A viagem de Chihiro 2
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Os aposentos de Yubaba ficavam no ultimo andar, para alcançá-lo precisavam pegar o elevador. Porém este ficava dentro da casa de banhos, numa das áreas mais movimentadas, por isso Bõ foi na frente, tentando ao máximo ocultar a pequena Chihiro com seu corpo enorme. Cada vez que alguém se aproximava, Lin que ia logo atrás de Chihiro empurrava esta para qualquer lugar que pudesse escondê-la. Chihiro agradeceu, quando finalmente chegaram ao elevador, que ninguém apareceu enquanto passavam perto das banheiras gosmentas.
—Daqui já não posso mais acompanhá-los. – disse Lin, quando a porta do elevador se abriu.
— Obrigada Lin! – agradeceu Chihiro — Nunca me esquecerei disso. – e abraçou a amiga.
—Ah, Sen... – Chihiro, percebeu que a amiga estava segurando o choro. — Vamos, pare de enrolar e entre logo neste elevador!
Ela riu e eles entraram. Chihiro ainda conseguiu dar um último aceno para Lin, antes de Bõ tomar todo o elevador. Ele era tão grande que ela mal conseguia respirar... ela torcia para que o elevador não fosse lento.
Quando finalmente chegaram, Bõ saiu com dificuldade do elevador, espremendo, antes disso, a pobre companheira. Esta, quando se viu finalmente livre, respirou todo o ar que pôde.
— Sen, precisa agora se esconder dentro da roupa de Bõ.
— O quê?! – reclamou ela. –Ah! Tudo bem, mas dentro da sua blusa!
— Mas é claro, Bõ também não queria Sen dentro de suas calças!- ela estremeceu só de pensar no horror.
Ele pegou e colocou-a debaixo da blusa, neste momento Chihiro se sentiu como um brinquedo nas mãos de uma criança. Ela se acomodou debaixo da blusa dele e apoiou os pés na barra da calça.
Bõ entrou nos aposentos de Yubaba.
— Olá, mamãe!
— Oh, Bebê! – Chihiro ouviu a voz de Yubaba, com aquele tom meloso e meio passivo exclusivo para Bõ . – O que você estava fazendo lá embaixo?
—Eu estava andando. Bõ gosta de ir lá embaixo.
—Mas e se você ficar doente?
— Se Bõ não puder andar, aí sim ficará doente! – disse ele de modo firme. Chihiro sorriu . Yubaba tentava de todas as formas proteger o filho, mas tinha de aprender que, se o deixasse preso o tempo todo, só lhe faria mal. Por isso, ficou feliz que Bõ estivesse opondo-se as neuroses da mãe. Ambos só iriam ganhar com isto.
— Tudo bem, meu querido... – Yubaba desistiu. – Espere!Que cheiro esquisito é esse?
—Ah... – Bõ hesitou.
“Ah, não...”, pensou Chihiro. Ela até podia imaginar o olhar de gavião de Yubaba procurando-a com aquele narigão que mais parecia um bico. “Preciso fazer alguma coisa.”. Ela olhou para baixo e, pesarosamente, entrou dentro das calças do menino gigante. Bõ se arrepiou, mas não reclamou. Por sorte a mãe também não percebeu.
—Hum. – Disse Yubaba – Que estranho, o cheiro passou.
— Estranho mesmo...Bem, Bõ vai dormir.. Boa noite, mamãe!
—Boa noite, meu querido! Quer que mamãe vá pô-lo na cama?
—Não! — Ele exclamou. – Quer dizer... Bõ já é um menino crescido, já sabe ir pra cama sozinho!
—Ah!Que orgulho do meu filhinho! Já um menino crescido! – A voz melosa novamente.
— Sim. Boa noite mamãe. – Ele entrou e fechou a porta de seu quarto.
Rapidamente Bõ se virou e arrancou Chihiro de suas calças.
— Por que Sen entrou nas calças de Bõ? – Reclamou ele. – Bõ não gostou!
— Ei, eu também não gostei de estar dentro das suas calças! – Ela se defendeu. – Mas era isso ou enfrentar Yubaba! – Ela olhou em redor. O quarto havia sido modificado: agora tinha uma cama gigante e brinquedos gigantes como um trenzinho de madeira, uma bola, duas raquetes.
Ela se aproximou do trem de madeira. Cabia ela e sua família ali dentro e ainda sobrava espaço. Era ali que passaria a noite.
Já era tarde da noite quando Chihiro ouviu um barulho vindo da janela. Quando olhou, viu apenas as cortinas balançando com o vento, então voltou-se e fechou os olhos novamente, porém mais uma vez escutou o barulho de algo se arrastando, virou-se e desta vez havia uma figura preta parada em frente à janela. Era Sem Rosto, o amigo misterioso que nada falava.
Chihiro levantou-se e aproximou-se dele.
— Zeniba que te mandou? – Perguntou ela, ao soltá-lo.
Ele acenou com a cabeça. Chihiro se encheu de alegria, pois Zeniba sabia que ela estava ali e que precisava de ajuda.
— Você vai me levar até Zeniba? — Novamente ele acenou com a cabeça. – Mas como?
Ele andou em direção a janela e apontou para baixo. Quando Chihiro foi observar, viu uma espécie de carpa (tipo de peixe) gigante, de um verde iridescente, o corpo brilhante do animal contrastava com o negro da água do mar, ainda havia algumas celas nas costas do peixe.
— Como subiu até aqui? – Perguntou ela para Sem Rosto, quando finalmente conseguiu despregar os olhos da bela carpa.
Ele apontou uma corda, amarrada a um cano perto da parede. A corda acabava perto da água.
Ela se preparou para descer. De repente, algo puxou seu cabelo, virou-se e viu um rato carregado por um passarinho miúdo. Era Bõ, que pelo visto ainda conseguia manter a forma que Zeniba havia lhe dado.
— Me desculpe, mas tem certeza de que quer ir? Eu irei para um lugar bem perigoso.
O ratinho virou a cara e começou a descer a corda, com passarinho ainda agarrado à suas costas. Ela também desceu. Ao chegarem perto do peixe, ela pulou em uma das celas e Sem Rosto na de trás. O passarinho com o ratinho pousou em seu ombro.
Com um solavanco, eles entraram em movimento. Ao redor deles a água era mansa e escura, tanto que dava a sensação que navegavam no céu estrelado acima deles. As únicas coisas que diferenciavam um plano do outro era o horizonte púrpura, as luzes da casa de banho que ficavam cada vez menores e a luz amarela de um poste na estação de trem, logo à frente. Em meio a imensidão da água escura, o céu estrelado parecia um manto esplêndido sobre o mar escuro. Com o canto do olho, Chihiro viu algo branco logo abaixo na água. Voltou-se , quando viu o que era seu coração deu um salto e quase saiu pela boca: Era um monstro marinho, que mais parecia uma serpente. De repente ele emergiu, revelando seu corpo longo e enorme, de uma cor clara, quase branca. Por um momento, a criatura encarou-os com seus olhos amarelos, depois voltou a submergir, para o alívio de Chihiro, espirrando água neles e os deixando encharcados.
Para Chihiro a viagem até a casa de Zeniba pareceu-lhe mais rápida agora do que a primeira, que fez de trem. Mesmo assim foi longa, pois, quando finalmente chegaram o, sol despontava no horizonte. Enquanto desciam do peixe, Zeniba apareceu na porta de sua casa.
— Como você cresceu! – disse Zeniba, quando a viu.
— Vovó! – gritou Chihiro e as duas se abraçaram fortemente.
— Também senti sua falta, minha querida. – disse Zeniba ternamente. – Sem Rosto também.
Sem Rosto assentiu.
— Eu também Vovó, senti muito a falta de vocês. – ela sentiu as lágrimas escorrendo pelo rosto, mal sabia quando começara a chorar. – Mas não conseguia vir...
— Eu sei querida, não é sempre que se pode atravessar a fronteira entre os mundos. Tem de se esperar o momento certo, quando os limites entre os mundos estão mais fracos. Além disso, é mais difícil para um humano atravessar O LimIte. – Você já comeu algo daqui, não é?
— Sim, Lin me deu um pouco de arroz.
— Bom, isso impediu que você desaparecesse. – de repente, Chihiro lembrou-se que Haku havia dito algo semelhante quando se conheceram. A lembrança lhe doeu, principalmente por saber que ele na está onde ela julgava encontrá-lo.
-Mas não é só porque sentiu saudade que veio me ver, certo? – disse Zeniba, interrompendo seus pensamentos.
— Ah...Sim, Vovó. Preciso de sua ajuda.
— Está procurando o namorado dragão, não é?
Chihiro assentiu com a cabeça.
— Preciso ir até o Reino dos Dragões.
— Uhum... Vamos primeiro entrar e tomar o café da manhã.
Eles entraram no pitoresco chalé. Era um ambiente tranqüilo, aconchegante e agradável a casa no campo de Zeniba, bem diferente da balbúrdia que era a de sua irmã, Yubaba.
A mesa já esta repleta de comida: doces, pães, bolos, um bule e xícaras de chá, tudo posto encima de uma toalha de renda branca. Eles sentaram-se para comer, enquanto Zeniba sentou-se em sua poltrona para tricotar.
Enquanto comia, Chihiro encarou o grupo de aranhas, acima da lareira, que chamavam a atenção para a teia que fizeram. A teia retratava a mesa de chá onde Chihiro e seus amigos estavam, uma cena pitoresca feita com teia brilhante.
—Essas aranhas! – exclamou Zeniba enquanto tricotava. – Insistem em exibir suas teias!Gostam de ser chamadas de artistas.
— Está lindo! – elogiou Chihiro e algumas aranhas pareceram acanhadas, outras comemoraram.
— Não elogie demais, querida. Se não elas ficam alvoroçadas.
De certo, as aranhas ficaram agitadas e atrapalhadas, trabalhando em outra teia.
— Agora me diga, querida. – Começou Zeniba. – Como pretende ir até o Reino dos Dragões?
— Não sei bem...o senhor Kamaji me disse que fica no céu, mas eu não sei como ir para lá; por isso preciso da sua ajuda, Vovó!
— Ir até lá não é o problema, o problema é como você vai sobreviver lá. Sabia que alguns dragões comem humanos? – Zeniba apertou os olhos para Chihiro, observando-a.
Chihiro engoliu em seco.
— Mas eu preciso ir até lá, preciso saber sobre o Haku!
— Isso realmente é amor... – riu Zeniba baixinho. – Eu posso te mandar para lá, menina. Porém, temos que tomar algumas precauções primeiro.
Zeniba fez surgir no ar um medalhão de ouro, com um busto de dragão gravado na frente.
— Ponha essas ervas que Kamaji lhe deu dentro deste medalhão. – disse ela, entregando o medalhão à Chihiro. – As ervas ainda irão disfarçar o seu cheiro, o medalhão, porém irá causar uma ilusão e você parecerá um dragão para todos aqueles a quem você não revelou seu nome verdadeiro.
— Quer dizer que se eu disser o meu nome, os outros verão que sou humana?
— Isso mesmo.
—Hum...e aqueles que já conhecem o meu nome? Saberão quem sou?
— Também não.
Chihiro colocou o medalhão.
—Eu pareço um dragão? – Perguntou ela para os amigos. Esses negaram com a cabeça.
— Isso porque vimos e sabemos do feitiço. Mas quem não viu, não saberá.
— Isso quer dizer que nem o Haku saberá quem sou eu...
— Isso mesmo. Mas isso é uma característica boa do feitiço, assim você corre menos riscos.
Chihiro concordou com a cabeça. A idéia de Haku não lhe reconhecer não lhe agradava, mas talvez fosse melhor assim.
—E quanto a Sem Rosto e Bõ? Eles também precisam de um disfarce, não?
—Não, dragões são perigosos só para humanos e animais do mundo dos humanos. Quanto a nós, criaturas do Mundo Espiritual, eles não podem tocar um dedo, devido ao nosso Contrato de Não Violência. Acho que também não temos um gosto tão bom quanto dos humanos para eles.
Chihiro bebeu seu chá, na tentativa de disfarçar seu desespero, mas a xícara tremeu um pouco. Ficou imaginando se Haku tinha essas preferências gastronômicas....
— Bem na hora... – declarou Zeniba de repente, levantando-se de sua cadeira. – Vamos lá para fora.
Ao saírem, Chihiro e os amigos ficaram estarrecidos na soleira da porta, pois pousada no jardim havia uma enorme jamanta.
— Esse é Atnam. Ele que levará vocês até o Reino dos Dragões. – apresentou Zeniba.
Ninguém ousou se mexer. Os olhos escuros de Atnam estavam fixos neles.
— Não precisam ter medo. – incitou Zeniba — Atnam é bem grande, mas é muito gentil. Só procurem não fazer baderna nas costas dele, assim ele não irá derrubar ninguém.
Os amigos encararam-se assustados ao som da palavra “derrubar”.
Com cuidado, eles galgaram as nadadeiras de Atnam, e subiram em suas costas. Assim que se viu acomodada, Chihiro acariciou Atnam, como sinal de que eram amigos. Ele respondeu com um suave som gutural.
— Mais uma coisa, Chihiro . – Lembrou-se Zeniba. – Você só poderá passar quatro dias no Reino dos Dragões, do contrário o efeito de suas ervas irão acabar e você será descoberta.
— Certo, Vovó!
— Seja cuidadosa e procure quem você possa confiar. – Neste momento, Atnam levantava vôo. Suas asas poderosas, provocavam ventos fortes e ensurdecedores.
— O quê, Vovó? – Gritou ela.
—E se puder volte aqui para tomar chá comigo! – Gritou Zeniba.
—O quê? – Chihiro não pode mais escutar. Eles já estavam alto. – Adeus, Vovó! E muito obrigada! – Gritou ela forte.
E voaram para o horizonte.

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