Na casa dos meus pais, as malas estavam abertas e lotadas, podia se sentir a eletricidade no ar pela excitação da viagem iminente.

— Você acha, que estamos levando roupas suficientes para um mês, Júlia? – minha mãe questionou, ansiosa, olhando a pilha de roupas que ainda restavam sobre a cama, pois não havia mais lugar nas malas para elas.

— Carla, nós estamos levando roupa bastante para um ano – meu pai respondeu com sua paciência de sempre, depois continuou me abraçando – Tem certeza, que ficará bem sozinha, Júlia?

— Pai, já sou bem crescidinha para me cuidar sozinha, por um mês.

— Eu sei, mas continuou preocupado com você aqui e Aline em Nova York, sozinhas. Afinal, vocês serão sempre as minhas menininhas – ele confessou em um suspiro.

— Não se preocupe, tudo ficará bem – eu afirmei para ele, mesmo sem ter certeza do que falava.

Depois do almoço, despedi-me dos meus pais, que viajariam àquela noite, tinha um compromisso com James, em uma hora. Encontrei com ele me esperando no seu apartamento.

— Aonde vamos? – perguntei, quando ele trancava a sua porta.

— Encontrar com o passado – ele respondeu enigmático.

No elevador, apertou o botão para garage.

— Não imaginava, que você tivesse um carro – disse, ao entrar em um carro sedã preto de uma cara e famosa marca alemã.

— É necessário, quando precisamos nos locomover rapidamente — ele me respondeu, sem mais palavras.

De carro, andamos por algum tempo, afastamo-nos cada vez mais do centro da cidade, até que chegamos a uma área na periferia, onde havia algumas fábricas e depósitos abandonados, que transformava o lugar em uma espécie de cidade fantasma. O veículo enveredou por ruas quase desertas, eu estava ficando cada vez mais assustada. Assim saímos da avenida principal e viramos para uma rua, onde na esquina, podia-se ver um dos enormes outdoors com a imagem de minha irmã Aline pousando, no anúncio de uma famosa marca de jeans, já degradada pela as intempéries.

Depois de labirintos de vielas e ruas, ladeados por construções destruídas pelo abandono, algumas ocupadas por sem–tetos, pelas quais James trafegava, sem hesitar, como se ele conhecesse muito bem aquele caminho, até que, finalmente, paramos na frente de um grande prédio, bastante depredado pelos maus tratos e tempo. Estava muito insegura, por estar confiando tanto naquele homem estranho e misterioso.

— É aqui? – indaguei, atônita, ele apenas assentiu com a cabeça.

Saímos do carro, em silêncio, andamos até grande porta, mas no meio dela havia uma porta menor.

— Está trancada – falei, desanimada, depois que testamos, ele apenas me olhou, pegou dois pedaços de arame e abriu a porta, com a mão pediu para eu esperar, enquanto entrava, olhei para o meu telefone caso precisasse pedir ajuda e, como suspeitava, estava sem sinal. James demorou por pouco tempo, supus que fazia um rápido reconhecimento do lugar, depois me fez sinal para segui-lo.

— Que lugar é esse? – perguntei, baixinho, enquanto andávamos, com prudência, pelo amplo espaço vazio, mal iluminado apenas pela claridade do final da tarde, que entrava pelas telhas de vidro no centro do telhado e pelos tijolos vazados no alto das paredes laterais.

— Um dos antigos depósitos de Tony. Era usado para guardar as mercadorias de contrabando, mas está abandonado, há muitos anos – ele me explicou no mesmo tom.

— Não parece abandonado – falei, ao ouvir o som que vinha dos fundos do lugar, alguém tossia repetidamente, às vezes, puxando o ar como se sufocasse, aquilo me angustiou. Logo em seguida, avistamos a luz azulada e o som de vozes, saindo por uma pequena porta bem, lá no fundo. Devagar, nos aproximamos e paramos debaixo do batente da porta, para avistarmos um pequeno quarto decrépito, com a cama de solteiro desfeita em um canto, embalagens de alumínio, contendo comida, espalhadas sobre uma pequena mesa gasta, muitos remédios sobre a mesinha de cabeceira, o ar estagnado cheirava a cigarro, mofo e sujeira. Ali, sentado em uma poltrona, que já conheceu dias melhores, na frente de uma pequena televisão, havia um homem velho, que fumava e tossia sem parar. Foi quando ele percebeu a nossa presença, virou-se, lentamente, em nossa direção, não havia nenhuma emoção nos seus olhos embaçados. Reconheci o homem do velório, que cuspiu no rosto do morto.

— Olá, Tony – James o cumprimentou, friamente.

— Olá, Carlos — o velho respondeu, no mesmo tom de voz.

O chão tremeu debaixo dos meus pés, meu queixo literalmente caiu, com a revelação da verdadeira identidade de James. Ele era Carlos, o braço direito de Tony, que fugiu com a amante do chefe e, supostamente, o meu avô. Entretanto, eles não repararam minha cara chocada, os dois homens continuavam a se encarar de maneira dura.

— Essa é ... – James/ Carlos tentou me apresentar, mas Tony sacudiu as mãos

— Não precisa, está na cara – ele se referiu a minha semelhança com minha avó – mas, a outra é ainda mais parecida com aquela vadia – Tony aludiu a minha irmã, percebi os olhos de James faiscarem de raiva e sua mandíbula se contrair, quando ele falou assim da minha avó.

— Demorei muito para encontrar você, Tony – continuou James/Carlos, sua voz era fria e contida.

— Não queria ser encontrado por ninguém. Não queria que me visse em que vocês me transformaram, uma sombra humana, um arremedo desprezível do que eu fui no passado – a voz de Tony era cheia de rancor.

— Este era o risco que corríamos nos nossos negócios, Tony. Foi o caminho que escolhemos. Não podíamos confiar em ninguém.

— Eu sabia disso, mas fui traído por todos os lados, pela aquela dupla de patifes de um lado e por você e aquela mulherzinha ordinária pelo outro. Fiquei sem escolha, perdido e abandonado por todos.

— Você sabe que, também, não tivemos escolha, estávamos jurados de morte por você – James/Carlos prosseguiu com a voz segura.

— Eu devia ter matado vocês antes, assim poderia acabar com aqueles dois depois. E agora, olhe para mim, no que eu me transformei, um lixo, morando um buraco como um rato. Agora, sobrevivo às custas de uma pensão miserável que recebo do governo – deu uma risada, como se achasse aquilo engraçado, mas começou a tossir até se engasgar, parecia que ia sufocar, fiz menção de ajudá-lo, mas com um leve movimento James me impediu.

— Foi você quem a matou? – James perguntou, finalmente, o ódio contido na voz.

— Não, bem que eu gostaria, passar com o carro por cima do corpo daquela cadela, mas, infelizmente, não fui – Tony deu um sorriso diabólico, possivelmente, imaginando a cena.

— Então, quem foi? – Havia um brilho de raiva nos olhos de ambos os homens.

— Provavelmente, eles. Aqueles que roubaram tudo que eu tinha, minha liberdade, minha saúde e meus negócios. Eles armaram para mim, para me acusar daquele assassinato. Eu não seria tão burro, nem cometeria tantos erros para ser pego como um patinho, tão facilmente.

— Quem foi afinal? – James insistiu.

— Você sabe a resposta, Carlos. Não precisa me perguntar. Agora, vão embora, me deixem morrer em paz! – Tony se serviu de uma dose da garrafa de bebida barata, que estava ao seu lado, acendeu mais um cigarro, tragou e tossiu forte algumas vezes, nos ignorando, voltando-se para a tela da televisão, continuou a assistir à novela. Ficamos parados, por alguns segundos, como se esperássemos algo mais dele, até que James/Carlos me puxou dali, pois não conseguia me mexer. Eu estava em estado de choque, ouvindo aqueles homens se acusarem, eles eram personagens do meu livro, que eram totalmente reais.

— Menina! – Antes de sairmos, Tony me chamou com sua voz rouca, virei-me na sua direção – Eu li seu livro. Muito bom! Me ajudou a esclarecer muitos fatos que desconhecia, agora, morrei sabendo! – Finalizou com uma risada que mais parecia um guincho, James me segurou pelo braço, tirando-me de lá, antes que pudesse falar qualquer coisa.

— Eu me lembro! Este homem esteve na minha sessão de autógrafo, mas ele disse que o nome dele era Antônio – cochichei para James.

— É o verdadeiro nome dele, Antônio. Tony era só um apelido.

— Foi aqui que aconteceu? – Continuei a perguntar em voz baixa, quase sussurrando, olhando para o chão, ainda ouvindo o som da televisão nas nossas costas, enquanto andávamos em direção a saída. – A cena descrita no livro sobre a morte dos informantes da polícia, foi nesse galpão, que eles foram mortos, não foi?

— Foi – James respondeu, secamente

— Um deles era o avô biológico de Dario, não era?

— Era. Ele traiu Tony, dava informações para a polícia sobre negócios dele. O homem era um peixinho pequeno na organização, um ladrãozinho de nada, mas começou a passar informações sobre os negócios de Tony para a polícia, para se livrar de uma acusação. Só que tinha muita gente da polícia na mão de Tony. Então, quando ele e o comparsa foram denunciados, precisaram servir de exemplo – Um arrepio percorreu minha espinha, imaginando quantos iguais a eles haviam morrido bem ali, naquele lugar. Quando voltamos para o carro, ainda estava em abismada com a revelação.

— Você é o meu avô, James ou Carlos ou quem quer que seja? – Tomei coragem e, finalmente, perguntei, enquanto ele dava partida e saiamos.

— Sou. Meu verdadeiro nome é Carlos – ele respondeu e eu suspirei fundo, agora entendia o porquê estava me protegendo. – Não julgue a mim e a sua avó pelos nossos erros do passado, Júlia, pois já pagamos bem caro por isso, trocamos nossas identidades, usamos nomes falsos, vivemos escondidos por muito anos, acuados e com medo. Sua mãe nunca soube da minha existência para protegê-la, apesar de estar sempre por perto, cuidando delas e, depois, de você e da sua irmã. Então, quando ficamos mais velhos, nos demos o luxo de morarmos perto um do outro.

— Morando no mesmo prédio.

— Sim, infelizmente, nos tornamos descuidados. E quando as fotos da sua irmã apareceram por toda cidade, percebemos que seria só questão de tempo.

— Questão de tempo para quê?

— Para sermos descobertos por eles. Estou certo, que foi assim que acharam e mataram sua avó. Mas, o pior foi quando seu livro foi publicado contando toda história.

— Mas, afinal, quem são eles e o que querem?

— Eles são quem gerenciam, atualmente, os negócios de Tony, os Ferrer e os Hierro. E o que eles querem são os livros de contabilidades de Tony, que sua avó pegou.

— Mas por quê? – perguntei, desesperada, vendo toda minha vida desabar na minha frente.

— Porque ali estão as provas da corrupção das famílias e suas ligações com o crime organizado, seria o fim dos planos de ascensão política deles, com a forma com que enriqueceram com negócios do submundo. Foi por isso, que os garotos deles se aproximaram de você, Júlia.

Ele tinha razão, apesar de ser doloroso pelo meu envolvimento com Dario e pela amizade que eu acreditava ter com Alex, era muita coincidência, aqueles dois homens aparecerem do nada e entrarem assim na minha vida, tão subitamente.

— E onde estão esses tais livros agora, James?

— Eu não sei, sua avó nunca me contou onde eles estão.