A verdade sobre o amor.
7 Você é o único amor que conheci. - Parte 2
Notas iniciais
– Anda, Tori! Vamos nos atrasar! — Falei um pouco mais alto pra ela poder escutar de dentro do banheiro.
– Tô indo, Jade. Tô só escovando os dentes. Pera aê! — Ela respondeu.
A Tori abriu a porta do banheiro e estava deslumbrante e incrivelmente cheirosa. Podia sentir de longe. Com um converse preto, calça jeans escura e uma camiseta folgada branca que tinha escrito "Don't Panic!", com certeza, em homenagem ao livro que estava lendo na viagem pra cá.
– Uau! Vai arrasar na noite, hein! — Falei sorrindo, com os olhos brilhando.
– Nós vamos! Essa noite ninguém escapa. É tudo nosso! — Ela falou se aproximando de mim com aquele sorriso devastador.
– Beleza, vamos apostar. Quem pega mais. 10 pilas. — Ela chegou bem pertinho e segurou as minhas mãos, dando um beijo em cada uma.
– Haha, tem certeza que você quer? Já sabendo que vai perder? Tudo bem, apostado. — Assim que ela terminou de falar, puxei para um beijo com gosto de pasta de dentes refrescante.
Chegamos no 505 e estava lotado. Gente bebendo, conversando, rindo e se divertindo. Nos sentamos numa mesa próxima ao palco, não queríamos perder nada. Pedimos umas bebidas e umas batatas fritas pra acompanhar, demorou alguns minutos antes da primeira banda entrar.
– Com vocês, Alex Turner! — Disse o apresentador. Todos aplaudiram.
O Alex tocou seus sucessos e os meninos trocaram várias ideias sobre os instrumentos utilizados e o som. Depois veio o Iron and Wine que tirou a galera da mesa pra curtir o som de perto. E, finalmente, entrou o Brad Sucks. O show foi incrível mas a noite não parou por aí.
Quando os shows acabaram e já era madrugada, o apresentador abriu espaço no palco pra karaokê e eu tive uma brilhante ideia.
– Obrigado às três bandas que lotaram o 505 hoje! Parabéns, garotos! Bom, pessoal. O palco está aberto pra karaokê! Quem quiser mostrar seu talento, a hora é agora! — Disse ele.
– Gente, — falei pra banda — vamos tocar uma?
– Mas é karaokê, Jade. Será que eles disponibilizam os instrumentos? — Perguntou o Andre, e foi direto falar com o apresentador que rapidamente levantou o polegar, indicando que sim, a ideia genial rapidamente me fez sentir um enjoo repentino.
Eu não estava bêbada, nem queria ficar, era raro ter um dia tão especial como esse e eu não queria esquecê-lo. Subimos ao palco e a Tori continuou sentada à mesa.
– Boa noite, galera. A gente veio até aqui tocar uma canção que dedico à essa mulher sentada aqui na frente. A garota dos meus sonhos. — Nem acreditei que disse isso na frente de todos. A Tori ficou toda vermelha e a atenção voltou-se pra ela.
Começamos a tocar e eu cantei olhando sempre pra ela:
I don't wanna make a scene
I don't wanna let you down
Try to do my own thing
And I'm starting to figure it out
That it's alright
Keep it together, wherever we go
And its alright, oh well whatever
Everybody needs to know
Fechei os olhos por um momento, a emoção me invadindo. Quando os abri, ela já estava com lágrimas nos olhos e um sorriso lindo estampado no rosto.
You might be crazy
Have I told you lately that I love you?
You're the only reason that I'm not afraid to fly
And It's crazy, that someone could change me
Now no matter what it is I have to do I'm not afraid to try...
And you need to know that you're the reason, why.
Ela levantou da cadeira e seguiu em minha direção. Eu comecei a esquecer a letra enquanto via a Tori chegando mais perto a cada compasso da música. Os garotos, o Beck e a Cat continuaram a cantar porque assim que a Tori chegou até o palco ela me puxou me dando um beijo na frente de todo mundo que, por sua vez, gritavam e aplaudiam sem parar.
A banda continuou a tocar e eu fui embora com a Tori pra casa, ardendo de desejo. Mais rápido do que pensei.
Abrimos a porta do quarto aos beijos e abraços, batendo em tudo que víamos pela frente.
– Cuidado! Seus pais podem acordar! — Sussurrou a Tori. Eu ri baixinho.
– Ops — Fechei a porta. — Tudo bem, agora não vão mais escutar, o quarto é bem isolado. Vai por mim. — Voltei a beijá-la. Ela parou o beijo segurando nos meus ombros.
– É sério isso? Na moral, pra quê isso?
– Eu sou uma musicista, esqueceu? Meus pais já estavam se matando por causa do barulho.
– Ah, é verdade. — Ela voltou a me beijar.
Eu estava me sentindo um pouco tonta, mas como falei antes, eu não estava bêbada. Finalmente estava tendo a Tori só pra mim, finalmente estávamos tendo nosso momento íntimo. Tirei a minha blusa, sentei ela na cama e não larguei os seus lábios. Ela me fez sentar na cama e me empurrou, deitando-se em cima de mim. O beijo estava se quebrando quando eu tentei tirar a sua blusa. Foi ela que quebrou.
– Jade... — Ela abaixou a blusa. Eu sentei na cama na sua frente.
Voltei a beijá-la, segurei nas suas mãos, mostrando que estava tudo bem, que nós éramos apenas uma. Ela parecia estar falando mais pra si mesma do que pra mim.
– Tudo bem, tudo bem, eu quero, eu consigo.- Pra tentar deixá-la mais confortável, eu repeti.
– Você consegue. Vamos lá.
Tirei a sua roupa na velocidade da luz, ela só estava de calcinha e sutiã. À luz fraca do abajur eu pude ver seu corpo despido e me maravilhar com ele. Era o dia perfeito. Tudo tinha sido especial. Eu estava, finalmente, conhecendo a garota da minha vida. Marcando, em nós mesmas, o selo do sentimento eterno, daquele que é tão raro que não deveria ser nomeado em vão, por ser tão sagrado e puro. Mas não era em vão. Hoje, sim. Selaríamos o nosso amor.
Quando fiquei com a mesma quantidade de peças que a Tori, me deitei ao seu lado, acariciando seus cabelos e admirando a sua beleza externa, porque a sua beleza interna, sua personalidade era a mais linda de todas, eu já sabia, já conhecia.
– Você é o único amor que conheci. — Disse pra ela com os olhos brilhando.
– Então, deve ser o verdadeiro, que dura pra sempre. Dizem que só acontece uma vez na vida. — Ela sorriu e respirou fundo antes de dizer — Em você, eu conheci o amor. E eu preci...
Não deixei ela terminar de falar. Parei sua fala com um beijo profundo e ardente. Toquei suas costas nuas, desbotei seu sutiã e pela primeira vez, pudi sentir o seu seio tocar meu corpo. Estremeci ao toque e, sem hesitar, tirei o meu também. Senti a Tori tensa e sem ação, mas entendi que era o seu nervosismo impedindo-a que desfrutasse daquele momento.
Estava disposta a fazê-la se soltar e aproveitar esse dia tanto quanto eu estava aproveitando. Podia sentir a sua respiração se acelerar rapidamente com o meu toque e o meu beijo. Passeei por todo o seu corpo e o puxei para mim, queria-a o mais próximo possível, hoje e sempre. Segurei e acariciei a sua nuca, depositei beijos carinhos pelo seu colo e passei a minha boca para o seu seio direito, escutando a Tori gemer a cima de mim. Gostei do que aquela sensação me proporcionava no meio das minhas pernas e continuei. Mas de repente, a Tori inverteu a posição como se estivesse pronta pra me comer, literalmente. Ficou por cima de mim e sugou meu pescoço enquanto sua mão descia pela minha barriga, até chegar ao meu clitóris, me fazendo sentir arrepios pelo corpo todo.
Ela foi com muita pressa, mas tudo que eu fiz foi suspirar e pedir que não parasse até eu chegar ao orgasmo. Ela o massageou com tanta sensualidade que eu seria capaz de morrer ali mesmo. Abracei seu pescoço com força e apertei os meus olhos já fechados, só sentindo como aquilo era bom. Levei uma das minhas mãos até a dela, sinalizando que ela podia ir adiante. Ela me penetrou apenas com um dedo e suspirou bem alto ao ouvir meu gemido. Aos poucos, foi aumentando a velocidade e a quantidade de dedos enquanto se mexia em movimentos de vai e vem sobre a minha coxa e cintura, e eu quase morria de amor. Já sentia-me elevada a uma realidade que ultrapassava o sensível, e por um pequeno instante, jurei ter saído de mim. Era o meu êxtase. Soube na mesma hora que tinha chegado ao orgasmo.
Minha respiração ainda forte e rápida, eu sorria à meia luz enquanto a Tori deitava-se ao meu lado e beijava a minha testa carinhosamente. Virei-me ainda deitada, tentando ficar de frente para ela.
– Agora é a minha vez. — Deixei meus lábios grudados nos seus enquanto descia a mão para puxar sua coxa nua pra cima do meu corpo. A Tori segurou a minha mão quando ela quase chegava ao seu destino. Saiu do beijo, e falou próxima ao meu rosto.
– Eu sei que não é uma boa hora, mas foi por isso que eu apressei as coisas e tentei não estragar tudo. — Ela deixou a cabeça no travesseiro e olhou pra cima. Eu fiz o mesmo. — Eu preciso te dizer uma coisa sobre mim. Uma coisa que é importante e entendo se você não quiser mais nada comigo depois disso.
– Como assim? Não querer nada contigo? Calma, vai devagar. É aquela coisa que vem me escondendo há um tempão né? Que você disse que um dia eu iria saber, na hora certa...
– É sim, Jade. E eu espero que a essa altura, você já me conheça de verdade. — Ela ficou triste, tão triste. Me virei para olhá-la.
– O que foi, Tori? — Segurei suas mãos quando ela também se virou pra mim. — Não importa o que seja, eu te amo. Agora fodeu, não te largo mais.
– Jade, — ela sentou na cama, ficando de costas pra mim. — eu sou assexual.
Eu não consegui responder nada. Só fiquei parada tendo um colapso. Eu não estava acreditando no que acabei de ouvir da boca dela.
*
*
– Jade?! — senti umas sacudidas — JADE?! Jade, por favor! — escutei um fungado.
Não sei quanto tempo fiquei nesse estado, mas quando voltei a Tori já estava vestida e eu também. Mas ainda estávamos no mesmo lugar, só o dia que já estava claro. Olhei para a Tori e agora conseguia vê-la chorando e olhando pra mim como se estivesse tentando ressuscitar um cadáver.
– Tori... — foi o que eu consegui dizer.
– Ai, ainda bem! — Ela me abraçou enquanto falava. Aos poucos fui voltando a mim, fui lembrando o que tinha acontecido e...
– TORI! — Quase gritei, levantei da cama e falei enquanto olhava pro nada. — Eu quase te estuprei, Tori! Você deixou tudo aquilo acontecer! Você deveria ter me dito! O que foi que eu fiz?!
– Você não fez nada, Jade! Não percebeu que você não me tocou? Eu fui até onde dava pra ir! Eu te amo, Jade. Eu tenho medo de você não me querer mais por conta disso. — Ela chorava enquanto
desabafava.
Eu tentei me controlar, ainda pasma pelo que tinha feito. Mas precisava dizer pra Tori que estava tudo bem que eu também a amava e que estava tudo bem. Sentei-me junto dela, alisando suas
costas com leveza.
– Tori, está tudo bem. Calma. Olha, eu também te amo, e eu estou aqui. — Era isso... Caramba, era isso, como não percebi antes?– Você foi super legal comigo e eu nunca me senti tão feliz ao seu lado, mas não precisava ter feito aquilo. Eu te entendo, juro que te entendo.
– É sério, Jade? — Ela enxugou as lágrimas — Eu sempre tive dificuldade de manter meus relacionamentos por isso. As pessoas têm suas 'necessidades', sabe? Mesmo que me aceite agora, depois você irá sofrer. Me desculpa, me perdoa! Eu sinto muito ter feito isso. Depois de tudo que a gente passou juntas, depois de todo esse tempo!
– Tori. — Ela continuava a falar — Tori. — Ela voltou a chorar enquanto falava — Tori! — Segurei seu rosto com minhas mãos. — Eu te amo, minha companheira. Você não entendeu ainda? Eu não fiquei triste, nem magoada por isso. Fiquei constrangida por meio que ter te forçado a isso, que mesmo sem eu saber, você se submeteu àquilo pra me satisfazer. Foi isso que me deixou naquele estado. Eu que peço desculpas! Me perdoa, sério!
– Você não me forçou a nada. Minha condição de assexual implica em não sentir desejo sexual, nem nada sexual por nada ou ninguém. Mas eu não vou virar um ser sexuado depois de hoje, entende? Eu não queria que esse dia chegasse nunca. Porque eu sei que depois disso, a relação só tende ao fim. Foi assim com os outros relacionamentos.
– Esqueceu que você é o único amor que eu conheci? — Olhei no fundo de seus olhos.
– Não, Jade. Espero que saiba que você me mostrou o amor e agora você me mostrou o respeito também. Obrigada. — Ela me abraçou.
Era isso... A Tori não necessita de sexo para amar e ser amada por alguém. Eu ainda não sabia o que fazer comigo depois dessa notícia, — eu consigo sobreviver — mas quanto à gente, eu mal podia esperar para começar essa nova fase. Uma fase onde eu consigo ver a alma da minha amada. Agora sim, eu a conhecia profundamente e foi ela quem me fez desfrutar do desejo carnal, mesmo sem sentir-se atraída ou se importar com o sexo. Se, para muitos, o sexo é uma parte chave na ligação entre as pessoas, não necessariamente para outros ele é a única expressão possível de amor.
A realização pode vir do carinho, da compaixão, da proximidade, da empatia e da aceitação. E essa nova fase, resume-se a isso. Eu sou feita de carinho e darei a Tori todo o carinho que ela necessitar. Eu a amo, de verdade. Já disse.
Ficamos deitadas vendo o sol nascer e acendemos um cigarro juntas enquanto planejávamos o que iríamos fazer durante aquele dia.
Ali, ao seu lado. Peguei meu celular e digitei pra que ficasse bem claro. Seu celular vibrou, ela o pegou e leu.
/ Não há vida sem você. /
Ela sorriu ao ler a mensagem, virou pra mim e me deu um beijo na testa.
– Posso te perguntar duas coisas? — Falei pra ela.
– Sim. Claro.
– Uma eu já perguntei, e outra é: — Ela riu da minha tentativa de ser engraçada, ela riu mais do mim do que o que eu falei — Quantos namorados você já teve?
– Hm, três. Até te achar não foi fácil, viu. — Ela disse soltando fumaça.
– Meninos, meninas? Como foi? Hm, desculpa se estou sendo invasiva. Eu quero saber de tudo, mas não me leve a mal. — Falei e ela sorriu me olhando.
– Tudo bem, eu te conto tudo que quiser saber. Bom, foram dois garotos e uma garota antes de você. Todos eles terminaram pelo mesmo motivo. Sexo.
Eu percebi que toda vez que ela tocava nesse assunto, ficava mais pra baixo. Como se tivesse algum tipo de doença que atrapalhasse sua vida amorosa.
– Tori, você demorou muito pra me contar isso. Você tem vergonha, é isso?- Falei.
– Não, Jade. — Ela pensou um pouco — É... Na verdade, eu tenho receio mesmo. As pessoas não fazem força pra entender, eu já fiz exames hormonais. Tudo normal. Mas todos veem isso como uma patologia.
– Eu, não! Eu sei bem o que é. Te entendo perfeitamente. Uma pessoa assexual pode se apaixonar por outra, amá-la e ser feliz, ainda que nunca se sinta sexualmente atraída e tenha necessidades sexuais. Não há vergonha nisso. — Peguei na sua mão e levei até a minha boca, deixando um leve beijo. — Estamos juntas, companheira. Você e eu.
– Obrigada, Jade. Eu nunca achei que uma pessoa me entenderia, me aceitaria como eu realmente sou. Obrigada mesmo.
Pois é... Li isso em algum lugar:
Amor não é se envolver com a pessoa perfeita, aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
[...] O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.
– Autor Desconhecido.
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