A trapezista

1 Capítulo 1


O circo chegou à cidade antes de o sol nascer. Gostávamos de aparecer sem aviso prévio e então espalhar cartazes pela cidade, trazendo uma agradável surpresa aos moradores locais. Como em um passe de mágica, o circo chegara, trazendo alegria e diversão.

Eu adorava caminhar por ruas desconhecidas, escolhendo os melhores lugares para fixar os cartazes, enquanto o sol, tímido, iluminava meu caminho. Esta tarefa era um bom passatempo para mim, pois nada me alegrava mais do que imaginar como as pessoas encontrariam os cartazes. Na porta da padaria onde uma senhora compraria o pão logo cedo, ou ao lado do banco da praça onde os pais sentariam para observar seus filhos brincarem.

Quando as primeiras pessoas começaram a sair de suas casas, dei minha tarefa por encerrada e voltei para o trailer, encontrando boa parte da estrutura do circo já montada.

— O que achou da cidade? – perguntou Enzo, estendendo a mão para me ajudar a subir no alto do trailer. Ele adorava tomar seu café da manhã observando a cidade que seria nossa casa pelos próximos dias.

— É pequena, mas parece receptiva. – respondi, sentando-me ao seu lado. – Parece perfeita.

Ele ofereceu um pouco do suco que bebia e eu aceitei, permanecendo ao seu lado por um tempo, até que ele foi chamado para auxiliar na montagem do circo. Observei enquanto ele se afastava, pensando no quanto eu devia a Enzo. Não me refiro a dinheiro, é claro. Nenhuma moeda no mundo seria capaz de pagar tudo o que fizera por mim.

Cheguei ao circo de uma maneira conturbada. Meu pai me abandonou, e de um momento para o outro, me vi completamente sozinha no mundo. Estávamos no carro, eu ouvia música e cantava alto ao invés de preparar a lista de compras. Eu estava mais interessada em balançar meus cabelos ao vento do que decidir o que faríamos para o jantar. Ele permaneceu em silêncio, segurando com força o volante, as juntas de suas mãos ficando brancas com o esforço. Quando finalmente percebi que seguimos na direção errada, já era tarde demais. Tudo o que eu vi foi o circo, suas formas recortando o pôr do sol. Le cirque de rêves foi meu lar desde então.

Enzo, com seus simpáticos olhos azuis e um sorriso desajeitado como quem constantemente se desculpa de algo, me recebera com naturalidade, como se uma menina de quatorze anos abandonada pelo pai fosse tão comum quanto um gato perdido.

E desde então, ele tem cuidado de mim. Enzo é muito forte e é responsável pelos números que exigem força física. Há algumas crianças aqui no circo, acrobatas incrivelmente ágeis, que Enzo ergue em seus braços e as lança para o alto, enquanto elas realizam piruetas e giros no ar.

No começo, eu também realizei este número. Eu era desajeitada e tímida, mas Enzo me carregou em seus braços até que eu me sentisse confortável e segura, e pudesse finalmente confiar que ele não me deixaria cair.

— Amy, onde está o seu equipamento? – perguntou Ian, tirando-me de meus devaneios.

Com um riso baixo, eu desci do trailer e fui ajudar na montagem de meus equipamentos.

— Grande noite hoje, hein? – ele me incentivou, batendo levemente em meu ombro.

— Toda noite é uma grande noite.

†

Quando a noite chegou, eu espiei através da lona as pessoas que se aproximavam para comprar ingressos. Tentei imaginar qual deles encontrara o cartaz na janela do café, ou aquele quase escondido na porta do café. Mas, na verdade, não importava muito. O que realmente importava é que eles estavam aqui agora, acomodando-se nas arquibancadas para apreciarem o grande espetáculo de nosso circo. Como sempre, senti um pequeno aperto no coração ao correr os olhos pelos rostos na multidão e não encontrar nenhum remotamente conhecido. Senti um incômodo tão forte e uma vontade quase incontrolável de gritar com todos eles e colocá-los para fora. Mas eu não podia culpá-los. Eu voltaria a procurá-lo na próxima cidade.

— Olá. – disse um homem, encontrando-me em meu esconderijo. – Boa noite.

— Boa noite, senhor. – falei, endireitando minha postura e oferecendo-lhe meu melhor sorriso. – Posso ajudá-lo?

— Não estou encontrando a entrada... – ele parecia verdadeiramente perdido e eu não o culpei. No começo, o circo é sempre confuso.

— Está tudo bem, senhor... – eu não consegui completar a frase.

— Peter. Meu nome é Peter.

— Sou Amy. É a primeira vez que visita o Cirque de Revês, Peter? – perguntei, pedindo que ele me acompanhasse.

— Sim! Vi este cartaz na janela da livraria e fiquei curioso. – ele exibiu o cartaz e eu sorri para ele, feliz por saber quem havia encontrado o cartaz.

— Você pode se sentar aqui. – indiquei o começo das arquibancadas. – E aproveite o show!

— Muito obrigado, senhorita. – ele respondeu, acomodando-se.

Gillian, a apresentadora do espetáculo, posicionou-se no centro do palco, orgulhosamente exibindo sua roupa impecável e disse com uma voz sedutora:

— Respeitável público! Sejam bem vindos ao Cirque de Rêves!

O público aplaudiu e gritou, ansiosos pelo início do show. Eu corri para me esconder em um canto, como fazia todas as noites, e assisti ao show.

O primeiro número era de Julia, com suas pernas de pau. Com seus longos cabelos loiros e o rosto pintado com a mais bela maquiagem, ela parecia flutuar pelo picadeiro, encantando o público com a sua leveza e graciosidade. Ela sempre era muito aplaudida, mesmo quando fingia que se perdera o equilíbrio e provocava preocupação na plateia. Ela sempre os tranquilizava com um pequeno sorriso, e voltava a caminhar por aí.

A ideia principal era que Julia atraísse todos os olhares para cima, pois era onde aconteceria o próximo número. Com todos os olhos voltados para o alto, a música chegando ao seu ápice, Julia erguia seus braços em direção ao holofote e Ana assumia o espetáculo.

Aquela menina tão pequena ficava no alto da plataforma, com um grande bastão, respirando fundo e se preparando para andar na corda bamba. A atmosfera criada neste momento era mágica. Era como se todos os corações da plateia estivessem ligados aos passos de Ana. Cada pequeno desequilíbrio provocava uma série de gritos assustados, cada passo perfeito, uma série de aplausos.

Contudo, o que mais me encantava era a face compenetrada de Ana. Nenhuma reação da plateia a atingia, nada alterava seu foco em chegar de um ponto a outro. Apenas quando ela finalmente alcançava a segunda plataforma, ela se permitia um sorriso cansado, de dever cumprido.

E antes que todos terminassem de aplaudi-la, um rugido trazia a atenção de todos de volta para o palco principal. Com passos calmos e cadenciados, Arthur entrava no palco seguido por Abbot, seu leão. Uma criatura magistral, que impressionava e assustava todos na plateia.

Quando cheguei, sentia medo de Abbot. Ele tinha uma jaula que nada mais era do que sua cama, afinal, ele só a ocupava à noite. Ninguém compreendia como uma fera deste porte poderia estar livre de correntes. Logo aprendi que o segredo era Arthur.

Para mim, ele é o melhor domador de leões do mundo. E é sua gentileza e carinho que faz com que Abbot obedeça a seus comandos com presteza. Ambos se movem em sincronia, e nos olhos doces daquela fera, é possível ver a confiança em seu treinador. Ele jamais pularia através de um arco em chamas se não confiasse completamente que Arthur jamais permitiria que ele se machucasse.

A plateia é arrebatada pela dupla. Sei que todos estão imaginando como seria ter um leão de estimação, mas apenas Arthur tem esta chance. E ele aproveita cada segundo desta sensação. Ele até mesmo realiza alguns movimentos de demonstração dos equipamentos, dando alguns momentos para Abbot descansar entre um salto e outro. E antes de o número terminar, Ian, o malabarista, entra correndo no palco.

Seus malabares simples com seis bolas não parecem impressionar a plateia, e muito menos Arthur, que se mantêm ao lado de um obediente Abbot. Até que Ian lança uma das bolas na direção do leão e ele a abocanha. Logo em seguida ele a coloca no chão, e com a pata, devolve ao malabarista.

Ian demonstra suas habilidades, enquanto Abbot corre ao redor do palco rapidamente, despedindo-se do público. Quando Ian utiliza os bastões em chamas, a plateia aplaude com vontade. Lembro-me de tentar aprender tais movimentos com ele, mas minha coordenação motora não se comparava com a incrível habilidade dele. Eu invejava o controle que ele tinha sobre o próprio corpo, como desafiava as leis da gravidade ao jogar vários objetos para o alto e pegá-los sem o menor esforço, como se a gravidade funcionasse de um modo diferente ao redor dele.

Dei alguns passos para frente, ficando ao lado do palco para poder observar a reação das pessoas ao número seguinte. Ian deixou o palco com uma cambalhota e Daniel assumiu o seu lugar. O mágico trajava roupas elegantes, com uma longa capa e sua clássica cartola. Ele realizava mágicas simples, mantendo a plateia entretida, até que uma das meninas malabaristas entrou no palco e deitou-se dentro de uma caixa, como instruiu Daniel. Quando ela estava pronta, ele a serrou ao meio, separando seu corpo na altura do umbigo. Enquanto a plateia aplaudia extasiada, ele a juntou novamente e mostrou que ela estava bem.

Eu mesma já fui assistente de Daniel nas primeiras semanas no circo. Fui serrada ao meio durante várias noites, sempre rindo da expressão de horror e surpresa das pessoas. Enquanto eles aplaudiam, Daniel inclinava-se ligeiramente e sussurrava que tudo estava bem, que eu voltaria a ficar inteira. Hoje em dia, ele utiliza outras assistentes. Diz que eu já não mais me encaixo no que ele precisa.

Quando Daniel se preparou para fazer uma das malabaristas desaparecer, eu corri para trás da cortina, pois participaria do próximo número.

— Está pronta? – perguntou Matthew, o atirador de facas, atrás das cortinas.

— Estou.

Daniel havia se despedido com uma grande reverência, enquanto a pequena malabarista surgia do meu da plateia, deixando todos boquiabertos, tentando tocar nela para garantir que fosse real. Então, eu e Matthew entramos no palco de mãos dadas e saudamos a plateia. Posicionei-me sobre o alvo, encaixando meus pés e mãos nos lugares delimitados. Com um floreio, ele pegou a primeira faca e a lançou em minha direção, atingindo o alvo logo abaixo do meu braço. Uma, duas, três, quatro... doze facas voando velozmente em minha direção. O segredo era ficar completamente imóvel. Matthew sabia o que estava fazendo. Confiávamos um no outro.

Despedi-me da plateia e deixei Matthew terminar seu número, enquanto eu me preparava para encerrar a noite. Uma das pequenas malabaristas era a sua escolha para o número com a maça.

Respirei fundo enquanto Matthew se despedia, então desci dos céus, sentada em meu trapézio. E ali realizei meu número, ciente da presença de Enzo e Ian lá embaixo, atentos aos meus movimentos.

Foi Ian quem sugeriu que eu tentasse o trapézio. Nenhum dos números do circo havia me encantando tanto quanto este. Quando eu estava lá no alto saltando de um trapézio para o outro, realizando movimentos que tiravam o fôlego de quem estava lá embaixo, eu sentia como se estivesse voando. Livre, tranquila e feliz. O encerramento se dava com uma série de movimentos no tecido, que me levavam até o chão, onde todos me esperavam. Eu me sentia realizada enquanto todos me aplaudiam, dizendo que eu estava infinitamente melhor do que a última apresentação.

Com uma grande saudação, agradecíamos aos aplausos, enquanto Gillian recitava seu breve discurso de encerramento e convidava todos a voltarem amanhã para mais uma noite de espetáculos.

Enquanto todos faziam uma profunda reverência ao público, Gillian aproximou-se de mim e disse:

— Grande noite, não é?

Eu olhei para o trapézio no alto, balançando suavemente como um velho balanço esquecido no jardim, aproveitando a brisa leve de um fim de tarde. Eu ansiava por estar de volta no alto.

— Toda noite é uma grande noite.

†

— Então? – perguntou Jenna, inclinando-se sobre a mesa. – Como foi a sua avaliação?

— Eu não sei dizer. – respondeu Peter. – Acredito que precisarei de um pouco mais de tempo.

— Entendo... O que ela lhe contou?

— Uma longa história sobre um circo. O circo... – ele revirou suas anotações.

— Le Cirque de Revês. – ela complementou.

— Sim, exatamente. – ele respondeu, surpreso.

Jenna fechou os olhos por um momento, respirando fundo. Ela já não mais se surpreendia com esta afirmação.

— Peter, Amy precisa de um tratamento especializado e é por isso que você está aqui. Você é um dos melhores psiquiatras que temos, e foi muito bem recomendado.

— Eu entendo sua urgência, apenas não compreendo ainda muito bem a situação. – ele revirou suas anotações novamente, tentando dar ordem aos seus pensamentos. – É tudo muito confuso e, ao mesmo tempo, perfeito.

— O que quer dizer?

— Ela pensou em cada detalhe. Não entendo como possa ser capaz de tal coisa. – ele suspirou. – Ou talvez eu a esteja subestimando. Ainda não a conheço o suficiente.

— Eu conheço. – ela disse, com um olhar sério. – E posso ajudá-lo a entender também. Venha comigo, por favor.

Jenna levantou-se e saiu de seu escritório, caminhando decididamente até o final do corredor, seguida por Peter. Ela pôs a mão na maçaneta e olhou para ele com olhos tristes:

— Peter, seja bem vindo ao Cirque de Rêves. Ou como nós gostamos de chamar: Hospital Reversus.

Peter a acompanhou pelos corredores que nada traziam de diferente de qualquer outro hospital, o que só aumentou sua desconfiança. Jenna caminhava tranquilamente, como se conhecesse cada centímetro daquele espaço com a palma de sua mão. Parou em frente à porta de número 124 e bateu suavemente.

— Julia, posso entrar?

— Claro. – foi a resposta, depois de alguns segundos.

Jenna incentivou Peter a seguir em frente e entrar no quarto, onde uma menina estava sentada na cama, sendo examinada por um médico que já recolhia seu estetoscópio e se retirava rapidamente. Ela cobriu suas pernas com um lençol, mas foi possível ver que elas terminavam um pouco abaixo do joelho. As próteses a esperavam ao lado da janela.

— Peter, esta é a Julia. – ela lançou um olhar carregado de cumplicidade, e ele entendeu em alguns segundos.

— Julia... – ele falou, baixinho, lembrando-se do relato de Amy.

— Julia, este é Peter. Ele é o novo psiquiatra do hospital.

— Boa sorte. – disse ela, sem ânimo e com uma voz carregada de descrença. – Este lugar está cheio de malucos.

— Julia. – repreendeu Jenna, mas a menina não pareceu ouvir.

— Se não se importam, preciso me vestir. – ela falou, rapidamente.

— É claro. Com licença. – Jenna saiu e devido ao espantou de Peter, precisou guia-lo para fora.

— Está tentando me dizer que esta Julia é...

— A Julia que Amy lhe falou a respeito. – Jenna confirmou, sem surpresa. Ela entendia o choque do psiquiatra. – A menina que anda com pernas de pau. Ela venceu um câncer agressivo, mas não sem pagar um alto preço por isso.

— Então, estas pessoas... – Peter sacudiu a cabeça, tentando fazer com que as ideias fossem para o seu devido lugar.

— E aí vem Arthur e Abbot. – ela apontou para o homem no final do corredor, que era seguido de perto por um gato.

— Um gato?

— Sim. Uma das terapias alternativas utiliza a companhia de gatos ou cachorros. – Jenna explicou, acenando para que Arthur se aproximasse. – A presença dos animais se mostrou muito benéfica para alguns pacientes.

— Olá. – disse Arthur, acolhendo Abbot em seu colo.

— Arthur, como está nosso querido Abbot? – perguntou Jenna, de modo gentil, acariciando o bichano.

— Agitado, querendo brincar um pouco. Estou levando ele para o Enzo e as crianças. – ele pareceu demorar a notar a presença de Peter. – Oh, desculpe. Eu sou Arthur e este é o Abbot.

— Peter. – o psiquiatra respondeu, tentando parecer calmo e amigável. – Sou o novo psiquiatra do hospital.

— Você terá bastante tempo para conhecê-lo, Arthur. – disse Jenna. – Agora, vamos acompanhá-lo, sim? Tenho certeza que Peter vai adorar conhecer as crianças.

Enquanto seguiam pelos corredores, Peter deixou que os dois caminhassem alguns passos à frente, conversando sobre os resultados de alguns pacientes com nomes e características que ele desconhecia completamente. Então apenas se limitou a observar Arthur, extasiado pela precisão do relato de Amy. A postura, o comportamento e a relação de confiança entre ele e Abbot. Tudo estava ali, bem diante de seus olhos.

Enfim eles chegaram à ala pediátrica, onde várias crianças brincavam em uma sala cheia de brinquedos. Peter observou a alegria delas ao encontrarem Abbot e não se surpreendeu ao perceber o quão calmo era o felino e como Arthur o mantinha disciplinado. Jenna se manteve na porta, não querendo interferir nas atividades.

— Aquele no canto é Enzo. – Jenna indicou, discretamente. – É um dos enfermeiros. Ele é responsável principalmente pelas crianças, mas ajuda sempre que necessário. Ele é bem forte, então é bastante necessário quando precisamos tirar Amy da cama.

— E estas crianças são as pequenas malabaristas. – ele deduziu, já familiarizado com o rumo dos acontecimentos.

— São, sim. As pequenas malabaristas que participam de diversos números. E se continuarmos por este corredor, vamos encontrar Ana. – ela o guiou tranquilamente, como já tivesse feito aquilo diversas vezes.

— A menina que anda na corda bamba. – ele sussurrou.

— Exatamente.

Jenna apontou para a garota sentada em uma área de convivência, aproveitando o sol que entrava pela janela. Peter não pode deixar de notar a bengala ao seu lado.

— Ana ficou cega recentemente, devido a uma doença que ainda está em tratamento. Ela ainda tentando se adaptar e aprendendo a como se movimentar pelo hospital utilizando a bengala.

Peter se lembrou da concentração de Ana, do desafio de caminhar na corda bamba. Espantado, ele compreendeu que, para ela, qualquer caminhada pelos corredores do hospital deveria ser tão perigosa quanto, uma vez que ela ainda estava tentando se adaptar à sua nova realidade.

— Isso é...

— Incrível? Surreal? – Jenna tentou ajudar, voltando um pouco no corredor e pressionando o botão do elevador. – Só você poderá me dizer. Podemos visitar Amy novamente e assim você poderá decidir. Se aceitar esta paciente, terá bastante tempo para entender.

— E quem são os outros? – ele perguntou, entrando no elevador.

— Matthew, o atirador de facas, é o acupunturista. Ele tem sessões com a Amy duas vezes por semana, mas não está no hospital hoje. Será de grande ajuda, já que Amy parece confiar nele. Ian, o malabarista, é o fisioterapeuta. Ele tem vários instrumentos que utiliza durante suas sessões, e bolas são algumas delas. As menores às vezes são roubadas pelo Abbot, mas logo as recuperamos. Ela gosta da presença do gato, então tentamos deixa-lo com ela o máximo possível, e Ian não parece se importar nem um pouco. Às vezes até incita o gato a roubar os brinquedos. Isso a faz rir.

— E Daniel? O mágico que serra a assistente ao meio? – Peter perguntou, consultando suas anotações, quase completamente esquecidas no bolso. – Amy disse que ela mesma já foi serrada ao meio por ele.

— Daniel é nosso cirurgião. Ele operou Amy diversas vezes logo quando ela chegou ao hospital.

O elevador parou e Peter segurou a porta, deixando que Jenna saísse. Ela deu um passo em direção ao quarto de Amy, mas então mudou de ideia. Sentou-se no pequeno banco de espera, destinado aos familiares preocupados que fazia vigília por seus entes queridos. Pediu que Peter também se sentasse, tentando dar tempo para que ele assimilasse tudo. Ela podia não admitir em voz alta, mas Peter era a sua melhor aposta neste caso.

— Como ela chegou aqui? – ele perguntou, olhando para frente.

— A mãe de Amy morreu após o parto, e desde então, sua única família fora o pai. Eles estavam no carro, indo para o supermercado, quando o pai sofreu um mal súbito. – Jenna explicou, tentando esclarecer a situação da melhor maneira possível. – Ele morreu e Amy foi resgatada, gravemente ferida. O resgate diz que foi um milagre tê-la encontrado ainda com vida. Contudo, Enzo foi a primeira pessoa que ela viu... No breve instante de consciência que ela teve quando chegou ao hospital, era ele quem estava ao lado dela.

— Por isso ela tem tanto carinho por ele.

— E ele por ela. – Jenna sorriu, nem um pouco preocupada com a situação. – Amy está numa situação complicada, e ele acabou se apegando a ela. Tem cuidado dela com muito carinho.

— E então ela passou por cirurgias? – Peter clareava a sua linha de pensamento cada vez mais. – Por conta do acidente?

— Fizemos o que podíamos, mas nada poderia reverter a situação dela. – ela lamentou sinceramente. – Um dano muito grave na coluna. Era impossível...

— Ela ficou tetraplégica. – Peter disse, ciente desta informação antes de sua sessão com Amy.

— Sim. Mesmo depois de diversas cirurgias, o máximo que esperamos conseguir é que ela recupere um pouco dos movimentos das mãos e dos braços, talvez o suficiente para que ela ganhe um pouco de autonomia. Mas isso só será possível depois de um longo período de fisioterapias.

— Não há nenhuma chance para ela? – ele perguntou, baixinho, mesmo já sabendo a resposta.

— Não... – ela levantou-se rapidamente, tentando desviar o rumo da conversa. – Venha comigo. Ela está na terapia agora.

A sala possuía uma grande janela de vidro para que pudesse ser observada da janela, e Peter não pode deixar de se imaginar com um visitante do circo, um rosto que Amy não reconhecia e que gostaria de expulsar, na esperança de rever seu pai. Ele ficou ali, observando Ian ajudar Amy com os movimentos. Ela estava presa a um aparelho que a mantinha no ar, como se flutuasse.

— Não podemos exercer muita pressão à coluna dela, por isso o aparelho é necessário. – Jenna explicou instintivamente. Peter notou como ela parecia leve, tranquila, como se estivesse voando e não pode deixar de sorrir.

— Amy, a trapezista. – ele disse baixinho. A voz um misto de tristeza e admiração. – E você, onde se encaixa nisso tudo?

— Eu sou Jenna Gillian Oswald. – ela sorriu, sem desviar os olhos de Amy. – Sou a apresentadora.

Eles deixaram que o silêncio tomasse conta do ambiente, para que a calmaria permitisse que as palavras se retirassem por um momento.

Ian baixou Amy, encerrando a sessão de fisioterapia. Animado, ele festejou com ela, dizendo que ela estava infinitamente melhor do que a última vez.

— Grande noite, não foi? – ele sorria, feliz. E mesmo que Peter não tenha conseguido ouvir a resposta de Amy, ele sabia o que ela havia dito.

— O que espera de mim, Jenna? – ele perguntou, quebrando o silêncio.

— Eu não sei... – ela admitiu, encolhendo os ombros. – Talvez, dentre todos nós, você possa compreendê-la melhor do que ninguém.

Peter considerou com cuidado tudo o que vira e ouvira ao longo do dia. Tomou sua decisão antes mesmo de se dar conta.

— Amy criou um mundo de fantasia em sua própria mente, Jenna. Sonhou um sonho bom, já que a realidade era dura demais para ser enfrentada. É como se a mente dela fosse uma grande floresta, e eu preciso conhecer cada árvore, cada folha, percorrer todos os caminhos, até descobrir onde ela se escondeu.

— E esta é uma jornada que você está disposto a realizar?

— Estou. – ele disse, determinado.

— E até lá, Amy continuará no Cirque de Revês. Presa em sua própria mente.

Ele observou a tranquilidade no rosto de Amy, o modo como seus olhos dançavam, atentos ao aparelho, ansiando por estar de volta no alto.

— Não, minha cara Gillian. Em sua própria mente, Amy está livre.

Notas finais
Espero que tenha aproveitado a leitura! :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!