A verdade sobre uma pequena mentira
3 A história recontada.
O apartamento ficou quase todo arrumado, porém, eu sabia que nunca sairia desse “quase”, então relaxei. Como estava sem emprego fixo, após terminar a faculdade de jornalista, ganhava algum dinheiro aqui e ali, como freelancer, mas até esses tipos de trabalhos estavam difíceis.
Minha mãe queria me arrumar um emprego na emissora de rádio onde trabalhava, mas eu preferia tentar por conta própria. O que me ajudava era a pequena herança, que minha avó deixou para nós quando morreu, nenhuma fortuna, mas daria para eu me aguentar por um tempo. Assim, tentaria realizar o meu sonho de ser escritora, pois sempre gostei muito de escrever, desde criança inventava história de um mundo imaginário para brincarmos, onde Aline era sempre a princesa. Mas, quando eu me tornei adulta, foi como se toda essa magia se acabasse, não tinha mais nenhuma inspiração para começar a escrever um livro. Por isso, quando Aline me deu a ideia de usar a história do caderno da vovó, mesmo um tanto relutante, aceitei, já que era muito boa para ficar esquecida dentro de uma gaveta.
Naquela manhã, sentei-me na frente do meu computador, com o caderno da minha avó do lado, já conhecia o que estava escrito ali quase de cor, de tanto ler e reler. Assim comecei a escrever a minha história:
“ Aquela noite de verão de 1962, prometia ser, desagradavelmente, quente e úmida, e a última daqueles dois homens ajoelhados, que choravam com crianças, pedindo por clemência, naquele galpão frio e escuro, em algum lugar esquecido da cidade, escondidos dos olhos de todos. Nos seus rostos e corpos cobertas pelas roupas rasgadas e sujas, as marcas da surra que levaram eram evidentes, cercados por outros homens bem armados, que os fitavam sem piedade. Na frente deles, estava...”
Precisava de um bom nome para um importante chefe do crime organizado. Um nome elegante começando com T.F. Tomaso? Tomaso Ferrazzo. Gostei do nome! Parabenizei-me pela escolha.
“.... Na frente deles estava Tomaso Ferrazzo, elegantemente vestido para um evento de gala, e que olhava para os homens decaídos como se fossem insetos, que ele esmagaria em breve, com seus caros sapatos italianos, assim tirou o fino lenço de linho do bolso e secou as imperceptíveis gotas de suor em sua testa.
— Acabe com esses vermes, rapazes! – Tomaso disse para seu braço direito…”
Parei para pensar um bom nome para o capanga que começasse com a letra C. Clovis? Não. Clinton? Também não. Clayton. É, gostei!
“— Acabe com eles! – Tomaso ordenou, com uma voz suave e firme, para seu braço direito Clayton, sem ouvir as lamúrias e as súplicas dos homens condenados. – Mostre que ninguém desafia Tomaso Ferrazzo e sai impune.
— Mas eles são informantes da polícia, eles vão saber! – Clayton ponderou, apesar de saber que as vidas daqueles homens não valiam mais nada agora.
— Clayton, boa parte da polícia, trabalha para mim, incluindo o próprio chefe. Estão todos na minha folha de pagamento, assim como muitos políticos importantes dessa cidade, eu sou intocável. Vamos sumir com eles e ninguém vai lembrar ou se importar que um dia essa escória existiu – Tomaso encarava, com o olhar duro e frio, os homens que choravam a sua frente, suplicando pela vida.
— E o que faremos com os corpos? — Clayton esperou as ordens, sem piscar.
— Leve para o meu sítio e os enterrem no meio do mato. Agora, tenho que ir com o prefeito hoje e já estou atrasado – depois, cuspiu nos rostos dos homens marcado para morrer, limpando a boca com o seu fino lenço de linho branco, virou-se e saiu. Mas, antes de entrar no carro, onde sua esposa Helena o esperava, pacientemente, ele tirou um cigarro da sua cigarreira de prata, com seu monograma gravado, e o acendeu, ouvindo, sem sequer se abalar, o barulho dos vários disparos das armas, sendo descarregadas, ao fundo. ”
Depois de um mês, eu estava tão envolvida com o meu livro, já quase me tornando uma freira reclusa, mal saía da cadeira e da frente do computador. O meu único exercício físico era ir até a porta, para receber a comida, que eu pedia para entregar, acho que devo ter engordado uns três quilos, com tudo isso até o gato Uriel parecia entediado.
Meus amigos me ligavam, reclamando da minha ausência prolongada, era sempre a mesma ladainha de explicações sobre o meu novo trabalho e como andava ocupada, sem contar para eles que estava escrevendo um livro.
A única justificativa para me fazer sair de casa, foi a festa de despedida da minha irmã Aline, que passaria um ano em Nova York, trabalhando como modelo. A festa aconteceria na casa da minha mãe.
— Nossa, Julia! Você engordou! – minha mãe exclamou, assim que abriu a porta. Às vezes, ela era tão sincera, que deixava a mim e minha irmã muito incomodadas.
— Também, senti sua falta, mãe – respondi com ironia, entrando na casa, dando um beijo no rosto dela.
— Deixa a menina em paz, Carla! — Meu pai se aproximou, dando-me um beijo no rosto – Estávamos com saudades, Julia. Você andou sumida, filha.
— Estou trabalhando em um projeto, pai. – Não queria dar muitas explicações, nem pretendia falar para minha mãe até o livro estar concluído, ser aceito por uma editora, ou melhor, só contaria para ela, se ele se tornasse um best-seller.
— Podemos saber que projeto é esse, Julia? – minha mãe perguntou, desconfiada.
— Por enquanto, não, mãe. Onde está Aline?
— Ali com umas amigas. Estou morrendo de medo que ela se torne anoréxica ou algo parecido, morando lá, sozinha, em um lugar tão distante — minha mãe confidenciou para mim, ela sempre pensava o pior.
— Por favor, Carla! Pare com isso! – Meu pai suplicou e eu sai de fininho para encontrar minha irmã, no centro de suas amigas magérrimas e lindas, como ela.
— Julia! – gritou, pulando como uma boneca de mola na minha direção, abraçou-me com força pelo pescoço, quase um mata-leão – Eu estou tão feliz! Eu vou morar em Nova York, The Big Apple! Não é maravilhoso!
— Vai ser maravilhoso para você, Aline! – concordei, querendo escapar daquele aperto.
— E você? E seu livro? – ela prosseguiu, empolgada.
— Shiii! Não fale alto! Não quero que mamãe saiba!
— Você não quer que a mãe saiba? Por quê? – ela indagou no mesmo tom de voz.
— Porque você sabe como ela é! Vai ficar me cobrado, querendo se meter em tudo, achando que está ajudando.
— Será o nosso segredo. Eu prometo. E como está o livro? – ela me perguntou, outra vez, quase sussurrando.
— Está quase pronto. Acho que está ficando bom.
— Prometa, que vai me mandar um exemplar assim que ele for publicado – Aline me pediu, sussurrando.
— Pode deixar, se ele for publicado, você será umas das primeiras a receber um exemplar com uma dedicatória especial.
— E você vai dedicar o livro para a vovó, não vai?
— Sim, se o meu livro for publicado, ele será dedicado à nossa avó. Eu já prometi.
— Vou sentir sua falta, Julia – Aline me abraçou, chorosa, pois durante toda a nossa vida, houve poucas ocasiões que ficamos separadas, e nunca por tanto tempo.
— Eu, também, vou sentir a sua, Aline — Retribui o abraço.
— Ei! Você poderia ir me visitar lá!
— Quem sabe?
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