A viagem da vida
1 Únicamente único.
Notas iniciais
Fui rejeitada friamente por duas vezes em menos de uma semana. Jogada pra escanteio, simplesmente ouvi ‘não’ incansáveis vezes. Até soa patético agora em como eu pude insistir tanto em algo… Patético. Então desliguei meu computador e pensei:
A vida é uma viagem. Ou duas. Talvez três. Quem sabe quatro. Depende do seu espirito de aventureiro (ou desaventureiro). E nessa viagem da vida, imagina que você vive num vagão de trem. Indo pra um lugar sem fim. Parando em milhões de estações ao longo da viagem, em que muitas pessoas descem e outras sobem. E acho que você sabe o que isso significa. Não, eles não estão subindo ou descendo na vida. É a morte mesmo. Ou o desaparecimento de qualquer sinal de vida, como preferir.
Então, nesse enorme trem sem fim ou começo, existem pessoas que vão ou não ficar no mesmo vagão que você, que um dia passam a preferir o vagão mais a frente ou mais atras. Enfim, o que importa é que você esta viajando sozinho, a viagem é sua! Algumas dessas pessoas vão sentar do teu lado, puxar assunto e te mostrar um mundo totalmente diferente do que você vê pela janelinha ao seu lado. Aquilo é tão restrito. E você diz: Eu tenho muitas outras janelas pra testar. E aquela pessoa pode ser o seu vento propulssor para qualquer que seja a besteira que esteja prestes a cometer. Digo besteira porque sempre vai haver um babaca que vai te ridicularizar, isso é normal. As vezes não um, mas todos que te conhecem. Ai é aquele momento em que você tem que parar e refletir: ou eu sou cego ou são eles.
Normalmente somos babacas como eles e preferimos ignorar. No final, eles sempre tem razão.
Mas, antes de testar novas janelas, vai aparecer entre uma e três pessoas, que são seus amigos de verdade, que vão te dizer 'não'. Eles não vão te ridicularizar, eles vão até te incentivar, porque a vida tem que ser essa viagem, você não sabe onde vai parar, mas você pode voltar e fazer diferente, os erros são feitos pra isso. Talvez eles já tenham testado aquela janela antes, então sabem mais que você. “Pessoa que acabou de chegar no trem da vida”, eles dizem. E isso é normal. Vão te fazer pensar, se arrepender e, talvez, mudar sua idéia.
Então você desiste. Continua na mesma janelinha, no mesmo assento. Você se levanta para usar o banheiro e, na janelinha que da pro vagão da frente, você vê um cara (ou uma menina). Você não sabia que aquela janelinha podia ter uma vista tão linda. Era diferente das outras, ela não te mostrava um lugar, mostrava alguém. Que, infelizmente, está impossibilitado de te ver pro resto da viagem. Não porque não há como, mas vocês estão acomodados assim. Estão felizes assim. Você se lembra que precisava ir ao banheiro e voltar ao seu assento. E fica tudo bem assim. Você e sua mesminha janelinha. Mostrando as mesmas e repetidas coisas. Só coisas. Mais ninguém.
Quando menos espera, alguém aparentemente não-interessante senta do seu lado. E essa pessoa tem uma janelinha muito interessante, com coisas que você nunca viu e experimentou. E ele te convence, com um olhar, uma palavra, um gesto. Quem precisa de caras em janelinhas se você pode ter um fora dela?
Num dia lindo, enrolarado, você fica sabendo que o cara que viu na janelinha e foi feliz como nunca, havia encontrado uma janela melhor, maior. Assim como você fez. E ele tava feliz. Você tá feliz sem ele, ele ta feliz sem você, o que é justo o bastante. Já que a sua viagem pode acabar a qualquer minuto. Então você esquece. Mas pensa todo dia um pouquinho em como seria se vocês tivessem arriscado um pouco mais, sido feliz um pouco a mais.
Então o cara que tava com você se muda pra outro vagão, sem te contar. Mas ainda quer manter contato. Você se nega e se joga na sua janelinha. Mas hoje você ta cansada. Então você a fecha. E fica tudo escuro. O vagão inteiro. O dia, a noite. Não existe mais nada do que a escuridão por ali. E você ta ‘bem’ assim.
Mas sempre tem alguém com uma luz. Eles nunca conseguem iluminar tudo, espantando toda a escuridão, mas conseguem te fazer esquecer que existe um nada ali, alem de você. Porque eles se importam com você. E você apagou a porra da luz do vagão inteiro. Tudo bem, você cede e abre uma frestinha da janela. Só pra dar uma leve iluminada. Então chega alguém, que vai te fazer abrir aquela janela por completo. Ele tem medo do escuro e você se acomodou a ele. Viver na luz agora é uma luta, mas você tem ele do seu lado. Então fica mais fácil.
Ele te conta coisas, sua visão da vida, dessa viagem, das viagens que ele fez. Não são tão boas ou melhores que a sua, mas o jeito que ele te conta é fascinante. Ele é melhor que qualquer livro com estórias que você tanto ama. Ou musicas, pra quem não gosta de ler. Ele é suave, não te força a nada, deixa tudo tão calmo e os sentimentos afloram.
Ele é o cara.
Mas não.
Você quer uma janelinha nova e ele não tinha uma. Ele não pode te dar uma janelinha. Então você muda a sua. E esquece ele. Existem pessoas interessantes lá, e muitas janelinhas. Você não precisa dele. Nem da outra janelinha. Essa tá otima. Novo vagão, novas aventuras.
E é isso o que você queria.
Por um tempo, você foi feliz.
Até que percebe que a janela antiga era sua, de mais ninguém. Então volta pra la e a fecha. Dessa vez o vagão ta vazio. E ninguém, nem aquele cara legal, vai querer que você abra a janela de novo. Mas você fala ‘ok’. É a vida. É a viagem.
Se você perder uma viagem ou duas, tudo bem. Você tá bem. No escuro. Sem ninguém pra te mostrar que uma janela aberta é boa. Sem ninguém pra te emprestar uma luz temporaria. Sem ninguém.
E a sua viagem só começou.
Mas você deseja com todas as forças de que aquela estação que ta vindo, seja a sua. E que sua escuridão acabe. De uma vez. Porque, dessa vez, ninguém vai te impedir de tentar algo novo ou diferente. A viagem é só sua, lembra?
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