A viagem do tigre - Pov dos tigres
34 De volta à tona - Ren
Uma nuvem brilhante desceu ao nosso redor. Por alguns segundos, não foi possível ver nada à minha frente.
—Ei! O que está acontecendo?—gritou Kishan.
A nuvem se dissipou, e eu estava atônito demais para responder. À minha frente, havia uma Deusa. Era Kelsey.
Ela havia se transformado. Suas roupas haviam mudado. Ela usava uma saia branca, bordada, que se estendia até os pés. Um cinto dourado grosso em volta da cintura e uma dupatta branca sobre o choli bordado. Seus cabelos trançados estavam presos na nuca, mas alguns cachos caiam solto sobre sua pele. Ela usava uma tiara brilhante e dourada, correntes de ouro, pulseiras, tornozeleira e brincos dourados. Ela era mais bela que a mais bela das mulheres que já pisou na terra.
Kelsey também me olhava surpresa.
—Você está coberto de óleo?— Ela perguntou.
Mas eu não pensei em lhe responder. Nem conseguia parar de olhar para ela. Estava muito impressionado. Kelsey ficou um pouco assustada .
—O quê? O que foi?
—Você… você é a coisa mais linda que eu já vi.
—Hein?
Ela olhou para baixo, depois foi até a janela, observando seu reflexo. Ela olhava atentamente para si mesma, enquanto eu compreendia o que havia acontecido. Quando Kelsey se virou de volta, eu me ajoelhei diante dela, peguei sua mão e toquei minha testa nela. Ela gaguejou nervosa.
—Hã… Ren? O que você está fazendo?
—Estou me ajoelhando perante uma deusa.
—Eu não sou deusa nenhuma.
—É, sim. Uma deusa, uma princesa, uma rainha. Como soldado, eu me coloco a seu serviço. Como príncipe, eu lhe garanto qualquer dádiva que esteja a meu alcance. Como homem, rogo permissão para me sentar a seus pés e adorá-la. Peça que eu faça qualquer coisa por você e eu o farei.
Eu amava Kelsey. Mas vê-la daquela maneira mexeu com alguma coisa dentro de mim. A paixão que eu sentia por ela transbordou do meu peito e inundou tudo ao meu redor. Eu precisava falar. Eu precisava mostrar a ela. Nada me importava. Eu seria seu servo para sempre. Ergui os olhos e apertei suas mãos entre as minhas.
—Sundari rajkumari, meu coração acelera ao vê-la enfeitada como uma princesa real do meu tempo. Se a tivesse conhecido naquela época, se você tivesse visitado o nosso palácio, eu teria imediatamente me ajoelhado aos seus pés, desta mesma maneira, e implorado para que nunca me abandonasse.
Kelsey corou e disse:
—Acho que talvez você esteja exagerando, ou sofrendo de narcose.
—Sua modéstia faz com que seja ainda mais atraente. Você é a mais adorável das mulheres, Kelsey. Respondi sorrindo.
Kelsey olhou para o meu rosto e sua expressão mudou. Seu constrangimento foi substituído por ternura. Ela sorriu e retirou o cabelo do meu rosto, delicadamente. Eu virei o rosto para beijar a palma de sua mão, segurando-a junto a meus lábios. Nossos corações acelerados, batiam no mesmo ritmo. Não ouvi Kishan chegar. Ele se aproximou de mim, furioso.
—Geralmente eu gosto de dar a você o benefício da dúvida porque sei que perdeu a memória e tudo o mais, mas será que pode, por favor, se afastar da minha namorada e me dizer o que está acontecendo? Por que as suas roupas mudaram?
Olhei rapidamente para mim, e só então notei que minhas roupas estavam diferentes. Eu vestia dhoti branco amarrado na cintura que terminava logo acima dos joelhos e usava um adorno de cabeça dourado, faixas nos braços, pulseiras, tornozeleiras e um colar de ouro. Eu me afastei e Kishan virou-se para Kelsey. Ele parou maravilhado ao olhar para ela.
—Você está maravilhosa!—exclamou ele.
—Maravilhosa é um termo grosseiro demais para descrevê-la. Ela está… divina, etérea, estonteante…
Kelsey ergueu uma das mãos.
—Muito bem. Se pudermos parar de olhar para Kelsey agora, eu iria me sentir bem menos sem graça.
—Sem graça? —Perguntei incrédulo—Por que se sentiria assim?
—Porque não me sinto à vontade revelando tanta pele. Será que podemos voltar a atenção para outras coisas?
Kelsey estava incomodada com aquela atenção toda. Ela não gostava de se sentir exposta. Tentei respeitar sua privacidade, aproximando-me de Kishan para contar o que houve com as estátuas. Algumas vezes, eu o vi olhando para Kelsey e precisei grunhir para chamar sua atenção. No entanto, eu mesmo me distraí várias vezes, olhando para ela, admirando aquela Deusa. Então Kishan rugia para me chamar a atenção.
Reparei que as roupas de Kishan também estavam diferentes. Ele usava um tecido amarrado na cintura e vários metros de colares ao redor do pescoço. Além de faixas nos braços. Metade de seu cabelo estava puxado para trás num coque e envolto por pedras preciosas; a outra metade estava solta e tocava a parte de cima de seu ombro. Ele usava um cinto fino de corda na cintura no qual estava preso um chifre, que repousava sobre o quadril. Argolas douradas nas orelhas tiniam quando a cabeça dele se movia e havia um terceiro olho pintado em sua testa. Lembrei-me da imagem de Shiva. Kishan estava vestido como ele.
No momento em que cheguei a essa conclusão, Kelsey chamou nossa atenção, examinando nossas vestes.
—Nossas roupas não são aleatórias. Nós somos eles! Eu sou Parvati.
Eu me aproximei para examinar Kelsey mais uma vez.
—Tem razão. Você está usando as roupas dela.
—Então isso deve significar que isto pertence a você.— disse Kishan, sorrindo para Kelsey e lhe estendeu um colar.
Era um colar feito de diamantes minúsculos, incrustados em arcos de prata cruzados uns por cima dos outros com as pontas sobrepostas. Pendurada em cada ponta havia uma pérola negra reluzente. Um aglomerado de pérolas negras e brancas pendia do centro. Era o colar de Durga.
Kishan ficou atrás de Kelsey e colocou o colar ao redor de seu pescoço. Ela ficou ainda mais divina. Kishan encostou os lábios no pescoço de Kelsey e sussurrou.
—Fica bem em você.
Nesse momento, me lembrei de quando encontramos o fruto dourado e o que houve assim que Kelsey tocou no fruto. Também me lembrei do relato de Kelsey, sobre quando ela e Kishan encontraram o lenço. Segundo ela, assim que o tocou, ela desmaiou e teve uma visão com Lokesh. Kelsey não podia colocar o colar.
Gritei para impedir Kishan de prender o fecho, mas era tarde demais. Assim que ouvi o clique do fecho, Kelsey caiu nos braços de Kishan.
Corri para perto deles. Kishan deitou o corpo de Kelsey no chão e sentou-se ao seu lado, acariciando seu cabelo e murmurando palavras de conforto e carinho. Sem saber o que ela estava vendo, mas ciente de que ela estava vendo aquele demônio, segurei seu corpo em meus braços, torcendo para que acabasse logo. Ela estava imóvel, mas lágrimas começaram a descer pelo seu rosto.
Kelsey acordou alguns minutos depois. Kishan segurou a mão dela, ajudando-a a se sentar. Eu a soltei com relutância. Queria mantê-la junto de mim, protegê-la.
—O que foi, minha querida? Pode nos dizer o que aconteceu?— Perguntou Kishan.
Kelsey se aninhou em seu peito e enxugou as lágrimas. Depois disse que viu Lokesh e Kadam. Ela disse que Lokesh não falou nada além do de sempre, mas eu não acreditei. Ela parecia triste e assustada. Mas eu não insisti, para não deixá-la mais nervosa.
Olhei para Kelsey, tão linda quanto uma deusa, aninhada nos braços de Kishan. Ela era Parvati e ele era Shiva. Como na história, Shiva entrega o colar à Parvati, que passa a se lembrar dele, seu marido. Parvati pertencia a Shiva. E eu era Indra.
Kelsey se levantou e Kishan começou a juntar as coisas para irmos. Ela corou ao me ver olhando para ela.
—O que foi? Qual é o problema?
—Kishan. Ele… ele é Shiva. Tem que ser, com aquele terceiro olho, as roupas dele e a maneira como presenteou o Colar a você…
—E isso faz com que você seja…
—Indra.
—Certo. Então, o que isso significa? O que devemos fazer?
—Façamos o que viemos fazer aqui. — Falei sério—Indra mata o animal e Shiva —Kishan se aproximou de Kelsey e apertou seus ombros — reclama sua noiva.
Nós três ficamos tensos e silenciosos. Eu me virei para olhar a janela, observando o mar escuro lá fora, pensando no que eu iria perder em seguida. Senti a mão de Kelsey tocar meu braço. Seu toque sempre me acalmava. Mas naquele momento, não era capaz de afastar minha tristeza.
—Você não é Indra. Pode estar vestido como ele, e eu posso estar vestida como Parvati, mas não sou ela. Eu sou Kelsey, você é Ren e ele é Kishan. Se houver um animal a ser morto, não é Indra que vai matá-lo. Kelsey, Ren e Kishan farão isso juntos. Podemos estar presos dentro de um mito, mas vamos fazer a nossa própria história. Certo?
Eu assenti e lhe dei um abraço forte, depois a coloquei de lado. Talvez ela estivesse certa. Mas não era o tubarão que me deixava triste. Kelsey escolheu Kishan. E agora eu sabia qual era o seu destino.
—Vou pegar nossas coisas—eu disse baixinho e me afastei.
Quando voltei, Kishan e Kelsey estavam abraçados. E eu ouvi o que eles diziam:
—Eu fiquei com você porque… eu amo você, e você me faz feliz.
—Eu também amo você, bilauta.
Aquilo me chocou e partiu meu coração. Deixei as bolsas caírem no chão. Kelsey se afastou de Kishan, assustada.
—Vamos acabar logo com isto. Kelsey, se você não se importa...
—Colar de Pérolas— ela disse — por favor, crie uma maneira de subirmos à superfície, sem se esquecer da pressão do oceano e de que precisamos de oxigênio.
O Colar faiscou e começou a brilhar com tanta intensidade que tivemos que desviar o olhar. Foi se apagando depois de alguns segundos, mas nada aconteceu.
—O que devemos fazer?—Kelsey perguntou.
—Não sei—respondi.
—Tem alguma coisa se aproximando. Estão enxergando aquele brilho?—disse Kishan, apontando para a janela negra.
Kelsey e eu corremos até a janela e vimos esferas luminosas aproximarem-se.
—São águas-vivas—observou Kishan.—Só que são gigantescas!
—Acho que elas são nosso meio de transporte.
—Sei não, Kells,— retrucou Kishan.—Como iríamos respirar?
—Coisas ainda mais estranhas já nos aconteceram.
Nós três nos aproximamos ainda mais do vidro para observar as águas-vivas gigantescas e brilhantes. Meu nariz estava encostado na janela e os animais se aproximavam cada vez mais. Uma delas se encostou no vidro e levantou os tentáculos, tateando-o com eles. Então ela entrou. Não havia nenhum vidro quebrado, nem água do mar no pagode, mas de alguma forma, a água viva estava lá dentro.
Assustados, nós nos afastamos do animal, que continuava vindo em nossa direção. Nós ficamos paralisados. Um dos tentáculos do animal se enrolou com suavidade no braço Kishan. Com delicadeza, ela o puxou, até ele dar um passo adiante. Mais tentáculos avançaram e o envolveram, puxando-o para mais perto da janela. A criatura o puxou para dentro de si e começou a se afastar da janela, puxando Kishan consigo. O braço dele desapareceu através da superfície negra e reapareceu na água do lado de fora. Ele respirou fundo e, com um puxão suave, a criatura o carregou através do vidro, puxou-o para perto e segurou firme. Criando uma cobertura, ela o aninhou de modo que sua cabeça ficasse logo abaixo de seu manto. Ele nos fez um sinal de positivo com os polegares estendidos e mostrou que estava respirando.
A água-viva de Kishan se afastou e outra se aproximou. Quando seus tentáculos penetraram na janela do pagode, eu ajustei a alça da bolsa. Kelsey tocou em meu braço.
—Eu sou a próxima.
Eu assenti e dei um passo para trás. A água-viva envolveu o braço de Kelsey, de forma semelhante ao que tinha acontecido com Kishan. Eu observei com tristeza, pensando que aquela poderia ser a última vez que eu via Kelsey. Eu era Indra. Minha função seria lutar com o tubarão e matá-lo. Eu não sabia se sobreviveria. Eu não sabia se voltaria com eles. Meu destino era desconhecido. Mas o destino de Kelsey era ficar com Kishan. A criatura começou a puxa-la suavemente. Eu senti urgência em lhe dizer que a amava uma última vez. Então segurei seu braço e encostei meus lábios em sua orelha, para recitar um poema.
— “Assim como as ondas me puxam na direção do litoral pedregoso, nossos minutos também se apressam até o fim.”— Eu lhe dei um beijo na têmpora e sussurrei: —Lembre-se de que eu amo você, priyatama.
A água-viva levou Kelsey através do vidro e outra veio até mim. Deixei que ela me levasse para o oceano escuro.
Envolvidos pelo corpo daquelas criaturas, fomos sendo transportados através do oceano, como se estivéssemos dentro de aquários móveis, ou de pequenos submarinos. Através do corpo transparente da água-viva, era possível visualizar os diferentes tipos de animais que passavam por nós durante a subida.
Já estávamos bem perto da superfície quando percebi o tubarão gigante. Kishan também o viu, e ficou tão perplexo quanto eu. Ele ainda estava distante, mas era possível ver o seu tamanho descomunal. Os outros animais, inclusive tubarões e golfinhos se afastavam quando ele passava. O tubarão nadava com a boca um pouco aberta e era possível ver seus dentes enormes e afiados. Olhei para Kelsey e ela também já tinha visto o animal. Sua expressão era de pânico.
O tubarão demorou a nos ver. Durante algum tempo, eu tive a esperança de que conseguiríamos chegar à superfície sem ter que enfrentá-lo. Mas um raio de sol bateu no cinto de Kelsey, lançando um reflexo na água, até os olhos do tubarão.
Apesar de o tubarão estar abaixo de nós, ele virou um pouco e espiou para cima, com um olho negro gigantesco. Ele nadou e passou bem perto. Rápido como um raio, ele sumiu. Kelsey ficou agitada. Eu tentei me aproximar dela, mas a água-viva não me obedeceu.
Vi quando Kelsey tocou o colar de pérolas em seu pescoço e sussurrou algo. Uma corrente de água desviou a direção da minha água-viva e só então eu vi o tubarão passando rápido ao meu lado. Ele iria nos engolir inteiros, mas graças à mudança de posição, mordeu apenas alguns tentáculos.
O tubarão deu a volta e Kelsey segurou o colar mais uma vez. Ele se aproximou da água-viva de Kishan e a mordeu delicadamente. A água viva se contorceu e Kishan foi lançado para fora dela. Ele olhou para Kelsey que apontou para cima. Olhei para onde ela apontava e vi uma sombra, que parecia o fundo de um barco. Kishan começou a nadar para a superfície. O tubarão não o tinha visto e estava mastigando a água-viva. Depois, ele deu meia volta e sumiu no oceano.
Eu me soltei da minha água-viva e comecei a nadar. Kelsey começou a se agitar desesperadamente de dentro do manto de sua água-viva, ao ver que o tubarão se aproximava. Eu me virei para trás, saquei o tridente e lancei várias pontas de lança contra o gigantesco animal. Ele se afastou e eu subi rapidamente à superfície em busca de ar. Aproveitei para jogar a mochila no barco que, imaginei, Kelsey tinha criado usando o colar de pérolas.
Kishan mergulhou e eu mergulhei atrás dele. Ìamos buscar Kelsey. Mas o tubarão nos viu e veio nadando depressa em nossa direção. Nós nos desviamos e o atacamos com nossas armas, ferindo-o. A água ficou repleta de sangue, e muito outros peixes juntaram-se ao nosso redor. O tubarão gigante saiu do nosso campo de visão e por alguns segundos eu não pude enxergá-lo.
Kishan e eu olhávamos atentos ao redor, procurando por ele. De repente, eu ouvi um grito de terror, abafado pela água. Kelsey estava sendo puxada pelo tubarão para o fundo do oceano.
Imediatamente, tomado por uma fúria imensa, nadei em direção ao tubarão. Quando estava a uma distância segura, eu o ataquei usando o tridente. Eu não lhe causara ferimentos sérios, mas o irritara, fazendo-o soltar a perna de Kelsey, que estava em sua boca. O tubarão se afastou de nós.
Kelsey começou a nadar, puxando o corpo apenas com os braços. Sua perna ferida sangrava muito. Kishan nadou até ela e a puxou para a superfície. Eu os segui até o pequeno barco, preocupado com o estado de Kelsey.
—Como ela está?— Perguntei a Kishan.
—Ela…—Kishan hesitou.—Ela está mal.
—Preciso voltar—Falei cheio de ódio—Tenho que matá-lo. Ele vai vir atrás de nós.
Olhei para Kelsey. Seus olhos estavam abertos, mas ela estava fraca. Havia perdido muito sangue e estava em choque. Sua perna ferida foi envolvida por bandagens feitas pelo tecido. Meu coração ficou dilacerado por vê-la naquele estado. Eu segurei sua mão, mas ela não reagiu. Ela fechou os olhos. Segurei firme o tridente e pedi para Kishan cuidar dela.
—Vou cuidar. Eu a amo, você sabe—respondeu Kishan.
—Eu sei.
Mergulhei na água, no exato momento em que a criatura gigante subia à superfície. Ele nadava circulando o barco, e então levantou, jogando a embarcação para cima. Nadei em sua direção, observando se o barco viraria. Mas ele caiu de pé e continuou nivelado.
Aproximei-me do tubarão, que se virou e me mordeu. Sua mandíbula enorme se fechou contra meu corpo e eu senti minha carne se rasgar e meus ossos se quebrarem. Mas eu estava tão furioso que não senti dor. Aproveitando a posição, lancei o tridente contra sua cabeça, cravando-a firme em seu crânio. O tubarão abriu a boca. Usando o tridente como alavanca, lancei meu corpo para cima da gigantesca criatura..
Eu estava praticamente montado naquele monstro, que se contorcia na superfície, tentando me derrubar. Ele era grande e muito forte. Meus golpes não seriam suficientes para matá-lo. De repente, senti um cheiro de carne queimada e o tubarão se contorcer de dor. Consegui ver sua pele enegrecida se derreter. Olhei à frente e vi Kishan sustentando o corpo de Kelsey, que tinha a mão estendida. Ela havia atingido o tubarão com seu raio.
O animal se sacudiu com violência e começou a afundar, levando-me junto com ele. Vários peixes e outros tubarões começaram a se juntar para se alimentar da carcaça daquele enorme animal. Eu ainda estava preso a ele pelo tridente, fortemente fincado em sua pele.
Consegui me soltar e nadei com dificuldades até à superfície. Kishan me lançou uma corda, que eu agarrei, e então me puxou até o barco e me ajudou a subir.
Kelsey estava muito mal. Kishan parecia assustado e havia lágrimas em seus olhos. Ele me olhou e falou com pesar:
—Ela está morrendo.
Eu olhei para o corpo inerte de Kelsey e meus olhos se encheram de lágrimas. Não era possível que as coisas acabassem daquela forma. Kelsey não podia morrer, não era justo.
Eu estava muito ferido, mas já sentia meu corpo se curando. Pensei em como seria bom se eu pudesse transferir essa capacidade de cura para ela. Então me lembrei de algo que a sereia Kaeliora nos disse, quando pediu para Kishan encher o Kamandal com a água de sua fonte: “O néctar da imortalidade deve ser usado quando estiver mais desesperado”. E naquele momento nós estávamos desesperados. Virei-me para Kishan e falei:
— O Kamandal!
Kishan deve ter se lembrado das palavras de Kaeliora, pois no mesmo segundo ele pegou a concha que estava pendurada em seu pescoço e despejou o líquido na boca de Kelsey.
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