumo ao salão comunal.
Permaneço tranquila lendo meus livros sentada em uma poltrona e em frente a lareira, até a hora em que fico tão cansada a ponto de minhas pálpebras se fecharam involuntariamente e resolvo dormir, mas acordo no meio da noite, quando sou assustada por um pesadelo. Durmo de novo.
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