A viagem do tigre - Pov dos tigres
25 A caçada do dragão verde - Kishan
Quando Ren recuperou a memória, eu achei que ele e Kelsey voltariam a ficar juntos, mas isso não aconteceu. Ao contrário, Kelsey parecia querer estar comigo mais do que antes. Ela sempre me beijava com paixão, o que era delicioso. No geral, nós dois estávamos bem. Exceto pelo dia anterior à chegada na ilha do próximo dragão.
Havíamos sido atacados por um peixe gigante que jogou Ren na água. Eu pulei para tentar ajudá-lo, mas acabamos os dois na mira do monstro. Kelsey conseguiu distraí-lo e nos tirar da água fazendo uma escada com o lenço divino. Depois disso, ela saiu irritada pedindo que a deixássemos em paz. Eu respeitei sua vontade, até a manhã seguinte, quando chegamos a ilha do dragão verde.
Eu havia acordado por volta das nove da manhã e nós estávamos ancorados perto de uma grande ilha. Praias de areia branca e quente se estendiam até onde a vista alcançava, mas, longe do litoral, a ilha era coberta por uma camada espessa de árvores de todos os tipos. Aves coloridas voavam no alto e havia o som de várias espécie de animais.
Ren dispôs nossas armas na mesa e deu alguns passos, ficando em pé ao lado de Kelsey. Eu ouvi algo.
— Prestem atenção. Vocês estão escutando?
— Escutando o quê? — perguntou Kelsey.
Ren tocou no braço dela e fez “Shh”. Ele inclinou a cabeça e fechou os olhos. Quando os abriu, concluiu:
— Felinos. Acha que são panteras? Leopardos?
— Não. Leões?
— Acho que não.
— Como é o barulho? — perguntou Kelsey.
— Parece mais um grito do que um urro — explicou Ren. — Eu já ouvi antes... no zoológico.
Ele fechou os olhos e escutou mais uma vez.
— Onças. São onças.
— Como elas são? — perguntei curioso.
— Parecem leopardos com pintas, mas são maiores, mais agressivas. São inteligentes. Calculistas. Têm mordida forte. Não atacam a jugular, vão direto no crânio.
— Nunca ouvi uma.
— Não teria como ouvir — prosseguiu Ren. — Elas não são nativas da Índia. São da América do Sul.
Nilima e Kadam se juntaram a nós quando começamos a prender as armas. Kadam questionou:
— Então, estão pensando em entrar na selva?
— Estamos — respondeu Ren ao prender a aljava de flechas de ouro em Kelsey — Vamos de lancha até lá e entraremos na selva... por ali
Ele apontou para uma seção de árvores, insistindo que o terreno seria mais fácil naquele ponto. Kadam nos seguiu até a parte mais baixa do iate.
— Se precisarem de ajuda, peçam à Srta. Kelsey que envie um sinal de luz com seu poder de raio.
— Certo — concordei, depois pulei para dentro da lancha e estendi a mão para Kelsey.
Kadam abriu a garagem molhada e baixou a lancha para a água. Depois Ren desceu pela lateral do iate e pousou ao lado de Kelsey. Eu liguei o motor, assumi o leme e nos virei de frente para a praia. Quando pisamos na ilha, ouvimos a voz, que concluímos ser a do dragão.
Quem põe os pés na minha ilha?
Nós três giramos, procurando por quem nos falava.
Quem são vocês?
Kelsey respondeu:
— Somos viajantes em busca de sua ajuda. Precisamos encontrar seus irmãos e o Sétimo Pagode, grande dragão. Buscamos o Colar de Durga.
O dragão deu risada com o som de duas pedras grandes se esfregando, fazendo com que pássaros levantassem voo do outro lado da ilha.
E o que fariam para conseguir minha ajuda, mocinha?
— O que quer de nós?
Ah, nada... de mais. Só peço diversão. Sabem, costumo ficar muito solitário aqui na minha ilha. Talvez vocês possam me fornecer um pouco de... distração.
— Como podemos diverti-lo?
Que tal... um jogo?
Eu perguntei:
— Onde está, dragão?
Não me enxergam? Estou muito próximo.
— Não enxergamos — respondi
O dragão deu uma gargalhada de desdém.
Então, acredito que não vão se dar muito bem no meu jogo. Pensando bem, não vou brincar com vocês.
— Ele está ali — avisou Ren em voz baixa. — No alto daquela árvore.
Ele apontou para cima e então eu vi o dragão.
Ah, que bom. Finalmente me encontraram.
A árvore farfalhou com muito barulho quando um galho grande quebrou e despencou na nossa direção. O dragão estava perfeitamente camuflado.
Primeiro, precisamos ser formalmente apresentados. Esta é a maneira adequada de fazer as coisas. Eu sou Lùsèlóng, o Dragão da Terra. Já sei que vocês conheceram dois dos meus irmãos, o Dragão das Estrelas e o Dragão das Ondas. Se eu decidir ajudá-los, vão conhecer mais dois irmãos nossos, mas aviso logo que eles não são tão simpáticos como eu – nem tão bonitos.
Ele deu uma risadinha. Kelsey se aproximou e comentou:
— Achei que vocês fossem os dragões dos cinco oceanos.
Como você é ousada! Isso é revigorante. Nós nascemos dos cinco oceanos. Eu nasci no oceano Índico, que é quente. Qīnglóng nasceu no oceano Austral; Lóngjūn, no Pacífico. Vocês ainda não conheceram Jīnsèlóng nem Yínbáilóng. O primeiro nasceu no Atlântico e, o segundo, nas águas congelantes do Ártico. Apesar de eu ter nascido no mar, reino sobre a terra, e supervisiono tudo o que acontece nela.
— E quem são os pais de vocês?
O dragão soprou uma nuvem de ar quente em cima de Kelsey.
Talvez esteja ficando ousada demais, minha cara. Agora, será que podemos começar nosso jogo? Ou estão pensando em dar meia-volta?
— Vamos participar do seu jogo —afirmei.
O dragão estalou os lábios.
Excelente. Bom, em qualquer jogo deve haver um prêmio para o vencedor.
Lùsèlóng ergueu a cabeça e me olhou nos olhos. Eu fiquei nervoso mas aguentei firme seu escrutínio. Ele manteve o olhar firme por um momento, então passou para Ren e fez a mesma coisa.
— O que está fazendo? — perguntou Kelsey.
Examinando a mente deles. Não se preocupe, mocinha. Só estou lendo seus pensamentos.
O dragão riu, então ergueu a cabeça no ar, com o focinho apontado para o céu, e deu uma gargalhada ruidosa.
Este vai ser o melhor jogo que terei criado em um milênio! Um esporte dos mais magníficos!
Ele continuou a dar risada.
— O que é tão engraçado? — perguntou Kelsey.
Ambos buscam o mesmo prêmio, sabe?
— O mesmo prêmio?
O dragão ajeitou o corpo e nos separou de Kelsey.
Sim. Então, venha comigo, minha cara.
— O quê? Não!
Ah, sim. Uma vez que o jogo começar, deve ser jogado até sua conclusão.
Ele ergueu a pata e agarrou Kelsey pela cintura. Ela se debateu tentando se soltar.
— Espere! O que está fazendo? Não pode fazer isso! Nós nem sabemos quais são as regras do jogo!
Eu me aproximei de Kelsey, mas o dragão soltou uma baforada de fogo na areia, obrigando me a me afastar.
Pare de se agitar, mocinha. Não queremos que o prêmio fique avariado, afinal de contas.
— Prêmio? Como assim?
O dragão suspirou e chutou o ar. Soltou mais fogo para cima de Ren e de mim, para que ficássemos totalmente rodeados por ele. Peguei o chakram e gritei:
— Largue a garota agora, dragão, ou vamos matar você.
Lùsèlóng desdenhou.
Nós, dragões, não podemos ser mortos.
Ren pegou seu tridente e torceu o cabo fazendo os dentes se alongarem para disparar pontas de lança.
— Nós também não podemos ser mortos, dragão. E vamos caçar você até que ela esteja a salvo.
O dragão inclinou a cabeça na direção de Ren e sibilou.
É exatamente com isso que eu estou contando, tigre.
Eu exigi quando o dragão deu voltas mais alto no ar:
— Traga a garota de volta. Agora!
Ren saltou através do fogo, jogou o tridente no chão e assumiu sua forma de tigre. Ele escalou uma árvore alta com grandes saltos e correu por um galho fino. Então rugiu e brandiu uma pata para o dragão. Lùsèlóng baixou a cabeça até bem perto de Ren, para encará-lo, mas se manteve a uma distância suficiente para que seu focinho não pudesse ser acertado por uma patada. Ren voltou à forma de homem e se agarrou ao galho.
Ren o encarou enquanto eu os observava, pronto para atacar o dragão quando fosse o momento.
— Se fizer qualquer mal a ela, juro que vou encontrar uma maneira de matar você. Tome muito cuidado, dragão.
O dragão estreitou os olhos e deu um sorriso perverso.
Sim, este jogo vai ser dos mais divertidos. Como insistem em conhecer as regras de antemão, vou lhes dizer o seguinte... vocês são a caça. Sabem, eu vou fazer um safári. Vou assumir a forma de homem e vou caçá-los. Os dois. Irão assumir sua forma de tigre. Haverá armadilhas e outras criaturas à sua espera também. Se conseguirem chegar à cerca viva do castelo antes de eu acertar um tiro em vocês, vão poder passar para a segunda rodada. Se não, vou ter dois belos tapetes de tigre para pôr na frente da minha lareira.
— E se chegarmos à segunda rodada?
Se forem mais espertos do que eu, o que é altamente improvável, então o jogo vai mudar. Vocês terão que lutar para chegar ao castelo, atravessando um labirinto. Largue o seu disco voador, ou eu vou estripar a garota.
O dragão havia percebido meu movimento, então eu baixei o braço. O dragão girou encarando Ren e a mim.
Suas armas serão devolvidas antes de entrarem no labirinto. Essa parte do jogo é mais antiga do que o mundo. Os jogadores serão um cavaleiro branco, um cavaleiro negro, um dragão e uma princesa. Vocês devem atravessar o labirinto e escalar as muralhas do castelo. Então encontrarão o dragão a ser morto, interpretado por mim. O vencedor fica com a garota.
— Achei que você fosse imortal — disse Ren.
Ah, eu sou. Mas se vocês conseguirem desferir um golpe que normalmente mataria um dragão sem serem tostados, vocês vencem.
— E se você vencer?
Ora, se eu vencer, vou ficar com a garota.
O dragão sorriu apertando a cintura de Kelsey, que gemeu de dor. Eu rosnei cheio de ódio e ouvi Ren ameaçar:
— Vamos jogar o seu jogo, dragão, mas lembre-se disto: por cada ferimento que causar nela, por menor que seja, eu vou retribuir causando a você um ferimento 100 vezes maior.
O dragão oscilou no ar, observando Ren, avaliando-o.
Faz muito tempo que não tenho oponentes tão corajosos. Desejo-lhes sorte. Que comece o jogo!
Uma lufada de vento soprou sobre nós e todas as armas tremeluziram e desapareceram. Eu comecei a sentir dor. Meu corpo estava se contorcendo para se tornar o corpo do tigre. Por mais que eu tentasse, não conseguia me manter na forma humana.
Depois de me tornar o tigre negro, tentei me transformar em homem, mas foi em vão. Vi que Ren também estava na sua forma felina. Olhei para Kelsey, esperando que ela soubesse que eu faria o necessário para salva- lá. Em seguida, corri para a selva.
Ren e eu corríamos, cientes de que estávamos sendo caçados. O meu único pensamento era Kelsey. Nós precisávamos vencer o jogo do dragão para resgatá-la.
Durante as horas em que andamos, nos deparamos com muitas armadilhas. Fomos pegos por algumas delas. Ren caiu em uma armadilha para ursos e para escapar, teve suas patas traseiras dilaceradas. Tivemos que esperar por quase uma hora até que ele pudesse se curar.
Na verdade, tivemos que parar algumas vezes para nos curarmos de ferimentos causados pelas diferentes armadilhas que encontramos.
Quando o sol se pôs, nós estávamos esgotados e precisávamos descansar. Paramos em um lugar aparentemente seguro. Ren estava mais cansado e foi o primeiro a dormir, enquanto eu vigiava. Ele dormiu por alguma horas e então nós trocamos. Depois de algum tempo, Ren me acordou. Levantei-me e senti o cheiro. O dragão caçador havia nos encontrado.
Levantei-me e me preparei para correr, quando ouvi os tiros. Eu fui atingido na lateral do corpo. Nós começamos a correr, com o dragão em nosso encalço. Corremos sem parar durante algum tempo, até que caímos no chão exaustos. Havíamos corrido rápido o suficiente para despistarmos o dragão.
Mais tarde, ouvimos um barulho. Ren se levantou rapidamente e após um ataque rápido, voltou com um filhote de javali. Nós dois estávamos famintos, mas o animal era pequeno demais para nos saciar. Estávamos cansados e com fome, mas sabíamos que não poderíamos perder tempo caçando. Tínhamos que fugir do caçador dragão e encontrarmos Kelsey.
Havia muitas armadilhas no caminho. Ren e eu conseguíamos desarmar algumas e pegar os alimentos que estavam lá como isca.
Durante vários dias, nós conseguimos fugir do dragão. À noite nos alternávamos para vigiar enquanto o outro dormia. Estávamos exaustos e não tínhamos ideia de onde Kelsey estava. Então fomos acoados por um grupo de onças e tivemos que lutar. Elas eram muitas e atacavam furiosamente.
Ren e eu estávamos nos defendendo, quando ouvimos sons de tiros. Uma onça foi atingida e caiu morta perto de mim. As outras fugiram correndo. Nós dois também corremos, mas os tiros continuavam. Ren foi atingido de raspão no alto da cabeça e gritou de dor. Em seguida eu fui atingido no ombro e cambaleei, mas continuei correndo.
À certa altura, percebi que não adiantaria fugirmos. Nossa única chance seria tentar atacar o dragão. Alertei Ren e ele correu para o meio das árvores, pulou para uma pedra grande e de lá para uma árvore no alto. Eu comecei a mancar exageradamente, para que o dragão se sentisse seguro e se aproximasse o suficiente para então ataca-lo. O caçador seguiu os meus rastros, mas fez uma pausa quando Ren desapareceu de repente.
Ele ficou andando de um lado para outro, olhou bem para a trilha e então voltou para o lugar onde Ren tinha sido visto pela última vez. Parou e analisou com cuidado os arbustos ao redor. Uma gota molhada atingiu seu rosto. Ele a limpou com o dedo e a examinou.
Seus olhos se arregalaram e ele os ergueu, mas era tarde demais. Ren pulou da árvore com a boca aberta e as garras de fora, na direção da garganta do dragão. Ao mesmo tempo, eu me lancei no ar para ataca-lo pelas costas. O caçador não tinha chances. Mas então eu fiquei paralisado. Tanto eu quanto Ren ficamos congelados no ar, sem conseguir nos movermos. O dragão na forma do caçador nos olhou e riu.
— Quero dar os parabéns a vocês. Ninguém jamais conseguiu me atacar.
O dragão deu risada, depois se afastou alguns passos, fez mira com o rifle e então estalou os dedos. Ren e eu fomos de encontro um ao outro e caímos no chão, rolando pela terra. O caçador atirou, mas acertou a terra perto de nós, que começamos a correr e conseguimos nos distanciar dele. Aparentemente, o dragão estava brincando conosco.
Meu irmão e eu corremos por horas, parando poucas vezes e apenas por pouco tempo para descansarmos, até que chegamos à praia no lado leste da ilha. Procuramos por algum sinal do castelo do dragão, mas não havia nada. Anoiteceu e estávamos exaustos. Eu deitei a cabeça nas patas e dormi, enquanto Ren ficaria de guarda.
O tigre branco me acordou no meio da noite, pois tinha descoberto algo. Ele foi até a praia e deu alguns passos para perto da água. Ficou olhando para as ondas. Havia névoa e estava escuro. Era impossível enxergar adiante. Ainda assim, ele farejou o ar e pulou na água, nadando na direção da escuridão.
Eu comecei a correr de um lado para o outro, sem entender o que Ren pretendia, tentando chama-lo de volta. Mas Ren continuava avançando e parecia certo sobre seu destino. Então resolvi segui-lo.
Nós nadamos por cerca de uma hora, até que chegamos a uma outra ilha. Nós havíamos encontrado. Mas estávamos exaustos demais para prosseguir. Apenas nos deitamos na areia e dormimos.
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