A viagem do tigre - Pov dos tigres
35 Confusão
Kelsey estava inconsciente quando despejei o líquido do kamandal em sua boca. Eu não sabia o que iria acontecer, mas estava desesperado. Ela estava morrendo.
Gotas do líquido desceram da concha para a boca de Kelsey e lágrimas desciam pelo meu rosto, enquanto eu sussurrava baixinho, como em uma oração.
— Por favor Kelsey, não me abandone. Eu preciso de você. Eu amo você.
Ren parecia transtornado e me olhou com raiva. Então se aproximou de Kelsey e acariciou sua testa, depois falou desesperado, sem tirar os olhos dela.
—Você não é o único que a ama.
Ren pediu ao colar uma xícara de água que ele pressionou contra os lábios de Kelsey. Para nossa surpresa, ela engoliu. Eu já tinha tentado dar água a ela, antes de lhe dar o elixir da sereia, mas o líquido escorreu dos seus lábios. Ela estar engolindo, era sinal de que estava se curando. O elixir havia funcionado.
Depois de beber um pouco, Kelsey voltou a dormir. Ren e eu estávamos calados, ainda preocupados, mas um pouco mais aliviados. Pedi ao lenço que retirasse as bandagens da perna dela, e vi que o ferimento causado pelos dentes do tubarão estava começando a cicatrizar. E melhorava a cada segundo, diante dos meus olhos. Agradeci mentalmente pelo elixir. Só então olhei para Ren e reparei seus ferimentos.
Havia um corte do ombro à barriga que ainda estava aberto. Várias perfurações já haviam cicatrizado, mas ainda havia algumas abertas. Ele sentia dores ao se mover e parecia ainda ter alguns ossos quebrados. Eu lhe ofereci um pouco do néctar, mas ele recusou, dizendo que já estava se curando. Eu ia pedir ao colar uma xícara de água para Ren, quando ouvi um gemido.
— Ela está acordada. Kelsey? — inclinei meu corpo para me aproximar dela— Kelsey? Você vai ficar bem. Está se curando.
— Dê a ela um pouco de água — sugeriu Ren.
— Você também quer um pouco?
— Primeiro ela. Eu vou sobreviver.
Toquei de leve o colar que ainda estava no pescoço de Kelsey e falei baixo:
— Colar de Pérolas, precisamos de um pouco de água potável.
Ergui o corpo de Kelsey, apoiando-a em meu peito. Peguei a xícara e levei a seus lábios. Ela bebeu e pediu mais, sussurrando com a voz rouca. Tornei a encher a xícara. Ela bebeu tudo. Depois de beber mais quatro xícaras de água, Kelsey sinalizou com a cabeça que estava satisfeita e segurou meu braço com força para erguer a cabeça.
Satisfeito, eu tornei a encher a xícara e entreguei a Ren. Kelsey o observou enquanto ele bebia com dificuldade, fazendo caretas de dor.
— Você está machucado. — observou Kelsey.
Ele sorriu, tentando esconder a dor.
— Vou ficar bem.
Os olhos de Kelsey desceram até o peito de Ren, onde o corte causado pelo tubarão já estava cicatrizado.
— O tubarão mordeu você? Essas feridas são perfurações!
Kelsey se agitou e sua respiração tornou-se pesada. Ela começou a tossir com catarro. Ren lhe respondeu quando sua tosse se acalmou.
— Mordeu. Ele quase me partiu ao meio. Quebrou todas as minhas costelas do lado esquerdo, o braço esquerdo, despedaçou minha coluna e acho que pode ter perfurado meu coração e meu rim.
— Como… como foi que você conseguiu voltar para o barco com todos aqueles tubarões na água?
— Depois que o tubarão monstro morreu, graças a você e ao tridente encravado no cérebro, a maior parte dos outros foi atrás dele. Alguns me seguiram e morderam minha perna, mas não estavam em modo de ataque. Um golpe rápido com o tridente fez com que me deixassem em paz. Kishan me viu e instruiu o Lenço a fazer uma corda. Ele me puxou de volta para o barco antes que conseguissem me arrancar um braço ou uma perna.
Kelsey estendeu o braço para segurar a mão de Ren, depois se afundou em meu peito. Eu a abracei com delicadeza, pois ela ainda estava fraca.
— Você disse que eu estava me curando. Como? Eu já devia estar morta.
Ren me olhou e acenou para que eu lhe contasse.
— Usamos o Néctar da Imortalidade… as gotas de líquido coletadas da fonte da sereia. Você estava morrendo. Estava se esvaindo em sangue, e o Lenço não conseguia estancar o sangramento. Seu coração começou a bater mais devagar e você perdeu a consciência. Sua vida estava indo embora e eu não podia fazer nada para impedir. Então me lembrei das palavras da sereia. Ela disse que o néctar deveria ser usado quando eu estivesse mais desesperado. Eu não podia deixá-la morrer… por isso usei o kamandal. No início, não tive certeza se estava dando certo. Não havia sangue suficiente para o seu coração bombear. Dava para ouvir que ele não se enchia entre as batidas. Então seu pulso acelerou. Você começou a se curar. A sua perna foi se recuperando lentamente, perante os meus olhos. A cor retornou ao seu rosto e você caiu em um sono profundo. Foi então que eu soube que você iria sobreviver.
— Será que isso significa que eu agora também sou imortal? Como vocês dois?
— Não sabemos.
— Por que minha pele está tão quente?
— Talvez seja um efeito colateral.
Ren retrucou:
— Ou talvez ela esteja queimada de sol.
Kelsey tocou o próprio braço.
— Voto em queimada de sol. Onde estamos?
— Não faço ideia — disse Ren.
Ele resmungou, ajeitou-se e então fechou os olhos.
— Tem alguma coisa para comer? Eu também gostaria de beber um pouco de água, se houver.
Pensei em algo que fosse leve e nutritivo. Pedi ao fruto que preparasse sopa de tomate. Depois de comermos, sugeri que Ren e Kelsey dormissem enquanto eu ficaria de vigília. Nenhum dos dois protestou. Eles estavam exaustos e ainda precisavam se recuperar.
Aninhei Kelsey em meus braços e ela dormiu imediatamente. Eu estava muito aliviado por ela ter sobrevivido. Eu tive tanto medo de que ela não conseguisse, de que mais uma vez eu perderia o amor fatalmente. Eu a abracei e beijei sua têmpora.
Olhei para o meu irmão, dormindo ao lado, e me compadeci de sua dor. Eu sabia que ele amava Kelsey e sabia que seria difícil para ele ficar longe dela. Quando ainda estávamos no pagode, Kelsey me disse que conversou com Ren e lhe disse que havia me escolhido. Eu fiquei muito surpreso. Desde que Ren recuperou a memória, eu esperava pelo dia em que ela terminaria comigo. Eu fiquei extremamente feliz por ela ter me escolhido e faria de tudo para merecê-la. Então, me lembrei da minha visão em Shangri-la. O bebê de olhos dourados. Meu filho. Sorri de emoção e felicidade. Eu não via a hora de ter a minha família.
Ren acordou bem cedo e me disse que já estava recuperado. Ele se ofereceu para ficar no meu lugar para eu poder dormir um pouco. Eu aceitei e me deitei ao lado de Kelsey. Dormi o suficiente e quando acordei, Kelsey estava sentada, conversando com Ren. Ela estava sem as ataduras na perna e estava bem. Eu me sentei ereto, segurei sua cintura e a puxei para mim, apoiando seu corpo em meu peito.
— Tome cuidado com ela! — sibilou Ren.
— Certo, desculpe. Machuquei você?
— Não. Ren limpou meu ferimento. Olhe. Está muito melhor.
— Parece que você está fora de perigo. — Falei após inspecionar atentamente o ferimento.
Eu estava tão feliz por tê-la de volta, que simplesmente ignorei o rosnado baixo que vinha do outro lado enquanto acariciava o pescoço de Kelsey com o nariz.
— Bom dia, bilauta. O que eu perdi?
— Só um poema.
— Ainda bem que eu estava dormindo.
Kelsey me deu uma cotovelada de leve.
— Seja gentil.
— Pois não, minha querida.
— Assim está melhor. Que tal tomarmos café da manhã?
Sugeri um mingau ou outra sopa, mas Kelsey disse que queria algo sólido. Ren e eu preferíamos que ela comece algo leve, já que ainda estava se recuperando, mas ela insistiu que estava bem e nós acabamos concordando. Depois do café, Kelsey falou preocupada:
— Certo. E agora, o que faremos?
— Talvez possamos chamar um dragão e pedir ajuda — sugeri.
Ren retrucou:
— Tenho a sensação de que eles não vão mais nos ajudar. Além disso, não queremos que Lùsèlóng apareça para nos oferecer mais um desafio, não é mesmo?
— Não! Uma coisa é certa: eu preciso ficar longe do sol hoje.—Disse Kelsey
Kelsey passou a mão na lateral do barco e encontrou algo.
— Ren? Será que você pode usar o tridente para fazer mais três buracos iguais a este? Quero que fiquem com espaços iguais, como uma caixa.
Ele se ajoelhou e colocou o dedo no buraco que Kelsey indicou.
— Quer que todos sejam do mesmo tamanho?
— Quero. Precisamos que tenham tamanho suficiente para passar uma corda grossa.
Ele gemeu e começou o trabalho.
— Qual é o seu plano?— Perguntei a ela.
— Acho que devemos tentar usar o vento para nos levar de volta ao iate.
— Boa ideia. É melhor do que só ficar aqui flutuando no vale dos tubarões.
— Vale dos tubarões? Espero que esteja exagerando.
— Exagerando? — olhei para o rosto de Kelsey e ela estava em pânico. — É, eu estava exagerando — Menti.
— Não, não estava. Eles estão à nossa volta, não é mesmo?
Eu me encolhi.
— Estão. Ainda tem muita carne de tubarão no mar. Eu os ouvi batendo na água a noite toda.
Kelsey gemeu nervosa, então pediu ao lenço que criasse um parapente e o prendesse aos buracos. Depois ela pediu ao tecido que recolhesse os ventos suavemente e nos levasse de volta ao Deschen. Ren e eu levantamos o parapente e a brisa nos conduziu pelas águas.
Viajamos tranquilamente por horas, sem ver o Deschen. Improvisamos um guarda sol com a ajuda do tecido e do fruto. Decidimos que Kelsey deveria emitir um clarão a cada 15 minutos, mais ou menos. Foi depois do quarto raio que eu escutei alguma coisa. Ren e eu puxamos as cordas para nos conduzir para a direita, de onde vinha o som, e Kelsey emitiu outro clarão. Dessa vez ouve uma faísca fraca em resposta.
O vento de repente abrandou e o nosso parapente voou para a água. Ren o puxou de volta para o barco quando outro clarão se acendeu bem acima da nossa cabeça. Quando as faíscas vermelhas sumiram, nossa concha bateu no casco liso do iate.
— Olá? — chamou uma voz conhecida no meio da névoa.
— Senhor Kadam? Senhor Kadam! Estamos aqui!
O rosto de Kadam surgiu na névoa e ele me ajudou a puxar o barco.
— Mas que tipo de embarcação é essa de vocês? — perguntou ele, rindo.
— É uma concha — explicou Kelsey. — Foi criada pelo Colar.
— Bom, tragam-na a bordo. Posso ajudá-la, Srta. Kelsey?
— Pode deixar comigo.
Ren pegou Kelsey no colo e subiu com ela pelas escadas.
Depois de breves explicações, Kadan pediu que descansássemos antes de lhe contar os detalhes do que enfrentamos. Ren se ofereceu para acompanhar Kelsey até seu quarto e eu o enfrentei, afirmando que quem a acompanharia seria eu. Ela resolveu a questão, dizendo que iria com Nilima.
Fui para o meu quarto descansar e ouvi Kelsey conversando com Nilima no quarto ao lado.
— Nilima?
— Pois não?
— Será que você pode cortar o meu cabelo mais curto, por favor? Está comprido demais. Não consigo dar conta. Não precisa cortar tudo… só até o meio das costas mais ou menos.
— Ele vai ficar bravo.
— Acho que já não faz mais diferença.
— Por que não?
— Porque nós terminamos. Eu disse a ele que agora estou com Kishan.
Sorri ao ouvir aquilo. Kelsey parecia triste, mas segura de sua decisão.
Depois de tomar um banho, fui me encontrar com Kadam. Ren já estava lá e Kelsey não demorou a chegar. Kadam quis saber detalhes sobre os dragões e suas instruções, anotando tudo. Ele pareceu muito animado com a ideia das águas-vivas nos transportando e quis saber detalhes sobre elas, assim como as informações sobre o colar e suas funções.
— Acho interessante o fato de a senhorita não ter sarado da mordida do tubarão enquanto estava neste reino, apesar de ter se curado com rapidez em Shangri-lá do ataque do urso — comentou.
— Lembre-se de que também não sarei em Kishkindha quando o kappa me mordeu.
— Mas sarou da mordida do kraken, apesar de ter sido um pouco mais devagar. Algumas explicações possíveis me vêm à mente. Uma: talvez haja algo especial em Shangri-lá. Pode ser que a lei de não fazer o mal tenha relação com isso. Duas: talvez apenas os guardiões dos objetos possam causar danos mortais. Três: a cura só ocorre quando o ferimento não é mortal. Seja lá qual for a razão, acredito que precise tomar muito cuidado, Srta. Kelsey. Mesmo nos reinos dos outros mundos, há risco de morrer. Temos sorte por Kishan ter sido abençoado com o kamandal. Sinto que já não podemos mais acreditar que seu amuleto a protege de ferimentos ou que estar em um reino mágico vai ajudá-la a se curar. — Ele estendeu a mão e deu tapinhas carinhosos no joelho de Kelsey. — Seria impensável perdê-la, minha cara.— Kadam ampliou o olhar para incluir a todos. — Nós todos vamos precisar ser mais vigilantes em relação à saúde da Srta. Kelsey.
Quando terminamos de fazer nosso relato, Kadam se recostou e uniu as mãos. Ele bateu com os dedos no lábio como sempre fazia e disse:
— Acredito que cobrimos tudo. Mas sinto que devo mencionar a vocês que os cinco dragões desapareceram do bordado de Lady Bicho-da-Seda. Nilima e eu pudemos vê-los se transformarem quando vocês entravam em seus domínios, por isso sabíamos quando deixavam as águas das zonas deles. Há dois dias, todos desapareceram.
— Foi mais ou menos quando entramos no Sétimo Pagode — disse Kelsey.
Ele assentiu.
— Ainda temos o sextante e o disco, mas acredito que eles vão desaparecer quando retornarmos ao nosso mundo. Nilima e eu especulamos que existe uma passagem de algum tipo, semelhante à estátua de Ugra e ao portão do espírito que vá levar nosso iate de volta ao tempo normal. Amanhã vamos nos dirigir ao local onde encontramos o dragão vermelho e esperar que nos conduza de volta ao Templo da Praia. No entanto, antes de prosseguirmos, eu gostaria de lançar âncora nesta noite e permitir que todos tenham uma boa noite de descanso. Tenho motivos para acreditar que outra batalha paira em nosso futuro próximo, e quero que estejamos prontos. Senhorita Kelsey? Talvez este seja o momento de compartilhar o que aconteceu na sua visão.
Kelsey engoliu em seco e virou-se para nós.
— Quando vocês me perguntaram antes o que Lokesh tinha dito, eu não contei tudo.
— Como assim? — Perguntei.
— Eu… eu menti.
Ren se inclinou para a frente e perguntou:
— O que realmente aconteceu?
— Para começar, o capitão Dixon está morto.
Kadam tomou a palavra:
— Lokesh causou a morte do meu amigo. Nós assistimos quando aconteceu e sinto enorme pesar por sua perda. Minha primeira reação foi querer procurar o restante da tripulação para ter certeza de que estavam todos em segurança, mas não podemos nos arriscar a voltar a Mahabalipuram, sabendo que Lokesh esteve lá e que possivelmente ainda está. É muito provável que ele já tenha assassinado toda a nossa tripulação. Só espero que alguns deles tenham sobrevivido, mas, para ser sincero, não acredito nisso. Ainda assim, quando estivermos longe e em segurança, vou enviar agentes para procurá-los.
— O que mais? — perguntou Ren.
— Hmm… parece que ele quer mais do que apenas os nossos amuletos. — Kelsey gaguejou.
— Ele fez investidas para a Srta. Kelsey. Ele… a deseja.
Ren se levantou, enquanto eu apertava meus pulsos, cheio de ódio.
— Eu o mato — vociferou Ren. — Ele nunca vai tocar nela.
— Não acredito que seja a simples luxúria por uma mulher o que o move, apesar de isso certamente desempenhar um papel. Ele vê poder na Srta. Kelsey e quer… ter um filho com ela.
Eu estava profundamente perturbado. Aquele demônio queria Kelsey apenas para nos atingir? O ódio dele por nossa família, por mim e por Ren, era tão profundo que ele queria nos machucar dessa forma? Concluí que não. Lokesh era calculista e prático. Ele viu algo em Kelsey que o chamou a atenção. Ele viu força, poder e coragem. Eu o instiguei ao fazê-lo acreditar que quem o enfrentava era Kelsey, quando estávamos tentando libertar Ren do cativeiro.
— A culpa é toda minha.
Kelsey segurou meu braço.
— Por que está dizendo isso?
— Eu o incitei, eu o desafiei quando lutei contra ele no acampamento dos baigas. Ele me viu brandir o chakram quando eu estava disfarçado de você.
— Não acredito que esta seja toda a razão — disse Kadam. — Mas talvez contribua para a percepção dele. Se me permitem arriscar uma hipótese, acho que ele sempre considerou a família Rajaram poderosa e deseja absorver esse poder. Ele nunca derrotou vocês. Escaparam dele várias vezes, e ele não gosta de perder. Ter um filho é algo que ele deseja há muito tempo, há séculos, na verdade. No nosso tempo, ele tinha o mesmo desejo, mas com outra mulher.
— Mamãe — disse Ren, baixinho.
— Sim. Ele teria tomado Deschen se nós não tivéssemos fugido e agora procura tomar a Srta. Kelsey. Ele está num barco e desconfio que ficará de olho no nosso retorno.
— Ele não vai encostar nenhum dedo nela — jurei.
Ren completou:
— Precisamos escondê-la.
— Esperem um segundo. Vocês precisam de mim. Eu tenho poder, e há dezenas de piratas de Lokesh a enfrentar. Nós os vimos.
Kadam bateu no lábio com os dedos.
— Estou de acordo com a Srta. Kelsey. Acredito que, para vencer uma luta sem baixas, vamos ter de atingi-los com força e rapidez. Não acho que eles vão tentar nos matar. O mais provável é que empreguem armas não letais mais uma vez. Nós vamos usar o casco do navio como escudo e o seu poder, primeiro à distância. A briga no braço vai ser o último recurso e a Srta. Kelsey é uma boa arma à distância. Vou elaborar um plano de ataque específico enquanto vocês três dormem. Descansem o máximo possível. Vamos torcer para que ele não repare em nós, mas vamos nos preparar para a guerra. Amanhã precisamos estar prontos para a batalha.
Ren se virou de frente para uma janela escura e perguntou:
— Por que não nos contou isso antes, Kelsey?
— Eu não queria distraí-los. Se não chegássemos à superfície, não teria feito diferença. Torci para que houvesse tempo de sobra para lhes contar tudo mais tarde.
Ele se virou de frente para ela.
— Da próxima vez, me conte logo. Consigo lidar melhor com informações desconcertantes quando está tudo às claras e quando você é sincera comigo.
— Tudo bem.
Kadam terminou a reunião e eu acompanhei Kelsey até seu quarto. Ren nos seguiu silencioso, andado devagar atrás de nós. Eu não me importei, sabia que ele estava tão preocupado quanto eu.
— Conseguimos o Colar. Agora vocês podem ficar na forma humana durante 18 horas por dia. Só falta mais uma tarefa.
Eu estava tão preocupado que aquilo não me parecia importante. Dei um beijo na testa de Kelsey e me despedi dela. Precisava conversar com Ren, esclarecer a nossa relação com Kelsey e traçarmos um plano para protegê-la a qualquer custo.
Achei melhor deixá-la sozinha naquela noite. Abri a porta de comunicação e vi que ela havia deixado uma luz acesa, mas estava bem. Fui para o meu quarto e dormi profundamente.
Na manhã seguinte voltei ao quarto, mas Kelsey já havia se levantado. Saí para procurar por ela. No caminho encontrei Kadam Ele me disse que estávamos quase chegando ao nosso destino e por isso, deveríamos nos reunir na casa do leme.
Encontrei Ren e Kelsey juntos. Eu não me importei, não fiquei com ciúme. Ela teve toda a liberdade para escolhê-lo, mas escolheu a mim. Eu me sentia seguro. Dei um beijo na bochecha dela e o recado de Kadam. Ren me encarava insatisfeito, mas eu o ignorei. Peguei a mão de Kelsey para irmos ao encontro de Kadam, Ren nos seguiu.
Enquanto dávamos a volta pelo deque externo para chegar à casa do leme, Ren perguntou:
— Kishan, será que você pode dormir no quarto da Kelsey hoje à noite?
Eu olhei surpreso e desconfiado. Cruzei os braços e perguntei o porquê.
— Ela está tendo pesadelos. Dorme melhor com um tigre por perto.
Kelsey franziu a testa.
— Ren, você não precisa providenciar…
— Apenas deixe-me ajudar com isso, Kells.
— Tudo bem. Tanto faz. Vocês dois que façam seus planos.
O iate seguia calmo pelas águas daquele reino mágico, sendo guiado por Kadam e Nilima. O tempo foi passando e nada acontecia. De repente, o iate deu uma guinada.
— O que aconteceu? — gritou Kadam.
— Toquei no quimono e disse: “Leve-nos para casa.”—Respondeu Kelsey.
Nilima e Kadam afastaram-se dos controles, que agora piscavam enlouquecidos. O sextante e o disco celeste tremeluziram e desapareceram. Ren e eu nos transformamos em tigres e nos acomodamos aos pés de Kelsey, um de cada lado. Kelsey mostrou o tecido para Kadam.
— Parece que estamos nos movendo no tempo normal mais uma vez. Mas nenhum dos nossos instrumentos está funcionando — disse ele. — Acredito que Lady Bicho-da-Seda esteja nos levando para casa.
— Isso significa que temos tempo antes de voltar?
— Acredito que sim. Antes, demoramos aproximadamente 12 horas para viajar entre os mundos.
— Então, vamos chegar amanhã de manhã cedo.
— Isso mesmo.
— Levando em conta o que está à nossa espera, isso provavelmente é bom. Ren e Kishan precisam ficar na forma de tigres durante seis horas. Não que eles não sejam igualmente terríveis na batalha em sua forma felina. Ela se inclinou e sussurrou na orelha de Ren— Não pode me castigar por fazer piada com você agora, não é mesmo, gatinho lindo?
Kelsey realmente gostava da presença dos tigres. Pensei se ela sentiria falta deles quando quebrássemos a maldição.
Ao amanhecer, sentimos o iate dar solavancos. Kelsey caiu da cama, mas Ren se transformou a tempo de segurá-la. Eu me transformei e corri para a casa do leme. Estávamos em Mahabalipuram, em meio a uma tempestade que não parecia ser natural. As ondas pareciam cronometradas. Havia nuvens escuras no céu e um vento muito forte varria o iate. Entrei na casa do leme e Kadam estava assustado. Estávamos sendo atacados.
Ren e Kelsey chegaram e estavam com as armas. Kadam lhes explicou o que estava acontecendo.
— Fomos descobertos. Eu não fazia ideia de que ele tinha esse tipo de poder.
—É Lokesh?
Kadam assentiu.
— Meus cálculos estavam errados! Chegamos ao Templo da Praia ao amanhecer… mais cedo do que o esperado. Resolvi passar ao largo da cidade, só para garantir. Mas ele estava à nossa espera perto do templo e lançou seu ataque! Temos que tentar avariar o barco dele antes que nos destrua!
Kelsey, Ren e eu subimos à amurada e ela nos prendeu usando o lenço. Começamos o ataque. Usando o fruto, o lenço e o colar, tentamos anular as forçar de Lokesh. Mas ele era muito poderoso. A água estava cheia de tubarões, e eles pareciam estar à serviço de Lokesh. Pedi ao fruto que jogasse 500 quilos de carne no mar, para distrair os animais, mas eles não se importaram. Pareciam hipnotizados. Ren e eu estávamos preocupados, pois sabíamos que Kelsey ainda estava traumatizada por causa do tubarão gigante.
Kelsey pediu que o colar produzisse chuva, mas Lokesh também tinha esse poder. A chuva dele alcançou nosso barco com violência. Kelsey começou a chorar e Ren a abraçou. Então ela se acalmou e voltou a atacar, empurrando a chuva de volta para Lokesh. De repente, a chuva parou e as nuvens se abriram. O sol brilhou sobre nós, como se Lokesh tivesse desistido. Seu barco escapou de um redemoinho e voltou a nos perseguir.
Ouvi Kadam me chamar e fui até ele, que estava preocupado e me disse que teríamos que lutar.
— Estamos quase sem combustível. Não vamos conseguir ser mais rápidos do que eles.
— Quanto tempo ainda temos?
— Meia hora. Talvez uma hora, no máximo.
Nós três nos juntamos e discutimos outras opções. Eu queria ancorar o iate e lutar contra ele em terra. Ren queria dar meia-volta e arremeter o iate contra o barco dele. Nosso planejamento silencioso foi interrompido pelo som de diversos gêiseres em erupção. Jatos de respiração de baleias. Kelsey tinha pedido ajuda às criaturas do mar, usando o colar. Dezena de corcovas de baleias cinzentas foram na direção do barco negro. Elas o rodearam e bateram contra ele com o corpo pesado, conseguindo retardar seu progresso.
— Vamos aproveitar a deixa — gritou Kelsey. — As baleias vão retardá-los. Nós vamos até onde nosso combustível nos levar, então pegamos a lancha para ir até a praia e desaparecemos na selva.
Estávamos correndo em direção a Kadam, quando Kelsey parou preocupada.
— Os tubarões! Kishan, onde eles estão?
— Ali. — apontei para o mar— Ele mandou que atacassem as baleias.
— Não!
A água logo ficou vermelha quando um bebê baleia foi separado da mãe e morto.
— Pare com isso! — berrou Kelsey.
Kelsey tocou o colar e pediu para que as baleia voltasse para o oceano. Ela estava triste e abalada. Quando Ren voltou, ela estava desolada:
— As baleias se foram. Eu não pude permitir que fossem mortas.
— Eu entendo — Ren apertou seu braço de leve. — Vamos lutar com ele no corpo a corpo. Parece ser o que ele deseja.
— Ele me quer viva.
— Ele nunca vai levar você.
— Estão vindo rápido! — gritei — Preparem-se!
Agora o barco de Lokesh estava muito próximo. Não era tão grande quanto o nosso, mas ainda assim era uma embarcação de certa potência, e era rápida. Havia um arpão grande instalado no convés superior. Homens se agitavam perto das velas e pelos deques e se agachavam atrás de caixas para se proteger. Apenas Lokesh se mantinha em pé, encarando Kelsey e sorrindo. Ele estendeu a mão, chamando por ela. Kelsey se colocou entre Ren e eu, que o encaramos com raiva.
Os homens de Lokesh começaram a invadir o barco, e a luta começou. Havia muitos homens, mas eles não eram tão habilidosos quanto nós três, com nossas armas e o poder de Kelsey. Lokesh era meu objetivo.
Mas ele não desceu do barco. Ele apenas observava a luta e parecia satisfeito, mesmo com seus homens sendo aniquilados.
Kadam e Nilima baixaram âncora e vieram lutar conosco. Eles não tinham armas mágicas, mas eram lutadores habilidosos e mortais. Estávamos vencendo com facilidade. Ouvi Ren mandar que Kelsey se escondesse.
— Não quero que você fique aqui. Nós estamos nos virando bem. Recue para onde estava antes. Estava fora do alcance visual.
— Você precisa de mim.
— Eu sempre vou precisar de você. É por isso que quero que fique em segurança. Por favor, recue.
— Certo, mas guarde um pouco para mim.
Ren sorriu.
— Sem problema. E… Kelsey?
— O que foi agora?
— Eu amo você.
— Eu também amo você.
Eu fiquei perturbado com aquela declaração entre os dois. Ren não ia desistir de Kelsey. Me distraí e quase fui derrubado, mas voltei à luta rapidamente, tentando não pensar mais naquilo.
Eu me concentrei na luta e fiquei surpreso quando percebi que não havia mais piratas vivos no iate. Uma pilha de corpos estava ao nosso redor. O barco de Lokesh havia sumido e os ataques cessaram.
Olhamos ao redor e éramos apenas Ren e eu. Esperamos um pouco, mas nenhum inimigo surgiu. Nilima e Kadam também não apareceram. Nem Kelsey.
Ren correu até o lugar onde ela deveria estar e sua expressão era de desespero quando voltou. Ela não estava lá. Olhei para a água e vi algo brilhando, nadando em nossa direção: Fanindra. Eu a peguei na água. Ela estava com o amuleto de Kelsey. Olhei para Ren e não precisei dizer nada. Kelsey havia sido levada.
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