A vida da Morte
1 Capítulo Único
Olá. Estou aqui para lhe contar uma história.
Não diga que não acredita nela se ainda não a leu.
Se logo de início você acha que é fictícia, você tem muito que aprender ainda, tem muito que viver e sonhar. Tem muito que ler escutar e aprender. Acredite em mim, vivo desde o início dos tempos. Quando o primeiro ser vivo nasceu, eu também nasci. A vida deu origem a morte, não é mesmo?
Bem, a história que irei lhe contar falar sobre mim. Sobre algo que presenciei e fui protagonista.
Ceifar vidas é meu trabalho, me importar com elas já é outro assunto. Voava como o vento atrás de animais para tocar-lhes. Não me importava se era grande ou pequeno, se tinha família ou se vivia sozinho. Não me importava se os pelos dele era macios ou crespos, se eram escamas ou penas, se eram fortes e saudáveis ou fracos e doentes. Tudo o que me interessava era libertar a alma que eles carregavam.
Passando perto de um rio límpido e raso, vi uma corça pastando. Ela estava de costas a mim. Não fazia barulho ao mastigar a grama alta. Ao me aproximar, estendendo a mão para toca-la, seu rebanho debandou. Ela virou-se para mim, com as orelhas levantadas, virando a cabeça de lado confusa. Não consegui toca-la. Não podia simplesmente a matar. Ela me abaixa as orelhas e corre em direção a seu rebanho que atravessara o rio. Não resisti e a segui.
Não podia mata-la. Eu não queria mata-la. Ela era diferente dos outros. Tinha alguma coisa nela que atraia minha mente, minha curiosidade. Seus olhos redondos e negros pareciam buracos-negros me puxando para si como se eu fosse uma simples estrela.
Ela se encontrou com os outros em um vasto vale nos limites da floresta. Eu me escondi entre as sombras das arvores e da grama alta. Ao tocar em uma rosa ela murcha e fica marrom. Matei uma flor inofensiva, linda e que crescia alegremente. Pela primeira vez me senti culpado e triste por tirar a vida de alguma coisa. Sai de perto daquela flor, era doloroso demais.
A corça continuava seu caminho com seus irmãos a procura de pastos mais verdes, água mais fresca. E eu a seguia. Ela sabia que eu estava a vigiando. Pois sempre que me aproximava um pouco mais, ela se virava para mim com as orelhas baixas e olhos alegres. Para ela, eu era uma boa companhia. Em milhões de anos, ela foi a única que parecia que me queria por perto.
A observava todas as noites. Ela sempre dormia afastada dos outros, sob a luz das estrelas, sentindo seus pelos sendo levados pelo vento fraco e frio da madrugada. Cheguei a conclusão que ela era solitária, assim como eu. Certa noite aproximei-me bem pertinho dela em quanto ela dormia. Via seu focinho mexendo devagar em ritmo de sono. Via seus olhinhos mexendo por baixo de suas pálpebras para lá e para cá, queria saber com o que estava sonhando. Deitei-me ao lado dela e quando notei: estava dormindo. O que me é estranho, eu não preciso dormir, mas não sabia que podia.
Fui acordado com folhas secas caindo em meu rosto. Ao abrir os olhos ela para de deixar as folhas caírem de sua boca. Ela levanta e abaixa as orelhas para mim. Me olha e olha para o bando já marchando, ela faz isso várias vezes seguidas. Ela queria que eu a seguisse.
Por alguns poucos dias segui essa rotina. Pegava apenas vidas que já estavam se esgotando, não as tomava para mim, apenas tocava em seres vivos para manter o equilíbrio entre a vida e a morte.
O rebanho estava correndo, a corça mal conseguia manter o ritmo de seu rebanho. Ela parou de correr quando chegaram ao pé de uma colina alta. Suas pernas tremiam. Seus pulmões estavam entrando em crise. Ela se voltou a mim, com as orelhas baixas. Eu queria toca-la, mas não para a matar, apenas para poder senti-la. Estico minha mão, mas logo a baixo novamente. Ela vem até mim, com o nariz apontando para minhas mãos. Percebo sua intenção. Seguro minhas mãos e as levo ao meu peito, balançando a cabeça para lá e para cá desesperadamente. Gritava em minha mente “Não! Se tocar em mim vai morrer!”, mas de algum jeito ela parecia saber exatamente o que fazia. Ela olhou para mim, e seus buracos-negros me diziam sem nenhuma palavra: “Eu sei.” Ela fechou os olhos e tocou o focinho em minha mão. Ela resistiu a mim, passou a cabeça por minha palma, não aguentei e a abracei. Sentia sua respiração desacelerar, suas penas ficaram sem força e, se não fosse por mim segurando-a, teria caído bruscamente no chão. Eu a segurei pela cabeça e a pus nas grama baixa. Estava morta.
A deixei ali. Um dia ela se tonaria grama, e da grama nasceria flores. E eu poderia admira-las assim como admirava aquela fascinante corça.
O que ela tinha de especial, eu não sei.
A razão por a seguir para onde é que fosse, também não sei.
Talvez eu nunca vá saber.
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