A verdade sobre o amor.
4 Beleza atrai atenção, personalidade atrai coração.
Notas iniciais
O domingo chegou e o dia estava radiante. Fiz a minha corrida matinal, e fui encontrar a Tori para tomar café da manhã no refeitório, — ah, o resto do pessoal também – combinamos de fazer o trabalho à tarde, e não na segunda para não ficar muito corrido, e aí, teríamos a noite inteiramente livre. E foi o que aconteceu.
A noite estava perfeita, estava me sentindo tão bem comigo mesma e com todos ao meu redor. Estávamos sentados à mesa de um barzinho bem aconchegante tomando um chopp, conversando e rindo. Conhecemos o Robbie, namorado da Trina, a Tori ao meu lado estava daquele jeito avassalador que só ela tem, simples e bela.
Lembrei outra vez do flashback que tive, lembrando da minha mãe falando. E agora tive certeza, eu não me arrependi nadinha de ter vindo pra cá — apesar de achar que iria desistir, que ia voltar pra casa desanimada, do mesmo jeito que estava quando vim para cá. Abracei a Tori e deixei o meu sinal de respeito e admiração que tenho por esta garota, — dando-lhe um beijo em sua testa — que por sua vez, me olhou, sorriu e voltou ao abraço. A noite não podia ter sido melhor, se não, corria o risco de estragar. Deixei a Tori no seu quarto, com um beijo de despedida, e voltei para o meu com a Trina.
Sabe... Eu podia me acostumar muito bem a tudo isso. Pela primeira vez na vida, eu colocava a cabeça no travesseiro sem ter de me sentir sozinha, desamparada. Eu consegui fazer amizades, estava na universidade cursando o que eu sempre quis estudar para ser uma profissional, tinha uma banda com os meus melhores amigos, e tinha uma garota incrível ao meu lado que estaria me ajudando a ver que o lado bom da vida é compartilhar felicidade.
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Os dias se passaram depressa, quanto mais eu queria aproveitar cada momento único e perfeito que eu tinha com a Tori e com a galera, mais o tempo corria depressa.
E de repente, os dias viraram semanas, as semanas viraram meses. Eu estava adorando a graduação e aquele lugar, que me fez desenvolver muito, tanto mentalmente quanto fisicamente, estava com a garota dos meus sonhos, do jeito que eu sempre quis, estava com o corpo em forma, do jeito que eu sempre quis.
– Jade! — Grita o Sinjin, correndo ao meu encontro enquanto saio da aula do professor Sikowitz e me dirijo ao refeitório para o almoço. — Garota, você tá tomando anabolizantes?! Cuidado com essas coisas, menina! — Disse ele boquiaberto.
– Olá, Sinjin! Boa tarde para você também, tá! Eu não estou tomando nada não, nem se preocupe. — Falei rindo. Hilário. — Eu só ando me alimentando muito bem e fazendo exercícios físicos há uns meses. Aí deu nisso.
Ele ficou me olhando de um jeio estranho, malicioso.
– Para de me olhar desse jeito! — Eu disse dando um tapinha em seu ombro.
Ele riu e encontramos o pessoal para almoçar.
Almoçamos nesta quarta-feira e eu estava preocupada com uns trabalhos que tinha para entregar, mas estava agradecendo por estar no fim do semestre e significava que as férias estavam para chegar. Já estava fazendo planos para esses dias, tinha de ser perfeito. Era a hora da gente — Eu e a Tori — termos nossos momentos mais íntimos, estava implorando para que este dia chegasse. Apesar de perceber que ela nunca quis esquentar a relação, talvez seja por falta de oportunidade. Sei lá. Mas, ela que se prepare, vou dar esta oportunidade a ela, e vamos aproveitar o máximo possível.
– Tori! — Gritei correndo e acenando para ela. Ela ficou apenas sorrindo com aquele jeitinho meigo, estava sentada numa pracinha do campus, — espero não ter atrapalhando nada.
Esperou eu chegar junto para falar:
– Pensei que você tivesse aula agora à tarde. — Ela falou tirando os fones de ouvido. Me sentei.
– Não, era só pra entregar um trabalho. O que você está ouvindo? — Perguntei puxando um dos fones e colocando em meu ouvido direito. — Vampire Weekend. Você é perfeita mesmo. — Sorri muito feliz e lhe dei um beijo rápido.
Ela sorriu de volta.
– E aí, o que tem pra hoje à tarde? — Perguntou se deitando nas minhas pernas.
– Bom, aqui tá perfeito. Posso ficar assim para sempre. — Disse acariciando seus cabelos e olhando para a imensidão azul clara, sem nuvens, que estava o céu.
Escutei o som da sua risada.
– O que você viu em mim, hein? — O que ela disse?
– Que pergunta é essa? Como assim, o que eu vi em você? — Fiquei rindo. Acendi um cigarro.
– É! Penso nisso todos os dias.
– Tori! Você é a garota mais incrível e linda de todas!
– Quer dizer que você só gostou de mim porque eu sou "linda"? — Ela disse franzindo o cenho e eu voltei o meu olhar para ela.
– Claro que não, meu amor. Beleza atrai atenção, personalidade atrai coração.
E então, eu acho que disse algo muito bonito, ou muito estúpido, porque ela levantou e ficou de costas para mim.
– Que foi? Falei algo de errado? — Toquei seu ombro.
– Não, não é isso. Desculpe. — Pelo o quê?
– Pelo o quê? — Agora não tô entendendo mais nada.
– É que, talvez, minha personalidade não seja assim tão atraente.
– Do que você tá falando, Tori? Isso é aquela coisa que você disse que um dia eu iria saber?
– Que bom que você ainda lembra, é sobre isso, sim. Mas não quero falar sobre isso agora. — Caramba...
– Tudo bem, Tori. Olha, eu não quis mais perguntar sobre aquilo pra você não ficar desse jeito, mas eu não esqueci, tá? Não precisa ficar assim... A gente não vai se separar por alguma coisa que não é tão atraente e que um dia eu vou saber, na hora certa. — Disse abraçando-a. Ela me apertou com força.
– Ok, vamo parar com isso, tá! Vamos tomar um sorvete e conversar sobre outras coisas. — Levantei e coloquei a minha mão para que ela pegasse.
Andamos de mãos dadas até a sorveteria. Tomamos sorvete e conversamos sobre os assuntos da faculdade até tarde.
– Já está tarde, quer que eu te acompanhe até o seu quarto? — Perguntei, só por educação, eu iria acompanhá-la de qualquer jeito mesmo.
– É, estamos precisando de um belo banho. Mas não precisa ir até lá, você vai ter que voltar tudo de novo para ir pro seu quarto.
– Qual é! Você acha que eu não vou por conta disso? — Ri sarcasticamente. Começamos a caminhar até o seu quarto.
– Eu te odeio! — Ela riu até ver minha cara de surpresa. O que ela quis dizer com isso?
– Sério? — Ela riu. Eu suspirei de alívio.
– Claro que não! — Paramos no caminho. Ela segurou minhas mãos. — Muito pelo contrário, sua idiota.
– Há! Eu sou idiota?! — Ela riu e me abraçou contente. — Ta bom, vamos porque a idiota aqui está com fome. — Saí do seu abraço. Voltamos a andar. Eu não estilei com a brincadeira, contanto que eu seja a idiota dela, está tudo bem.
– Você acabou de tomar sorvete! — Ela disse arregalando os olhos.
– Mas ainda estou com fome e tenho que estudar para a prova de sexta, e aí... Rumo às férias! — Falei levantando os braços.
– Legal, eu tenho prova amanhã à tarde e aí também vou estar livre. -
Estávamos chegando perto da porta do quarto dela.
– Valeu por me trazer até aqui, eu vou entrar logo para não te atrapalhar, você ainda tem que estudar. — Ela já estava abrindo a porta.
– A gente podia ficar mais um pouco juntas, — Falei quando percebi que a sua parceira de quarto não estava lá. — eu ainda posso estudar amanhã e também, eu só ia dar uma revisada mesmo. — Fui segurando e empurrando a Tori pela cintura, beijando o seu pescoço e fazendo-a se contorcer. Fechei a porta atrás de mim e me virei, deixando ela contra a porta.
Eu nunca passei do beijo com a Tori, pois desde o início eu sempre estranhei isso, por ser muito cedo, e não queria ser imprudente nem nada, mas também não podia controlar o que sentia — e sinto– por ela. Mas depois de meses juntas, eu achei que já seria tranquilo. Comecei a beijá-la e um calor me invadiu por inteira, ela colocou as mãos no meu pescoço e eu a puxei pela cintura, a queria colada em meu corpo. Ela saiu do beijo, ofegante, e eu desci até o seu pescoço outra vez. Já estava descontrolada e só pensava em tê-la toda para mim.
– Jade! — Ela disse quase sem fôlego. — A minha colega de quarto pode chegar a qualquer momento. — Ela falou, mas eu fingi que não ouvi, como tinha dito antes, eu estava descontrolada e queria a Tori, agora.
Puxei-a com delicadeza e a deitei sobre a sua cama e ela segurou na minha cintura, embaixo de mim. Voltei a beijá-la com intensidade, já sentia o desejo me invadindo por completo. Foi aí, quando eu tentei tirar a sua roupa e ela me parou na metade das costas. Eu parei e olhei nos olhos dela imediatamente.
– O que foi? Fiz algo que você não gostou? — Perguntei assustada.
– Desculpa, Jade, não dá. — Ela disse quase chorando. Eu levantei e sentei-me na cama, suspirando.
– Tudo bem, Tori, não precisa ficar assim. Só me conta o que tá acontecendo... Ou o que aconteceu pra você não poder, ou não querer.
– Não aconteceu nada, não tá acontecendo nada, não se preocupa. É só que eu acho que este não é o momento certo. — Lembrei que ela falou sobre a sua colega de quarto.
– Ah, saquei, saquei. Eu que peço desculpas. Fui tão estúpida. — Levantei-me andando para ir embora.
– Não fica com raiva de mim, tá. — Raiva? Ela não faz ideia do que eu sinto por ela.
– Claro que não, né, sua idiota! — Dei um beijo em sua testa e um abraço. — Eu que peço desculpas.
– A gente não fez nada de errado, só não é o momento certo. — Ela sorriu pra mim e eu abri a porta.
– Certo, vamos chegar lá. — Pisquei e comecei a andar pelo corredor. Acho que ela não entendeu.
– Chegar onde? — Ela falou mais alto.
– No momento certo. — Quase gritei do fundo do corredor, virei-me e fui embora.
Ela está me deixando louca! Mas está escondendo alguma coisa de mim. Fiquei meio frustrada por ela não me contar o que está havendo, talvez porque não tem confiança em mim. Será? Ou porque ela tem medo de acontecer alguma coisa, sei lá. Eu só sei que preciso saber, eu percebo nos olhos dela o quanto isso machuca ter de esconder, e sinto que ela não se sente bem com essa situação. Decido conversar com ela, abertamente. Mas não agora. Acendi um cigarro e caminhei de volta para o meu quarto pensando em como falar e de que jeito falar.
No caminho de volta, avistei uma sombra fazendo movimentos bruscos e violentos em direção ao chão, só quando cheguei mais perto pude ouvir o gemido de um animal. Entrei em choque, não acreditando que estava presenciando aquilo. Corri em direção ao ataque enquanto gritava:
– Pare! Você está o matando! — Cheguei mais perto e voei em cima do rapaz que batia num cachorrinho sem parar. Já estava com lágrimas nos olhos e indignação no peito.
– Saia daqui, vá cuidar da sua vida e deixe eu dar o que esse espertinho merece. — Disse enquanto me empurrava pra longe.
Voltei com tudo pra cima dele e fiquei entre o cão e o homem que tinha quase o dobro da minha altura. Ele me olhou nos olhos com ódio e pude sentir que sua alma era negra e amarga.
– Não há motivos. Nada explica. — Disse entristecida.
Virei de costas para olhar o cão que gemia de dor quando senti algo me perfurando, quente e severo. Uma dor quase insuportável. Caí por cima do animal e o abracei. Tentei ficar, o máximo que pude, mais calma possível e respirar fundo. Só o que consegui escutar foi:
– O que foi que eu fiz? ... Tudo isso por um cachorro, garota?!
E então...
Naveguei para a inconsciência.
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