A verdade sobre uma pequena mentira

1 O tempo revela todos os segredos


Era bem cedo, naquela manhã nublada de domingo, quando o telefone tocou insistentemente, a elegante senhora por volta dos 70 anos, com seus cabelos brancos, curtos e bem arrumados, ainda mostrando no rosto, os traços da sua beleza do passado, apressou-se em atendê-lo, já imaginando quem poderia ser.

— Cecília, acho que eles acharam você – disse a grave e um tanto aflita voz masculina do outro lado da linha.

— Por que você acha isso? – ela perguntou, tentando demonstrar calma, mas não podendo esconder uma certa ansiedade.

— Porque percebi que você está sendo seguida, há alguns dias, aquele carro sempre está parado aqui bem em frente do prédio.

— Fique tranquilo! Pode ser apenas uma impressão sua, provavelmente, algum vizinho que não tem onde guardar o carro, já passamos por essas suspeitas antes e nunca tivemos problemas. Você anda muito nervoso, nesses últimos dias. Está enxergando sombras do passado em cada esquina.

— Não, não estou enganado, Cecilia. Eu tenho certeza do que estou falando! — o homem afirmou, veemente.

— Fique tranquilo! Tudo acabará bem. Eu estou indo à missa agora e quando voltar, conversaremos durante o almoço.

— Não acho prudente, você sair de casa, ainda mais sozinha.

— Não se preocupe, vou a missa há anos, e nunca aconteceu nada de errado. Você se lembra o que me prometeu, caso aconteça algo comigo? – Sua voz ficou mais séria.

— Claro que me lembro, eu manterei minha promessa. Mas, prometa que tomará muito cuidado.

— Sim, eu prometo. Não se preocupe tudo ficará bem. Até daqui a pouco

— Até logo, Cecília.

E ela desligou.

— Comporta-se, Uriel – a mulher recomendou ao gato, deitado, preguiçosamente, sobre a poltrona da sala, que a olhou com indiferente superioridade. Assim, ela colocou o véu de renda preta sobre os ombros e, antes de sair de casa, pegou a sua pequena bolsa de mão e seu terço de madrepérolas.

No fim da mesma manhã, na saída da missa, um carro em alta velocidade ultrapassou o sinal vermelho, atropelando e matando, imediatamente, a senhora de cabelos brancos, enquanto ela atravessava a rua, não parando para socorrer a vítima. Ninguém conseguiu notar a placa do veículo, nem ver o rosto do seu motorista.

***

Eu corri atrapalhada, meio desequilibrada pela grande e pesada caixa de papelão, que carregava nos braços, tentando alcançar o velho elevador do prédio, que fechava suas portas lentamente, com um doloroso rangido. Sabia que não conseguiria chegar a tempo e previa que teria que passar alguns bons minutos ali, esperando o regresso daquela velharia vagarosa, ainda por cima, segurando todo aquele peso. Mas, como por um milagre, um objeto se interpôs entre as portas, impedindo o seu fechamento completo. Assim, elas se abriram para eu entrar, cambaleante e desajeitada por causa da minha carga.

— Obrigada! – agradeci, quase sem folego, apertando o botão do meu andar, verdadeiramente grata ao distinto senhor, cerca de 70 anos, alto, com barba e cabelos grisalhos bem aparados, que se assemelhava muito com a figura clássica de um lorde inglês, reconhecendo nas suas mãos, o instrumento de minha salvação, uma bengala de madeira escura com uma bela empunhadura de prata de lei trabalhada.

Em resposta ao meu agradecimento, ele deu um leve aceno com a cabeça, seguiu-se um desconfortável silêncio, quando percebi que me olhava pelos cantos dos olhos, até que sem conseguir conter a curiosidade, o homem perguntou:

— Você é neta da Cecília?

— Sim, eu sou. Meu nome é Julia.

— Sua avó era uma mulher extraordinária. Foi uma perda lastimável a sua morte. – Ele parecia, realmente, comovido. O que era muito estranho, pois minha avó, que havia morrido há pouco tempo em um acidente violento, não era a pessoa mais sociável do mundo, mantendo-se quase reclusa, praticamente uma freira.

— Sim, foi mesmo – concordei, com sinceridade, pois eu amava e admirava muito a minha avó.

— Você está morando aqui agora? – ele me perguntou.

— Sim, vou ficar aqui por algum tempo, já que o apartamento dela estava vazio – justifiquei, pois, um apartamento como aquele valia ouro em uma cidade como a nossa, e como eu precisa de um lugar só meu para morar, aproveitei que ele estava fechado desde a morte da minha avó, pedi a minha mãe, e ela concordou, prontamente. Assim, agora, eu estava acabando de trazer minha pequena mudança para lá.

— Seja bem-vinda, Julia. Sou James, seu vizinho do andar de cima. Caso precise de algo, é só me procurar.

— Obrigada – Achei que o seu nome combinava bem com a figura dele, além de ficar contente por já está fazendo amizade com a vizinhança. – Esse é o meu andar!

Sai do elevador, tropeçando com a pesada caixa nos braços, colocando-a no chão para abrir todas as trancas das portas, pois minha avó era fanática por segurança.

Ao abrir a porta, envolto na penumbra em um canto do hall de entrada, avistei aquela figura humana, de quase dois metros de altura, que já foi assustadora na infância, mas, atualmente, eu já havia me acostumado com ela. Ao acender a luz, a sala se iluminou, a rebuscada estátua de ferro fundido do anjo se revelou, com seu belo rosto e olhos vigilantes, suas asas semiabertas, vestido como um soldado romano e com uma grande espada em posição de guarda.

Nesse momento, recordei-me de quando tinha entre 5 e 6 anos, minha avó me acalmando, porque sempre entrava na casa dela de olhos fechados, para não olhar para aquela figura gigantesca e aterradora para mim.

— Julia, não tenha medo – Minha avó segurou a minha mão e me levou para frente da estátua, tão intimidadora para aquela menininha que eu era – Esse é Azazel, ele é o guardião da porta do paraíso – disse, indicando o anjo e continuou com sua voz tranquila. — É o protetor da nossa família, aquele a quem confio e confesso os meus segredos e que nos protege contra o mal. Um dia, contarei para você toda a história dele. – Eu nunca entendi o que minha avó quis dizer com aquilo, nem ela teve tempo para me explicar.

Uriel apareceu miando, reclamando aos meus pés, estava com fome. O velho gato malhado e arisco da minha avó, veio junto com o apartamento. Por isso, só puxei a caixa que trazia, para dentro de casa, cuidaria dela depois, seria mais uma entre muitas outras, ainda espalhadas pela sala. Ele me seguiu até a cozinha, sabendo que eu iria alimentá-lo.

— Você deve estar com fome, Uriel.

Minha avó tinha mania de anjo, por isso, o gato dela, também, tinha o nome de um arcanjo. O felino miou em resposta, abri o saco de ração e despejei no pote dele, que o atacou sem cerimônia.

Eu não estava com fome, tinha almoçado na casa de minha mãe, ainda bem, pois na geladeira só havia uma garrafa d’água, algumas frutas meio murcha e um caixa de comida chinesa pela metade, precisava fazer compras. Mas, agora, à arrumação!

Peguei a caixa que acabara de trazer, levei para o escritório, uma pequena saleta com uma escrivaninha e muitos, muitos livros mesmo, pois minha avó adorava ler, passava quase todo dia em casa, praticamente, não tinha amigos, seu único compromisso habitual era ir à missa aos domingos. E foi desse jeito que ela morreu, foi atropelada por um carro em alta velocidade na frente da igreja, quando voltava para casa depois da missa. Fiquei arrasada, assim como minha irmã mais nova. Minha mãe, sua filha, disfarçou bem, bancando a forte, as duas tinham uma rixa antiga, porque minha avó nunca revelou quem era o meu avô, por isso viviam brigando. Eram duas mulheres de temperamento muito forte, que se amavam. Muitas vezes, depois da morte da minha avó, ouvi minha mãe chorando, baixinho, na madrugada, escondida de todos.

Voltei ao trabalho e comecei a esvaziar a caixa que havia trazido, tirei meu computador, minha impressora, alguns livros e papéis, precisaria de espaço para eles. Coloquei a impressora e o computador sobre a mesa e me sentei na cadeira, abrindo as gavetas para vasculhá-las, ver o que eu poderia jogar fora, para dar espaço para os meus objetos. Dentro delas, havia papéis e mais papéis de todos os tipos, cartas e contas antigas, receitas médicas vencidas, algumas fotos nossas perdidas. Então, quando enfiei a mão bem no fundo da última gaveta, sentir algo duro e retangular, que eu o trouxe à luz. Primeiro, pensei que fosse um pequeno livro, mas curiosa, eu o folhei, era um caderno com capa de couro marrom e suas páginas amareladas estavam, completamente, preenchidas pela bela caligrafia arredondada da minha avó. Um diário, pensei. Indiscreta, comecei a lê-lo, pensando que acharia alguns segredos indiscretos da minha avó, até mesmo o nome do meu avô. Porém para minha surpresa, descobri que era uma história intrincada, sobre um grande chefe do crime, que todo mundo pensava que era um magnata, um milionário, mas que, na verdade, estava envolvido com corrupção de políticos e da polícia, crimes, assassinatos e mulheres, entre elas, a sua própria esposa, que assassinou, e sua jovem e bela amante grávida desaparecida. Uma história muito boa, tão empolgante que não conseguia parar de ler, até que a campainha tocou, eu já sabia quem era.

— Você não fez nada ainda, Julia! – minha irmã exclamou, ao ver que tudo estava igual ao dia anterior.

— Que bom ver você também, Aline – cumprimentei-a, com ironia.

Aos dezenove anos, minha irmã mais nova, Aline, era linda, não bonitinha ou bonita. Era linda mesmo, tinha até uma pontinha de inveja dela. Aline era alta, magra, mas com um corpo espetacular, imensos olhos verdes em um rosto perfeito emoldurado por uma sedosa e ondulante cabeleira castanho-dourado, chamando a atenção, por onde passava. E assim, aos 15 anos, para o desespero da minha mãe, ela se tornou uma das modelos mais requisitadas do país e, agora, partia para o mundo. Não que eu fosse feia, era apenas uma versão menos bem-acabada dela, sem os enigmáticos olhos verdes, os meus eram castanho bem claros, meus cabelos quase louros e não era nem tão alta nem tão magra.

— O que é isso na sua mão? – Aline perguntou, ao ver o caderno com a capa de couro envelhecido e as páginas amarelas, que eu marcava com o dedo.

— Você não vai acreditar nisso, Aline! Acho que isso é um livro escrito pela vovó e é muito bom mesmo! Não consigo parar de ler! – falei empolgada, então ela o tirou da minha mão, com um puxão, desmarcando a página onde parei, e começou a folheá-lo, reconhecendo a letra da nossa avó.

— Nunca soube que vovó gostasse de escrever.

— Nem eu! E pelo visto, ela era uma excelente escritora, essa história é muito boa, precisaria de um ou outro retoque, ser atualizada, mas não mexeria em nada do conteúdo dela.

— Mas os personagens não têm nomes, só iniciais! – Aline observou.

— Também, não entendi isso, talvez, porque ela nunca houvesse pensado em publicar, como, realmente, não o fez.

— Julia, eu tive uma ideia! – Minha irmã me olhou igual a um gato que pegou um passarinho, com um sorriso malandro. – Você vive querendo escrever um livro, mas está sempre reclamando, que não consegue achar um bom tema. Então, aqui está! — Ela bateu com a mão na capa do caderno. – A sua história!