Depois que saímos da livraria, Alex me levou a um pequeno bistrô de estilo francês, perto dali, onde comemos bem, tomamos vinho e conversamos muito sobre os variados assuntos, apesar do meu assunto predileto ser o meu acompanhante.

— A noite não poderia ser mais perfeita. Meu livro publicado, depois um bom jantar em uma agradável companhia – declarei, sonhadora.

— Eu brindo a isso – Alex ergueu a sua taça e a minha, que se tocaram em um leve tilintar. — Falando sobre seu livro, eu realmente nunca imaginaria alguém como você escrevendo um livro policial igual aquele. Qual foi sua inspiração?

— Pesquisei sobre um famoso criminoso dos anos 50/60, Tony Felix. Já ouviu falar? – revelei, com dissimulada casualidade, tomando um gole do meu vinho.

— Não, nunca.

— Então, fiz algumas pesquisas, o resto foi pura imaginação – menti, usando as dicas de Dario.

— Você tem uma imaginação muito fértil, Julia. Será que só para livros ou para outras coisas, também?

Tive que ri daquela insinuação, o cara estava dando em cima de mim. Não dava para acreditar, Alex Ryan, meu sonho da adolescência, que continuava lindo e gostoso, além de ser charmoso e educado, estava bem ali na minha frente, me dando uma cantada! Obrigada, vovó, por ter escrito aquela história, seja lá qual foi o seu motivo para isso.

Depois do jantar, Alex me levou até em casa, paramos em frente do meu prédio, eu estava me sentindo tão bem, tão feliz que tinha até me esquecido daquela história que Dario havia me contado sobre o tal mafioso.

— Obrigada pela noite fantástica, Alex – agradeci, encantada, com sinceridade, não querendo que ela acabasse ali naquele momento.

— Para mim também foi ótima, Julia. Podemos repetir quando você quiser, já lhe dei meu telefone, então me ligue – ele sugeriu, com seu sorriso espetacular, mostrando os seus dentes brancos e perfeitos, não imaginava se aquele homem pudesse ter algum defeito.

— Você também tem o meu, pode me ligar, quando quiser, Alex. Boa noite.

— Boa noite, Julia – dei um beijo no rosto dele, que demorou um pouco mais de tempo que o normal.

Sai do carro, meus pés mal tocavam o chão, eu me senti flutuar de felicidade, mas antes de entrar no meu prédio, acordei com uma estranha sensação, era como se estivesse sendo observada. Olhei em volta, mas não vi ninguém, pensei que estava ficando muito envolvida naquelas histórias policiais, começando a imaginar coisas.

Assim que abri a porta do meu apartamento, deparei com o anjo Azazel me esperando, com sua espada em punho e seu olhar acusador, guardando a casa.

— Boa noite, senhor! – Eu o cumprimentei, fazendo uma mesura. — Acho que hoje, você fez um bom trabalho, a sessão de autógrafo foi um sucesso e Alex Rian cruzou o meu caminho.

Joguei a bolsa sobre a mesa da entrada, Uriel veio reclamar comigo, por ter ficado tanto tempo sozinho.

— Uriel, a noite foi incrível! Conheci o homem mais maravilhoso do mundo! Será que está muito tarde para eu falar com Aline? Acho que não.

Assim, tentei entrar em contato com minha irmã, mas ela não atendeu, deve ter saído também, ia ter que esperar até amanhã para contar as novidades. Aí, eu me lembrei do livro e de Tony Felix, aquilo me tirou do mundo dos sonhos de volta a fatídica realidade. Assim, sentei na frente do meu computador e digitei Tony Felix, apareceram centenas de referências sobre ele. O cara era um famoso milionário, bon-vivant, bonito, charmoso e envolvente, um descendente de uma família tradicional, que se tornou um grande criminoso da pesada, chefe do crime organizado nos anos 50/60, se envolvendo com roubos, jogos ilegais, contrabandos, prostituição, vários assassinatos não resolvidos e corrupção. Acabou preso pelo assassinato da sua esposa, Heloisa, uma das mulheres mais bonitas da cidade naquele tempo. Porém, Tony sempre afirmou que foi armação do seu braço direito, Carlos, e da sua amante, Arlete. Os dois haviam desaparecidos, sem nunca mais deram sinal de vida, chegou-se até a cogitar-se que, também, estariam mortos.

Assim, pensei que deveria ter sido isso, que tinha acontecido, que um caso famoso na época, chamou a atenção da minha avó, que escreveu aquela história, mas não a publicou, ficando escondida durante anos até eu a descobrir e me apropriar dela. Nada para eu me preocupar, agora era tomar um banho e dormir. Contudo, uma pontinha de curiosidade fisgou na minha cabeça. O que teria acontecido com o tal do Tony Felix? Não havia mais nada na internet sobre ele, provavelmente, morreu na cadeia. Tive a impressão, que uma pessoa deveria saber o que havia acontecido com ele, infelizmente, para mim, seria Dario Ferrer. Poderia telefonar para ele e perguntar, se a minha curiosidade vencesse a luta contra minha antipatia por ele.

Acordei, com meu telefone tocando como um louco, tentei ignorá-lo, mas não consegui.

— Mãe, eu estava dormindo! – reclamei, ainda sonolenta.

— Julia, não pude esperar! Fiquei tão empolgada com ontem à noite! Mas, por que aquela dedicatória para sua avó?

— Mãe, por favor, sem ciúmes. Só queria fazer uma homenagem para ela.

— Tudo bem. Ela iria gostar.

— Tenho certeza que iria! Mãe, você alguma vez ouvir falar sobre Tony Felix?

— Não. Por quê?

— E Heloisa? Arlete? Carlos?

— Carlos, sim. Era um parente da minha mãe. Meu nome seria uma homenagem a ele. Mas por que isso agora, Julia?

— Só curiosidade. Achei esses nomes escritos em algum lugar por aqui – menti.

— Julia, tenho novidades! – Ela estava muito animada.

— O que foi agora?

— Eu e seu pai vamos viajar, passar um mês na Europa. Em uma segunda lua de mel.

— Uma segunda lua de mel? E você pode ficar tanto tempo fora? E o seu programa de rádio? – Minha mãe tinha um programa de rádio semanal, que dava conselhos amorosos e familiares aos ouvintes, que tinha uma certa fama.

— Vou deixar gravado.

— Seu pai resolveu, finalmente, tirar férias de escritório. Nem posso acreditar.

— E quando vocês vão?

— Na próxima semana.

— Já!

— Estamos planejando isso há um bom tempo, só não havia contado para você ainda, por causa do lançamento do seu livro. Mas, você não vai acreditar! Ganhei duas passagens para Europa em um concurso!

— Que concurso foi esse?

— Não sei. Não me lembro de ter me escrito em nenhum concurso desse tipo, nem seu pai. Mas, o que importa que ganhamos!

— Isso não é algum tipo de armação?

— Não, já entraram em contato. Até estamos com as passagens em mãos.

— Que ótimo! Mãe, depois a gente se fala, acabei de acordar. Tchau.

Carlos? É um nome que sua mãe falou, era bem comum, não seria necessariamente o mesmo Carlos, capanga de Tony Felix.

A próxima ligação foi de Aline.

— E aí, mana? Como foi sua sessão de autógrafos, ontem? – Pela tela do computador, notei que Aline estava vestida e maquiada, como se tivesse acabado de chegar em casa da noite, naquele instante.

— Foi incrível! Você nem acredita que eu conheci lá! Alex Ryan! – falei, toda empolgada.

— Quem? – Eram nossos quatro anos de diferença de idade que falavam agora.

— Alex Ryan, o nadador, medalhista olímpico. Aquele cara do pôster no meu quarto, quando era adolescente.

— Ah! Sei — ela respondeu, sem emoção, e eu tinha certeza que ela não sabia quem era — E?

— Ele me levou para jantar,

— Agora, está melhorando! – Ela ficou mais animada. – E aí?

— Trocamos os telefones.

— Você ligou.

— Mas, Aline, isso foi ontem à noite. Acabei de acordar.

— Essa é uma boa desculpa, mas não deixe passar muito tempo. Vou dormir um pouco. Beijos. Até mais, Julia.

Mal ela desligou, o meu telefone tocou mais uma vez. Meu Deus, todo mundo resolveu me ligar de manhã!

— Julia. Aqui é Alex, se lembra de mim? – Como se eu fosse me esquecer dele. – A noite de ontem foi ótima! Poderíamos repetir!

— Claro, Alex! – Não podia acreditar naquilo. – Quando quiser.

— Que tal hoje à noite?

— Hoje?

— É, hoje. Mas se tiver outro compromisso, podemos marcar outro dia.

— Não, hoje está ótimo – Como se fosse deixar escapar essa oportunidade.

— Qual seria a melhor hora para você?

— Melhor hora? Às 9. Está bom para você?

— Para mim, está ótimo. Então às nove. Até mais, Júlia

— Até mais, Alex — Desligamos

— Meu Deus! — Não podia acreditar naquilo! — Vou sair com Alex Ryan hoje, Uriel! – gritei, exultante, para o gato, deitado na poltrona que me deu seu habitual olhar de superioridade e voltou a dormitar. E, mais uma vez, o meu telefone tocou.

— Julia, é Dario – Ele tinha que ligar agora para estragar meu bom humor.

— O que foi, Dario? – indaguei, sem paciência.

— É sobre o caso Tony Felix.

— Sim, e daí? – respondi, um tanto entediada daquele papo.

— Gostaria de conversar com você?

— Por quê?

— Porque gostaria de saber como descobriu todos aqueles detalhes. Pesquiso nesse caso há muito tempo, e não sabia a metade daquilo que você contou no seu livro.

— Eu já falei. Imaginação – repeti, enfastiada, estava quase acreditando nessa mentira.

— Não me venha com essa! Tem muita coisa que bate, assassinatos, pagamentos de propina, corrupção policial, crimes que você parecia ter todas as respostas – ele retrucou.

— É, mesmo? – Agora, estava surpresa, então me lembrei. – O que aconteceu com Tony Felix? Ele morreu na prisão?

— Não. Ele foi solto, há algum tempo atrás. Indulto de natal, ele já está bem velho e doente.

— Ah! Dario, acho melhor a gente conversar! – respondi, após refleti sobre o assunto, havia muita coincidência naquela história – Quando?

— Que tal hoje? No almoço? Estou morrendo de fome!