A tribo que não tinha noção do tempo.
1 Santos Dumont.
Era mais um dia comum na tribo dos Timekes. Lá, tudo era tão tranquilo e pacífico que as pessoas não se preocupavam com nada, muito menos com o tempo.
Um dos índios que viviam lá, por vezes, gostava de se deitar numa rede e admirar a passagem das nuvens. Ele recitava poemas e histórias, que acabavam por ser recolhidas pelo vento, sendo guardadas no mesmo cofre em que o mesmo armazenava todas as artes que nunca haviam sido mostradas para alguém além do próprio artista.
Quando cansou da própria voz, começou a refletir acerca da passagem das nuvens, e da mudança de cor do céu. Se perguntava como o azul celeste escurecia depois de umas horas, e então quando acordava de seu sono, tudo estava claro novamente. Normalmente estes seriam pensamentos considerados infantis para um rapaz de 17 anos, porém, naquela tribo era completamente comum. As informações sobre o natural eram resumidas ao que era relacionado a sobrevivência. Por esse mesmo motivo, a tribo não ensinava acerca do tempo. Ninguém sabia sobre horas, dia ou noite. Era apenas "nuvens", "hora clara" e "hora escura".
Aquele índio resolveu descobrir mais sobre as nuvens. Quando a hora escura chegou, foi até a choupana do chefe (aproveitando que ele estava em uma caçada) e começou a dar uma leve revirada nas gavetas de lá. Encontrou vários arquivos sobre o tempo, e alguns até mesmo diziam em que ano estavam.
Depois de mais algumas reviradas, o índio se sentiu satisfeito. Porém, como a curiosidade humana é quase insaciável, ele procurou um pouco sobre o que acontecia além da tribo. Ficou estupefato quando descobriu que o mundo estava muito mais avançado. Havia máquinas que faziam de tudo. Milhares de outras coisas. O índio se perguntou o porquê do chefe esconder aquilo tudo.
No dia seguinte (ou quando a 'hora clara' voltou), quando o chefe percebeu que haviam remexido em seus arquivos, procurou rapidamente o responsável, que se apressou para vê-lo.
O chefe o trouxe até a choupana, e pediu para que sentasse em uma cadeira.
— Por que fez isso? — foi a primeira pergunta do chefe.
— Queria saber sobre a passagem das nuvens. Acabei descobrindo que é o tempo. Por que esconde da gente? Aparenta ser tão normal.
— Você não sabe de qual mal o tempo traz.
— E qual é? Se disser que é a modernidade, posso afirmar que está mentindo.
— Olha... Você sabe demais. — o chefe segurou o pescoço dele. — Desculpe-me.
— Vai me matar? — o índio olhou com pura inocência para o homem. — Por quê?
— Rapaz, o segredo do tempo morrerá com você. — ele começou a lentamente enforcá-lo. — Se um humano aprende a se importar com o tempo e com a modernidade, ele se tornará cada vez mais ambicioso. Irá querer mais e mais, e se tornará viciado nisso. Ferirá todos a sua volta sem piedade, e trará a corrupção, que é uma palavra a qual você não sabe o significado, graças aos deuses. Não me odeie por esconder o tempo. Ele quase me matou, e mataria essa tribo se alguém o descobrisse. Por isso esse segredo morrerá com você. Adeus.
O rapaz morreu nas mãos no chefe. Algum tempo depois, o chefe disse que ele havia morrido instantaneamente por causa de uma maldição traga por uma entidade. "Por sorte, apenas o sacrifício dele foi o suficiente. Não precisamos mais nos preocupar com nada." disse ele.
Ao pôr-do-sol daquele mesmo dia, o chefe, que estava deitado em uma rede, começou a lembrar de seu passado. Tinha sido um grande inventor, mas suas invenções trouxeram uma temível desgraça. As invenções corrompiam cada vez mais o coração humano, deixando a alma mais ambiciosa e o corpo mais lento. Não valia tanto a pena.
Lembrou-se do mundo lá fora. Lembrou-se dos minutos antes de seu avião ter caído e ele ter entrado naquela floresta densa. Agradeceu por ter tido tanta sorte em ser esquecido pelo mundo. Grande sorte havia sido aquela.
Resolveu deixar o passado no passado.
Dormiu tranquilo, sabendo que havia livrado várias almas da modernidade.
...
Era mais um dia comum na tribo dos Timekes. Lá, tudo era tão tranquilo e pacífico que as pessoas não se preocupavam com nada, muito menos com o tempo.
Fale com o autor