A viagem do tigre - Pov dos tigres
28 Ciúme - Ren
Então era isso. Eu venci. Derrotei o dragão. E agora teria Kelsey de volta.
Quando subi aquelas escadas, eu apenas esperava abrir a porta e levá-la para casa, mas o que aconteceu foi muito mais do que isso.
Quando não consegui abrir a porta, achei que ela estivesse trancada. Tentei derrubá-la, mas foi em vão. Ouvi a voz do dragão falar em minha cabeça:
A culpa não é minha, tigre. É ela que não quer deixar você entrar.
—Como assim? Kelsey perguntou.
Você não quer que ele entre.
— Claro que quero!
Não quer, não. O herói ganha o prêmio, e você é um prêmio que não quer ser conquistado,deti dama. Se quiser que ele a salve, abra a porta.
—Eu não consigo!
Não estou falando da porta do quarto. Estou falando da porta do seu coração.
Ouvi Kelsey soluçar. Fiquei preocupado por não saber o que estava acontecendo lá dentro. Eu mantinha minha mão na maçaneta, tentava abrir mas nada acontecia. Por um tempo, eu não ouvi mais nada. Então eu senti algo. A conexão entre mim e Kelsey. Meu coração estava sendo tocado. Eu pude ver um cordão dourado que nos unia. Senti Kelsey tocar o cordão, hesitante.
—Por favor, não solte. Não posso perder você mais uma vez —Supliquei em meu pensamento.
Neste momento, foi como se ela pudesse me ouvir. Senti ela agarrar a corda com força e caminhar em minha direção. Fechei os olhos e me lembrei de cada momento entre nós dois. Desde que a vi no circo pela primeira vez, até o nosso último beijo, aquele que eu roubei no iate. Depois me lembrei de quando fui levado por Lokesh, de quando Durga levou minhas memória, do aniversário de Kelsey, quando eu a desprezei, de quando eu terminei com ela e comecei a namorar outra mulher. Pensei em todo o sofrimento que causei a Kelsey e senti os passos dela ficarem mais pesados. Eu suplicava para que ela não desistisse, que continuasse caminhando. E ela continuou.
Então eu a vi. Ela estava de costas para mim e perguntou onde estava. Eu lhe respondi sorrindo:
—Você está aqui, comigo.
Ela se virou confusa, e com um soluço de alívio, correu para os meus braços.
—Por que foi tão difícil me achar, iadala?
—Você me abandonou. Eu precisei abrir mão de você.
—Eu nunca a abandonei. Sempre tive um lugar para você no meu coração—Levantei seu queixo para que ela olhasse para mim.—Mas e você? Está se sentindo diferente agora? Quer que eu abra mão de você?
Ela hesitou, me olhando com os olhos cheios de lágrimas. Então me abraçou forte.
—Não. Não quero que abra mão de mim. Nem agora, nem nunca.
Eu me senti aliviado com a resposta. Mas ela ainda tinha mágoas. Ela chorava e me questionava por tê-la abandonado. Eu lhe jurei que seu amor era correspondido e que eu acreditava, do fundo do meu coração, que era nosso destino ficarmos juntos.
—Meu maior desespero foi ficar sem você. Será que ainda estou sem você? Ou será que você pertence a mim do mesmo jeito que eu pertenço a você? Ainda me ama, priyatama?
Kelsey fechou os olhos e me respondeu:
—Eu sempre fui sua. Nunca deixei de amar você.
Eu acariciei seu rosto até que ela abrisse os olhos
—Então nunca vou abandoná-la— eu disse e beijei seus lábios.
Quando eu abri os olhos, Kelsey não estava comigo. Eu continuava sozinho, do lado de fora, segurando a maçaneta da porta. Mas eu sabia, em meu coração, que aquilo não fora imaginação. Kelsey esteve comigo e nós compartilhamos nossos sentimentos. Eu a tinha de volta.
Girei a maçaneta e a porta se abriu. Kelsey estava em pé. Ela usava um vestido de princesa medieval, e seus cabelos estavam presos em duas tranças longas. Eu me aproximei e a abracei. Ela me abraçou de volta e nós nos beijamos. Havia ternura, havia alívio, saudade, cumplicidade. Nós confessávamos os nossos sentimentos, sussurrando baixinho para o outro. Nos abraçávamos e acariciávamos. Meu coração estava aberto e eu estava completamente feliz. Então a porta se abriu de repente.
Kelsey olhou assustada e saiu dos meus braços. Me virei e vi os olhos de Kishan, irados. Kelsey afastou-se de mim e ficou entre nós dois. Eu a olhei decepcionado, mas entendi que ela estava se sentindo culpada. Ela se virou de costas para nós.
Eu esperava que ela dissesse algo. Ao invés disso, ouvi a voz do dragão, que reapareceu em sua forma humana, em suas ridículas vestes de príncipe.
—Vocês todos me proporcionaram um jogo dos mais divertidos, de que vou me lembrar com carinho durante muitos milênios. Têm certeza de que não querem ficar aqui mais um pouco?
Kelsey demonstrou toda a sua irritação, ao exigir que o dragão nos deixasse ir embora. Eu disse a ele que tinha vencido e ganhado a garota, portanto ele deveria me entregar Kelsey e a informação de que precisávamos a Kishan.
—Tudo bem!—Disse o dragão bufando—Você leva a garota. E você fica com isto.
Ele fez um gesto com a mão e uma bola de fogo disparou da palma, acertando os olhos de Kishan e cegando-os. O dragão nos mandou de volta para a praia onde iniciamos a caçada e nós fomos até a lancha. Kelsey ficou com Kishan, enquanto eu dirigia o barco.
Nós três ficamos em silêncio durante o trajeto. Kishan estava sendo cuidado por Kelsey, que certamente se sentia culpada por tudo o que houve. Eu estava cheio de ciúmes, porque Kelsey ainda agia como se fosse a namorada dele.
Chegamos ao iate e a atenção de todos foi para Kishan. Kelsey o levou até seu quarto, e quando fui até lá, me deparei com ela acariciando o rosto de meu irmão afetuosamente. Ele tinha os olhos fechados e sua cabeça descansava na perna dela. Sai dali e fui até a casa do leme. Contei a Kadam o que tinha acontecido nos domínios do dragão verde, deixando de fora apenas minha experiência com Kelsey. Kadam começou a pesquisar, pois acreditava que a cegueira de Kishan, de alguma forma nos ajudaria em nossa busca.
Enquanto Kadam pesquisava, resolvi procurar por Kelsey. Nós precisávamos conversar sobre o que aconteceu no castelo do dragão verde. Fui até o quarto de Kishan, e a encontrei dormindo, abraçada a meu irmão. Sua cabeça descansava sobre o peito dele. Senti ciúmes. Quis arrancá-la dali e tomá-la em meus braços, deitá-la em meu colo e dizer a ela que nunca mais dormisse nos braços de outro homem, porque ela era minha.
Dominei meu desejo e a observei. Ela ainda usava as roupas de princesa. Seus cabelos estavam muito longos e trançados. O dragão deve ter usado magia para fazer com que os cabelos dela crescessem. Eu pensei que pelo menos algo bom aquele dragão fez por mim, afinal, eu odiava os cabelos curtos de Kelsey. A minha Kelsey deveria ter os cabelos longos e trançados.
Mas os cabelos dela estavam grandes demais, imaginei que ela iria querer cortá-los. Procurei por Nilima e disse a ela que, se Kelsey lhe pedisse para cortar os cabelos, que ela ainda os deixasse compridos. Nilima prometeu que faria isso.
Eu também estava exausto e fui para o meu quarto, para dormir um pouco. Quando acordei, voltei ao quarto de Kishan, e Kelsey não estava. Eu a encontrei na casa do leme. Como imaginei, ela pediu a Nilima que lhe cortasse os cabelos. Ainda no corredor, eu a ouvi reclamando que os cabelos ainda estavam compridos demais.
—Sinto muito, Srta. Kelsey. Recebi instruções específicas para não cortar mais curto do que a altura da cintura.
—Ah, é mesmo?
—É, sim. Ren ameaçou me demitir e, tecnicamente, ele tem o direito de fazer isso.
—Ele não vai demitir você. Está blefando.
—Mesmo assim, parecia muito sério.
—Tudo bem. Eu mesma vou cortar sozinha mais tarde.
—Não vai, não—Falei com autoridade, encostado no batente da porta, com os braços cruzados—Vou jogar todas as tesouras no mar.
—Pode jogar. Eu dou outro jeito. Talvez use o chakram. Você não teria coragem de jogá-lo no mar.
—Experimente. Você vai ter que lidar com as consequências, e não vai gostar delas.
Kadam nos chamou a atenção, antes de falar sobre suas teorias quanto à cegueira de Kishan:
—Fineu foi castigado por revelar coisas demais sobre os deuses. Ele foi cegado e mandado para uma ilha com um bufê cheio de comida que ele não podia tocar.
—Eu me lembro dele—comentou Kelsey.—Jasão e os Argonautas o salvaram. Lutaram contra as harpias para que ele pudesse comer e então ele lhes disse como atravessar os rochedos do Bósforo que se moviam.
—Correto. Polifemo foi o ciclope canibal cegado por Odisseu. Não consigo encontrar nenhuma conexão com essa história, mas achei melhor mencioná-la. Depois houve Édipo, que arrancou os próprios olhos após descobrir que tinha realizado as palavras do oráculo ao se casar com a própria mãe. Ele a encontrou morta depois que ela cometeu suicídio e então espetou os próprios olhos com alfinetes.
—Talvez levar uma mulher que pertença a outro se aplique ao nosso caso —Falei.
—Em primeiro lugar, Sr. Sutileza, Kishan não me levou a lugar nenhum a que eu não estivesse disposta a ir. Em segundo, eu não acredito que Laio tenha dito à esposa para cair fora. E, em terceiro, não acho que a história de Édipo tenha algo a ver conosco!O tema óbvio aqui, que você poderia entender se fosse capaz de controlar o monstro de olhos verdes que habita o seu corpo, é profecias e oráculos.
Kadam pigarreou, pouco à vontade.
—Estou inclinado a concordar, Srta. Kelsey.
—Então, vocês acham que Kishan supostamente se transformou em alguma espécie de oráculo? Que ele vai nos conduzir ao quarto dragão?
—Só o tempo dirá — Kadam se levantou.—Talvez seja bom ir dar uma olhada nele agora.
—Ele estava dormindo quando saí — completou Kelsey enquanto Kadam se afastava apressado.
—É, você foi mesmo a melhor das enfermeiras. Ofereceu a ele o mais macio dos travesseiros para pousar a cabeça cansada.
—Hum... talvez seja melhor eu acompanhar meu avô—disse Nilima e saiu.
—Será que alguém já lhe disse que parece mesquinho quando está com ciúme?— Kelsey falou enquanto trançava os cabelos.
—Você acha que eu me importo com o que pareço?
—Obviamente, não.
—Está certa. Não me importo. E, sim, reconheço, estou mesmo com ciúme. Tenho ciúme de cada minuto que você passa com ele, de cada expressão preocupada que você mostra por ele, de cada lágrima derramada, de cada olhar, de cada toque e de cada pensamento. Tenho vontade de despedaçá-lo e de expurgá-lo da sua mente e do seu coração. Mas não posso fazer isso.
Kelsey se levantou da cadeira e jogou a trança por cima do ombro.
—Kishan precisa de mim neste momento, e sinto muito se você não consegue aceitar isso.
Eu dei um passo em sua direção e falei quase desesperado:
—Kishan não é o único que precisa de você, Kelsey.
—Talvez não. Mas a necessidade dele é mais imediata.
—Por enquanto. Mas o pavio está aceso. Pode correr quanto quiser, mas está deixando um rastro de pólvora pelo caminho. Mais cedo ou mais tarde, você vai se dar conta disso— eu me aproximei dela e segurei seu queixo, erguendo-o para que ela me olhasse nos olhos—Você precisa saber que eu também estava lá na toca do dragão. Estava naquele mundo enevoado de sonho com você. Ouvi suas confissões secretas. Sei quais são os sentimentos mais profundos do seu coração. O seu lugar nunca vai ser ao lado dele. Você é minha, e está na hora de se conformar com isso.
Kelsey se irritou e começou a gritar comigo, acusadora:
—É muita ousadia você achar que eu sou sua. Não sou uma escrava nem uma noiva em negociação que você pode comprar do pai. Não existe contrato que governe o meu afeto. Eu tomo minhas próprias decisões. Sou senhora de mim e sou de quem eu quiser, durante o tempo que eu desejar. Jamais pressuponha que tem o direito de fazer o que quiser comigo. Só porque você é príncipe isso não significa que eu seja sua súdita. Então, desça desse trono, sua alteza, e encontre alguma outra garota para intimidar.
Enquanto falava, Kelsey foi caminhando nervosa em minha direção. Quando terminou, nós estávamos muito próximos e ela estava ofegante. Eu sempre achei que ela ficava irresistível quando estava nervosa. Olhei para seus lábios e sorri.
— “Não ensine a seus lábios tal escárnio, porque foram feitos para beijar, senhora, não para tal desprezo.”
Eu a segurei e a puxei para mim rapidamente, colocando meus lábios sobre o dela. Ela tentou me empurrar, mas eu segurei seus braços na lateral do seu corpo. Ela tentou escapar, mas não conseguiu. Quando eu mordi de leve seus lábios, ela parou de lutar e gemeu baixinho. Então passou a retribuir o meu beijo deliciosamente. Eu movi minha mão, que encostou na trança dela, fazendo meu coração disparar. Segurei sua trança longa, possessivo, e puxei levemente, empurrando a cabeça dela para trás, para aprofundar o beijo. Kelsey gemeu mais uma vez e expirou profundamente.
Quando eu afastei nossos lábios, ela estava ofegante e suas bochechas estavam vermelhas. Sorri satisfeito. Ela me olhou com raiva.
—Se você está pensando em dizer que isso foi esclarecedor, vou lhe jogar um raio e atirá-lo no mar.
Era exatamente aquilo o que eu estava pensando. Beijar Kelsey era extremamente esclarecedor. A forma como meu corpo reagia a ela, não havia nada no mundo que me fazia sentir aquela plenitude. Era como se nos lábios de Kelsey eu encontrasse a porção de mim que faltava. E eu tinha certeza de que Kelsey era minha, pela forma como ela se entregava, como o coração dela pulsava, sua pele se arrepiava e todo o seu corpo reagia a mim. Eu estava muito seguro. Toquei seu lábio inferior, notando seu inchaço e a empurrei em direção à porta.
—Vá. Cuide de Kishan.
Confusa, ela passou pela porta, mas eu a chamei. Ela se virou impaciente e eu lhe disse com seriedade:
—Eu estava falando sério sobre o cabelo.
Ela saiu batendo o pé, enquanto eu ria de sua teimosia.
Depois de algumas horas, fui até o quarto de Kishan. Kelsey estava dormindo, enquanto Kishan acariciava suas costas. Eu parei diante da porta e meu irmão virou o rosto imediatamente, percebendo que eu estava ali. Eu tinha certeza que, apesar da cegueira, Kishan era perfeitamente capaz de se virar sozinho, afinal, ele ainda mantinha seus sentidos de tigre, portanto, podia ouvir e cheirar muito bem, ao ponto de não precisar da ajuda e dos cuidados de Kelsey. Mas ele estava se aproveitando da bondade dela para mantê-la ao seu lado, porque já devia ter percebido que ela e eu voltaríamos a ficar juntos.
Eu disse a Kishan que levaria Kelsey até o seu quarto e que eu mesmo o ajudaria, caso ele precisasse. Kishan protestou, mas eu peguei Kelsey em meus braços e disse a meu irmão que ela precisava descansar e que ele deveria deixar de ser tão egoísta.
Saí pela porta principal ao invés de usar a porta de comunicação. Kelsey acordou e se aninhou a mim. Eu lhe dei um beijo na bochecha e ela sorriu. Então de repente, ela levantou a cabeça e perguntou confusa:
—O que você está fazendo?
—Não há necessidade de dormir no quarto de Kishan. Vou cuidar dele esta noite, e você poderá dormir na sua própria cama.
—Me coloque no chão. Você não manda na minha vida. Kishan por acaso é meu namorado, e ele está doente. Se eu quiser ficar no quarto dele, vou ficar.
—Não... vai... não.
Eu a beijei e a coloquei na cama, mas ela se levantou. Eu olhei firmemente para ela, que congelou.
—Kelsey... se você sair desta cama, vou ter que tomar uma medida drástica, e você não vai gostar. Por isso, não me provoque.
Eu sai e fechei a porta. Kelsey lançou algo contra ela, mas permaneceu no quarto.
Na manhã seguinte, ouvi Nilima dizer que iria ao quarto de Kishan lhe oferecer o café da manhã. Eu tinha certeza de que meu irmão pediria à Nilima que chamasse por Kelsey e que ela o obedeceria. Peguei o fruto e disse que eu mesmo cuidaria de Kishan.
Assim que entrei no quarto, Kishan perguntou por Kelsey. Eu lhe disse que eu mesmo lhe serviria o café. Pedi algo ao fruto e entreguei o prato e um garfo para meu irmão, dizendo-lhe onde cada coisa estava. Kishan virou o rosto e sorriu. Ele percebeu a chegada de Kelsey antes de mim. Ele se sentou ereto e deu tapinhas no lugar ao lado dele na cama.
—Kelsey? Quer me ajudar com o café da manhã?
—Você estava comendo muito bem antes de ela chegar. Ela não é enfermeira, e você não é um inválido—falei irritado.
Kelsey me olhou com raiva.
—Pare de ser grosso. Se ele quer que eu o ajude, vou ajudar.
—Não. Se ele precisar de ajuda, eu ajudo!
Eu sabia que Kishan não precisava de ajuda e que só estava fazendo aquilo para ter Kelsey por perto. Mas eu não deixaria. Kelsey era minha. Comecei a colocar comida na boca de Kishan, que reclamou:
—Ei! Ela é muito mais delicada—disse ele, engasgando entre bocadas.—E ela não derrama coisas frias e molhadas no meu colo!—Kishan pegou algo e o amassou entre os dedos.—O que é isto?
Kelsey riu e respondeu a ele:
—É fruta. Parece abacaxi.
—Ah.
Kishan pegou os pedacinhos e os jogou na minha direção, que dei um tapa em sua cabeça. Ele perguntou a Kelsey se ela havia dormido bem.
—Dormi. Sonhei que entreguei Ren para o kraken comer.
Com um sorriso, Kishan brincou:
—Que bom!
Com raiva, coloquei outra garfada de comida na boca de Kishan, que começou a tossir. Kelsey reclamou
—Olhe só o que você fez!
Ela se sentou ao lado dele e o acariciou. Kishan pegou a mão dela e beijou, enquanto eu apertava o garfo entre os dedos, com raiva.
—Esta é a minha garota. Estava com saudade de você, bilauta. Dormiu melhor em sua própria cama?
—Bom, na verdade...
—Pronto— eu a interrompi, entregando o prato de volta às mãos de Kishan.—Termine sozinho. Kelsey e eu precisamos conversar sobre uma coisa. Já voltamos.
Eu a puxei pela mão e a levei até o convés da tripulação. Então parei e a agarrei pelos ombros. Eu não aguentava mais aquele teatro.
—Kelsey, se não disser a ele que está tudo terminado, eu vou dizer. Estou ficando louco de ver você toda melosa com ele.
—Alagan Dhiren! Você não tem nem um pouco de pena dele? Será que não consegue entender como isso é difícil? Você acha que pode simplesmente estalar os dedos e fazer os últimos meses desaparecerem? Bom, não pode. Sei que essa situação é desagradável. Não é fácil para nenhum de nós. Preciso de tempo para organizar meus sentimentos e decidir o que fazer.
—Como assim, decidir? Você acha que essa situação é a mesma coisa que escolher qual sapato vai calçar? Você não decide quem ama, você simplesmente ama.
—E se eu amar vocês dois? Já pensou nessa possibilidade?
Eu cruzei os braços por cima do peito.
—E você ama?
—Claro que amo vocês dois.
—Não, não ama. Não é a mesma coisa, iadala— eu suspirei passando a mão pelo cabelo.—Kelsey, você está me deixando maluco. Eu nunca devia ter escolhido aquele ativador.
Era a primeira vez que eu falaria sobre aquilo com alguém. Eu não pretendia contar a Kelsey sobre o motivo de eu ter recuperado a minha memória. Mas agora era tarde, eu teria que falar a respeito.
—O quê? Que ativador? Do que está falando?
Angustiado, fui até a mesa de jantar e me sentei, apoiando a cabeça nas mãos. Então confessei:
—Durga permitiu que eu escolhesse o ativador, a coisa que em algum momento iria me ajudar a recuperar a memória.
Ela puxou uma cadeira de se sentou à minha frente.
—E o que você fez?
—Eu precisava escolher algo que garantisse a sua segurança. Não podia simplesmente escolher estar com você em casa, por exemplo, nem o encontro com Phet. Quebrei a cabeça para tentar inventar algo, e a imagem de Kishan roubando um beijo seu na praia surgiu na minha mente. Eu sabia que ele iria tentar fazer isso de novo e achei que, se eu estivesse por perto para vê-lo beijando você e se ele se sentisse à vontade fazendo isso, significaria que você estava fora de perigo. Então, o ativador era um beijo. Quem poderia imaginar que ele iria demorar tanto?
Ela parecia surpresa.
—Você apostou sua memória em ver Kishan me beijar?
—Apostei.
—Espere um minuto. Kishan me beijou antes do navio. Ele me beijou em Shangri-lá. Por que não funcionou naquela ocasião?
—Porque eu ainda estava prisioneiro, e isso era parte da condição. Eu tinha que estar livre e ver vocês dois se beijarem. Espere um minuto... quando foi que ele a beijou em Shangri-lá e por que esta é a primeira vez que ouço falar disso?
—Não importa. O que importa, aliás, é que você é um idiota.
—Obrigado.
—Você é um idiota porque eu fiz Kishan prometer que não ia me beijar. Ele jurou que ia esperar até saber que você e eu não estávamos mais juntos. Passou meses sem me tocar por causa dessa promessa. Você não confiou em mim.
—Eu não confiei nele. E exatamente de quantos beijos estamos falando aqui? Porque, se foram parecidos com o que eu vi, vou ter que pedir ao Lenço para costurar os lábios do meu irmão.
—Se quer mesmo saber, ele roubou alguns beijos em Shangri-lá e me beijou na piscina antes de salvarmos você, o que, aliás, me fez chorar, e foi quando eu o obriguei fazer a promessa. Fiquei esperando você. Mesmo quando você voltou e não se lembrou de mim e não conseguia tocar em mim, eu fiquei esperando você. Eu nem me aproximei de Kishan antes de você começar a desfilar com aproveitadoras na minha frente. Fui fiel a você, Ren. Eu o amava.
—Você ainda me ama.
—Por que não escolheu alguma outra coisa como ativador, como chegar em casa a salvo ou voltar a comer os meus biscoitos?
—Eu não fazia ideia de que ele ficaria longe de você. Achei que ia tentar beijá-la na primeira oportunidade que tivesse.
—Ele tentou. Até eu fazer com que prometesse que não iria tentar. Isso é ridículo. Parece que estamos presos a uma peça de Shakespeare. Ele a amava, ela o amava, ele se esqueceu dela e então ela passou a amar o outro rapaz.
—Então, é comédia ou tragédia?
—Não faço ideia.
—Espero que seja comédia— Eu segurei as mãos dela.—Eu amo você, Kells, e sei que você me ama. Sinto pena de Kishan, mas não o suficiente para permitir que ele fique com você. Não vou desistir.
Ela olhou para o meu rosto e falou com pesar:
—Preciso de tempo.
Suspirei infeliz.
—Cada minuto que estamos separados parece uma eternidade. Não posso ficar assistindo a vocês dois juntos, Kelsey. Isso me devora por dentro.
Ela respirou fundo antes de me falar:
—Certo, vamos fazer um acordo. Você me dá um pouco de espaço, e vou pedir a mesma coisa a Kishan. Isso vai ter que bastar a vocês dois. Temos mais dois dragões e o Sétimo Pagode para superar, e não podemos nos dar ao luxo de contar com mais distrações neste momento.
Não era o que eu queria ouvir, mas resolvi concordar com ela.
—Tudo bem. Vou tolerar Kishan. Desde que ele não toque em você.
—Isso significa que você também não pode tocar em mim.
—Certo — eu sorri.—Mas você vai sentir a minha falta.
—Alguma vez eu já disse que a sua arrogância não cabe dentro do próprio peito?
Eu me levantei e me aproximei dela, segurei sua mão e a fiz ficar de pé. Então eu a beijei. Percebi o corpo dela se amolecer em meus braços, como sempre acontecia. Então eu dei um passo para trás.
—Esta é só uma coisinha para você se lembrar de mim.
E saí satisfeito pelo convés.
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