A viagem do tigre - Pov dos tigres
17 Algo novo - Ren
Bem cedo, deixei Randi no próprio iate e disse a ela que a buscaria no dia seguinte. Eu precisava de tempo como tigre.
Voltei para o iate e vi Kelsey sair com o jipe. Kadam me disse que ela quis fazer compras na cidade e que Kishan iria se encontrar com ela mais tarde. Eu não sabia que tipo de encontro seria, mas esse tinha sido o meu plano, fazer com que Kelsey e Kisan ficassem juntos. Resolvi ignorar meu ciúme.
Fiquei como tigre, escondido durante aquele dia. Na manhã seguinte, acordei cedo e me despedi de Wes, que iria embora naquele dia. Em seguida, fui buscar Randi.
Eu não estava apaixonado, mas queria mostrar a Kelsey que eu estava seguindo em frente. Então, convidei Randi para passar alguns dias no iate conosco. Enquanto nós nos aproximávamos da rampa, vi Wes descendo e imaginei que Kelsey estivesse por perto, pois teria ido se despedir do nosso instrutor de mergulho. Então, agarrei o braço de Randi e aproximei nossos corpos.
Kishan sabia que eu a levaria. Eu tinha dito a ele naquela manhã, que eu conhecera uma mulher e que a levaria para o iate. Ele me olhou de cara feia e me perguntou se eu tinha certeza. Eu assenti e saí, sem dizer mais nada.
Quando comecei a subir a rampa, vi os dois. Kishan segurava Kelsey, tentando levá-la dali. Mas ela olhou sobre os braços dele e me viu. Nossos olhos se encontraram por alguns segundos e meu coração disparou. Fiquei tenso, com medo de o que aconteceria em seguida. Então reparei em algo.
Os cabelos dela estavam diferentes. Ela os havia cortado. Me senti traído e fiquei com raiva. Ela me devolveu um olhar raivoso e eu desviei os olhos para Randi, e sorri, tentando ignorar Kelsey.
Randi falava o tempo todo, mas eu não conseguia prestar atenção. A única coisa em que eu pensava era no novo cabelo de Kelsey e em como ela estava deixando de ser minha. Mas Randi continuava falando:
— Ah! Mas como a garagem é enorme! É uma moto ali embaixo daquela lona? Eu simplesmente adoro motos. Ainda mais quando pertencem a homens grandes e fortes.
Ela era muito irritante, mas devo admitir que também era deliciosa, e servia a meu propósito.
— A garagem não é muito emocionante. Venha, Randi. Vamos dar uma olhada na piscina.
Nós caminhamos em direção à Kelsey e Randi a olhou com desprezo, o que me deixou irritado, embora eu tenha disfarçado. Em seguida, olhou para Kishan e sorriu:
— Espere um pouco, gato. Ainda não fui apresentada.
— Este é o meu irmão, Kishan, e esta é Kelsey.
— Nossa... prazer em conhecê-lo. — Ela saltitou e colocou a mão no bíceps de Kishan. — Puxa, mas eles são todos bem criadinhos na Índia, não é mesmo?
— Esta é Randi.
Kelsey puxou assunto, educadamente, mas Randi a menosprezou, o que me fez ficar com mais raiva dela. Eu já tinha percebido que Randi era exibida, atrevida e um tanto desinibida, mas até então, ela tinha sido bastante educada. Pensei que ela talvez estivesse com ciúmes de Kelsey e resolvi relevar. Saí dali levando Randi e a instalei em um dos quartos. Disse a ela para ficar à vontade pois voltaria logo.
Fui até à piscina e vi Kelsey deitada em uma espreguiçadeira. Me aproximei em silêncio e parei à sua frente, observando o cabelo que agora batia um pouco abaixo dos ombros. Eu estava furioso. Ela continuou lendo e perguntou sem levantar os olhos, achando que eu era Kishan:
— Já voltou?
— Não.— Falei com raiva, meus punhos serrados ao lado do corpo.
Ela fez sombra nos olhos com a mão e me olhou sem entender:
— Algum problema? O que aconteceu?
— O que aconteceu? O que aconteceu? Você cortou o cabelo!
— Cortei sim. E daí?
— E daí? — repeti incrédulo. — Está tão curto que você nem pode mais fazer trança!
Eu adorava as tranças dela! Adorava as fitinhas coloridas que ela amarrava na ponta, e adorava puxá-las e soltar os longos cabelos cacheados dela.
Kelsey passou a mão pelos cabelos e puxou um cacho para examiná-lo:
— Hum... pior que é. Deve dar para fazer trancinhas finas, mas não faz diferença. Eu gosto assim.
— Bom, eu não gosto!
Ela franziu a testa para mim:
— Por que exatamente você está aborrecido?
— Não acredito que você simplesmente foi lá e cortou seu cabelo sem contar para... ninguém.
— As mulheres fazem isso o tempo todo. Além do mais, não é da sua conta o que faço com meu cabelo. E Kishan gostou, apesar de você não gostar.
— Kishan...
Então era isso. Ela fez aquilo para o meu irmão. Ela não se importava em como eu me sentia ou do que eu gostava. Era Kishan quem importava. Ela havia seguido em frente. E foi bem fácil, por sinal. Kelsey me interrompeu:
— Se você precisa ver uma garota de trança, por que não fala com sua nova namorada? Tenho certeza de que a Miss Beverly Hills adoraria fazer umas tranças. Aliás, cadê ela? É melhor ficar de olho, hein, ou ela pode escapar e jogar seu chame para outro. Agora, se você não se importa, eu gostaria de retomar minha leitura.
Ela abaixou os olhos para o livro e passou a me ignorar. Eu fiquei ali, parado, pronto para retomar a discussão. Queria dizer a ela que aquilo não estava certo, que eu importava sim! Eu não queria que ela mudasse, não queria que ela deixasse de me amar. Eu queria puxá-la pelo braço e brigar com ela.
Mas Kelsey não se importava. Então eu virei as costas e saí, contrariado. Fui até o quarto de Randi e ela estava me esperando. Passamos o resto do dia sozinhos no quarto e foi bom, para não pensar em Kelsey. Me despedi dela e fui ao meu quarto para tomar banho.
Sozinho, pensei em Kelsey. Como ela era doce e inteligente e como eu me sentia bem apenas em ficar sentado ouvindo ela falar, lendo com ela, mesmo com tigre. Depois pensei nela com meu irmão, em como ela estava mudando por ele. Fiquei com raiva desta nova Kelsey e resolvi mostrar a ela que eu também estava bem. Me arrumei e fui buscar Randi para jantar.
Randi e Kelsey eram tão diferentes quanto água e vinho. Kelsey era naturalmente bonita, mas não se importava com isto. Ela era inteligente e gentil, e conquistava a todos com sua graça e simpatia. Já Randi era linda e chamativa. Se preocupava o tempo todo com a aparência e conquistava as pessoas com sua beleza extraordinária e seu corpo escultural. Mas era arrogante e desagradável. E eu percebi isso durante o jantar.
Randi reclamava de tudo e todos. A tripulação fazia cara feia para ela, Nilima já estava irritada e Kadam se escondia quando estávamos por perto. Eu estava odiando a companhia dela.Mas eu não podia voltar atrás. Eu tinha que mostrar a Kelsey que estava satisfeito com as escolhas que fiz, que eu tinha encontrado alguém e estava feliz. Embora eu não estivesse.
Eu queria que Kelsey sentisse ciúmes, mas isto não aconteceu. Ela estava bem com Kishan e os dois riam e se divertiam juntos.
Randi passou a criticar Kelsey pela forma como esta se alimentava e sugeriu que o corpo dela não era bonito. Eu achava o corpo de Kelsey perfeito, mas não a defendi, apenas concordei que o corpo de Randi era espetacular. Mas Kelsey não parecia se importar, já que meu irmão estava lá, pronto para cuidar dela e fazê-la se sentir amada.
Eu estava triste, frustrado, com ciúmes. Mal conseguia olhar para a mulher muito magra que se exibia para mim. Mas eu tinha que fingir que estava bem, então saí com Randi para um passeio romântico no iate.
A mulher não me deixava em paz e eu não a estava suportando. Na primeira oportunidade, fugia dela e me escondia como tigre. Às vezes, quando conseguia me livrar de Randi, eu ouvia Kelsey e Kishan. Os dois estavam felizes, e eu não conseguia deixar de pensar que abri mão da minha felicidade.
Eu havia pensado que se encontrasse alguém com quem eu pudesse estar fisicamente, eu a esqueceria. Mas isto não aconteceu. Mesmo sem poder estar perto dela, Kelsey ainda me preenchia quase que completamente. Mas eu precisava deixá-la. Ela parecia mais feliz agora do que quando estávamos juntos. E ela merecia ser feliz.
Durante uma leitura, deparei-me com uma frase de Shakespeare, que descrevia perfeitamente o que eu estava sentindo naquele momento. Eu sublinhei e dobrei a página, para sempre me lembrar: “Mas, ó, como é amargo enxergar a felicidade através dos olhos de outro homem.”
De manhã, Kelsey me encontrou. Eu havia ficado muito tempo como homem e ainda precisava passar algumas horas como tigre, então me escondi nos fundos de um depósito na garagem. Kelsey se agachou a meu lado, mas eu continuei com a cabeça sobre as patas, fingindo que estava dormindo. Era muito difícil encará-la assim tão perto.
— Sua nova namorada está causando problemas para todo mundo, sabia? —Ela começou a acariciar minha cabeça. — Não sei o que você estava pensando. Mas ela nem gosta de gatos! — Ela suspirou — Kishan e eu vamos tentar mantê-la ocupada por umas duas horas para você poder ficar como tigre. Mas nos deve um favor enorme. Ela só causa confusão.
Kelsey começou a coçar atrás da minha orelha e eu senti uma alegria que não sentia havia muito tempo. O simples toque dela era capaz de mexer com as minhas emoções, de uma forma que Randi, mesmo com todo o seu corpo, não conseguia nem se aproximar. Eu relaxei e comecei a ronronar.
Então, de repente, me lembrei que ela não era mais minha e me afastei de sua mão. Kelsey se levantou.
— Bom... a gente se vê mais tarde.
E me deixou sozinho novamente.
Algumas horas depois, me transformei em homem e fui procurar por Randi. Ouvi os barulhos na piscina e fui até lá. Kelsey e Kishan estavam nadando enquanto Randi estava sentada na beirada, usando um biquíni minúsculo, excessivamente provocante, tomando sol. Eu quis que ela sumisse.
Aproveitei um mergulho de Kelsey para atravessar a piscina e chamei Randi. Assim, não precisei falar com Kelsey.
Naquela tarde, o Deschen iria levantar âncora e, portanto, Randi deixaria o iate. Todos pareciam aliviados e fizeram questão que eu a acompanhasse para fora do barco. Kelsey e Kishan vieram juntos para se despedir.
Randi sussurrou algo para Kishan,alto o suficiente para que eu e Kelsey ouvíssemos:
—Espero que a sua namoradinha não tenha se incomodado de eu ter visto você no chuveiro. Tenho certeza de que ela vai entender. Por favor, entre em contato comigo quando quiser.
Ela enfiou um cartão cor-de-rosa na mão de Kishan e apertou os seios contra o peito dele quando foi lhe dar um beijo na bochecha, resvalando o canto da boca de propósito. Ela estava paquerando o meu irmão descaradamente.
Eu não me importei. Àquela altura, eu já tinha percebido o quanto aquela mulher era vulgar e só queria me livrar dela.
Eu pude ouvir o murmúrio aliviado da tripulação quando me afastava com ela, e também respirei aliviado quando voltei sozinho para o iate.
Fale com o autor