Chihiro observou em silêncio o corpo caído de Huang Ho. “Ele está morto?”. O pensamento a incomodou; apesar de tudo,ela não desejava sua morte. De certo modo, lá no fundo, entendia a revolta dele com a espécie dela, mesmo que não concordasse com os métodos dele de resolver as coisas.

Ela não percebeu que apertava com força a base do balaústre, somente quando sentiu sua mão ser apertada com força.

— Ele não está morto. –disse Haku, ao seu lado, também olhava para Huang Ho. – Yangtzé não poderia matá-lo, seria um grave golpe no Equilíbrio. Poderia colocar todos em risco.

Chihiro nada disse, mas ficou aliviada. Ela não sabia o que era esse Equilíbrio do qual ele falava, mas achou que não era conversa para o momento.

— Volte a descansar, se não suas feridas vão piorar!

— Eu estou bem. Vamos descer daqui. –disse ele. Então, com um movimento ágil, ele pegou Chihiro pela cintura e saltou sobre o balaústre, pousando suavemente no piso abaixo.

Por um segundo, Haku fez uma cara de dor, mas rapidamente se recompôs. Porém, aquilo não escapou de Chihiro:

— Está vendo o que eu disse! – ralhou ela. – Você é tão teimoso!

— Você aí. –disse uma voz poderosa. O longo dragão verde escuro, da cor de águas profundas, havia reduzido de tamanho e os observava atentamente. A corrente com a esmeralda estava em seu pescoço.

Chihiro ficou fascinada com o brilho das escamas de Yangtzé. Huang Ho ficou majestoso quando se transformou, mas Yangtzé parecia um imperador. O Imperador Dragão.

De repente, ela percebeu que Haku havia se agachado em reverência, meio confusa, ela se curvou.

— Se aproxime, por favor. – disse o rei e ela o fez.

Por três dias ficou cercada de dragões, mas, mesmo assim, Yangtzé lhe intimidava. Quando chegou a uma distância razoável, parou e se curvou novamente.

— Você me libertou. Muito obrigado. –disse Yangtzé e se curvou.

—O senhor está enganado. -disse ela. – Há uma pessoa que deu muito duro para libertá-lo. Eu e meus amigos apenas ajudamos. – virou-se, então, para Haku.

— Aproxime-se meu jovem. –disse Yangtzé, seguindo seu olhar.

Haku se aproximou, parando ao lado de Chihiro.

— Vejo que você lutou com ele. Serei eternamente grato por sua lealdade e bravura. – disse Yangtzé, curvando-se solenemente. Haku o seguiu. Atarantada, Chihiro achou melhor copiá-los.

Nesse momento, ela ouviu um risinho vindo da entrada principal. Quando se voltou, um raio de sol entrava pela porta onde estava parado o Velho Dragão do Céu.

— Ancião dos Céus. – disse Yangtzé.

— Meu rei. – cumprimentou Sapana, com uma reverência.

— O senhor também tem parte em meu resgate?

—Muito pequena. Digamos que servi mais como conselheiro. A mocinha aqui que estava determinada em salvar o namorado.

Chihiro enrubesceu e evitou olhar na direção de Haku. Ao invés disso, olhou feio para Sapana. Foi o único momento que achou bom ele poder ler seus pensamentos, pois queria deixar claro que não estava feliz por ele ter sido deixada sozinha.

— Sim, eu a entendo. –disse Sapana, em resposta aos pensamentos dela. – Mas não pude intervir. Do contrário, você não teria sucesso. –disse ele misteriosamente. – Se me der licença, Majestade. –continuou Sapana, antes que ela pudesse perguntar algo. – Somente vim avisar que tem alguém lá fora esperando por nossos heróis.

Curiosa, Chihiro começou a ir em direção a ele, mas lembrou-se de que estava na presença de um imperador, então rapidamente se virou e fez uma reverência.

— Fique a vontade. –riu o rei.

Ela correu para a porta. Do lado de fora, o céu havia aberto e o sol dissipava a névoa que restava. Ao redor, tudo estava verde, quente e úmid,o como numa manhã de primavera. Ali, pousado no gramado, bem em frente ao castelo, estava Atnam esfregando-se na grama úmida.

— Essas mantas podem voar, mas na verdade gostam mesmo é de água. –disse Sapana atrás dela.

Mas ela não lhe deu atenção, pois seus olhos imediatamente se dirigiram para pessoa na base da escada. Shelãn-sé sorria ternamente para ela. Sem nem pensar, Chihiro desceu as escadas correndo e enterrou o rosto no colo da amiga. A outra acariciou sua cabeça.

— Muito obrigada. –disse Chihiro, quando a soltou. – Foi de muita ajuda.

E tirando o medalhão do pescoço o estendeu para a amiga, porém esta o apertou entre as mãos dela.

Chihiro não entendeu. Aquele medalhão guardava os anos de vida de Shelãn-sé, se ela ficasse com ele, o que aconteceria depois à amiga?

-Chihiro. –ela ouviu uma voz atrás de si.

—Haku, eu não posso levar ele! – falou ela rápido – O que vai acontecer com sua mãe?

Por um instante, Haku encarou a mãe numa conversa muda.

“Isso não é bom”, pensou Chihiro.

— Eu não posso aceitar. –afirmou ela, estendendo o medalhão para ele.

— Chihiro, -disse ele, segurando os ombros dela; ela tentou não reparar como ele era mais baixo que ela naquela forma original. – isto só serve como um recipiente para que os anos não caíam sobre o nosso corpo. Sem ele, ela viverá o tempo de vida de um humano.

— E depois vai morrer?

— Sim... Como tudo faz um dia.

—M-mas...

— Ela já sabe que eu me decidi. Por isso, dar a você o medalhão dela é uma forma de fazer parte de nossas vidas. Aceite-o. Será extremamente rude se não o fizer. – e sorriu inocentemente para ela.

Ele havia a encurralado e sabia disso. Olhou feio para ele, para mostrar que não estava feliz com isso. Então, virando-se para Shelãn-sé agradeceu o presente. Feliz, esta a abraçou fortemente. De repente, Chihiro se perguntou do que Haku estava falando quando disse que já havia se decidido.

-Chihiro huh... então a senhorita é humana. – ela virou-se. O rei havia descido as escadas e agora estava parado ao lado de Sapana.

— Sim, senhor. Aquilo era uma ilusão de nome. Meu nome verdadeiro é Chihiro Õgino.

Ela pensou ter visto o rosto do rei se contorcer por um segundo.

— Perdão – disse ele. – É que é meio irônico minha espécie ter sido salva pela sua.

— Se me permite dizer, senhor. – disse Sapana.

— Diga, senhor. –disse o rei.

— Os humanos são as criaturas mais contraditórias e complexas que conheço. Já vi encherem-se de ódio e travarem guerras imensas por coisas insignificantes; vejo-os destruírem seu próprio mundo e discriminarem sua própria espécie. Nessas horas, tenho vontade de fechar os olhos e deixá-los á mercê do universo. Mas então eu olho para os pequenos pontos de esperança em meio a multidão, pequenos gestos de amor e gentileza que são incríveis de observar quando consideramos um ambiente tão inóspito. Por isso eu digo: nunca tente definir a raça humana, nunca se sabe o que esperar deles.

—Nunca duvidei de que os humanos fossem criaturas interessantes. –disse Yangtzé. — Mas ainda não sei o que pensar deles. Não posso fechar os olhos para os impactos de suas ações. As vezes, até entendo a revolta de Huang Ho e tenho certeza que muitos aqui entendem. Por isso, Chihiro, mesmo que muitos no castelo já saibam o que você fez e estejam agradecidos, não espere ser bem recebida se descobrirem que você é uma humana. Muitos ficariam escandalizados e você estaria correndo perigo.

— Eu entendo, senhor. – disse Chihiro. – Mas acredito que logo partiremos.

Aquela altura, Atnam já havia terminado e encarava Chihiro com os enormes olhos negros. Chihiro acariciou-o, sentindo o couro liso sob os dedos.

— Então, como agradecimento. – disse Yangtzé – permita-me te conceder um desejo.

— Um desejo? – disse Chihiro, surpresa.

— Sim. Pode pedir qualquer coisa.

Caramba, ela não esperava por aquilo! O que pediria? Tinha de pensar bem, não podia desperdiçar aquela chance única. O que mais queria? Olhou de soslaio para Haku, quando ele a encarou, ela desviou o olhar rapidamente. Ela não podia pedir ele. Mesmo que o tenha encontrado, aquilo não queria dizer que ele voltaria com ela. Para isso, ele teria que abandonar sua mãe e sua terra natal para ser dela. Por isso, ela nunca poderia pedir isso a ele, quanto mais forçá-lo. Então, o que pediria? A mãe dele estava livre, isso ele já havia pedido. De repente, lembrou-se:

— Quero que Lin e Kamaji fiquem livres de Yubaba. –disse ela em voz alta.

Sim, aquilo era perfeito! Eles ficariam livres para fazerem o que quiserem. Talvez Lin fosse para a cidade que tanto sonhou e Kamaji...bem ela não fazia idéia do que ele iria fazer.

— Seu pedido será realizado.- disse Yangtzé.

Ela viu Sapana sorrir ternamente para ela. Ele sabia tudo que ela havia pensado e aprovou sua escolha.

— Bem, acho que chegou a hora de partir. Seu cheiro está começando a aparecer Chihiro. –disse ele.

Sem Rosto e Bõ se apressaram em se despedir do rei. Este os agradeceu dando para cada um bolo de ervas medicinais. Chihiro reconheceu, ela sabia que aquilo tinha força para salvar uma vida.

Shelãn-sé aproximou-se dela e as duas se abraçaram fortemente. Chihiro sentiu os olhos apertados. Não percebeu como havia se apegado a Shelãn-sé. Sentia uma sombra em sua mente, quando pensava que talvez não fosse mais vê-la. Então, Shelãn-sé ergueu o rosto dela e beijo-lhe a bochecha. De repente, sem saber o porquê, ela pensou que estava enganada, pois a amiga estaria sempre com ela. Que estranho.

-Há muitas maneiras de se comunicar, Chihiro. –disse Sapana, respondendo seus pensamentos. – ela tem sua maneira especial. Bem, eu te disse que nos encontraríamos uma ultima vez comigo nessa forma.

— Não vou mais te ver? –perguntou ela pra Sapana.

—Sempre poderá, basta olhar para cima. Vou te inspirar através das estrelas.

Chihiro o abraçou. Ela também sentiria falta daquele velho irritante.

— Não se esqueça que eu posso te ouvir! –disse ele. Ela riu. – Agora vá, seus amigos a esperam.

Após uma última reverência para Yangtzé, ela começou a subir em Atnam. Sem Rosto e Bõ já haviam subido e a esperavam. De repente, ela sentiu ser erguida pela cintura e ser colocada em cima de Atnam.

— Haku... – ela não sabia o que dizer. O que ela queria?Já não encontrara o amigo e agora sabia que ele ficaria bem? Por que, então, não estava satisfeita? Não sabia se iriam se encontrar novamente, talvez ele nem quisesse isso. Então, o que dizer?

— Chihiro. –disse Haku, apertando sua mão. – Prometo que iremos nos encontrar novamente.

Ela tentou, mas por fim não conseguiu segurar as lágrimas. Ela não queria que ele se sentisse pressionado, mas não agüentou: deixou-se tombar e caiu abraçando-o fortemente. Haku era muito menor do que ela, mas agüentou o peso. Porém, ela não percebeu que também fora envolvida por ele, pois tentava a todo custo segurar as lágrimas e não apertar muito o quimono dele.

Quando finalmente ela se afastou, pediu desculpas, o que ele negou, dizendo que não era necessário, pois se veriam novamente. Então, ela deixou que ele a alçasse novamente. Já em cima de Atnam, ela o encarou. Aquilo era uma promessa, foi o que aqueles olhos lhe diziam. Ela e os amigos deram seu último adeus e, então, Atnam alçou vôo, subindo cada vez mais alto. Nenhuma vez ela desviou os olhos de Haku, até todos ficarem do tamanho de formigas e desaparecerem sob as nuvens.

A superfície do lago refletia o rosa laranja do pôr do sol. Uma brisa suave sacudia as folhas das árvores, fazendo algumas caírem na água. Era uma tarde morna e tranqüila de verão. Depois de um dia de escola, Chihiro descansava na beira do lago. Lá longe, o alarido alto dos alunos indo para suas casas.

Faz três meses que voltou do reino dos dragões e ela ainda não havia conseguido retornar à vida normal. Era como se houvesse acabado de acordar de um sonho. Ela se esforçava para agir normalmente e, assim, não deixar ninguém preocupado, mas quando percebia já havia perdido boa parte de tudo que aconteceu ao seu redor. Raramente prestava atenção na conversa das amigas e perdera a conta de quantas vezes tinha deixado de responder à chamada.

Ela sabia que era idiota agir assim, mas são aqueles momentos que a razão grita e não é ouvida, pois os sentimentos são, simplesmente, mais fortes.

Ela encostou a cabeça nos joelhos e sentiu o colar embaixo da camisa. Tirou-o e observou a pedra azul, olhando-a com carinho. Esta a fazia lembrar de que tudo não havia sido um sonho, e sim real, como a antiga dona que Chihiro amava. De repente, uma luz azul pareceu brilhar no fundo pedra. Chihiro apertou os olhos para ver melhor...

— Chihiro. – disse uma voz atrás de si. Ela congelou. Não estava preparada para ouvir aquela voz ali. Será que tinha mesmo ouvido, ou havia chegado ao extremo daquele estado deprimente em que estava?

Como quisesse provar a si mesma, ela se virou de uma vez. Por um instante, seu coração pareceu dar uma cambalhota para, então, começar abater loucamente.

Porque na frente dela estava Haku.

— Haku! –gritou ela sem pensar. Depois, ela agradeceu por estarem bem afastados da turba de alunos.

Ele sorriu. Não da maneira amena e contida, que ela já vira algumas vezes. Era um sorriso largo e cheio de vontade, como ela nunca havia visto antes. Aquilo a fez corar. De repente, ela reparou que ele estava diferente: o cabelo estava um pouco mais comprido e terminava nos ombros; ele estava mais alto, pouquíssimo mais que ela, e usava o uniforme da escola.

— É muito bom falar com você, Chihiro. –disse ele, ainda sorrindo para ela.

— Co-como você ficou assim? – disse ela meio automática.

— Assim? –disse ele assustado e checando suas roupas. –Ah! Entendi o que quis dizer. Já me acostumei tanto com essa forma que havia me esquecido. Lembra da última vez que nos vimos? Você foi embora e eu fiquei, mas depois que sai dali fui ver o Tempo.

— O Tempo?

— Sim, o Tempo é um dragão também. Cada escama dele é um dia neste mundo. Sua troca de pele é um ano que ficou para trás e ele o guarda no passado, então comemoramos o ano novo.

Chihiro tentou imaginar como seria esse dragão, mas achou que sua imaginação não tinha capacidade para aquilo. Também pensar de maneira racional era inútil, então ela só concordou que era assim. Mas, de repente, ela teve um pouco de pena da humanidade, que não fazia idéia de nada e, mais ainda, dos alunos que tinham de passar anos aprendendo Geografia.

— Logo que o encontrei, propus uma barganha. Primeiro, ofereci meus poderes em troca dele me tornar humano. Ele não aceitou. Então, disse a ele que se me transformasse em um humano de dez anos de idade, ele não só ficaria com meus poderes como também estaria pegando de volta cinco anos da minha vida.

— Mas você não parece ter dez anos...

— Não, porque eu lhe fiz uma segunda proposta. – disse ele, animado. Chihiro achou que era a primeira vez que ele contava aquilo a alguém, mas já era de se esperar, pois ninguém iria acreditar se ele o fizesse. — Pedi a ele me jogasse cinco antes, isto é, cinco anos antes de você voltar ao mundo dos espíritos.

— Em troca de quê? – Ela ainda não havia parado pra pensar em nada. Só queria continuar ouvindo aquele Haku, tão humano e animado.

— Minha pedra.

Chihiro ficou um pouco desapontada. Nunca havia visto a pedra de Haku e se perguntava como seria. Mas o significado daquilo era muito pior...mas antes que ela pudesse dizer algo, Haku continuou:

—Uma pedra de dragão irrita muito o Tempo. Com ela podemos burlar suas regras e guardar nossos dias. Quando ofereci a minha, ele imediatamente aceitou.

— Mas, Haku, isso quer dizer que você vai morrer, não é?

— Vou viver o tempo de um humano. –disse ele, de maneira muito natural, como se ela tivesse dito que ele ia dormir e não morrer. – Mas, Chihiro, você ainda não percebeu o que eu quis dizer?

Ela não olhava para ele, na verdade estava remoendo tudo o que ele lhe havia dito: ele havia se tornado um humano e ainda tinha voltado cinco anos no tempo, antes de ela ir resgatá-lo...

— Você quer dizer que estava por aqui todo este tempo e nunca veio falar comigo?

De repente, ele pareceu desconfortável e seu rosto ficou um pouco vermelho.

— Sim. Eu via que você não estava bem, mas não podia arriscar fazer nada. Entenda, se eu me revelasse ou se ao menos você suspeitasse que eu estivesse por aqui tudo seria posto em risco e talvez você nunca tivesse retornado à passagem.

Ela entendia. Mas só de pensar que ele a estivera observando todo aquele tempo... Se era assim, ele sabia que ela sofria por causa dele e isto era meio vergonhoso, se pensar o quanto ela pareceu dependente dele.

— Mas você ainda não entendeu o que eu quis dizer com tudo isso. –disse ele, aproximando-se e segurando os ombros dela. Desta vez, os olhos dele estavam na mesma altura que os dela, não havia desculpa para desviar o olhar.

— Chihiro, eu te amo e quero ficar com você.

Um segundo foi o tempo que demorou para que os olhos dela piscassem e aquelas palavras fizessem sentido em sua mente. Depois, seu sangue pareceu fervilhar. Sem pensar, ela agarrou o colarinho da camisa dele e o puxou para si com força. Só quando seus lábios tocaram nos dele, que ela percebeu o que era aquela ausência que vinha sentindo, o porquê de ter se sentido desapontada e distante. No começo, ele pareceu muito surpreso, mas depois relaxou e a puxou para mais perto. E, com um pouco de vergonha, Chihiro percebeu que sempre quis fazer isso, desde o começo.