A verdade sobre o amor.
6 Você é o único amor que conheci. - Parte 1
Notas iniciais
Acordei cedo, louca para fazer meus exercícios, mas o doutor disse que ainda não. Fui logo me arrumar para voltar pra casa. Não vou negar, estava super ansiosa para encontrar minha família e meus amigos, já não lembrava mais como era aquela vida. Agora estou vivendo como nunca imaginei viver. Encontrei a Tori no refeitório e tomamos um breve café da manhã para não perdermos o ônibus que partiria em pouco minutos.
– Será que eles vão gostar de mim, Jade? — Ela parecia um pouco assustada.
– Como não gostar de você, menina? Você é meio louquinha e calma ao mesmo tempo. Inteligente, linda e tem um perfeito gosto musical. Não surta, tá? — Ela sorriu e me deu um beijo no rosto.
O ônibus chegou. Sentamos e nos acomodamos.
– Tudo bem, espero que a Trina cuide bem do Alex.
– Vai cuidar, relaxa.
A viagem não foi tão longa, chegamos antes da hora do almoço. A Tori ficou lendo um livro intitulado "O guia do mochileiro das galáxias" e ria toda hora. Para não atrapalhar a sua leitura, coloquei o headphone e voltei pra casa ao som de Eddie Vedder, que sempre acho que combina com esses momentos.
Descemos do ônibus e caminhamos em direção à um taxi que estava perto. Pedi para que deixássemos próximos para irmos andando um pouco. Precisava esticar as pernas e tentar não mancar tanto para que ninguém perceba o que ocorreu. A Tori não gostou da ideia de não contar, mas eu não queria deixá-los preocupados assim como a própria Tori ficou. Enquanto caminhávamos para chegar em casa a Tori segurou a minha mão e sorriu para mim.
– Quero ver a cara da minha mãe quando eu apresentar a mulher da minha vida pra ela. — Eu disse, brincando com ela. Ela soltou a minha mão.
– O que ela é capaz de fazer? Caramba, não fala assim que eu vou querer voltar! — Ela ficou nervosa na hora, mais do que já estava.
– Não, não. Eu estou brincando, companheira. A minha mãe só é capaz de ficar muito feliz com a minha felicidade. — Procurei a sua mão e a encaixei na minha.
Quando estávamos chegando perto de casa, avistei a minha mãe na frente de casa dando águas às plantas. Ela não me viu. Ainda de mãos dadas a Tori, gritei:
– Ei, mãe! — Ela virou-se, abriu o sorrisão e seus olhos brilharam.
– Filha! Filha! Filha! — Soltou o regador e correu até a mim, que estava na calçada de casa. — Filha, por que você não avisou? Eu ia fazer um almoço especial. Como você está, querida? Ai, nós sentimos tanto a sua falta! — Me abraçou sorrindo. — E essa? Quem é?
– Essa é a Tori Vega, mãe. Minha companheira. — Disse olhando para ela, que por sua vez estava parecendo um tomate.
– Olá, Tori, seja bem-vinda. — Ela deu um abraço bem apertado na Tori.
– Obrigada, senhora West. Espero não incomodar. — Ela respondeu.
– Claro que não, querida. Considere-se da família, tá? Eu que espero que você não enjoe da Jade, vai por mim, eu conheço minha filha, ela nunca mais vai te largar.
– MÃE! — Falei logo depois dela dizer isso na frente da Tori e rir de mim.
– Não se preocupe, senhora. Eu também não vou mais largá-la. — Ela segurou a minha mão e sorriu pra mim.
Entramos e nos acomodamos no meu quarto, — confesso, estava morrendo de saudade do meu violão, meu baixo, meu teclado, meu cavaco, meu ukulele e minha guitarra, e claro, meus livros. Não deu pra levar todos pra universidade. Enquanto a Tori tomava um banho eu fiquei tocando violão pra matar a saudade, ela chegou que eu nem senti sua presença, continuei a tocar e cantar.
Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar.
Tua palavra, tua história,
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim.
E o fim é belo incerto... Depende de como você vê.
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só...
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar...
Ela sentou ao meu lado de banho tomado, cheirosinha, de short e sutiã, e eu comecei a esquecer a letra. Ela gargalhou.
– Como você pode ser a vocalista desse jeito? — Ficou rindo. — Tímida, esquecida. — Parei de tocar.
– Não! O esquecimento é consequência da timidez, e a timidez é por sua causa. — Ela riu mais ainda.
– Minha causa? Eu não fiz nada! — Ela me abraçou de lado.
– Eu posso cantar pra um público de milhões de pessoas sem errar, mas só basta te ver e eu esqueço até de respirar. Você faz de propósito, eu sei disso! — Deixei o violão em cima da cama e virei-me para ela, afim de ficar com os meus lábios o mais próximo possível dos dela.
Ela me beijou devagar e eu aceitei o beijo tentando aprofundá-lo de maneira mais suave possível. Abracei sua cintura e a puxei mais pra perto, puxei seu corpo contra o meu até sentir as batidas aceleradas e descontínuas que o seu coração proporcionava. Eu sentia borboletas na barriga e era como se o tempo tivesse parado para o universo nos contemplar. Poderia ser enjoo, ansiedade, nervosismo, mas não. Todo aquele frio na barriga era sintoma de amor. Estava ofegante e nem pensei no que fazer, agi de forma natural e deixei o momento se encarregar de tudo.
Ela estava segurando meu pescoço com as duas mãos. Eu a puxei para o meio da cama e deitei-me por cima dela. Senti sua respiração acelerar de modo estranho e desci para sua nuca, afim de deixá-la tomar fôlego.
– Jade... — Ela falou baixinho enquanto eu sugava seu pescoço sem pudor. Estava por um fio de explodir de emoção e tê-la toda para mim.
Encarreguei-me de tirar a minha blusa, já que ela JÁ estava sem a dela. Apressadinha. A Tori ficou me olhando ofegante. Joguei minha camiseta longe e voltei a beijá-la com pressa, rezando para minha mãe não abrir a porta e pegar a gente ali. A Tori estava gelada embaixo de mim, comecei a imaginar se ela não estaria se sentindo confortável com aquela situação e hesitei em parar, mas logo após deixei de paranoia e segui meu coração que só pedia ela.
– Jade, por favor... — Ela falou entre um dos beijos. Eu parei e olhei nos olhos dela.
– Que foi? — Quase não saiu voz.
– Você não tem que ir tomar banho pra a gente descer e almoçar?
– A gente pode se atrasar um pouquinho, não acha? — Disse enquanto descia até seu pescoço e o enchia de beijos.
– A sua mãe pode sentir nossa falta e vim aqui. — Ela falou tentando se levantar. Eu sai de cima dela.
– Tori, eu sei que não é uma boa hora para ir mais longe disso que a gente tava fazendo, mas é que eu não tô aguentando mais, eu te quero agora. Ninguém vai nos atrapalhar. Tá? Eu vou tomar um banho e volto.
– Você toma um banho e volta pra a gente descer. — Ela falou e levantou. Eu não conseguia entender o que eu tava fazendo de errado pra ela não querer nada, nunca.
– Tori, olha pra mim. — Puxei seu braço. Ela olhava e desviava o olhar. Ficou nisso. — O que tá havendo? O que houve? Você não se sente segura, é isso?
– Não, Jade, não é isso! Esquece, tá. É só que está num horário inapropriado. Só isso.
– Mas estamos sozinhas num quarto e temos muito tempo, estamos de férias! Qual é o problema?
– Jade... — Eu soltei o seu braço. Ela sentou à mesa onde eu usava para escrever, estudar e ler.
– Ta bom, Tori. Eu vou tomar banho.
Eu estava ficando maluca ou a Tori não quer algo a mais comigo. Provavelmente é a segunda coisa, pois a primeira já é fato. Tentei não pensar muito nisso. Estava de férias e com muita saudades dos meus amigos, não podia deixar esse clima atrapalhar tudo. Tomei uma chuveirada de uns bons minutos, lembrando do dia em que quase morri e não consegui evitar de pensar que não fazia tanta diferença quase morrer e morrer aos poucos, estaríamos morrendo de qualquer jeito. Estamos todos morrendo. Saí do banho direto lá pra baixo já que não encontrei a Tori no quarto. Ela estava lá na sala com meu pai e minha mãe conversando sobre coisas banais e rindo sem parar. Quando notaram minha presença, fomos para a cozinha almoçar e eu fiz de tudo para os meus pais não notarem que a gente tinha se desentendido. Pois eu continuo entendendo ela, mesmo sem saber o motivo, mesmo sem realmente entender, eu sei que ela tem uma razão e eu não posso simplesmente ignorar isso e ficar com raiva.
À tarde liguei para a Cat e ela veio correndo junto com o Beck e o Andre ao nosso encontro.
– Jade! Sua vadia! — A Cat correu e se jogou nos meus braços me agarrando com as pernas e me fazendo gritar de dor.
– Caralho! Au, você cresceu e ganhou peso! — Soltei ela e menti para esconder a cicatriz das costas.
– Ai, desculpa. Ei! Eu não tô gorda! — Ela começou a rir sozinha como se tivesse contado alguma piada.
– Ei, Beck! Andree!! — Abracei os dois e os beijei na bochecha. — Gente, essa é a Tori Vega.
– Olá, Tori Vega! — Disse a Cat abrindo o sorrisão.
– Ei, a famosa Tori é você então! Aqui só se fala de você, garota. — Disse o Beck. — A Cat até falou pra a gente que você não ligava mais pra gente porque estava muito ocupada namorando a Tori e curtindo seus amigos da faculdade.
– Heey! Cala a boca, Beck! — Rebateu a Cat.
– Não era pra contar? — Beck.
– Claro que não!
– Agora já era, amiga. Eu te amo. Hahahaa. — O Beck bateu com o ombro de leve no ombro dela e fez aquele sorriso de galã de novela.
– Não esquenta, Beck. Isso é ciúmes de amiga. Não é mesmo, Cat? — Abri os braços para ela fazer o mesmo e me dar um abraço. — Ãh? O que me diz? — Ainda de braços abertos. Ela correu e me abraçou. A Cat é muito carinhosa e deveria estar setindo muito a minha falta. Vou ligar pra ela sempre, minha amiga precisa de atenção.
– Gente, agora que todo mundo já se viu, se babou e riu. Vamos ao que interessa, né? CURTIÇÃO! Hoje tem um show de uma banda indie muuuito maneira lá no 505, e aí, encontro vocês de que horas? — Falou o Andre brincando com o meu ukulele. — Ah, vai ter karaoke depois do show. Vai ser super irado!
– Hm, o que é o 505? — Perguntou a Tori.
– É o melhor barzinho de show de música indie do mundo! Lá é maneiríssimo. — Disse o Beck. — Eu topo.
– Certo, Beck, não precisa exagerar! — Eu ri. — Beleza, eu também topo. E aí, Cat, Tori? — Perguntei.
– Claro que a gente vai né, Tori? Não vamos perder essa noite! — Disse a Cat animada.
– Sim, claro! — A Tori abriu um sorriso frouxo. Eu a abracei. Quero que ela saiba que não estou com raiva dela. Nem que eu quisesse...
Os três foram embora e marcamos de nos encontrar à noite para irmos pro 505. Ficamos só eu e a Tori e eu a chamei para dar uma volta pelas redondezas para conhecer o local.
Ela conheceu a pracinha da cidade que tem eventos sempre, até dia de semana, a casa da cultura e a melhor lanchonete daquele lugar. Na volta, paramos num parque meio deserto, eu acendi um cigarro a gente viu o pôr do sol através de várias casas e apartamentos que tiravam toda a graça do momento.
– Jade, me dá um cigarro?
– Tá brincando, né? — Perguntei meio sem saber o que responder.
– Não, eu já fumei, mas tinha medo de virar um vício. Vejo como você faz disso um relaxante e não um vício. Pouquíssimas pessoas possuem esse poder sobre o tabaco. Parabéns.
– Eu faço a dieta do 1 por dia e procuro sempre fazer exercícios físicos. Ajuda, sabe... Bom, espero que não vire um vício pra você. Quando eu não preciso, eu não fumo. Funciona assim.
– Então, você tá precisando agora? — Ela falou enquanto eu passava um cigarro pra ela.
– É que eu tô meio inquieta. — Ela deu o primeiro trago. — Nada demais. — Na verdade, não saia da minha cabeça o que tinha acontecido antes do almoço.
– Hm, hoje à noite vai ser ótimo. Ouviu que o Andre falou que seria a noite do primeiro álbum? — Ela disse dando outra tragada.
– Sim, é. As 3 bandas que vão tocar têm que escolher músicas do seu primeiro álbum pro repertório. E eu soube que o Brad Sucks vai ser o último a tocar. Eu amo as músicas desse cara, ele é tipo, um gênio. — Falei me animando. Acabei o meu cigarro. Ela consegue me distrair.
– Legal, sabe quais serão as outras duas?
– Hm, o Alex Turner e o Iron and Wine. Essa noite vai ser perfeita.
– Legal, então vamo pra a gente não se atrasar. — Ela levantou e estendeu a mão para pegar a minha.
Voltamos pra casa de mãos dadas e sorriso no rosto. Nada poderia estragar essa noite. Tudo seria perfeito. Eu não consigo mais pensar que não temos um propósito neste mundo. Que viemos pra nada. Ou que vamos pro céu, ou pro inferno. Criamos este propósito. O que as pessoas estão esperando para serem felizes? Tudo bem, nós somos evoluídos o suficiente pra saber que a diferença de viver e existir é justamente esse propósito! Pois é...
Enquanto a humanidade não se toca que a felicidade só é real quando é compartilhada, eu estou compartilhando da minha. E espero que seja assim até o fim dos meus dias. Pois não há vida sem ela. Quero tê-la comigo, mesmo depois de décadas, mesmo depois de quebrar meu coração, de brigar, mesmo não tendo tempo pra mim. Comigo. Lado a lado. Será uma honra.
Repito: Não há vida sem a Tori.
Fale com o autor