Quando voltei para casa, depois de ter almoçado na rua, não tinha mais nada para fazer naquele dia, já que o meu trabalho estava terminado, sabia que precisaria fazer algumas revisões do livro, em breve. Mas, agora, queria que chegasse logo a noitinha para falar com Aline e contar a novidade sobre o livro, apesar de conversarmos com todos os dias, sabia que àquela hora, ela estaria trabalhando. Também, não queria contar mais nada para ninguém até estar tudo resolvido.

— E agora, o que farei, Uriel? – perguntei ao gato, deitado sobre a mesa do escritório, onde ele gostava de ficar aproveitando uma nesga de sol vespertino, que entrava cortina entreaberta da janela – E se meu livro não der certo? Minha carreira de escritora pode ser um natimorto? – Uriel me olhou, complacente, depois fechou os olhos outra vez, não se importando com os meus devaneios. – Não dá para conversar com você mesmo, Uriel! – reclamei com ele.

Assim abri a bolsa e retirei de lá, o livro de Darius, com uma bonita capa preta e vermelha.

— Tempo de Vingança? Vamos ver como nosso concorrente escreve, Uriel.

Deitei-me no sofá da sala a cabeça sobre uma almofada e comecei a ler, para o meu espanto, não conseguia parar. A história era muito envolvente e cheia de suspense. Já era noite, quando dei uma pausa.

— Nossa! O cara é bom mesmo, Uriel! – comentei com o gato, que mudara de lugar e, nesse momento, dormia sobre a poltrona na minha frente.

Já era a hora de conversar com Aline, que apareceu na tela do meu computador, sorridente.

— Oi, Julia, como estão as coisas por aí? – Atrás delas podia ver suas colegas de apartamento circulando, e como ela, eram garotas jovens, muito magras e bonitas, vindas do mundo todo, algumas passavam só de roupas íntimas sem nenhuma vergonha de serem vistas assim por uma completa estranha, mas eu já estava acostumada com aquilo.

— Aline, hoje fui até a editora e vão publicar o meu livro! – gritei, entusiasmada.

— Não acredito! – A voz ecoou de lá, algumas meninas pararam assustadas, ela repetiu a frase em inglês, e, agora havia um bando de garotas pulando e gritando em várias línguas na minha tela.

— Thanks! – Agradeci, até que dispersaram.

— Me mande um exemplar, assim que puder! – Aline exigiu – Pena que não estarei aí, para a noite de autógrafos – ela lamentou.

Noite de autógrafos? Não havia pensando nisso antes. Meu Deus! E se não for ninguém? Aquela ideia me apavorou.

— Você já contou para mamãe, Julia? – Minha irmã me lembrou algo que me apavorou ainda mais.

— Não, ainda não.

— Acho melhor, você contar logo. Sabe como ela é, vai ficar magoada se souber de outra maneira. Ela anda muito sentimental, depois que vovó morreu e você e eu saímos de casa – Aline observou algo, que não tinha pensado antes.

— Então, acho melhor ligar para ela e contar. Estou com saudades, Aline.

— Eu também, irmã. Beijos, até amanhã.

No dia seguinte, fui até a casa dos meus pais para uma visita, na intenção de contar sobre meu livro. Não pude acreditar, quando contei aos pais sobre a novidade e minha mãe falou que estava orgulhosa de mim, assim, saímos para comemorar. Todos estavam ansiosos para ver o meu livro já publicado.

Naquela noite, acabei de ler o livro de Darius Ferrer e comprei o outro, A honra da família, na manhã seguinte. Estava impressionada como aquele cara arrogante e medito escrevia bem.

Depois veio o contrato, escolha do novo título, revisão de provas e mais outros detalhes. E algumas semanas depois, um dia, sem aviso prévio, recebi em casa, uma caixa com alguns exemplares do meu livro, Segredos de sangue. Na capa, silhuetas humanas desenhadas que representa os protagonistas da história. Não havia gostado muito do título, mas Patrícia afirmou causaria impacto e confiei nela. Emocionada, folhei as páginas, li a carinhosa dedicatória que fiz para minha avó. Depois, como prometido, escrevi uma linda dedicatória para minha irmã e fui ao correio, antes que ele fechasse, para enviar um exemplar para ela, em Nova York. Quando voltasse, escreveria, também, uma dedicatória para os meus pais e outra para James, que por sinal, não via há algum tempo, talvez, estivesse fazendo alguns dos seus trabalhos de consultoria, como havia me dito.

Resolvi levar, pessoalmente, o livro para meus pais, mas antes, pedi ao porteiro para colocar o meu livro junto com a correspondência de James, assim ele receberia, logo que retornasse de viagem.

— Pode deixar, dona Julia. Eu entrego a ele assim que voltar de viagem.

— Ele viaja muito? – perguntei, curiosa, ao porteiro que trabalhava há muito naquele prédio.

— Muito, vive, indo e voltando, desde que veio morar aqui – ele me respondeu, coçando a cabeça.

— Ele mora aqui há muito tempo?

— Já faz um tempinho, sim. Ele já conhecia a dona Cecília, a sua avó. Foi ela que arrumou aquele apartamento para o seu James morar.

— É? – Exclamei, surpresa com aquela novidade.

— É. Antes de ele morar aqui, ele já vinha visitar sua avó, muitas vezes – ele me confidenciou, sai de lá, nas nuvens, quem diria que minha avó tinha um namorado secreto.

— Não posso acreditar, Julia! — minha mãe falou, com lágrimas nos olhos, admirando a capa do livro – Quando estará nas lojas?

— Acho que em alguns dias.

— Isso é incrível, minha filha! – Meu pai esperou pacientemente a sua vez. – Nos diga, quando será a noite de autografo, faremos questão de estar lá.

— Pai, eu nem sei se vai ter uma sessão de autógrafo! Mas caso tenha, eu aviso vocês.

Quando, Patrícia me avisou que meu livro estava nas livrarias, corria para a mais próxima e ver com os meus próprios olhos. Para falar a verdade, levei algum tempo, para achar uma pequena pilha de livros, no meio do expositor de lançamentos, mesmo assim, fiquei feliz e orgulhosa de mim mesma. Quase, perdi a magia do momento, quando vi o expositor dos mais vendido, onde o livro de Darius Ferrer, A honra da família, imperava glorioso.

— Julia, é maravilhoso! – Aline falava empolgada, segurando o livro — Li quase todo em um dia. Você é uma escritora incrível.

— Na verdade, vovó era uma escritora incrível – admiti, já que Aline era a única que conhecia a verdade sobre o livro.

— Julia, não se menospreze! Foi você que reescreveu a história e deu a ela o seu toque pessoal.

— Mas a história não é minha!

— Julia, aquela história nunca seria publicada, estava perdida dentro de uma gaveta e, provavelmente, acabaria esquecida ou no lixo.

— Vou encarar isso como uma verdade, Aline.

— Isso! Comece a escrever uma nova história. Até amanhã, Julia.

— Até amanhã, Aline.

O livro já estava nas livrarias há algumas semanas, tentava começar um novo, mas continuava sem ideias, quando recebi telefonema da minha editora Patrícia.

— Julia, tenho ótimas notícias para você! Seu livro está vendendo acima do esperado! Sua mãe fez um bom trabalho!

— Como assim?

— Você não sabe? Ela vem fazendo propaganda dele no programa de rádio dela. Como a história é boa, ele está pegando, começamos a segunda tiragem.

— Jura! – Não podia acreditar naquilo.

— Claro! Temos que pensar em uma sessão de autografo. Vou arranjar tudo e entrarei em contato para comunicar você, quando será. Até breve, Julia.