A vergonha paga no débito
1 Para registro, era o registro.
Era um acordo, quem encontrasse o problema, contratava o serviço e ficava em casa até que fosse resolvido. Morando longe dos pais há menos de 6 meses, Naruto e Kiba encontraram muitas pedras no caminho, o apê alugado à duras penas tinha tanto problema quanto os próprios garotos, peritos em confusão.
No primeiro mês tudo parecia fluir muito bem, souberam depois que foi uma maquiada e tanta do síndico do prédio que buscava à qualquer custo alugar o 6B. A tintura foi a primeira a ruir numa noite de chuva que a janela ficou aberta na sala, a parede chorava tinta cinza escuro que manchou todo o piso acarpetado; ou seja, para ficar na parede não prestava, mas para o carpete, fixou que era uma maravilha!
Na semana seguinte, a pia da cozinha. Um estouro que nenhum dos rapazes esperava, uma piscina em questão de segundos. O “apertamento” — apelido carinhoso dado por Kiba ao pequeno lar dos dois —, era uma mina, infelizmente não era de ouro ou pedras preciosas, e seque precisava cavar para conquistar algo. As merdas pareciam brotar do piso, saltar às paredes. Tudo fadado a ruir, mas o aluguel era bem baratinho, e ficava tão próximo do trabalho dos dois, que à custos tentavam ganhar a vida em outra cidade.
Agora, por exemplo, naquela terça-feira modorrenta, estava ele em casa, deitado no sofá com as pernas para cima, onde costumeiramente se apoiava as costas. Arremessava uma bolinha e a pegava instantes depois, até que descuidou-se e ela bateu em seu nariz. Espirrou duas vezes antes de se levantar praguejando em dois palavrões diferentes o seu descontentamento com o infortúnio. Esperava pelo encanador, o cara que daria jeito no chuveiro de seu banheiro. Outra vantagem do apertamento, ele tinha um banheiro, Naruto também. Porque para Kiba isso era exigência, ninguém merecia entrar no banheiro depois de Naruto, era castigo demais. E o seu, bem, não saia uma gota d’ água sequer, o que o forçava a se banhar no banheiro do melhor amigo, quase irmão.
Passou pela cozinha em busca de uma long neck para afogar o tédio, ajudava a passar o tempo enquanto esperava a boa vontade do encanador de aparecer, o pagamento era adiantado, foi no débito, Kiba torcia para que ele não furasse. Dava trabalho entrar em contato com a empresa que prestava aqueles serviços de pequenas melhorias no condomínio, claro, as melhorias não estavam inclusas na taxa paga todo mês.
Havia detalhes de Kiba que tornavam-o realmente único, a hiperatividade fazia parte. Bebeu a cerveja sentado na bancada da cozinha, os pés a chutar o vento. E ainda assim a hora não passou mais rápido, então se pos de pé e vislumbrou o reflexo no espelhão do seu banheiro, Naruto nunca entendeu o porquê diabos tinha um que dava vista ao chuveiro, mas era detalhe, um que Kiba deixava em off. Seguiu para a porta da sala, o olho mágico não tinha nada de mágico, visto que estava quebrado e distorcia completamente a imagem de quem estava do outro lado, então nem se dignava mais a olhar. Abriu a porta num rompante, o blusão largo que vestia até bailou no vento por um instante antes de assentar-se ao corpo novamente. Tinha um tipo estranho ali, uma maleta na mão, daquelas de ferramentas que ele mesmo só via em filmes onde um encanador gostosão ia na casa de um carinha prestar serviços e na verdade… bem, a quem ele quer enganar, era pornô.
— Até que enfim, pensei que fosse precisar esperar você por todo o dia e a tarde. Eu tenho mais o que fazer, sabia? Não pagamos antecipado para que venham só nos 45 do segundo tempo, onde não dá pra fazer nada porque acabou o horário de expediente. — Kiba não deu tempo, cuspiu as palavras como se fosse o dono da verdade, o conhecedor de tudo, e dos horários de serviço do pobre encanador que o olhava com cara de quem não havia entendido nada, na melhor das hipóteses, claro. — Vem, o meu banheiro é por aqui, e eu preciso mesmo para de compartilhar um com o Naruto.
Entrou já puxando o homem pela manga da blusa, ele ainda tinha uma chave de fenda na mão, Kiba duvidava muito que fosse preciso uma para ver o encanamento, mas o que ele sabia? Se soubesse teria ele mesmo feito o serviço e não contratado alguém.
— Ali, o meu banheiro — apontou para a porta aberta que logo dava ao vaso sanitário e o box aberto que ostentava um espelho de pelo menos 2 metros de altura com 60cm de largura. — O chuveiro não sai água tem 4 dias, mas todo o restante da casa tem água normal, a cozinha, o banheiro do Naruto, a pequena área com lavanderia. — Kiba dava as informações que julgava importantes, a mesma que ele já havia falado no atendimento pelo telefone um dia antes. — Se precisar de ajuda, é só chamar. — Era da boca pra fora, torcia para que o cara, que nem nome ele perguntou, não precisasse de um pingo sequer da sua ajuda.
Voltou para a cozinha certo de pegar mais uma long neck, bebia as cervejas do Naruto, só porque era um implicante de marca maior! Sentou de novo na bancada da cozinha, os pés novamente chutando o ar enquanto de relance assistia o homem em seu banheiro, lembrando apenas do estereótipo do cara no filme pornô com encanadores. Riu, tapando a boca quando ele o olhou através do espelho.
Era um cara alto, bonito. As roupas não pareciam de quem estava preparado para qualquer eventualidade. Ele trajava jeans, escuro e uma camisa quase no mesmo tom. Óculos escuro também, parecia bem apessoado para o serviço, mas a maletinha de metal na mão tinha de fato bastante ferramenta. Notou quando ele a abriu no chão, pegando uma peça que ele não soube identificar, mas espichava o pescoço curioso.
Bebia a cerveja sem tanto entusiasmo enquanto a atenção era naquele corpo todo do seu encanador, a tez levemente suada, o jeito que se esticava para alcançar o chuveiro sem nem ao menos precisar de uma escada. Kiba achava sexy, sempre teve uma quedinha por caras mais altos, seus ex-namorados eram todos assim. Riu, quão ruim seria querer uns amassos com o encanador? O cara estava ali para prestar serviços, e não daquele tipo que ele imaginava no momento.
Via o homem abaixar, levantar e então olhar para a torneira do chuveiro, concentrado e reflexivo enquanto Kiba jurava ter visto um esboço de sorriso. E Kiba tinha certeza porque achou sexy pra cacete! Viu-o limpar a mão na borda da camisa, o filete de pele alva aparecendo e contrastando com a veste preta. Kiba chega babou, na verdade a cerveja escorregou e pingou pelo queixo.
— Serviço concluído.
A voz, porra! Até a voz do maldito era sexy. Combinava com o porte de encanador de filme pornô que Kiba assistia às sextas quando sozinho em casa sem namorado.
— Obrigado….?
— Shino. Aburame Shino. — Ele falava serenamente, como se nada na vida fosse capaz de afetá-lo. Parecia seguro de si, e os óculos impediam de ver para onde ele olhava, o que tornava tudo instigante à curiosidade de Kiba e seu interesse em ser notado.
— Obrigado, Shino. — Sorriu enquanto olhava para seu banheiro, o chão no box molhado, enfim havia voltado a água ali, poderia voltar a sua rotina e sua privacidade, e devolver a de Naruto, claro. Notou também a maldita touca de banho caída e não havia cor mais vermelha que aquela estampada na sua face. Ignorou completamente, sabendo que provavelmente nunca mais na vida veria aquele encanador, visto que agora ele sabia de seu segredinho (nada pequeno) que ficava fixado na parede do banheiro, lateral ao chuveiro, onde a touca estava pendurada e segura, visto que ninguém entrava ali… até Shino entrar. — O pagamento foi acertado previamente, você sabe.
A vergonha não lhe cabia mais, até as orelhas estavam rubras. Era evidente que Shino havia sorrido naquele momento que ele notou, talvez fosse quando a touca de banho tivesse caído e revelado o enorme consolo de borracha colado no revestimento do banheiro. Uma vergonha e tanto!
Levou-o até a porta, nem mais olhava para cima, despediu-se com um aceno e fechou a porta querendo cavar um buraco e se esconder ali. Mas ainda assim pegou o celular e fez uma avaliação no site para que a agência tivesse boa visibilidade.
“Atendimento excelente, o encanador é tão quieto que nem parece que tem alguém trabalhando.”, foram as palavras escritas por ele no site de avaliação.
Quando Naruto chegou, riu. Mas riu de deitar no chão da sala, o mesmo com o carpete manchado de tinta cinza. Os relatos de Kiba fizeram ele nem se chatear por ter as cervejas tomadas na cara dura.
— Kiba… — lhe faltava ar para concluir. — Chegou uma mensagem e logo depois me ligaram para informar sobre a sua recomendação. Pediram desculpas e entenderam a sua ironia na mensagem. — Naruto ria que dava dó Kiba lhe jogou até uma almofada, queria a conclusão e quem sabe rir também, por ora era ainda só vergonha. — Pediram desculpas porque o encanador não pode vir, e pediram que você retirasse a recomendação com tom de ironia.
— Como assim o encanador não veio? Eu falei sério.
Naruto meneava a cabeça em negativa, as lágrimas corriam no rosto tamanha a risada que dava, estava vermelho já, sem fôlego.
— Cara, eu não sei quem veio aqui, mas não foi o encanador da empresa que sempre contratamos.
Isso pegou Kiba de surpresa, não só havia pagado um micão no débito, como sequer sabia quem era o estranho que colocou para dentro de casa de tão bom grado e urgência! O maldito tava com uma maleta de ferramentas e uma chave de fenda na mão, num corredor vazio saindo de um apê! Poxa, tinha que ser o cara que Kiba estava esperando, quais as probabilidades de dois “faz tudo” no mesmo andar, na mesma hora? Bem, não dois, visto que só tinha um. Um tal “Aburame Shino” que agora ficaria assombrando Kiba.
෴ cenas pós créditos ෴
Kiba havia superado.
Ele achava que sim, não demorou nem mesmo um dia para aproveitar seu chuveiro novo, sem gastar um tostão, que não a vergonha que pagou no débito, claro. Usou o banheiro da melhor forma que coube, e por falar em caber, o motivo de sua vergonha também cabia, bem fundo e escorregadio.
Era final de semana, e como de praxe, o intento era curtir uma pizza gigante para um só, e seu brinquedinho no banheiro depois, embalado com o já conhecido pornô de encanador. Saiu do apê apenas para atender ao entregador, outro que o fazia pensar no pornô clichê, pena que o entregador era feinho, o coitado.
— Boa noite, vizinho.
Kiba tremeu. Sentiu cada pelinho do corpo — até os depilados —, se eriçarem inteiros! Era a voz grave, sedutora e que Kiba jurava esconder um arzinho de riso. Quando olhou para o lado viu o “encanador-não-encanador” da terça-feira. O aceno que lhe era destinado era singelo, o óculos ainda fazia arranjo naquele rosto bonito.
— Vizinho? — O questionamento era justo, poxa, Kiba abriu as portas de sua casa achando que ele era um encanador daqueles gostosos de filme adulto. Pegou sua pizza, já estava paga pelo app de delivery que tanto usava que achava que ainda levaria sua pobre conta bancária à falência! — Você é meu vizinho?? — Esbravejou! A mão livre sacudia no ar, como se isso passasse a intensidade de sua raiva, vergonha e agora desespero.
— Há aproximadamente 1 mês, mas sim.
— E não pensou em falar um “Oi, eu não sou o encanador, sou seu vizinho”? — Aproximou-se apenas pela força da distração, deveria mesmo era ter entrado e degustado da pizza enquanto quentinha com a cerveja que suava na mesinha de centro da sala enquanto o game estava na pausa. Sorte que não era online.
— Você parecia alguém que precisava de ajuda, e não custava ajudá-lo. Quando vi que o problema era fácil. Só abri o registro, alguém o fechou.
Nem ouviu direito a justificativa, já estava dando as costas pro vizinho e seguiu bufando para dentro de casa. O único alguém que teria sido besta o bastante para fechar o registro era o safado do seu melhor amigo! E tudo, desde o mico até mesmo aos cinquentinha que teria de gastar à toa com o encanador, seria culpa dele! Maldito!!
෴
Kiba já havia desistido de jogar, mas de certo havia devorado a pizza num piscar de olhos, assim como acabado com as cervejas de Naruto, aquele pregadorzinho de peças baratas! Por culpa dele tinha um vizinho que sabia seu “segredinho” no chuveiro. Agora era esperar para dar o troco, e torcer para não passar por mais nada constrangedor com o vizinho gostoso do 6D.
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