Notas iniciais
Estava desanimada, mas decidi que continuarei postando.

Quando eu era criança eu tinha um irmão mais novo. Nós costumávamos sair escondido e entrar pela garagem do vizinho para brincar com seu cachorro. Nós não podíamos ter cachorros porque meu irmão era asmático, mas isso não fazia ele gostar menos de animais, pelo contrário.

Em uma dessas fugas minha mãe voltou mais cedo para casa, e acabou descobrindo o que nós fazíamos. Lembro-me perfeitamente da sensação de ser pego fazendo algo que não devia. Estou sentindo uma sensação parecida agora.

Sinto o sangue congelar em minhas veias.

Provavelmente Cecília deve estar me achando um tarado agora, toda a boa primeira impressão que causei indo pelo ralo.

Minhas mãos estão suando tanto agora, e creio que não apenas minhas mãos, porque tenho certeza que sinto uma pequena gota descendo pela minha testa neste exato momento.

Que beleza!

Patético e suado!

O combo perfeito.

Cecília está olhando para mim boquiaberta.

Completamente no automático, só percebo que minha mão está segurando meu cabelo, que está comprido demais para o meu gosto, quando sinto um pequeno incômodo de dor na nuca.

Eu deveria falar alguma coisa, isso aqui já está constrangedor.

Mas o quê?

— É... — Balbucio quase inaudível.

É, não sei o que dizer.

Marina arqueia uma sobrancelha e Cecília ainda está me encarando, e estranhamento percebo que seu rosto está ficando cada vez mais vermelho.

Provavelmente irritada por eu ter incomodado sua irmã.

Engulo em seco.

Eu deveria me desculpar de novo... Deveria dizer que a confundi com alguma outra pessoa.

Pense idiota, pense...

— Você parecia gostar mais de falar ontem. — Comenta Marina, e alguma coisa me diz que ela parece estar se divertindo.

De algum modo ela reconheceu minha voz, o que é admirável, já que não conversamos — ou discutimos — por mais de cinco minutos.

Me surpreende ela me reconhecer apenas pelo meu tom de voz, eu geralmente não lembro nem o nome da garota com quem estou saindo no momento.

Luana/Laura, sei lá.

Antes que eu abra a boca para respondê-la Cecília irrompe em uma gargalhada. A expressão de Marina não muda, quase como se ela não estivesse nem um pouco surpresa com a reação da irmã.

Agora sim estou confuso.

— Me desculpe — ela diz entre gargalhadas. Seu rosto está muito vermelho, os olhos lacrimejando. — Mas é uma baita de uma coincidência não acham?

Ou uma baita de uma sacanagem do destino.

Meus olhos pulam de uma para a outra.

Eu ainda não disse nada, e nem pretendo, por enquanto a gargalhada alta de Cecília está preenchendo bem o espaço.

Melhor que o silêncio constrangedor de antes.

Marina ergue o canto de sua boca e acho que é um...

Sorriso?

Encaro isso como uma abertura para voltar a falar e me defender. Se é que tenho defesa...

— Eu sinto muito — Falo finalmente. — Eu já me desculpei antes, mas acho que devo fazer isso de novo, da forma certa agora.

Eu genuinamente estou sendo sincero neste momento como não tenho sido em não sei quantos anos da minha vida.

— Você está se desculpando por dar em cima de mim? — Pergunta Marina calmamente, a voz tão calma que me causa um arrepio.

Ela está brincando com a minha cara?

Não sei exatamente que resposta ela quer de mim. Pela segunda vez nesta noite eu estou totalmente sem palavras.

Merda.

— É, ele gostava de falar mais ontem, Céu. — Comenta Marina com a irmã. — Foi quase impossível fazê-lo parar.

Ela está zombando de mim.

Não sei como me comportar, não costumo estar na defensiva.

— Eu só não sei o que você quer que eu diga. — Digo finalmente, dando de ombros.

Nunca estive em uma situação assim, e vamos ser honestos... não é a situação mais confortável do mundo.

Sua expressão se suaviza e ela parece estar pensando no que dizer a seguir. Leva alguns segundos até que ela finalmente diz:

— Eu deveria pedir desculpas também.

Me surpreendendo totalmente.

Por essa eu não esperava. Com certeza estou com cara de bobo agora, por que só isso explicaria o risinho repentino de Cecília.

Olho para ela por alguns instantes, mas logo retorno meus olhos para a mulher intrigante à minha frente. Me sinto nervoso, ainda mais quando ela mantém seus olhos em mim do jeito que está fazendo agora. Mesmo sabendo que ela não pode me ver, seu olhar me deixa...

Tem que ter um palavra para isso.

Assustado, não é.

Intrigado? É, talvez um pouco.

Eu sinto minhas mãos formigarem, o coração acelerar...

Talvez...

Nervoso.

Isso!

Nervoso é a palavra. Sem saber como agir a seguir.

Como um garotinho.

Ela continua olhando diretamente para dentro dos meus olhos.

Puta que pariu.

É estranhamente desconcertante, me pego desviando o olhar.

Engulo em seco.

— Eu fui um pouco brusca também. — Sua voz é calma, baixa. — Eu não estava tendo um bom dia. Não estava num bom momento e acabei descontando em você. — Ela dá de ombros e inclina a cabeça de lado. — Talvez eu tenha exagerado.

Bom, talvez possamos começar outra vez.

Ela está levando uma bandeira branca, talvez eu deva aproveitar.

Enfio minhas mão em meus bolsos tentando me livrar da sensação de formigamento.

— Eu fui um idiota, não deveria ter me aproximado daquele jeito tão indelicado. Eu deveria ter percebido, ter prestado atenção nos sinais... — nem termino a frase porque assim que as palavras saem da minha boca Marina fecha a cara.

De algum modo eu consegui deixá-la irritada de novo.

Duas vezes e nas duas vezes em que nos falamos na vida.

Deve ser um recorde.

Gênio!

— Então, só porque eu sou cega não posso levar uma cantada. — Diz secamente, parecendo ofendida. — Eu não sou de vidro, não vou quebrar.

Mas isso eu já percebi faz tempo.

Ela sabe muito bem se impor e se defender quando necessário. Na verdade, ela sabe muito bem como deixar a outra pessoa se sentindo um completo idiota.

Tipo agora.

Parece que só sai besteira da minha boca.

Não foi uma escolha muito inteligente de palavras.

Pelo amor de Deus!

— Não foi isso que eu disse. — Digo tentando me defender da melhor forma possível. — Mas você pareceu não ter gostado na hora...

— Você pareceu não se importar com isso antes. — Diz me cortando bruscamente. — Por que importa agora?

Ela cruza os braços em frente ao corpo. Nesse momento ela não parece mada inofensiva.

Sinal vermelho.

Exatamente como no parque.

Talvez eu deva mudar de estratégia. Ela claramente não gosta que a tratem como um vidro, assim como ela acabou de dizer.

— Que tal se apenas aceitarem as desculpas um do outro, e então estará tudo certo. O que acham?

Cecília claramente sentiu a tensão e está tentando apaziguar.

O que tem de errado com essa mulher? Parece que tudo o que eu digo a irrita.

Se eu chego nela como chegaria em qualquer outra mulher ela se ofende. Se tento ser mais cavalheiro ela também se ofende. Quem está começando a ficar irritado aqui sou eu.

Parece que estou pisando em vidros.

— Que tal só aceitar as desculpas e acabamos logo com isso. — Digo sem querer parecer irritado, mas falhando miseravelmente. — Vai ser mais fácil para nós dois.

Ela percebe a irritação em meu tom de voz e ergue uma sobrancelha.

Seus dedos tamborilam com inquietação.

Ela quer me matar!

— Quer saber, retiro minhas desculpas. Você mereceu o que ouviu. — Retruca. — Merecia até um pouco mais pela falta de tato.

Cecília arregala os olhos. Ela olha de mim para Marina completamente fascinada.

— Isso é melhor que novela. — Balbucia baixinho.

— Eu que retiro as minhas desculpas. Eu só estava tentando ser gentil.

Marina gargalha jogando a cabeça para trás.

E é uma imagem lindo do caralho!

— Não vamos começar com esse papo de gentileza — ela faz aspas com as mãos ao falar gentileza. — Por que eu não preciso enxergar para saber que tipo de cara você é. Caras como você são fáceis de identificar, e têm a bandos por aí.

Língua afiada. Gosto disso. Gosto bastante. Me impertigo ainda mais e posiciono minhas mãos em meus quadris, ficando ainda mais alto que ela.

— E que tipo de cara eu sou? — A desafio a falar.

Tenho uma ideia do que está passando em sua cabeça, mas quero que ela diga. Quero ouvi-la dizer.

Seu rosto está vermelho feito um tomate. Seus olhos castanhos faiscando de ódio.

Eu meio que gosto disso.

É sexy para caralho.

— Um cafajeste. — Síbila com desgosto.

Sorrio.

— E dos melhores. — Respondo com petulância.

Minha resposta parece ter a pegado de surpresa porque sua boca se abre em um "O" perfeito.

Cecília contém mais um de seus risinhos e pela sua cara ela deve estar se divertindo com a cena, eu também, devo admitir. A única pessoa que parece não estar achando graça nenhuma é a esquentadinha em minha frente.

— Como você pôde simpatizar com esse homem, Cecília? — Marina vira sua atenção para a sua irmã. Ela parece incrédula.

Cecília ri.

— Vocês dois são tão divertidos. — Ela realmente está se divertindo com a situação. — Você precisa jantar com a gente qualquer dia desses.

— Não precisa não. — Retruca Marina irritada.

Meu sorriso se enlarguece ainda mais se é que isso é possível.

— Eu aceito seu convite, Cecília. Ao contrário de certas pessoas você sim sabe aceitar gentilezas. — Provoco.

Enconsto meu ombro na parede, e sem conseguir me conter, meus olhos a examinam, e gostam do que vê.

Gostam muito.

— Cínico. — Resmunga Marina. — É difícil para caramba de acreditar que existem mulheres por aí que caem nesse tipo de papinho patético.

— Você ficaria surpresa.

Agora sim meu rosto parece prestes a se partir com o tamanho do meu sorriso.

Ela cerra seus punhos.

— O que acha de jantar conosco amanhã? — Pergunta Cecília dando pulinhos. — Marina é uma ótima cozinheira.

Torço meu nariz.

Não sei se eu comeria nada que Marina fizesse. Quais as chances de ela tentar me envenenar?

Quase como se soubesse o que se passa na minha cabeça ela diz com petulância:

— Temos veneno de rato em casa? Eu posso pegar sem querer...

— Marina! — Diz Cecília a repreendendo.

O sorrisinho cínico em seu rosto demonstra que ela quer me provocar.

Ah Marina, você não é a única que sabe brincar de gato e rato.

— Qualquer homem ficaria honrado em jantar com duas belas damas. Mesmo que o prato principal seja veneno de rato.

Lanço uma piscadela para Cecília e ela sorri.

Ela me adora.

— Don Juan. — Resmunga Marina novamente.

Ela me odeia.

Estranhamente, eu sinto que ela não está tão zangada assim de verdade, se eu a conhecesse um pouco melhor poderia até dizer que ela está se divertindo.

E Deus sabe que eu também.

— Acho que você já pode ir embora. — Diz Marina se impetigando. — Agradeço por ter ajudado Cecília com a caixa, mas só. — Enfatiza bem a última palavra.

Ela quer parecer ameaçadora, mas não tem ideia do quão adorável está agora.

Não me lembro de já ter dado esse adjetivo para alguma mulher antes, mas é um dos que caem como uma luva em Marina.

Adorável.

Linda.

Quente para porra!

— Ainda está aí? — Pergunta desafiadora.

Não consigo evitar o sorriso.

— Bom, acho que essa é minha deixa. Vejo vocês amanhã para o jantar então, garotas. — Uso toda minha lábia. — Eu trago um vinho para acompanhar.

Tenho a impressão de que vai ser um jantar muito interessante.

— Ah, seria maravilhoso. Você é muito atencioso, Inácio. Te esperamos às sete, não se atrase. — Diz Cecília balanço o dedo em minha direção.

Marina revira os olhos.

E essa é minha deixa. Me despeço das duas e me viro em meus calcanhares em direção ao meu apartamento.

Chegando em meu apartamento estranhamente me sinto satisfeito, revigorado. Até que foi divertido.

Muito divertido.

As voltas que o mundo dá. Nem em um milhão de anos eu esperaria que aquela mulher fosse se mudar para o apartamento ao lado do meu.

Marina não se deixa intimidar apesar de sua deficiência. Ela parecia pronta para enfiar as unhas em minha jugular a qualquer momento.

Esse pensamento não é de todo tão terrível.

Sorrio comigo mesmo.

Não preciso enxergar para saber que tipo de cara você é.

Jogo-me no sofá da sala e jogo meu braço por sobre minha cabeça.

Ela gosta do jogo de gato e rato, gosta de me provocar com sua língua afiada, disso eu tenho certeza.

Rio.

É, foi bem divertido.

Ela não gosta se ser tratada como vidro, e não será assim que a tratarei. Ela pareceu ofendida quando eu dei a entender que não daria em cima dela se soubesse de suas condições...

Ah, se ela soubesse que eu não estava sendo totalmente sincero.

Não mesmo.

Fecho meus olhos e imagino como seria beijar seus lábios exatamente da maneira que desejei desde a primeira vez que a vi.

Eu sou adulto, e ela também, e além disso, ela é uma mulher atraente.

Muito atraente.

Assim que acordo percebo que tenho três ligações perdidas da minha mãe.

Bufo frustrado.

Eu amo minha mãe, sinto sua falta, e já faz um bom tempo que eu não a vejo.

A parte de mim que sabe o porquê a evita crava suas unhas em meu coração.

Eu evito visitá-la em casa, e ultimamente tenho me mantido ocupado de todas as maneiras possíveis

Minha mãe tende a tocar em assuntos que já faz um bom tempo que decidi enterrar no mais profundo da minha mente.

Não quero pensar sobre elas. Não quero falar sobre elas. Não quero ouvir sobre elas.

Certas feridas devem permanecer fechadas.

Mas ela não merece que eu a evite apenas para não encarar minhas merdas.

Mando uma mensagem rápida dizendo que estou livre as duas da tarde e que podemos nos encontrar no restaurante perto do meu escritório.

Caminho até o banheiro para jogar um pouco de água em meu rosto, me preparando psicologicamente para o dia que vou ter, mas um sorriso vem instantâneamente ao meu rosto só de imaginar a noite que virá também.

Não vai ser do jeito que eu queria, mas é melhor que nada.

Uma parte minha está intrigada, um jantar talvez seja a ocasião perfeita para eu desvendar algumas coisas.

Mas outra pequena parte minha também quer conhecer Marina e toda sua complexibilidade melhor.

Eu gosto de desafios.

Ajeito o cabelo em frente ao espelho. Está decidido. Tenho que ir de qualquer forma ao barbeiro hoje.

— Urgentemente. — Balbucio para mim mesmo.

Posso fazer isso depois de almoçar com a minha mãe.

— Você deveria cortar o cabelo. — Comenta minha mãe distraidamente enquanto corta o bife.

Sorrio.

— Eu pretendo fazer isso ainda hoje, pode deixar.

Ela sorri docemente para mim e isso faz eu me sentir o pior filho do mundo.

— Achei que você iria me dar bolo de novo. Você sempre faz isso. Parece que ultimamente eu tenho tido que implorar para ver meu próprio filho.

Ela não parece estar com raiva, minha mãe sempre foi compreensiva até em situações em que não deveria ser.

Ela sempre foi a balança em nossa família. O equilíbrio.

Enquanto eu, sempre fui o péssimo filho, o problemático.

Não preciso olhar para ela para saber que ela está magoada.

Odeio saber que faço isso com ela, mas não consigo evitar. Tenho plena consciência de que afasto as pessoas de mim.

— Você poderia ir lá em casa qualquer dia. — Ela dá de ombros casualmente como se não fosse nada, mas sei bem aonde ela quer chegar. — Jantar comigo e com seu pai para variar. Nós sentimos sua falta.

Mexo nos talheres distraidamente sem focar em nada.

— Sabe que não é uma boa ideia. — Digo simplesmente.

— Bobagem.

— Mãe. — Digo na defensiva. — Não é uma boa ideia.

Levo minha mão à minha testa, massageando-a, tentando liberar a tensão que se forma.

— É uma bobagem sim. Vocês dois parecem duas crianças, e estou farta disso. Eu quero minha família de volta. Você é meu filho, o único que me restou. — Diz com pesar. — Não quero ficar fora da sua vida.

Levanto meus olhos para encara-lá e posso ver a dor em seus olhos.

Isso acaba comigo.

Afrouxo a gravata em volta do meu pescoço. De repente parece apertada demais, quase sufocante.

— Como é possível dois homens adultos que são pai e filho, trabalham na mesma empresa, e não se vêem há meses. Chega a ser ridículo.

Minha mãe não tem culpa dos meus problemas com meu pai, mas isso não é algo sobre o qual eu queria discutir agora.

Inclino-me por sobre a mesa e seguro suas mãos nas minhas.

— Por favor, não vamos estragar nosso almoço. Eu só quero aproveitar o meu almoço com a minha linda mãe. — Tento ser o mais doce possível. — Será que pode ser?

Seus olhos azuis estão marejados. Ela sorri para mim. Pelo menos desta vez eu consegui vencer.

— Tudo bem, não vou insistir mais. Mas você tem que me prometer que vai me visitar. — Ela fixa seus olhos em mim sem que eu possa desviar. — Me prometa.

Não vai ser nenhum problema porque sei os horários em que meu pai não está em casa.

— Eu prometo. — Digo sinceramente.

Minha mãe é a última pessoa no mundo que eu gostaria de magoar.

— Tudo bem, seu espertinho. Você sabe exatamente como puxar as cordas do meu coração desde que era só um garotinho. Agora está aí esse homem lindo.

Ela afaga meu rosto e eu me permito receber esse carinho.

— Sabia que a Gertrudes já têm netinhos. — Comenta, mudando de assunto drasticamente de um jeito que apenas ela consegue. — Eles são uns anjinhos. Eu bem que gostaria de ter os meus.

Rio.

— Você não se acha muito nova para ser avó, Dona Luiza? — Brinco.

Minha mãe está no auge dos seus cinquenta e tantos anos, mas poderia de passar por mais nova facilmente, com seus olhos azuis e cabelos claros.

Ela é uma mulher encantadora.

— Eu não vou viver para sempre, sabia disso? Eu já tenho um filho crescido. É a ordem natural das coisas. Você deveria me dar netos! — Termina emburrada.

— Já que os netos da Gertrudes são uns anjinhos você poderia aproveitar eles então.

Ela faz uma careta para mim.

— Não é a mesma coisa.

— Mãe, nem namorada eu tenho.

Eu uso as armas que tenho. Ninguém pode me culpar por isso.

— Não têm por que não quer. Gosta de levar essa vida de Don Juan, mas família é importante Inácio.

Don Juan.

É a segunda vez que me chamam de Don Juan em menos de vinte e quatro horas.

Talvez seja o que eu sou mesmo.

— A filha mais nova da Gertrudes tem uma quedinha por você. Ela é uma garota encantadora.

Ela é um colírio para os olhos mesmo.

Sei muito bem que se eu a quisesse já teria a tido quantas vezes eu quisesse, mas eu sei bem onde piso, e aquele terreno não é para mim.

— Provavelmente vocês já devem estar escolhendo o modelo do vestido de noiva dela. — Comento despretensiosamente.

Conhecendo minha mãe como conheço, ela já deve estar planejando meu casamento com essa garota.

Minha mãe arregala os olhos e se engasga com o vinho quando ouve minhas palavras.

Cheque-mate.

— A senhora não dá ponto sem nó, Dona Ferraz.

E vem a tona a verdadeira razão para este almoço. Minha mãe não cansa de tentar me arranjar pretendentes.

— Você não vai ter esse rostinho para sempre, sabia? — Ela balança o dedo em minha direção exatamente como fazia quando eu era criança.

— Eu sei disso. — Digo enquanto levo a taça de vinho aos lábios. — Mas até lá eu vou aproveitar.

Isso a faz rir.

Sua risada aquece meu coração.

— Você não tem jeito. — Balança a cabeça como se eu fosse um caso perdido.

Talvez eu seja.

Já passam das cinco horas da tarde e decido que se quero cortar o cabelo antes de jantar na casa de Marina está noite é melhor eu sair agora.

Aceno para Ana quando passo pela porta. Ela está em sua mesa entretida em seu trabalho.

— Juízo hoje à noite. — Digo para ela. — Não vou aceitar outro atestado se você der outro jeito nas costas fazendo suas peripécias sexuais.

Ela me fuzila com os olhos.

— Eu deveria te dar umas boas palmadas.

— Eu sei que você sonha com isso. — Respondo com insolência. — Mas esse corpinho é para poucas.

Ela bem que tenta, mas acaba sorrindo.

— Garoto insolente. — Murmura achando graça.

Enquanto espero o elevador chegar percebo pelo canto do olho uma sombra se aproximar.

É a sombra de alguém que tem belas pernas.

— Indo embora tão cedo. — Murmura perto do meu pescoço. — Você não acha que deveria dar o exemplo?

Perto de mais.

Sorrio.

Sara é uma das modelos contratadas para o catálogo que Fabrício está trabalhando. Já nos divertimos juntos algumas vezes.

Casualmente, claro.

Viro-me para encara-lá.

— Tenho um compromisso. — Digo simplesmente, sem tirar os olhos de seu decote generoso.

Sara se aproxima ainda mais e finca suas unhas compridas e vermelhas em minhas costas.

Porra!

Olho em volta para ter certeza de que ninguém está nos observando.

As portas do elevador se abrem e eu a puxo para dentro. Encosto-a na parede sem nenhuma cerimônia, ou delicadeza, porque sei exatamente do que ela gosta.

Sara é uma mulher atraente e sabe usar isso a seu favor.

As portas do elevador se fecham e nos temos exatamente vinte andares.

— Não tenho muito tempo. — Aviso.

Seus olhos verdes cintilam.

— Pode deixar, garotão. — Ronrona. — Eu sei ser bem rápida quando quero.

Antes que eu diga qualquer outra coisa ela se ajoelha em minha frente e abre meu zíper.

Agora sim estamos falando minha língua.

Fecho meus olhos e agarro seus cabelos loiros com força.

Já passam das seis horas da tarde quando olho em meu relógio. O céu está começando a escurecer quando saio do barbeiro.

Eu prometi levar um vinho para o jantar está noite.

Provavelmente eu não tenho nenhum vinho em casa, então decido passar em casa e tomar um banho antes de ir à uma adega.

Lembro-me vagamente de já ter visto uma perto de casa.

Entro no carro e uma mensagem chega em meu celular.

Sara.

Ignoro.

Eu disse que estaria ocupado esta noite, e mesmo se eu não estivesse, inventaria outra desculpa.

Nosso sexo é bom, mas é só isso.

Sexo.

Prefiro manter distância a correr o risco que ela confunda as coisas. O que ela faz com uma certa frequência.

O que é irritante.

Passo as mãos em meus cabelos, exasperado.

Ligo o carro e saio da vaga do estacionamento. O trânsito flui bem e não demoro muito a chegar em casa.

Entrego minha chave ao manobrista do prédio, mas antes que eu suba os degraus para entrar eu ouço um latido familiar. Não preciso procurar muito para saber de quem se trata.

A pestinha branca.

Está me encarando, rangendo os dentes para mim.

Marina se abaixa e afaga sua cabeça o que a faz parar instantaneamente e fechar os olhos como se estivesse amando o cafuné.

Essa pulga acha que me coloca medo.

Marina posiciona sua bengala e começa a caminhar.

A rua está movimentada, o tráfego fluindo como todos os dias. Já está noite.

Escuro.

Ela é nova por aqui.

Bloqueio meus pensamentos porque eles estão me levando para lugares que não deveriam.

Isso não é da minha conta.

Subo alguns degraus, mas algima coisa me faz parar em meu encalço novamente.

Mas que droga.

— Merda. — Xingo baixinho.

Não gosto de me preocupar com ninguém, não que eu chame isso de preocupação, é apenas empatia.

Apenas isso.

Somos vizinhos.

Só isso.

A alcanço em menos de seis passos.

— Boa noite. — A cumprimento baixinho para não assustá-la, já que ela não pode me ver chegando.

Ela faz uma careta.

— Bem que eu achei que fosse você. Amora é uma cachorrinha amorosa, mas até pra ela tem limites.

Uau.

Essa doeu.

— Vou fingir que não ouvi esse insulto. — Retruco.

Olho em volta mas não vejo Cecília.

— Você não deveria estar fazendo o jantar?

Pergunto sabendo que irei irritá-la, mas não posso fazer diretamente a pergunta que eu gostaria, que seria:

O que diabos você está fazendo sozinha na rua a essa hora?

— Você não cansa de ser abusado, não é?

Marina revira os olhos e recomeça a caminhar, me ignorando completamente. Quando dou por mim estou a acompanhando.

— Foi só uma pergunta. Eu recebi um convite e o aceitei. Só estou curioso.

Ela revira os olhos outra vez.

— Bem, já que você faz questão de me lembrar sobre o convite que minha irmã te fez, eu devo lembra-lo que para um jantar precisamos de ingredientes, e é exatamente isso o que estou indo buscar agora.

Indo ao mercado?

Sozinha?

Não gosto disso. Não gosto nem um pouco.

Empatia.

Empatia, só isso.

Amora está concentrada em seu caminho, guiando Marina. E eu continuo as acompanhando.

Uma parte de mim diz que eu deveria dar meia volta e não me meter onde não sou chamado, entretanto, uma minúscula parte irritante, insiste para que eu vá com ela.

Ela é adulta, sabe se virar.

Eu não sou de vidro.

Suas palavras gritam em meus ouvidos, mas é mais forte que eu.

— Eu precisava mesmo comprar o vinho para o jantar. — Comento como quem não quer nada.

Não é totalmente uma mentira, eu planejava mesmo.

Marina para em seu encalço, vira seu rosto em minha direção, e quase como se conseguisse me ver, olha diretamente em meus olhos.

Engulo em seco.

É hipnotizante.

— O que está fazendo? — Pergunta, e noto genuína curiosidade em seu tom de voz.

Ela parece desconfiada, preciso pensar rápido.

Enquanto tento não parecer um completo idiota, não consigo deixar de notar o quão linda ela está. O cabelo comprido preso em um rabo de cavalo frouxo no alto da cabeça. O vestido simples, mas que se ajusta ao seu corpo em todas as partes que importam.

Linda para caralho!

— Estou esperando uma resposta.

Ela não parece com raiva, apenas intrigada.

— Eu preciso de vinho, e você de ingredientes. — Digo, pensando rápido. — Achei que pudéssemos fazer companhia um ao outro. Juntar o útil ao agradável.

— E para quem seria agradável? — Pergunta com deboche velado em seu tom de voz.

Língua afiada.

— Para você, claro. — Devolvo com o mesmo deboche velado.

Aquele formigamento irritante decide dar as caras. Isso só acontece quando chego perto dela.

Parece que estou sob avaliação em um teste que sequer me inscrevi.

Marina franzi as sobrancelhas escuras, provavelmente decidindo se confia em mim ou não.

Os carros buzinam, o vento parece estar mais gelado, o tempo parece passar mais devagar, tudo isso enquanto estou parado feito um poste.

Ela respira fundo como se tivesse tomado uma decisão.

— Tudo bem, contanto que você não me encha a paciência.

Marina simplesmente recomeça a caminhar, e eu levo um tempo para sair do meu transe e acompanha-lá.

— Espero o mesmo de você. — Digo quando a alcanço. — Sem gracinhas, eu sou um homem sério.

Consigo roubar um sorriso seu. O que acaba me fazendo sorrir também.

Notas finais
Comentários são bem vindos. :)