A viagem do tigre - Pov dos tigres
31 O dragão de gelo - Kishan
Jīnsèlóng nos levou até o palácio do dragão de gelo. Quando chegamos, estávamos molhados e Kelsey gemia de frio.
Fui ajudar Jīnsèlóng para que ele não escorregasse enquanto entrávamos no castelo. Kelsey pediu ao lenço que criasse uma cortina, então voltou de lá vestindo roupas secas. Ren e eu também trocamos de roupas enquanto ela estava lá dentro. Apesar de seca, Kelsey ainda tremia de frio. Ela sentou-se entre Ren e eu para se aquecer e reclamou da demora do dragão branco. Jīnsèlóng respondeu arrogante:
— Ele vai chegar em um minuto. Não estava esperando visitas.
Kelsey se mexia desconfortável no banco de gelo. Ren a pegou no colo colocando as pernas dela sobre mim. Fiquei com raiva por não ter pensado naquilo primeiro. Kelsey estendeu o braço para segurar minha mão. Eu levei a mão dela até os lábios e a beijei. Jīnsèlóng ficou muito incomodado observando aquilo. Ele soltava guinchos, impaciente:
— Onde será que ele está? — Então olhou para Ren de esguelha e disse: — Eu realmente preciso voltar para o meu tesouro. Afrodite se sente solitária sem mim, sabem como é. — Ele deu um tapa na própria cabeça. — Nossa, quase me esqueci. Está chegando a hora da limpeza. Vocês sabem o que pode acontecer com certos metais se não forem espanados a cada 12 horas.
Ren ergueu os olhos para ele.
— Relaxe — sugeriu ele. — Você fez um acordo, e não vai a lugar nenhum antes de sermos apresentados.
O dragão dourado jogou a mão para o alto em um gesto de irritação.
— Ah! Lembrem-me de nunca mais negociar com tigres.
Kelsey riu e o dragão a encarou com indignação:
— Nem com mulheres.
Com isso, afundou na cadeira, pegou um saco de moedas tilintantes e começou a contá-las com cuidado enquanto as limpava com a manga. Não precisamos esperar muito até um homem alto de cabelo branco entrar na sala.
— Jīnsèlóng! Você sabe que nunca deve trazer ninguém aqui sem avisar! É proibido!
O dragão dourado choramingou:
— Eu não tive escolha. Eles usaram truques para arrancar a informação de mim. A culpa é da garota, sabe? Ela...
— Pare. Não quero ouvir mais nenhuma palavra. Eu já lhe disse, várias vezes, para desistir da sua obsessão por acumular coisas e fazer negociações e, depois de séculos, você continua a não escutar. Você nunca aprende. Vá embora, que eu vou consertar a sua bagunça. Como sempre.
O dragão dourado se levantou com rapidez.
— E não quero ver essa sua pele metálica por pelo menos 200 anos!
— Pois não, Yínbáilóng. Não vai ouvir nem um pio meu. Obrigado
Jīnsèlóng ainda nos olhou enquanto saia, então apressou-se. O dragão branco deu uma gargalhada:
— É tão engraçado deixá-lo assustado, não é mesmo? O truque que vocês três aplicaram nele foi muito inteligente. Muito bem executado. Ele vai pensar duas vezes antes de voltar a negociar. Ah, ele vai continuar fazendo isso, não tenham dúvida, mas pelo menos pensará duas vezes, e isso já é mais progresso do que o que eu consegui fazer com ele em séculos.
Yínbáilóng em sua forma humana parecia alguém sensato e confiável. Ainda assim, eu fiquei atento a seus movimentos, pronto para revidar qualquer ataque.
— Então — começou ele. — Vocês vieram aqui em busca de uma chave, e não é uma chave qualquer. Vocês querem a chave.
— Precisamos encontrar o Colar de Durga. Não sei de chave nenhuma — disse Kelsey.
— Ah, sim. Vocês buscam o caminho até o Sétimo Pagode.
O dragão aproximou-se de Kelsey e a encarou. Eu me preparei para atacá-lo se fosse necessário.
— Está lendo os meus pensamentos? — perguntou ela.
— Não. Eu não faria isso sem a sua permissão. Só estou... examinando você. Faz muito tempo que não converso com um ser humano, muito menos com algum que fosse tão adorável.
— Obrigada.
— Então, o trajeto de vocês foi longo, não é mesmo? Chegar até aqui deve ter exigido um esforço tremendo. — Ele se levantou, como se tivesse se sobressaltado. — Nossa, mas que tipo de anfitrião eu sou? Vocês estão aqui congelando, com fome, com sede e cansados, e eu fico falando de assuntos que podem esperar.
Ele girou uma das mãos sobre a outra e um fogo azul se acendeu na grelha perto de nós. Estalava como gelo quebrando, mas era surpreendentemente quente. Eu queria pegar o que tínhamos ido buscar e sair daquele lugar o quanto antes.
O dragão nos convidou para jantar e dormir em seu castelo, oferecendo o braço para Kelsey. Eu rosnei para ele, desconfiado, enquanto Ren segurou Kelsey pela cintura. O dragão riu:
— Ora, ora, cavalheiros. Não há necessidade para ciúme. Minha intenção é apenas acompanhar a mocinha pelos corredores. Vocês dois podem vir junto, claro. Quer vir comigo, senhorita?
— Tudo bem. Obrigada.
Depois de conhecermos seu castelo, nos sentamos à mesa para comer. O dragão de gelo era bem mais simpático do que seus irmãos, e eu acabei confiando nele. Yínbáilóng nos contou sobre a função de cada um dos dragões, inclusive a sua própria. Kelsey ficou surpresa ao saber que Yínbáilóng era o responsãvel por Shangri-la.
— De maneira indireta. Só posso ensinar o básico do certo e do errado, para que as pessoas possam governar a si mesmas. A sociedade então tem que escolher aceitar isso total ou parcialmente. Se apenas um integrante escolher outro caminho, o sistema vai fracassar no final. Os silvanos não apenas aceitaram como também adotaram esse conceito. Eles vivem em paz em sua terra há milênios, e os animais que escolhem aceitar e respeitar suas leis também vivem lá em harmonia.
— Mas e quanto à árvore do mundo? Os pássaros de ferro não pareciam seguir a mesma lei.
— Os pássaros de que você fala foram criados por um único motivo. Eles protegiam o Lenço. Não desejavam mal algum a vocês até que levaram embora o objeto que eles foram feitos para guardar. E deixaram de existir depois que o Lenço saiu de suas mãos.
— E os corvos e as sereias?
— Só estavam cumprindo sua função. Não tinham a intenção de machucar vocês.
— E agora, o que fazem?
— Eles puderam fazer uma escolha. Os corvos e os morcegos escolheram seguir a lei dos silvanos e podem ir e vir como bem desejarem, mas as sereias preferiram ir embora. Elas não encontraram ninguém entre os silvanos que estivesse disposto a se tornar seu... companheiro. Por isso, escolheram abandonar a árvore, que ainda pode ser encontrada logo nos limites das terras dos silvanos. Falando nisso, o protetor invisível também permaneceu em Shangri-lá.
Kelsey, como sempre, tinha muitas perguntas a fazer, e o dragão se dispôs a responder todas. Depois ele nos convidou para jogar bilhar. Mais tarde ele sugeriu que dormíssemos. Tanto eu quanto Ren nos levantamos para acompanhar Kelsey até o quarto. Ela se aproximou de mim, tocou meu braço e ficou na ponta do pé para me dar um beijo no rosto.
— Você se importa se Ren me acompanhar? Preciso falar com ele.
Apesar de ter dito que não me importava, eu estava morrendo de ciúmes. Eu não sabia o que ela queria falar com Ren e aquilo não me importava. Eu sabia que ele a queria, e estava convencido de que ela o escolheria. Eu estava triste, mas não poderia me opor, nem obrigá-la a ficar comigo. Voltei a jogar com o dragão, enquanto a mulher que eu amava ia embora com o meu irmão.
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