A víbora

12 Capítulo 13


E então tudo escureceu. Acordei horas depois na minha casa, na minha cama. A janela estava aberta, uma tempestade se aproximava e as cortinas balançavam bruscamente.Eu ouvi passos lentos se aproximando,pensei em me esconder ou descer pelas janelas, mas fingi que estava dormindo.

Fechei os olhos e então a posta se abriu. Esperei por algum soco, ou um balde de água ou qualquer tortura que vemos nos filmes da máfia. Mas nada aconteceu, alguém apenas entrou, fechou as janelas com delicadeza e saiu. Antes da porta se fechar eu bri um dos olhos, era Jason que estava ali.

Eu sei,eu deveria odiá-lo por tudo que me fez, mas eu ainda o amo, eu ainda sinto algo muito forte por ele, e que não sei evitar. Eu sorri com os olhos fechados,e então lembrei do maior dilema dos heróis de filmes e quadrinhos. O par romântico. Eles sempre morrem de forma trágica, geralmente nos braços do amado, por um vilão vingativo e cruel. E esse era o destino de Jason. A menos que eu o evitasse.

Deve ser difícil evitar alguém que se ama, principalmente se esse alguém está na sua
casa. Respirei fundo, e lembrei de quem eu era agora. Não havia espaço para romantismo e carência na vida de víbora, não há espaço para mais nada, além de vingança e raiva. E me concentrei nisso. Vesti o meu roupão azul escuro, arrumei o cabelo de qualquer jeito e desci as escadas.

Logo na cozinha estava ele, preparando qualquer coisa para comer. Respirei fundo de novo e desci.

– O que diabos você faz aqui ?

Ele levou um susto tão grande, que deixou uma colher cair.

– Eu tive que te trazer para cá. Você apagou no hospital, e não havia familiar algum que quisesse ir te buscar. Nem mesmo suas colegas de trabalho.

Meu coração acelerou repentinamente.

– Como assim ? Cadê meus pais ?

Ninguém os encontrou, ligamos para a casa deles, e ninguém atendeu.

– Eu preciso ir até eles.

Subi as escadas correndo já desfazendo o nó do meu roupão,e então Jason me segurou pelo braço.

– Olha essa chuva, se você sair daqui esta noite, quem vai fazer o trabalho sujo quando os infectados chegarem ?

E ele, ele sabia quem eu era, ele sabia exatamente quem eu era. Dentro de mim, eu ainda tinha esperanças de que eu não soubesse, de que não tivesse visto o soco, e tudo mais, eu ainda alimentava uma esperança, ao achar que ele apenas apagaria da memória, tipo traumas que algumas pessoas sofrem durante a infância, e apagam da memória durante o amadurecimento.

– Do que você está falando ?

Eu pelo menos tinha que me fingir de inocente.

– Kiara, nos conhecemos há anos, fomos casados e por alguns meses fomos pais, eu te conheço como a palma da minha mão. Não tente brincar com a minha inteligencia.

Ele ainda segurava nos meus braços, e estava ficando cada vez mais firme.

– Mais alguém sabe disso ?

– Não, fique tranquila.

– Eu preciso ver meus pais. Eu preciso saber como estão.

– Se você voltar lá agora, pode levar o teu perseguidor direto para mina de ouro.

Havia alguém, procurando uma vingança ainda muito maior que a minha. E essa pessoa sabia dos meus medos, sabia das minhas fraquezas e não poderia saber da minha família, ou eu estaria completamente sozinha, e desta vez, de verdade.

– O que vai acontecer agora ?

Perguntei pra ele com a cabeça baixa e voz embargada.

– Agora precisamos pensar com clareza e agir naturalmente.

Voltei uns passos para trás e sentei no sofá. Apesar de todas as janelas trancadas e cobertas pelas cortinas, eu tinha a sensação de ser constantemente observada aquele dia. Talvez fosse efeito do trauma. Mas eu podia sentir olhos em todos os lugares.

– E a sua loira ? Não vai desconfiar do seu desaparecimento ?

–Nós demos um tempo ?

Um tempo em quê ?

sabia exatamente do que ele estava falando, mas chutar cachorro morto, as vezes é muito bom.

Não estamos mais juntos, pelo menos não por um tempo.

– Nossa, sinto muito.

Sinto nada ! Quero mais é que se separem e que ele descubra que foi traído. Não quero sair dessa vida, sem ver Jason ganhar o troco na mesma moeda que me deu.

– Você é uma péssima mentirosa.

Não falei mais nada, fiquei com os pés sobre o sofá, revendo a cena do sangue na parede, do recado, e da sensação de ser encurralada ao escorregar no sangue. E então um trovão me trás de volta a realidade.

As luzes piscam um pouco, e tornam a iluminar normalmente a casa. Eu entrei em estado de alerta instintivamente. Talvez não fosse só o trauma, talvez eu estivesse mesmo sendo observada, vigiada por alguém que me conhece intimamente. Meu coração pulsava forte e rápido.

– Fique calma, pode ser que hoje tenhamos um Black out.

Só consegui pensar em como essa noite seria agitada e em como eu tinha a sensação de que terminaria mal. Mais um trovão caiu, e pelo barulho, foi muito próximo da minha casa. E depois de piscarem, as luzes se apagaram. Não só da minha casa, mas do quarteirão inteiro.