A verdade sobre o amor.

5 O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis.


Notas iniciais
Muito agradecida pelo carinho nos comentários, Sweet Whore. E um muitíssimo obrigada para aqueles que estão lendo também, mesmo sem comentar. Boa leitura!

Acordei com uma dor devastadora nas costas, um pouco acima dos glúteos, do lado direito. Tentei me levantar para tentar chegar no meu quarto antes que alguém me visse ali quando senti uma mão me impedir de ficar de pé.

– O que está fazendo? Tá doida? Tem que ficar de repouso! — Eu sorri quando escutei a voz da Tori. Não tentei mais levantar.

– Oi, Tori. O que houve? Por que minhas costas estão pegando fogo? — Avistei o pessoal, me olhavam com incredulidade. Eu estava num hospital.

– Você levou um tiro, Jade! Um tiro! — Ela falou com uma voz embargada, senti tristeza em seu olhar. O cachorro!

– O cachorro! — Lembrei do ocorrido. — Onde tá o cachorro? Ele está bem? — Não consegui parar de lembrar aqueles olhinhos tão tristes depois de levar uma surra de um grande estúpido.

– Ele está bem, Jade. Levamos ele para o veterinário, ele quebrou a pata, mas está bem. — Disse a Trina. Senti um alívio momentâneo.

– Ah, que bom. Então está tudo bem. — Falei.

– Tudo bem? Você acha mesmo que está tudo bem, Jade? — Dessa vez, foi a voz da Tori chegando aos meus ouvidos. — Jade, você quase morreu! E se esse tiro pega na sua coluna?

– Mas não pegou! — Rebati.

– Foi por pouco!

– Isso! Por pouco!

– Para, Jade! Por pouco eu te perco! Por pouco você perde a sua vida por um animal que você nem sabe de quem é. — Ela aumentou a voz.

– Tori, eu não podia ficar só olhando! Entenda-me, por favor! — Senti uma tristeza me invadindo — Eu não podia mesmo, Tori, ia me sentir pior do que estou agora.

Ela só me abraçou e os garotos fizeram o mesmo.

– Tá tudo bem, gente. — Lembrei da prova — Caramba! A prova! Que droga. Como eu vou poder ficar de férias desse jeito?

– Jade! Você tá se preocupando com prova? Caralho! Um cara tentou te matar! E você nem sabe quem foi! — Escutei, pela primeira vez naquele dia, a voz do Sinjin.

– Ninguém pegou esse cara? Eu só queria saber por que ele tava fazendo aquilo com um animal indefeso. E dentro do campus! Armado! Onde esse mundo
vai parar, hein... — Falei.

– Ele fugiu antes do pessoal chegar e te ver caída com um tiro nas costas. — A Trina falou. Eu assenti.

– Você se lembra de alguma coisa, Jade? — Perguntou o Rex.

– Antes ou depois do acontecido? — Em dúvida. Esse carinha é cada pergunta.

– Durante. — Não acredito que ele falou isso. Eu ri por dentro.

– Ah, claro, foi como se eu estivesse pronta para nascer.

– Mas você não lembra dessa parte da sua vida, lembra? — Ele disse confuso.

– Exatamente! — Todos riram e aí foi a despedida.

Fiquei no hospital alguns longos dias e a Tori vinha me visitar sempre — porque se não fosse por isso eu iria morrer, não da bala, mas de tédio. Quando recebi alta tive que resolver os assuntos na universidade, depoimentos e tal, porque foram atrás do troglodita que fez aquela maldade com o cão. E ainda tinha a maldita prova que eu não fiz. Mais alguns dias se passaram até que eu pudesse andar normalmente, ainda sentia um pouco de dor, mas não doía mais do que ver a Tori se distanciando de mim. Estávamos oficialmente de férias e eu já tinha começado o tempo livre desse jeito.

Mal saia do meu quarto porque, mesmo que eu conseguisse andar sem a ajuda das moletas, ainda sentia dor. E eu ficava boa parte do tempo com o cachorrinho que estava já recuperado que colocamos o nome de Alex — na verdade, eu coloquei — em homenagem ao Alex Supertramp que teve sua vida retratada num livro incrível que acabou virando um filme melhor ainda. A Tori vinha me ver todos os dias, mas não era mais a mesma coisa de antes. Eu sentia que ela estava indo. Pra um lugar onde eu não podia ir.

Levantei num domingo cedo disposta a sair e encontrar a Tori. Precisava saber, de fato, o que estava fazendo ela ficar tão distante de mim. Eu não consigo mais pensar na minha vida sem que a Tori esteja presente e feliz. Faço de tudo para não magoá-la e queria saber o que fiz de errado para ela estar tão magoada assim. Escovei os dentes, vesti-me e calcei um chinelo. Fui até o seu quarto e bati. Nada. Será que ainda está dormindo? Bati outra vez. A sua colega de quarto abriu a porta.

– Oi. Bom dia. A Tori está? — Falei.

– Oi, Jade. Bom dia. Ela acabou de sair para tomar café da manhã no refeitório, se você correr ainda pega ela antes de colocar a comida no prato. — Ah, ela quer tirar sarro da minha cara, só pode. — Ah, desculpa, eu esqueci que você não pode correr. Foi mal mesmo.

– Ah, tudo bem. Eu vou tentar encontrá-la já com a comida no prato mesmo. Obrigada. — Falei andando em direção ao refeitório.

– Hm, eu também estou indo pra lá. Posso te acompanhar? — Ela falou fechando a porta.

– Claro, vamo lá.

Enquanto caminhávamos devagar — e lentamente– me passou na cabeça a ideia de perguntar sobre o comportamento de Tori nesses últimos dias.

– Hm, você reparou se a Tori anda estranha esses últimos dias? Vocês conversam muito?

– Bom, a gente não é muito de conversar, eu tô sempre ausente. Mas eu reparei que ela está um pouco pra baixo, sim. Mas não tive coragem de perguntar
qual era o problema dela para não ser muito invasiva, entende...?

– Ah, claro. Entendo.

Chegamos no refeitório e eu me despedi da garota. Eu esqueci de perguntar o seu nome. Fui ao encontro da Tori que beliscava a comida com uma das mãos apoiada no rosto. Eu não acreditava que podia ser a culpada disso. Estava me sentindo muito pior do que ter levado 10 balas nas costas.

– Bom dia, companheira. — Disse ao me sentar.

– Bom dia, Jade. — Ela falou sem me olhar.

– Tori, eu preciso saber. Não me faça sentir culpada por você está assim. Eu quero poder entender.

– Não, Jade. Você não fez nada, não se preocupe. — Ela continuava olhando para a comida no prato.

– Então me diz o que houve para você ficar desse jeito. — Falei.

– A gente pode conversar em outro lugar? — Ela levantou.

– Claro.

Segui a Tori até um pátio logo depois do refeitório. Sentamos num banco reservado, embaixo de uma árvore linda que poderia estar ali há mais de 80 anos.

– Jade, eu pensei bastante durante esse tempo em que você ficou no hospital. Sinceramente, eu quase senti raiva de você. Por quase ter perdido a vida e quase me deixado sozinha no mundo. E me fez pensar que eu tô dependente de você. Desculpa estar sendo tão sincera, mas eu tenho medo. Que você não me ame do mesmo jeito que eu e que tenha sido tão egoísta a ponto de encarar de frente um homem armado. — Ela começou a chorar. Eu ainda estava perplexa, sem acreditar que ela tenha dito as palavras "sozinha", "egoísta" e raiva" e a frase "não me ame do mesmo jeito".

– Tori! Poxa... — Não sabia como começar a falar. — Eu não sabia que ele estava armado. Eu sinto muito ter causado essa perturbação em você. Eu não fui egoísta, eu apenas agi por impulso, por compaixão. Duvido que alguém que tenha um coração no peito e um cérebro na mente faria o contrário! Uma injustiça! Com nós dois! Eu e o Alex! Eu não vejo um futuro em que você não esteja nele, Tori! Eu te amo! Eu acredito que o amor possa durar a vida inteira, mas precisamos de consenso e reciprocidade. E se você diz que depende de mim, eu digo o mesmo, minha companheira. O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis. Quando eu vim pra cá, pensei que não duraria nem uma semana, iria desistir e voltar pra casa com as mãos abanando. Nunca mais iria conseguir voltar para uma faculdade e ter meu diploma de graduação em alguma coisa, porque eu se eu desisti uma vez, posso muito bem desistir duas ou três. Ou quantas vezes eu tentar. Só eu sei o quanto me fez bem ter te conhecido e aos meninos também. — Já estava chorando junto com ela.

Ela me olhou com ternura e me abraçou com suavidade. Eu retribui na hora porque sabia que o que ela sentia por mim era verdadeiro e eu também sabia que ela acabara de tirar todas as suas dúvidas em relação ao nosso relacionamento. Sai do abraço em direção aos seu lábios e selei-os com um beijo calmo e apaixonado. Ela colocou suas pernas juntas em cima das minhas e me segurou com uma mão pela cintura enquanto a outra segurava e acariciava minha nuca. Eu envolvi meus braços em sua cintura e senti uma dor de leve ao me curvar enquanto a beijava. Quebrei o beijo demonstrando dor, mas rindo ao mesmo tempo, porque não havia dor maior do que a alegria daquele momento. Rimos juntas e eu beijei sua testa enquanto ela me abraçava pela cintura.

– Tem pessoa mais humana e de bom coração do que você? — Ela falou sorrindo e depois soltou uma risada linda. — Você salvou um cachorrinho em apuros, super heroína.

– É, coisa de super herói atrapalhado mesmo, né. — Ela gargalhou outra vez, seus dentes mais brancos do que a minha pasta de dentes. Eu ri junto com ela.

Ficamos ali por mais algum tempo admirando uma a outra e o lugar. Até perceber que não tínhamos comido nada no café da manhã e perdemos o horário no refeitório.

– Caraca, Tori, eu tô morrendo de fome! — Falei surpresa quando senti minha barriga fazer aqueles ruídos chatos.

– Haha, legal, perdemos o horário. Agora a gente tem que comprar alguma coisa.

– Tá, vamo tomar café da manhã naquele supermercado perto do campus.

– Você vai aguentar andar até lá?

– Claro que sim! Tô ótima. — Tava quase ótima, ainda sentia dor.

Saímos do campus em direção ao supermercado bem devagar, de mãos dadas, mas sorridentes. No caminho, contei para a Tori várias piadas daquelas que não tem a mínima graça, mas mesmo assim, ela ainda ria. E eu ficava boba. Eu amo essa mulher.

Comemos e aproveitamos para comprar algumas coisas. Na volta, meu celular tocou. Era a Cat.

– Cat! — Disse feliz por ter recebido a ligação.

– Jade, sua ingrata! Eu sei que você está de férias! Está intimada a comparecer e ficar por aqui uns dias comigo e os garotos. Estamos com saudade, poxa. Como é que você tá? Que droga, você não liga pra mim há mais de um mês! E a Tori? — Olhei para o meu lado, a Tori sorria para mim, pensei em contar sobre o acidente, mas não queria preocupá-la.

– Ah, Cat, desculpe-me! De verdade. Eu estava com muita coisa pra estudar, cheia de provas e ainda estava fazendo um curso por fora. Não se preocupa, estou ótima e vou sim. E a Tori vai comigo, certo? Vocês precisam se conhecer. E ah! Eu também sinto sua falta, bobona. — A Tori olhou pra mim confusa, eu sorri.

– Maravilha, quando vocês virão, então?

– Vamos combinar aqui e eu te ligo, tá?

– Beleza. Vou avisar aos garotos. Estou esperando sua ligação, viu?

– Pode deixar, minha amiga. Nós iremos.

Desliguei. A essa altura já tínhamos parado de andar e a Tori já soltara minha mão e estava de braços cruzados me encarando com cara de quem quer explicações.

– Calma, senhora West! — Ela abriu a boca pra falar enquanto eu falava, mas quando escutou o que eu disse, ficou vermelha, sorriu e olhou para o chão. Eu fiquei admirando-a. E depois continuei. — Vamos passar uns dias lá em casa e conhecer meus amigos e minha família, lógico, se você quiser. A gente ainda pode voltar a tempo de ir conhecer a sua, se quiser.

– A gente vai ficar na sua casa?

– É. Algum problema?

– Não. É que, cê sabe, não é desconfortável, não?

– Claro que não, Tori, a gente fica no meu quarto. E aí?

– Tá, vamos.

– Sério?

– Sério.

Dei um super abraço nela, senti minhas costas doerem um pouco, mas nem liguei.

– Quando a gente vai? — Ela perguntou.

– Hm, amanhã?

– Wow, beleza. Temos que ir fazer as malas.

– São só alguns dias, leva pouca coisa. — Continuamos a andar.

Fomos para os nossos quartos e fizemos as malas a tempo de almoçar no refeitório junto com o pessoal.

– E aí, gente! — Disse chegando perto do pessoal na fila. — Cadê a Tori?

– Aqui! — Ela disse chegando mais perto. Se aproximou, segurei sua mão, depositei um leve beijo e a abaixei. Ela sorriu.

– Gente, vamo pegar um cineminha agora de tarde? Tem um filme super legal em cartaz: A culpa é das estrelas. — Disse o Sinjin.

– Ah, eu ouvi falar muito bem desse filme, é com aquela atriz nova Shailene Woodley. — A Trina disse animada. — Vou ligar pro Robbie.

– Sim, eu li o livro e o filme deve ser de arrepiar. Uma barra enfrentar uma doença dessas e ainda amar alguém que tem uma parecida. — Disse o Sinjin e o Rex confirmou.

– Beleza, então, e aí, Tori? — Disse para Tori.

– Claro, vamo sim.

Sentamos para comer e avisamos pra galera que iriamos viajar para casa dos meus pais para visitá-los, voltaríamos em alguns dias.
A caminho do cinema, liguei para a Cat e confirmei nossa ida, só não disse o dia. Queria chegar de surpresa.

Sentamos nas poltronas do cinema, prontos para assistir ao filme tão esperado e que eu não fazia ideia do que se tratava. A não ser que a Shailene fazia parte do elenco, ela seria a protagonista. Assistindo ao filme eu fiquei chocada, eu já vi filmes tão clichês que dava vontade de ir embora antes da sessão acabar, mas esse não. Me prendeu ali e me cativou com sua história. Confesso que senti a tristeza da personagem, senti a emoção do filme, do início ao fim. O elenco é ótimo, mas essa atriz é realmente surpreendente.

O filme acabou e eu fiquei paralisada olhando para a Tori, que estava chorando, e finalmente consegui entender o que ela imaginou e o aperto no peito
que ela sentiu só de pensar em perder a pessoa amada por uma injustiça, — câncer terminal ou uma bala são exemplos de injustiça. Segurei sua mão e apertei, mostrando que estava ali e que não iria deixá-la tão fácil assim. Ela chorou mais ainda e me abraçou.

Não precisamos dizer nada uma pra outra, sabíamos o que estava se passando e só a gente sabia. Ficamos abraçadas até a música do fim do filme do Ed Sheeran acabar, deixei um beijo em sua testa, um na ponta de seu nariz, e finalmente, um em seus lábios.

Ela sorriu e nos levantamos dali para viver o nosso infinito.

Notas finais
Não é spoiler, hm? Não contei nada! Quem já assistiu o filme ou leu o livro e não gostou, por favor, mande uma mensagem para mim. Eu preciso saber o que se passa na sua cabeça! Abraço, até o próximo.