Ana costuma ouvir com muita frequência que seus desenhos são “geniais” e que ela possui um “dom artístico inacreditável”. Dói para ela ouvir esse tipo de elogio. Ela entende a mensagem que as pessoas querem passar, a grandiosidade que elas querem transmitir, mas não é esse tipo de pensamento que ela acredita que as pessoas deveriam ter.

Ana tem amigas que também passam por esse tipo de coisa. Mariana sempre escuta que sua voz foi um presente — mesmo que ela tenha feito aulas para melhorar seu desempenho vocal. Laura recebe os mesmos elogios sobre dançar (“eu nunca conseguiria fazer algo assim”) e ela frequenta aulas de dança há oito anos.

O pensamento de “genialidade” esconde a técnica por trás do resultado. O pensamento de “dom” esconde os anos de práticas e erros que geraram aquilo que as pessoas enxergam.

Toda criança desenha quando pequena, algumas param naquela fase e não evoluem por não tornarem aquilo um hábito. Ana gostava muito disso e através dos anos, mesmo com preguiça, desenhou com mais frequência e adquiriu um estilo próprio, com seus traços e cores.

Começou copiando alguns desenhos que encontrava, até se sentir mais confortável para experimentar um tipo de lápis diferente, um sombreamento, uma cor nova ou até desenhos digitais. Foram treze anos desenhando porque amava desenhar, treze anos com muito esforço, com muita prática.

Quando as pessoas elogiam um desenho atual falando que ela nasceu com um dom, ela só consegue pensar em mandar alguma coisa que produziu em 2005 ou 2007, quando estava começando. Quando falam que “nunca conseguiriam fazer alguma coisa assim”, ela recomenda canais no youtube que dão dicas para aqueles que se interessam ou cursos presenciais na sua cidade.

A evolução por trás daquilo que você vê hoje foi construída há muitos anos e se você realmente quer aprender algo: não pense que você não nasceu com o dom, pense que lhe falta prática. Os erros virão e com eles grandes técnicas também.